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Hollywood, os EUA a Crise de 1929, o Brasil e a Guerra – Parte I.

 Vamos publicar mais um artigo do pesquisador amazonense Mauro Moryarty em um brilhante artigo:

Sem dúvida o maior esforço dos EUA antes durante e depois de um conflito aos seus interesses é o uso da verdadeira máquina de propaganda representada pela sua indústria cinematográfica nacional, que ao mesmo tempo em que avessa a qualquer apreciação de caráter crítico aos enredos que desenvolve, se propõe a impor a versão dos interesses ideológicos a que serve seus críticos e adversários, rotulam de “escapistas” os enredos preferidos e disseminados por Hollywood, mas se o termo quer dizer: Alternativa a uma realidade desagradável, ou a abordagem que todos desejariam dessa realidade a fim de torna-la fácil de suportar e conviver, não é isso que o enredo nos apresenta, mas sim o que as suas elites dominantes desejam infundir como base de uma pseudocultura de massas, não apenas nacional, mas de caráter mundial. Acompanhemos agora uma síntese do desenvolvimento desse processo de mistificação.

É claro que num regime que se considera não apenas democrático, mas também o próprio representante do modelo democrático no mundo, o seu povo gosta de acreditar que tem livre arbítrio, mas na verdade apenas se contenta com as opções de escolha que suas instituições dominantes lhes colocam a sua disposição, são elas que lhes determinam sua conduta na cultura social, politica interna e externa da nação, forjando uma identidade nacional do que é americano é bom ou não americano e mau, como se acredita na sua opção cultural maniqueísta.

O inicio do desenvolvimento da propaganda no país foi influência direta do seu sistema econômico capitalista, a necessidade de enfrentar a concorrência na arte de persuadir para vender, tornou possível a perversão e exploração de ciências desenvolvidas com a finalidade de trazer o bem estar e o progresso humano, como por exemplo, a psicologia que teve seu objetivo de conhecer o comportamento do individuo e percebe-lo nas suas interações sociais prevendo-lhe os erros de conduta e as inevitáveis neuroses, ao ser financiado dentro dos departamentos de pesquisas das indústrias, ganhou contornos de programação mental para o consumo, jogando com as necessidades básicas e superiores dos indivíduos, tentando conhece-las profundamente, comportamento individual, influências sociais e sobretudo suas fraquezas, essas possibilidades logo atraíram o interesse da máquina estatal, no sua eterna cruzada por disseminação e controle ideológico.

O desenvolvimento da propaganda sempre se mostrou atrelado ao desenvolvimento das possibilidades tecnológicas, muito em breve o alcance dessas possibilidades forjariam o termo comunicação de massa, que teve inicio com a invenção da imprensa por Gutemberg, e durante muito tempo os jornais impressos foram os principais veículos de informação e formação de opinião, tempos depois, dividindo esta condição com a invenção do Italiano Marconi, o Radio, um instrumento que abriria mais possibilidades aos governos de dramatizar os acontecimentos e controlar o efeito das informações transmitidas. Contudo ambos os recursos de comunicação de massa disponíveis mostrariam seus limites diante da invenção de dois irmãos Franceses os Lumiére considerados os inventores do Cinema, pela primeira vez havia a disponibilidade de um recurso considerado completo que não se prendia as imagens estáticas dos jornais ou a uma voz qualquer impessoal e desprovida de empatia de um rádio, pela primeira vez era possível imagens em movimento real e som  em tempo real esse era o futuro, cuja única promessa pendente era que a tela diminuísse e coubesse dentro dos lares de cada cidadão americano situação que ainda demoraria e que permitiria então por longo tempo ainda a exploração da tríade Imprensa, Radio e Cinema.

Podemos rastrear essa prática de massificação formalmente, nos esforços durante a primeira guerra mundial, o presidente Woodrow Wilson praticamente instituiu a maneira de como os próximos presidentes se organizariam para enfrentar períodos de crise, ele primeiro lutou por mais poder e autonomia em relação ao congresso depois instruiria comissões e agencias, e por fim trabalharia para canalizar a opinião publica a favor dos “interesses nacionais”, instituiu o Comitê de Informação Pública, que demonstraria habilidade em aliar-se aos representantes da cultura nacional afim de disseminar a persuasão popular dos interesses governamentais, todos os setores culturais tiveram sua representação, mas claro nenhum tão expressivo como o cinema, na divulgação da propaganda, o Comitê servia-se de grande numero de voluntários que panfletavam um discurso intitulado “Por que estamos lutamos” (Titulo que o governo Roosevelt aproveitaria numa série de filmes de caráter de mobilização nacional sobre a Segunda guerra). Nas telas dos cinemas os primeiros ensaios da desumanização do inimigo começavam com filmes de títulos como: “Kaiser, a Besta de Berlim”, personificando os Alemães como Hunos (Nome pejorativo pelo qual os Soldados Alemães ficariam conhecidos pelos Soldados Aliados doravante nas guerras, ao lado de outros igualmente depreciativos), a propaganda é claro no mesmo sentido que procurava desumanizar o inimigo, desumanizava seu publico que entregou-se a represálias criminosas contra Alemães estabelecidos a gerações nos EUA e a um Boicote sem sentido aos mestres da cultura Alemã como Beethoven e Bach, também atiraram-se a violência extrema contra os pacifistas e aqueles suspeitos de atividades de esquerda.

