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“O Quebra Quebra” – A Segunda Guerra Chega ao Recife

A 15 agosto de 1942 cinco navios brasileiros eram afundados, quase simultaneamente, entre a Bahia e Sergipe: o Baependi, o Araraquara, o Anibal Benévolo, o Itagiba e o Araras. Chegavam às nossas praias alguns botes salva-vidas com náufragos do Baependi1. Era grande a comoção popular, todos revoltados com aqueles atos de agressão e com as inúmeras mortes, mais de oitocentos, deles resultantes. Grupos exaltados saíam às ruas e começaram a depredar os estabelecimentos comerciais cujos donos fossem alemães, japoneses ou italianos.

Antes de eminência de sérios conflitos, algumas casas comerciais fechavam suas portas e nós, estudantes, éramos dispensados pelos diretores dos colégios, com recomendações expressas para nos dirigirmos as resistências e não ficarmos nas ruas. O que quase ninguém fazia, tal a nossa curiosidade em testemunhar aqueles atos de represália e que tanto aguçaram nosso patriotismo ferido já em tantos ocasiões..

Esse episódio ficou conhecido no Recife como “o quebra-quebra”, sendo inúmeras as casas depredadas, algumas por puro vandalismo, sacudindo-se, pelas suas portas e janelas, sofisticadas máquinas de escrever, dispendiosas máquinas fotográficas e outros utensílios que se quebravam nas calçadas, onde eram, ainda, pisoteadas pela multidão enfurecida; noutras, havia a evidente finalidade do saque, pessoas carregando consigo pares de sapatos, canetas Parker e armações de óculos, principalmente daquelas que estavam tão em moda, a dos belos e vistosos óculos Ray-Ban.

Alguns, os que participaram daquele movimento por motivos apenas patrióticos, visando pura e simplesmente a indenização dos nossos navios, lançavam material obtido nos postos de recolhimento, aumentando cada vez mais as “pirâmides” que iriam contribuir para o soerguimento da nossa Marinha.

Vi pessoalmente – quando, após as aulas do Liceu Pernambucano, eu me dirigia para a Soledade2, para pegar o bondinho da Tramways – uma turba incontrolável a invadir o prédio da Fretelli Vita, na Soledade, a depredá-lo, a lançar pedras (uma delas quebrando seu velho e bonito relógio, o nosso Big Bem, que diariamente nos advertia quanto ao horário de chegada no colégio), e lembro-me até que, numa de suas janelas, um provável funcionário balançava uma enorme bandeira brasileira, como a dizer que aquela era uma empresa, apesar de sua origem italiana, de pessoas que nada tinham a ver com a guerra e que contribuíam, talvez mais do que muitos brasileiros, para o progresso de nossa cidade e que, como tal, deveria ser preservada.

Na Sorveteria Gemba, na Praça Joaquina Nabuco, soubéramos depois, lançaram-se gás sulfúrico e depredaram-se suas instalações, o que obrigou a permanecer fechada por um longo período. Depredações semelhantes sofreram a Casa Vanthuil, a Herman Stoltz (na Marquês de Olinda quase em frente a associação comercial), o Regulador da Marinha, a Gino Luchesi, a Joalharia Louvre, a Sloper, a Casa Lohner e tantas outras, saindo os invasores, segundo testemunhas oculares com caixas e mais caixas de sapatos e com uma quantidade tal de canetas, relógios e armações de óculos que daria para abastecer várias lojas por anos a fio…

Os populares, exaltados, se dirigiam para a Praça de República, onde, da sacada do Palácio, o interventor Agamenon Magalhães dizia palavras (“prefiro erra com o povo a acertar sem ele”) que eram interpretadas como de apoio ao movimento popular e eram acolhidas com aplausos, ensurdecedores. Na pracinha do Diário usariam da palavra, entre outros, o professor Luiz de Goes, Edgar Fernandes, Potiguar Matos, do curso pré-jurídico, o professor Barreto Campelo, da Faculdade de Direito, e Thomas Édison, Faculdade de Medicina. Cantando o Hino Nacional e o Hino de Pernambuco, exibindo bandeiras brasileiras e carregando objetos recolhidos nas lojas depredadas, os populares se dirigiam, pela (rua) Princesa Izabel, para a Faculdade de Direito, onde ainda falaria outros oradores.

