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Cabo Clarindo Batista Santos é um pernambucano!

 Mais  uma crônica de Rubem Braga. Desta vez ele escreve sobre a bravura de um pernambucano da cidade de Bom Conselho.

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Clarindo Batista Santos é um pernambucano troncudo, musculoso, de pequenos dentes sadios. Nasceu em Bom Conselho, perto de Garanhuns. Em 1933 foi para São Paulo, serviu no Exército, depois esteve por dois anos na Escola da Aeronáutica do Rio, onde aprendeu enfermagem. Saindo do Exército trabalhou como empregado em várias casas comerciais do Rio. Quando a SEMTA organizou (ou, mais precisamente: promoveu) a migração de trabalhadores nordestinos para a Amazônia, Clarindo entrou para esse Serviço como enfermeiro, mas logo passou a chefe de comboio. Recrutava os voluntários no interior da Paraíba e de Pernambuco e organizava os comboios de 8 caminhões que os levavam até Fortaleza. Correu assim muitos trechos do Nordeste e chegou a ir até o Maranhão.

Mais de uma vez teve que agir com energia, pois os trabalhadores ameaçavam se revoltar, devido à desorganização do serviço que, a princípio, não providenciava alojamento nem alimentação para os homens.

Clarindo voltou para o Rio – e “arranjou para ser convocado”, entrando então para a FEB como cabo-enfermeiro de companhia. Seu pai, Manuel Santiago de Messias, vive em Palmeiras dos Índios, Estado de Alagoas.

É do Cabo Clarindo o personagem principal da narrativa abaixo:

Março, 1945

Com informações que colheu através de patrulhas, o S-2 de um Batalhão conseguiu localizar perfeitamente uma localização nazista. O capitão Arnóbio Pinto Mendonça chamou o tenente de seu pelotão de morteiros. Os morteiros 81 receberam um tipo de munição especial – grandes granadas incendiárias. O oficial de ligação de artilharia telefonou ao Tenente Lontra – e os canhões de retardo, que primeiro entraram no chão para depois explodir.

Marcou-se a hora exata. Os binóculos voltaram-se para uma igrejinha e um grupo de casas, não distante de nossas linhas. Fogo! Choveram sobre a posição 50 tiros de morteiros e 25 de artilharia. Minutos depois o fogo ardia sobre os escombros. E uma bandeira branca emergiu. Logo depois apareceu também uma bandeira vermelha. Os alemães se rendiam e pediam socorros médicos.

O Capitão Fará telefonou para o Batalhão, o Batalhão para o Regimento, o Regimento telefonou para a Divisão. Na linha de frente nossos homens olhavam a bandeira branca e a bandeira vermelha. Esperavam que aparecesse algum alemão na terra de ninguém, mas nenhuma aparecia. O fogo tinha sido suspenso. Podia ser uma cilada do inimigo.

Uma pequena discussão no PC da Companhia – mas o cabo Clarindo Batista dos Santos, enfermeiro, disse que fazia questão de ir. Já se oferecera para outras missões perigosas – e fora preterido. Que vá!

Clarindo pediu ao Tenente Cisne que, se os alemães o segurassem lá, ele varresse tudo com morteiros – não se importava de estar no meio. E sozinho, desarmado, caminhou para as linhas inimigas. Levava na mão uma bandeira de cruz vermelha.

                – “Quando cheguei lá perto, vi um alemão. Acenei para ele com a bandeirinha, dizendo para ele vir cá. O alemão deu uns passos e depois me chamou para ir lá. Eu disse para ele vir, que não tivesse paura, gritei que tinha sigaretti, mangiare. Ciocolatta, que brasiliano não matava tedesco prisioneiro não, que ele podia vir que já tinha muitos amigos deles do lado de cá. Então veio um alemãozinho. Eu conversei com em italiano e disse para dizer aos outros para virem. Não sei se ele entendeu direito. Voltou lá e eu fiquei esperando. Aí chegou um terceiro-sargento nosso que ficou comigo, não sei o nome dele. O alemãozinho voltou com um outro, parece que era sargento. Esse chegou perto de mim, levantou a mão e disse Heil Hitler. Então eu bati continência, depois apertei a mão dele… ”

                – Mas por que você apertou a mão dele, Clarindo?

