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O Médico de Infantaria do 11º RI
Segue abaixo o relato do Coronel Adhemar Rivermar de Almeida, publicado no livro Montese – Marco glorioso de uma trajetória, BIBLIEX. Nesse relato ele fala sobre as posições do então Tenente Médico Yvon – oficial de saúde do 11º Regimento de Infantaria – Regimento Tiradentes.
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O I/11º Regimento de Infantaria, ainda como reserva do IV Corpo de Exército, foi deslocado para Vidiciático, desfalcada de sua 1ª Companhia de Fuzileiros, que foi posta à disposição do destacamento Olivier (Tenente-Coronel Júlio Maximiniano Olivier Filho).
O Destacamento Olivier foi constituído pela Esquadrão de Reconhecimento, pela 1ª Companhia do 11º Regimento de Infantaria e companhia anticarros dos 1º e do 11º RI, todos operando como fuzileiros. Reforçavam-no cerca de 450 “partigiani” e tinha a missão ocupar as alturas no Monte Serrasiccia, Cappel Buso e Pizzo di Capiano, bem como a região de Rocca Corneta.
Em Vidiciático, o batalhão substituiu elemento da 10ª Divisão de Montanha. Laços afetivos muito fortes estavam sendo estabelecidos entre as duas grandes Divisões e de um tempo para cá vinha sendo um tal de “rasgar seda” que parecia não ter fim.
Dias atrás, por exemplo, o “Blizzard” – um periódico idêntico ao “Cruzeiro do Sul” – trouxera um artigo sobre o valor do soldado brasileiro, cujo o título era: “Quando a cobra fuma, o soldado brasileiro se zanga”.
Os brasileiros e norte-americanos vinham se dando muito bem e já tinham estado juntos em muitos momentos difíceis, pois através de um apoio mútuo haviam levado a cabo a mais cruenta tarefa daquele setor – expulsar os alemães de suas montanhas repletas de casamata e liberar o Vale do Rio Panara, em Vidiciático. Apesar disso e por duas vezes, o Dr. Yvon teve fortes e justificados atritos com elementos do Exército americano.
Face a isto, o novo Comandante do I/11º Regimento de Infantaria que ainda não conhecia bem os seus atuais comandados, resolveu pedir a remoção daquele médico de nossa unidade, mas ao ter ciência de que tal transferência seria mal recebida por seus comandados, pelos Oficiais e Praças tinham por aquele médico uma grande admiração, oriundo de sua atenção e dedicação para com todos, de sua competência profissional e das inúmeras provas de coragem e sangue-frio demonstradas em ação, qualidades que haviam transformado em o “médico-infante”, resolveu reconsiderar a resolução tomada, chamando-o para um “puxão-orelhas”.
“- Dr. Yvon, chegou ao meu conhecimento que o senhor brigou com elementos da “Décima”?.
– É verdade, Major. Porém não foi uma só vez, foram duas.
– E o senhor ainda tem coragem de afirma isso?
– Major, fui desacatado e desafiado nas duas oportunidades. Numa delas queriam que retirasse a minha ambulância do local em que estava sendo carregada, face à mudança do Posto de Saúde. O Major Ivens assistiu a esta última e me deu inteiro apoio.
– Doutor, vou lhe esclarecer uma coisa, pois julgo que ignora: estamos aqui para lutar contra nazi-fascismo e não contra os americanos.
– Sei disso, Major, mas ser aliado mais pobre não é razão para ser menosprezado.
– Vou fazer-lhe uma outra recomendação: quando em ação o seu lugar é no Posto de Saúde.
– Perdoe-me, Major, não sei mandar meus padioleiros à frente e ficar esperando, calmamente, o seu regresso; acho que o meu lugar é onde estamos sendo mortos ou feridos.
Nesse momento o Major faz uma pausa grande, encarando o oficial médico.
– Acresce que o Serviço conta com mais um médico e ele tem ordem de permanecer sempre no Posto de Saúde.
– Pode ir, Tenente. Vou ficar lhe observando.