1. Não foi encontrado por esse BLOG qualquer outra fonte que afirme que chegaram a Recife botes com sobreviventes do Baependi. Os sobreviventes chegaram à região do Mosqueiro e Areia Branca no Estado de Sergipe, conforme depoimento do Capitão Lauro Moutinho dos Reis, um dos militares sobreviventes do naufrágio.
2. Rua da Soledade – No bairro da Boa Vista – Recife. Uma das mais tradicionais da cidade

Extraído do Livro: Recife e Segunda Guerra Mundial – Rostand Paraíso – Comunicarte, 1995 – Recife-PE.

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Carro Movido a Gasogênio – Uma Saída para o racionamento da Guerra

No Rio, por conta do racionamento de gasolina, estimava-se, só naquele Estado, a paralização de cerca de 10.000 automóveis. E à meia-noite do dia 15 de julho de 1942 entrava em vigor, em todo o território nacional, uma importante portaria suspendendo drasticamente o tráfego de todos os carros particulares e da grande maioria da frota oficial do Recife.  Um colunista famoso pedia que essa proibição fosse encarada esportivamente pela população, já que o importante era, custasse o que custasse, vencer o nazismo.

A Standard Oil divulgava uma série de conselhos sobre o que fazer com os carros parados na garagem, como o desligamento dos cabos da bateria, e retirada da água do radiador para evitar ferrugem etc, etc. Era solicitada, por alguns interessados, permissão para a circulação de cabriolés e nós já começávamos a vislumbrar a volta, à nossas ruas, dos cavalos e das românticas carruagens…Como grande atração, nossas ruas se enchiam de bicicletas, outras alternativas para a crise de combustível, e nos divertíamos vendo pessoas ilustres se dirigindo ao trabalho montadas em suas bicicletas…

Em São Paulo eram instalados várias usinas para construção de aparelhos de gasogênio que poderiam ser usados também em carros particulares. E, no Recife, motivo de grande curiosidade para todos nós, começavam a aparecer, numa fumaceira danada, os primeiros carros movidos a gasogênio, os de Ubaldo Gomes de Matos, Torquato de Castro, Ernesto Odenheimer, e outros poucos mais….

Eram, o racionamento da gasolina e a entrada em cena dos movidos a gasogênio, duas novas modificações importantes nos hábitos de vida do recifense, induzidas pelo conflito europeu…

 Texto Extraído do Livro: Recife e Segunda Guerra Mundial – Rostand Paraíso, editora COMUNICARTE, 1995  – pg. 119

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Ataque e Afundamento na Costa Brasileira do U-Boot – U-848

Fotografias tiradas durante os ataques pelo Tenente Charles A. Baldwin, USNR, 107-B-12

Primeiro ataque – 6 Mk-47 da DB 60 FT espaçadas a 25 pés, 215 nós, ângulo do alvo 270 0 – explosões atingiram a torre de comando, os dois primeiros na entrada e quatro a estibordo, o terceiro foi um fracasso – nenhum fogo antiaéreo.

