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A Rendição da 148ª Divisão Alemã – Relato de Don Alessadro Cavalli
Artigo enviado pelo Pesquisador Rigoberto Souza Júnior.
A parlamentação para a rendição das tropas alemãs, ocorrida entre Don Alessandro Cavalli e o Comando das Tropas Alemãs, para sua rendição incondicional foi relatada por este zeloso sacerdote, em depoimento datado de 7 de Março de 1951.
“Paróquia de Noviano de Rossi, Freguesia de Fornovo – Taro – Diocese de Parma – Itália.”
Eu, abaixo assinado, Don Alessandro Cavalli, filho de Giuseppe, nascido a 6 de fevereiro de 1889, em Berceto, comuna da província de Parma, sacerdote católico, atualmente residente em Noviano di Rossi nas funções de pároco, declaro:
que no dia 27 de Abril de 1945, às 15 horas, chegaram defronte à Igreja Paroquial de Noviano de Rossi, tropas brasileiras motorizadas(caminhões e carros de combate), e que me apresentei imediatamente o Major Henrique Cordeiro Oest, comandante do II/ 6ºRI, o qual tendo por intérprete o 1º Ten Armando castelo Veiga, que falava muito bem italiano, confiou-me a missão de parlamentário para entrar em contato com as tropas alemãs, a fim, de viva voz, intimá-las à rendição incondicional, de conformidade com as leis internacionais.
Aceitei a missão, e caminhando a pé cerca de 6 quilômetros para atingir ás 16:30 horas a localidade de Respiccio (Caseificcio Arduini Pasquale di Respiccio), onde encontrei o Comando da Divisão Alemã, e comuniquei então, a ordem de rendição incondicional aos oficiais presentes. Fiquei detido por aproximadamente 3 horas, e por quatro vezes diversos oficiais me interrogaram repetidamente, sobre a força numérica, sobre a potência e a qualidade das armas e sobre a localidade onde estavam as posições das tropas brasileiras, e nestes interrogatórios, eu insistia, e repetia diversas vezes, que eles deveriam se render, porque estavam completamente cercados e já não havia mais possibilidade de salvarem-se do cerco.
Às 19:30 horas, um oficial superior alemão, bastante idoso(que falava corretamente italiano, tendo inclusive sido embaixador em Roma), insistiu comigo dizendo: “Pastor, faça o favor de dizer ao comandante brasileiro que escreva as condições de rendição, depois volte aqui novamente, que nós o esperaremos neste local.
Sendo já noite, respondi que não poderia retornar senão na manhã seguinte, por volta das 9 horas, e pedi encarecidamente que não atirassem durante as negociações. Caminhando sempre a pé, cheguei às 20:30 horas à Casa Paroquial de Naviano di Rossi, onde se alojara o Major Oest, juntamente com outros oficiais, para melhor dirigirem as operações bélicas, com quatro aparelhos rádio- transmissores.
Relatei o combinado com oficial alemão e o Major Oest foi até o Comando Superior Brasileiro, para que a carta que eles pediram fosse escrita, e precisamente às 8 da manhã de 28 de Abril de 1945, recebi do Major Oest a carta que me apressei em levar a Respiccio, onde cheguei por volta das 9:00 horas, e entreguei-a ao mesmo oficial alemão, como haviamos combinado ao anoitecer do dia anterior.
Cerca de 3 horas de espera, às 11:45 horas, me foi entregue uma carta sigilosa, que levei ao Major Oest, que entregou pessoalmente ao Cel Nelson de Melo. Por isso, declaro que fui eu mesmo o portador do ofício do Cel Nelson de Melo, dirigido ás Forças Nazifascistas que se encontravam em Fornovo di Taro e adjacências, que dito ofício, segundo eu sabia, era um ultimato de rendição incondicional. Esta missão me foi confiada voluntariamente, com o propósito de salvar vidas humanas e de evitar horrores e destruições.
O ultimato foi entregue ao destinatário ainda na manhã de 28 de Abril, e logo depois das 10 horas da manhã, entreguei uma declaração escrita em alemão, com a assinatura do major Kuhn do quartel general d a148ª Divisão Alemã, dirigida aos oficias brasileiros.