                – “Sei lá, é porque esse aquele negócio de fazer Heil Hitler e eu bater continência ficou uma coisa sem jeito, então resolvi cumprimentar o homem direito. Aí o homem disse que queria vir para o nosso lado e que lá na sua posição tinha mortos e feridos. O sargento voltou com o homem e eu resolvi ir lá ver os feridos com o alemãozinho que tinha vindo antes. Eu pensava que lá só tinha feridos e mortos e queria ver para então providenciar o socorro. Mas quando eu cheguei, fio logo vendo três alemães, depois outro, depois mais outro. Eles ficaram me olhando e eu sozinho ali no meio deles. Tinha um cavando um buraco para enterrar os mortos, e outro mexendo com uma padiola. Perguntei se ele não tinham médico. Disseram que não, “niente médico”, e tinha um ferido no chão. Um deles perguntou se nós tínhamos médicos e remédios; eu disse que sim, e ele fez o sinal de vir. Mas ai eles começaram a conversar uns com os outros em alemão e me olhavam com cara feira e não sabia o que fazer. Aí eu peguei  a pá e comecei a cavar o buraco…”

                – Mas para que você foi cavar buraco?

                – “Sei lá, estava todo mundo parado, eu precisava fazer alguma coisa para ver como é que as coisas ficavam. Se eu ficasse parado, eles acabavam me prendendo ou me matando. Aí um alemão disse que eu não bisognava cavar, eu larguei a pá e resolvi botar energia. Olhei assim, e escolhi quatro alemães bem fortes e dei uns berros: “vocês quatro portare padiola! Depressa! Súbito!” Os homens me olharam admirados, mas trataram de ir segurando a padiola com o ferido, e eu os pus na frente e vim outra vez para a nossa linha. Depois eu voltei, mas aí fui com três homens, dois com fuzis, um com metralhadora…”

FIM DA GUERRA! Por Joel Silveira.

Em uma deliciosa reportagem de Joel Silveira fala sobre seu encontro de uma tropa alemã no final da guerra, então percebemos algo que, inicialmente, é difícil de encontrar ou entender durante um estado de guerra. Primeiro a disciplina alemã é incrivelmente inquestionável, mesmo totalmente destroçada as tropas marchavam em formação, com respeito e obediência hierárquica, e na narrativa do Joel parece algo surreal para exército desfarelado. Outra observação é o ponto em que o próprio correspondente de guerra percebe que um novo universo estava se formando para vencido e vencedores, e como um profeta ele pergunta: O que será de nós? Como se previsse o descaso que aconteceria como a desmobilização e abandono do contingente vitorioso da FEB.  Então curtam esse maravilhoso relato:

Publicado anteriormente: O Primeiro Dia – Relato de Joel Silveira – Correspondente de Guerra

Então para fechar vamos publicar o último dia da guerra para Joel Silveira.

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Fim da Guerra

 

Foi no dia 03 de maio de 1945.

Haviam-nos dito, no QG avançado da FEB, que a guerra iria acabar dentro de três dias, quatro no mais tardar. Mas na verdade já havia acabado, embora muitos combatentes – aliados e alemães – ainda não soubessem disso. Eu sabia. Mas não sabia o sargento alemão que fomos encontrar, num trecho de autoestrada que vai de Milão para Bolonha, tentando comandar decentemente um grupo de soldados amarfanhados e barbudo. Atrás do aturdido Batalhão, um pequeno carro italiano camuflado levava um coronel de rosto duro, que sentava ereto ao lado do motorista como se estivesse em posição de sentido. E o motorista era quase um menino, as faces cavadas pelo cansaço, olheiras profundas e maltratados cabelos sobrando do casquete cinza-esverdeado.

Alcançamos com o nosso jipe o carro do coronel, que andava sem pressa, fiz um gesto pedindo que parasse. Mas, antes de frear, o menino olhou apreensivo para o impassível oficial. Este levantou o braço direito, cuja mão segurava uma luva de couro, e imediatamente o jovem chofer pisou no freio.

Lá na frente, o sargento e os soldados, vendo que o carro do coronel estacara, também interrompeu a marcha. E logo uma vintena rodeava nosso jipe. Numa voz que pretendia ser autoritária, o sargento grunhiu uma ordem que ninguém pareceu ouvir. Ou, se ouviram, não obedeceram.

Entre Milão e Bolonha, a larga estrada ainda não era inteiramente de ninguém, nem nossa, nem deles – e por ignorar isto é que o Correspondente de Guerra Rubem Braga levou um inesperado tiro na mão. Logo a magnífica rodovia estaria desimpedida, mas naquela manhã havia trechos dos quais o inimigo ainda não havia sido expulso. O difícil era saber o que já era nosso e o que ainda era deles. E sabe isso era o que precisamente estava acontecendo naquele instante no quilometro 312 do caminho que nos trouxera de Milão, libertada poucos dias antes, e que deveria nos levar a Bolonha, já tomada a muito tempo.

O Corporal Hans sabia um pouco de italiano e, a uma pergunta minha, respondeu que estava recuando.

– Para onde?

– Para qualquer lugar, não sabemos ainda.

Perguntei depois quem era o coronel. Hans me disse que o coronel se chamava Gunther Habecker, comandante do 114º Regimento de Artilharia – ou do que restava dele. E o que restava do 114 era o que se encontrava ali, diante de nós: uns 50 homens de todas as idades, de uniformes os mais variados, a maioria já sem qualquer arma, quase todos de olhos enterrados nos rostos magros, fechados na barba de dias. O 114º era a sobra da Divisão, a 543, que por sua vez, havia sobrado de uma Corpo de Exército – o do Marechal Kelsering – que não existia mais e que começara a dispersar-se desde que foram expulsos do seu QG, em Genôva.

Foi ao Corporal Hans que indaguei para onde eles pretendiam ir, mas ao fazer a pergunta fixei por um instante os olhos no coronel Gunther, que permaneceu como estava: vertical e distante. Hans queria saber se de fato a guerra havia acabado.

 – Acabou mesmo, não?

 – Acabou.

– Nós já sabíamos. Horas atrás encontramos um Batalhão de ingleses, perto de Pádua, e eles nem nos quiseram prender. Só o nosso Coronel não quer entender ou aceitar isso.

Marchavam agora, ou melhor, caminhavam quase se arrastando, como no final de um prolongado passeio. Direção: a retaguarda. Ponto de chegada: qualquer um. Talvez Bréscia, talvez Alessandria, porque as rações estavam chegando ao fim e os italianos, antes não amigos e prestativos, já não queriam mais nada com eles. Estavam sem comida. E sem cigarros.

 – O último o Coronel acaba de fumar.

Quando Hans soube que era jornalista passou a me fazer uma série de atropeladas perguntas. Atropeladas e ansiosas. E logo não era apenas ele, mas todos a querer saber se era verdade que a Alemanha havia se rendido, se o Marechal Kesselring havia sido preso. Minhas respostas os deixavam ainda mais inquietos. Com exceção do coronel, que fingia não ouvir a conversa (da qual Hans servia de intérprete para os companheiros, no seu italiano confuso), mas era evidente que estava escutando e entendendo tudo.

Hans me disse mais, que as últimas notícias que haviam tido “lá do norte” não eram nada boas, coincidindo com as que eu lhe dava: Mussoline e seus gerarcas haviam sido executados pelos partigiani, Berlim praticamente fora varrida do mapa, Hitler se matara, e os vitoriosos, particularmente os russos, estavam sendo implacáveis para os vencidos.

Que ia ser deles? Uma era de Bremen, outro de Hamburgo, outro de Dresden (Dresden também acabou), outro de Kiel. E havia também alguns tchecos, um russo ucraniano e quatro polacos. Que ia ser de todos? Muitas das cidades onde havia nascido, e para onde pretendiam retornar um dia, eram naquele instante apenas nomes, referências sem sentido num geografia que a guerra havia passado a limpo, nalguns pontos apagando-a por completo do mapa.

 Houve um momento em que o sargento segurou meu braço, me olhou dentro dos olhos e perguntou se tinha cigarros: “zigarette?” Não fumo – mas tinha.

 – Cambiare?