NARRATIVA PILOTOS

Decolou em patrulha da Ilha da Ascensão das 0623. Depois de estar fora cinco horas e resolvemos retornar, decidi pela transferência de combustível dos tanques das asas da popa. Isto requer que o rádio e o radar fossem desligados. Em 1110 durante a transferência de combustível e passando por uma pequena frente, eu estava voando a 3.500 pés no curso 068 0 T, a posição S 10-09 e 18-00 W, quando o relógio de arco relatou a presença de um navio através de uma abertura nas nuvens, momento em que o co-piloto me avisou que o mesmo objeto estava a cerca de cinco quilômetros, dois pontos fora da curva da porta. Eu disse, “Heck acredito que seja um submarino nazista”, colocando a tripulação a suas estações de batalha. O rádio estava ligado e por esse tempo nós estávamos entrando nas claras, ainda a 3000 pés. Avistei o submarino a minha bombordo, a distância de uma milha e meia. O submarino estava em curso 090 0 T, a velocidade de 15 kts ou maior. Fazendo uma curva de mergulho para a porta e vindo a bombordo, velocidade do ar 250 MPH altitude, 75 pés, eu deixei cair seis bombas, uma a frente para atingir a torre de comando. Puxado para cima e em um banco de porta íngreme. O submarino foi virando-se para o seu estibordo e eu fiquei incapaz de direcionar o avião a tempo quando ele passou a cerca de 60 pés. Voltou à minha frente quando iniciei a terceira tentativa de confrontamento. Em um ângulo alvo de cerca de 60 graus, altitude 25 pés, eu larguei as três bombas restantes que explodiram bem próximo. Em seguida, puxando para fora e para longe, olhei para trás e viu submarino ainda em seu curso perdendo uma grande quantidade de óleo. Eu também observei três sinais de fumaça que eu acredito que foram os tiros disparados durante os ataques. Não havia pessoal do lado superior do submarino, mas acredito que havia focos de incêndio pelo excelente tiro dos meus artilheiros e do elemento surpresa. Depois de afastar mais, fizemos contato com 107-B-4 por rádio e disse-lhes do ataque, então começou a enviar MO, de forma que ele pudesse contatar a base. Nesse meio tempo o submarino ainda estava perdendo óleo e parecia está na direção errática em direção ao sul a cerca de  4 ou 5 nós.

Em 1245 B-4 chegou e eu fiz mais um sobrevoo ao seu lado do submarino. O B-4 lançou bombas em curta distância.Depois do ataque do B-4, o U-boat continuou em um curso errático progredindo em direção ao sul e voltou para a posição onde eu originalmente o ataquei em 1330. Neste momento a U-boot foi capaz em manter-se em uma linha de cruzeiro reta para o oeste.

107-B-8 homing chegou a 1340 Z e fez mais um ataque de popa ao U-Boot. Começou a sair fumaça que alcançava 1000 metros, creio que tenha sido do moto2.

  Em 1515 o U-boat parado ainda perdia óleo e, posteriormente, navegava a 10 a 12 nós por um curtos períodos de tempo.

O ÚNICO SOBREVIVENTE

Hans Schade foi resgatada pelo USS Marblehead em 03 de dezembro de 1943 – 28 dias após o U-848 ter sido afundando. Ele foi encontrado em uma balsa salva-vidas jogada pelo Avião PBY-USArmy, imediatamente após o naufrágio. Seu estado era muito crítico. Ele foi resgatado e desembarcado em Recife, em 04 de dezembro sendo imediatamente levado para o Hospital da Marinha. Mas morreu no dia seguinte e foi enterrado com honras militares em 06 de dezembro de 1943 no Cemitério de Recife – Santo Amaro –

Guarda de Honra saúda como o corneteiro tocando silêncio

Descrição do Ataque realizado pelos Pilotos

Fonte: http://www.uboatarchive.net/

Recife na Segunda Guerra Mundial – Quarta Frota Naval

Com a declaração de guerra contra Itália e Alemanha, e os reforços crescentes da Quarta Frota, Recife ganhou status militar especial, uma vez que a cidade pacata de anos anteriores à guerra se transformou em uma fortaleza, com intenso tráfego do pessoal do Exército Brasileiro, Esquadrão de Aviões de Fleet Air Wing 16, centenas de aviões americanos de desembarque, em um fluxo constante no campo do Ibura (atualmente Aeroporto Internacional dos Guararapes), muitos dos aviões Aliados, inclusive os B17 e  B-29, inicialmente como escala de algumas horas antes de fazer a longa viagem para a costa Africana. Sem falar os navios de guerra americanos e brasileiros, além de homens do Exército Brasileiro da 7ª Região Militar e da 2ª Zona Aérea.