Finalmente, declaro que ao ver este documento, tive a impressão que em muito breve, seria concluída a questão da rendição alemã à tropa brasileira, e de fato, na noite do dia 28 de Abril de 1945, os nazifascistas capitularam diante do imponente dispositivo de ataque dos brasileiros.
Em fé do que acima foi declarado
(a) Don Alessandro Cavalli
Pároco de Noviano di Rossi
Decorridos alguns anos, foi inaugurada ao lado da Igreja de Noviano di Rossi, uma grande lápide de mármore, comemorativa a este notável episódio em que a cruz se uniu à espada para conseguir a mais humana das soluções, onde estava gravada a inscrição, que pose ser considerada como uma mensagem aos brasileiros do futuro:
HONRA E GLÓRIA
SOBRE ESTAS AMENAS COLINAS,
SOB A SUPERVISÃO DO GRANDE MARECHAL
J.B. MASCARENHAS DE MORAES
E O COMANDO DO VALOROSO CORONEL
NELSON DE MELO
E COM A ZELOSA PARTICIPAÇÃO
CRISTÃ DO INTRÉPIDO SACERDOTE
DON ALESSANDRO CAVALLI
ARCIPRESTE DE NEVIANO DI ROSSI,
COM O INTUITO DE SALVAR VIDAS HUMANAS
E EVITAR HORRORES E DESTRUIÇÕES,
NOS DIAS 27-28-29-30 DE ABRIL DE 1945
AS TROPAS ARMADAS BRASILEIRAS (F.E.B)
CHEGARAM E IMPUSERAM
A RENDIÇÃO INCONDICIONAL
ÀS TROPAS ALEMÃS
COM PLENA E TRIUNFANTE VITÓRIA
ANO DE 1945.
Don Alessandro Cavalli foi agraciado pelo Governo Brasileiro com honrosas condecorações nacionais: Ordem do Mérito Militar Brasileiro e Ordem do Cruzeiro do Sul.
Por que a 148ª Divisão Alemã se entregou somente aos brasileiros na Itália?
É obrigação dessa geração lutar pelo reconhecimento histórico da honra dos nossos soldados que lutaram na Itália:
Esse pequeno exemplo representa muito bem a índole dos nossos combatentes, muito diferente daquele que tentam nos imputar: a de torturadores e facínoras.
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Por que a 148ª Divisão Alemã se entregou somente aos brasileiros na Itália?
“Foi em abril de 1945. Os alemães tinham retraído da Linha Gótica depois da nossa vitória em Montese, e provavelmente pretendiam nos esperar no vale do rio Pó, mais ao Norte. Nosso Esquadrão de Reconhecimento, comandado pelo Pitaluga, os avistou na Vila de Collechio, um pouco antes do rio. A pedido do General fui ver pessoalmente e lá, por ser o mais antigo, coordenei a noite um pequeno ataque com o esquadrão e um pelotão de infantaria, sem intenção maior do que avaliar, pela reação, a força do inimigo. Sem defender efetivamente o local, os alemães passaram para o outro lado do rio e explodiram a ponte. Então observamos que se tratava de uma tropa muito maior do que poderíamos ter imaginado. Eram milhares deles e nós tínhamos atacado com uma dezena de tanques e pouco mais de cinquenta soldados”.
“Informamos ao comando superior que o inimigo teria lá pelo menos um regimento. O comando, numa decisão ousada, pegou todos os caminhões da artilharia, encheu-os de soldados e os mandou em reforço à pequena tropa que fazia frente a tantos milhares.” – ” Considerei cumprida a minha parte e fui jantar com o Coronel Brayner, que comandava a tropa que chegara” prosseguiu Dionísio. “Durante a frugal refeição de campanha, apresentaram-se três oficiais alemães com uma bandeira branca, dizendo que vieram tratar da rendição. Fiquei de interprete, mas estava confuso; no início nem sabia bem se eles queriam se entregar ou se estavam pensando que nós nos entregaríamos, face ao vulto das tropas deles, que por sinal mantinham um violento fogo para mostrar seu poderio”.
“Esclarecida a situação, pediram três condições: que conservassem suas medalhas; que os italianos das tropas deles fossem tratados como prisioneiros de guerra (normalmente os italianos que acompanhavam os alemães eram fuzilados pelos comunistas italianos das tropas aliadas) e que não fossem entregues à guarda dos negros norte-americanos”.