Com a ascensão de Roosevelt, a presidência da nação no inicio da crise de 1929, a América ganhou um homem empreendedor e disposto a enfrentar a crise o contrário do derrotado antecessor Hoover, Roosevelt teve participação no governo do presidente Wilson e o admirava, e certamente retirou inspirações da iniciativa do antigo presidente de criar comitês e mobilizar alianças nos representantes da cultura popular e instituições privadas nesse caso Holywood (É mais ou menos o que os políticos contemporâneos chamam de pacto social), nesse meio tempo surgiu uma aliança bem sucedida entre o presidente Roosevelt e o cineasta Frank Capra, que produziria muitos filmes de cunho moral cuja temática era direta ou indiretamente condenar os especuladores financeiros (Considerados tubarões responsáveis pela crise) e tornar o homem simples, trabalhador, como exemplo a ser seguido por todos no caminho otimista da recuperação econômica, outra legenda de Hollywood também seria convocada Walt Disney com seus desenhos animados emprestaria apoio moral relevante a politica do presidente, Hollywood foi apenas uma entre as forças convocadas pela estratégia de combate a crise, intitulada New Deal, contudo foi a mais eficaz, Roosevelt ao mesmo tempo em que utilizou os filmes para levantar a moral da população abatida, também conseguia o apoio popular contra a oposição as suas medidas no congresso, cujos partidos de oposição o acusavam de socialista, as produções Hollywoodianas não agradavam apenas ao cidadão americano comum, mas também a crítica especializada e aos intelectuais (Que entendiam que as mesmas ajudavam a atingir as metas do New Deal considerado prioridade nacional).

Hollywood ao mesmo tempo em que apoiou o governo Roosevelt e sua estratégia de recuperação econômica, também serviria a intenção de Roosevelt de congregar a simpatia à ideologia americana no exterior, notadamente na América latina e mais especificamente no Brasil a quem Roosevelt esforçou-se para captar as simpatias em face da hostilidade dos países fascistas que cada vez mais demostravam atitudes belicosas e disposição para guerra.

O processo da invasão Hollywoodiana no Brasil foi coroado de êxito completo, o povo Brasileiro aceitaria passivamente o inicio do processo de sua pandêmica desvalorização cultural o presidente Roosevelt pedia a Hollywood um verdadeiro processo de americanização latina no que era atendido além de suas próprias expectativas, Hollywood levou Carmem Miranda com a intenção de mostrar a exoticidade de nossa cultura, Walt Disney nos apresentava o Zé Carioca e ambos nos inundavam com suas produções de aparente entretenimento mas de fundo patriótico e aliciador.

Nesse ponto é necessária uma reflexão isenta de como a história oficial nos faz engolir esse processo como bom para nós, vejamos, a invasão de Hollywood teve como objetivo manipular a opinião publica e a atitude do povo Brasileiro a favor do americanismo, não foi nada de inocente entretenimento, o povo Brasileiro desde essa época passou a acreditar no conteúdo de pureza, moralidade e sinceridade utópica que os filmes pretensamente procuravam transmitir como característica de uma cultura superior, que lhe era apresentada e assumida como desejada por nós, ignoravam que a associação Roosevelt e Hollywood dentro dos EUA visavam a justamente “modificar” o comportamento nacional norte-americano de permissividade ao esbanjamento, luxuria, exploração do mais fraco pelo mais forte, especulação e exploração aos menos favorecidos, xenofobia e racismo vergonhoso e a recusa de aceitação de regras que combatesse a degeneração e orientasse a uma conduta mais sã, que quando apresentadas eram consideradas medidas antidemocráticas e que não raro recebiam a pecha de socialistas, foi justamente essa atitude que finalmente descambou a crise econômica de 1929. Os efeitos dessa nossa aceitação deturpada do parasita cultural Hollywoodiano foi a renuncia da possibilidade de desenvolvermos nossa própria indústria cinematográfica e aceitação conformista do modelo americano tipo exportação como se fosse nosso, em experiências futuras como os Estúdios da Atlântida, totalmente americanizado e dissociado de uma cultura Brasileira genuína que nessas alturas já estava totalmente marginalizada e caracterizada como de mau gosto e a ser evitada como mazela da ignorância popular.