Trocar por quê? Que teria ele a me dar? O alemão meteu a mão no bolso do culote folgado e dele tirou uma Cruz de Ferro e mais outro crachá no centro do qual uma iracunda águia nazista desfraldada as suas outrora temíveis asas.

 –Cambiare?

Entreguei-lhe os dois maços de cigarros. Ele me deu as medalhas. Depois acendeu um cigarro, sorveu demorada e gulosamente a fumaça, os olhos semicerrados, num total enlevo. Em seguida ajeitou o bornal que trazia dependurado ao ombro, gritou um ordem imperativa e o grupo voltou a se reunir.

Foi então que começou a cair uma chuvinha rala e fria – e também absolutamente neutra, pois molhava a todos nós, vencedores e vencidos. Imperturbável, o Coronel Gunther Habecker continuou como estava. Mas o sargento, ao vê-lo exposto à chuva que engrossava, gritou qualquer coisa em alemão. E como ninguém, no grupo palrador, parecesse tê-lo ouvido, gritou mais alto. Logo um velho soldado destacou-se do resto do Batalhão, trazendo um guarda-chuva. O sargento arrancou-o das mãos do soldado, pulou para o assento de trás do pequeno carro do coronel e abriu sobre sua cabeça o guarda-chuva providencial. O coronel Gunther, comandante do 114º de Artilharia, repetiu o mesmo jeito de momentos antes, erguendo a mão que segura a luva de couro, e o seu carros pôs-se novamente em movimento. Ao roçar nosso jipe, fez uma espécie de continência, à qual o meu motorista, um enfezado e exausto terceiro-sargento, respondeu com um sonoro palavrão em português.

                Não havia dúvida: a guerra tinha acabado, definitivamente. Tudo indica isso: o prosaico guarda-chuva aberto sobre a cabeça do coronel alemão, a sua continência vaga (mas um cumprimento que continência) e o indisciplinado palavrão do meu sargento – não restava mais dúvida: tais demonstrações tão à margem da ordem castrense eram a prova definitiva, a que me faltava, de que de fato a guerra chegara ao fim.

                A guerra havia acabado – e, do lado de lá e do lado de cá, que seria de todos nós? Do lado de lá, um era de Bremen, outro de Hamburgo, outro de Praga – que ia ser deles? Do lado de cá, eu era de Aracajú e o sargento de São João del Rei – que ia ser de nós dois? Nossa situação, naquele momento, era ironicamente a mesma, ou quase. Vencidos e vencedores, a fábrica de matar, onde vínhamos trabalhando havia meses, anos, fora fechada, e agora estávamos todos sem emprego. Dentro de mais algumas horas, quando o armistício fosse assinado, não seríamos mais do que intrusos sem função num terra que não era a nossa e que por justas razões só tinha motivo para nos detestar e estava ansiosa para nos ver pelas costas.

                Quando o último soldado alemão desapareceu na estava, o Sargento Alcebíades me perguntou para onde iríamos agora? Pensei alguns segundos, decidi:

                – Vamos voltar.

                – Para Milão?

                – Exato

                – Mas acabamos de sair de lá.

                – E daí? A guerra acabou. O coronel deles pensa que não, mas o fato é que acabou. Você viu aquele guarda-chuva do sargento? A guerra acabou mesmo. Vamos para Milão. Lá tem luz, tem aquecimento, tem bebida, tem mulher. E já é hora de arrumar a nossa trouxa.

                Na verdade, metido naquela farda velha de quase 10 meses, eu já começava a me sentir um tanto ridículo. Como alguém fantasiado de palhaço num quarta-feira de cinzas.

                – Quer dizer que é Milão mesmo?

                – É

                – Pois que seja, o Capitão é que manda.

                Minha reação ríspida:

                – E pare de me chamar de “capitão”. “Capitão” é a mão!

                – E como vou chamar o senhor a partir de agora?

                – “Senhor” também é a mãe! Me chame simplesmente de Joel. É o meu nome. E é o que sou.

                – Depois de tanto tempo, vai ser difícil. Mas vou tentar.

                – Pois comece logo. E basta de conversa. Milão!

Fonte: A Luta dos Pracinhas  –  Joel Silveira/Thassilo Mitke. Ed. Record, 1993