Este grande investimento na área do porto de Recife incluía quartéis, depósitos de armamento, instrução e centros de treinamento para as várias guarnições, que serviu sob a Quarta Frota. Em contrapartida, medidas foram tomadas pelo governo brasileiro para colocar o enorme complexo do Estado-Maior do Quartel-General da Quarta Frota e seus anexos, em instalações adequadas e confortáveis, para que o pessoal efetivo pudesse fazer o seu trabalho em condições satisfatórias. Um grande edifício no centro da cidade, uma milha de distância apenas, a partir do porto, foi então escolhido para essa função.

Onze andares do edifício, recentemente construído ficaram a disposição, onde os navios podiam ser vistos atracados no cais. E foi formalmente ocupado em dezembro de 1942 com algumas alas ainda inacabadas. Para a acomodação das equipes numerosas, várias modificações estruturais foram realizadas com o intuito de transformar o mesmo em um prédio mais funcional.

Os andares foram inicialmente construídos para fins comerciais, e depois modificados, tendo as paredes sido removidas para um espaço mais amplo. Alertas estavam em mesas e escrivaninhas assim como telefones, arquivos e registros e uma placa grande, com o Mapa do Atlântico Sul, onde os navios de carga em progressão e comboios eram continuamente acompanhados, bem como todo o comércio marítimo de forma independente.

Durante os dois anos, em que a sala de mapas foi usada durante a guerra, rotas de navios inimigos e aliados foram construídas e acompanhadas. Rotas chamadas de “porco” ou “banha de porco” e progressões de outras rotas foram designados para cobrir toda a costa brasileira, todos identificados com todos os tipos de seqüências de cores. Grupos de Trabalho da Força-Tarefa 23 e da Força-Tarefa 27 eram responsáveis pelo monitoramento dos comboios da região, com o objetivo de evitar ataques de U-Boats ou respondê-los, caso acontecesse. Eles também contavam com apoio aéreo e patrulhas de varredura. Estas funções especializadas foram realizadas por quase uma centena de pessoas qualificadas ao longo dos anos da guerra.

Assim, a permanência da sede da Quarta Frota, em Recife, acrescido da frota da Marinha Brasileira, além dos contingentes de Esquadrões da Marinha dos EUA, e de Unidades da Força Aérea Brasileira e Destacamentos do Exército, todos esses fatores transformaram o Recife em um reduto militar de primeira grandeza, cujo porto abarrotado com todo tipo de navios, ainda teria para sua defesa, o velho couraçado brasileiro São Paulo que, pela idade, não poderia navegar no mar aberto e entrar em combate com submarinos de guerra devido grande quantidade de carvão que saia de sua caldeira, alvo facilmente identificado pelos submarinos. Mas, o oxidado e ofuscado de 19.300 toneladas, remanescente ainda dos tempos da Grande Guerra, ainda era respeitável, e serviu como uma fortaleza flutuante no cais do Recife, protegendo o litoral pernambucano por todo o período da Segunda Guerra Mundial já que seu arsenal era uma forte dissuasão contra qualquer tentativa de intrusos no porto, como os que aconteceram em Aruba, onde depósitos de petróleo foram atacados. Sua irmã, Minas Gerais, também realizava a guarda em Salvador. Além dessas medidas para proteger o porto, 04 caça-minas, YMS 44, 45, 60 e 76 continuamente varria o acesso externo do canal de onde um torpedo anti líquido foi implantado.

Enfim, Recife passou por uma transformação inimaginável nos tempos da Guerra, transformação essa que ainda podem ser percebidas até hoje.

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Todas essas foram retiradas do  site www.sixtant.net incluindo as fotos – As informações foram traduzidas e postadas. O site possui um acervo completo sobre a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial.