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O Guardião de Pistóia
Belissíma crônica escrita pelo exímio Paulo Afonso Paiva. Minhas recomendações e meus agradecimentos a História do nosso País. Se nosso Brasil tivesse mais consciência histórica talvez a honra e o respeito de nossa gente fosse diferente.
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O GUARDIÃO
Paulo Afonso Paiva
No dia 3 de maio de 1945 os sinos na Itália tocaram a manhã toda: a guerra acabou, a guerra acabou… Enquanto aguardavam transporte para o Brasil, os soldados ficaram encarregados da segurança em Turim e outras cidades próximas. Um pracinha foi chamado ao Comando:
– Sargento, você vai ficar tomando conta do nosso Cemitério em Pistóia. Em breve, será substituído.
Assim, todas as manhãs ele içava a bandeira do Brasil às oito da manhã e a arriava ao pôr-do-sol, dia após dia. Após dobrar a bandeira com todo cuidado, segurava-a na mão esquerda, colocava a boina na cabeça e ficava ereto. Bradava em voz alta:
– Cerimonial sentido! Em continência, um !
Após três segundos, outra ordem:
– Dois!
Fazia uma meia-volta e dirigia outro brado, desta vez para o vazio:
– Boa noite!
Passou-se o tempo e veio a notícia: seu serviço fora ampliado por mais cinco anos. Que agüentasse: alguém teria que tomar conta do Campo Santo. Ele ficou, mas nunca veio a substituição e a saudade de casa aumentava. Após quinze anos resolveram trasladar os restos mortais dos pracinhas para o Rio de Janeiro. Ele vibrou: iria retornar! Terminado a transferência informaram-lhe que fora designado para encarregado do Monumento Votivo em que se tornara o antigo cemitério.
Nesse ínterim ele conheceu uma moça, e constituiu família, mas jamais esqueceu sua terra. Durante quase sessenta anos nunca deixou de hastear a bandeira no horário previsto, nem mesmo quando a neve quase que o impedia de abrir a porta do Monumento, no inverno.
Um dia após o término da singela cerimônia, em vez de guardar a bandeira numa gaveta, como sempre fazia, levou-a para casa. Estava cansado, muito cansado. Naquela noite ao se recolher para dormir, colocou-a ao seu lado, com a boina por cima. Em algum momento acordou, ou pensou que havia acordado. Apanhou a bandeira e a boina e saiu de casa. Entretanto, alguma coisa acontecera. Não reconheceu os arredores. Estava num local com muito verde e pássaros, mesmo sendo inverno. De onde veio aquilo, perguntou a si mesmo. Depois de algum tempo notou que havia um vulto a sua frente. Soube o que tinha de fazer e o fez:
– Sargento Miguel Pereira, da Força Expedicionária Brasileira, se apresentando. Cerimonial encerrado, boa noite!
O vulto lhe falou de forma gentil, enquanto recebia a bandeira que lhe era oferecida:
– Seja bem-vindo, Guardião.
Então o homem sorriu e sentiu que finalmente voltara para casa.