“Esta última exigência merece uma explicação: a primeira vista parece racismo. Que os alemães são racistas é óbvio, mas porque então eles se entregaram aos nossos soldados, muitos deles negros? Bem, os negros americanos naquela época constituíam uma tropa só de soldados negros, mas comandada por oficiais brancos. Discriminados em sua pátria, descontavam sua raiva dos brancos nos prisioneiros alemães, aos quais submetiam a torturas e vinganças brutais. É claro que contra eles os alemães lutariam até a morte. Não era só uma questão de racismo”.
“Eu perguntei ao interprete do lado alemão (nos entendíamos em uma mistura de inglês, italiano e alemão), por que queriam se render, com tropa muito superior aos nossos efetivos e ocupando uma boa posição do outro lado do rio. Ele me respondeu que a guerra estava perdida, que tinham quatrocentos feridos sem atendimento, que estavam gastando os últimos cartuchos para sustentar o fogo naquele momento e que estavam morrendo de fome. Que queriam aproveitar a oportunidade de se render aos brasileiros porque sabiam que teriam bom tratamento”.
“Combinada a rendição, cessou o fogo dos dois lados. Na manhã seguinte vieram as formações marchando garbosamente, cantando a canção ‘velhos camaradas’, também conhecida no nosso Exército”.
“A cerimônia era tocante” – prosseguiu Dionísio. “Era até mais cordial do que o final de uma partida de futebol. Podíamos ser inimigos, mas nos respeitávamos e parecia até haver alguma afeição. Eles vinham marchando e cada companhia colocava suas armas numa pilha, continuando em forma, e seu comandante apresentava a tropa ao oficial brasileiro que lhe destinava um local de estacionamento. Só então os comandantes alemães se desarmavam. A primeira Unidade combatente a chegar foi o 36º Regimento de Infantaria da 9° Divisão Panzer Grenadier. Seguiram-se mais de 14 mil homens, na maioria alemães, da 148° Divisão de Infantaria e da Divisão Bessaglieri Itália que os acompanhava”.
“Entretanto houve um trágico incidente: Um nosso soldado, num impulso de momento, não se conteve e arrancou a Cruz de Ferro do peito de um sargento alemão. O sargento, sem olhar para o soldado, pediu licença a seu comandante para sair de forma, pegou uma metralhadora em uma pilha de armas a seu lado e atirou no peito do brasileiro, largou a arma na pilha e entrou novamente em forma antes que todos se refizessem da surpresa. Por um momento ninguém sabia o que fazer. Já vários dos nossos empunhavam suas armas quando o oficial alemão sacou da sua e atirou na cabeça do seu sargento, que esperou o tiro em forma, olhando firme para frente. Um frio percorreu a espinha de todos, mas foi a melhor solução” – Concluiu Dionísio.
Ao ouvir esta história, eu já tinha mais de dez anos de serviço, mas não pude deixar de me emocionar. Não foram as tragédias nem as atitudes altivas o que mais me impressionaram. O que mais me marcou foi o bom coração de nossa gente, a magnanimidade e a bondade de sentimentos, coisas capazes de serem reconhecidas até pelo inimigo. Capazes não só de poupar vidas como também de facilitar a vitória. É claro que isto só foi possível porque os alemães estavam em situação crítica; noutro caso, ninguém se entregará só porque o inimigo é bonzinho, mas que a crueldade pode fazer o inimigo resistir até a morte, isto também é real. Na História Pátria podemos ver como Caxias, agindo com bondade, só pacificou, e como Moreira César, com sua crueldade, só incentivou a resistência até a morte em Canudos.
O General Dionísio e o interprete alemão – Major Kludge, se tornaram amigos e se corresponderam até a morte do primeiro, no início dos anos 90. O General Mark Clark, comandante do 5° Exército norte- americano, ao qual a FEB estava incorporada, disse que foi um magnífico final de uma ação magnífica. Dionísio disse apenas que a história real é ainda mais bonita do que se fosse somente um grande feito militar.”
Cel.Hiram Reis e Silva


























