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Brasiliano, brava gente!
Os ceguinhos de Podenzano
Já a paz havia sido declarada quando, uma tarde, chega-nos o capitão Verejão e convida-nos para irmos visitar o colégio para crianças cegas.
Como sempre, munimo-nos dos clássicos mantimentos de que a população tanto necessitava, e fomos.
O colégio ficava à margem da estrada que liga S. Carlos a Podenzana, e se achava instalada num amplo casarão, no fundo de aprazível chácara.
Fomos recebidos pelas madres orientadoras do colégio que nos conduziram por um salão onde nos foram apresentados os alunos.
À Diretoria demos mantimentos, às crianças demos chocolates e balas.
É bem verdade que os que se afastavam de sua Pátria e de sua família, como que o coração se lhes enche de ternura e de bondade; entretanto o quadro era realmente de comover.
Os ceguinhos se aconchegavam uns aos outros, saboreando as balas com desmedido prazer, vestidos humildemente, uns sem pai, outros sem mãe.
A Diretora ao agradecer-nos as dádivas, confessou-nos que havia muito que lhes faltava tudo, inclusive sabão.
Passamos a cuidar mais de perto dos ceguinhos. Mandávamos-lhes o “show” da companhia de Petrechos do Batalhão e o capitão Arnóbio. Os ceguinhos, assim ouviram diversas canções brasileiras e mesmo algumas italianas. Pediram que cantassem a “Aurora” cujo o ritmo eles acompanhavam com as palmas. Cantamos-lhes o nosso Hino Nacional, cujas palavras lhes traduzimos.
Em certo momento colhemos a mão de uma das meninas e trouxemo-la para perto de nós. Carla tinha apenas 10 anos. Cega de nascença, viva e inteligente, conversou muito conosco, espontaneamente agradeceu-nos os chocolates e pediu-nos notícias do Brasil.
Depois, volvendo seus tristes olhos para uma direção infinita, chegou-se mais perto de nós e desse-nos, como num segredo: os “tedescos” levaram meu paizinho, será que ele volta?
Respondemos a Carla que sim e apressamos nossa retirada.
Dias após recebemos a carta que se segue:
Senhor Major
A vossa gratíssima visita, e a excepcional delicadeza que tiveste em trazer-nos, além de uma farto e boníssimo presente, a alegria de ouvir a harmonia e a doce poesia do vosso belo país, nos comoveu assim, tão profundamente, que sentimos a necessidade de oferecer a Vós o nosso agradecimento muito sincero. Quanta gratidão, quanta admiração sentimos por Vós, pelo vossos soldados, que não se desdenharam de dar a nós, pobres e humildes crianças, o nosso tempo preciso que nos fez conhecer a bondade e a Cristã irmandade da alma brasileira.
Que o bom Deus faça descer sobre Vossos caros a abundância dos seus favores celestes. Proteja, prospere a Vossa casa, a Vossa terra que nenhuma Pátria, e faça que nenhuma sombra de dor que tem dilacerado a nossa infeliz Pátria, toque de leve o benéfico Brasil que vejo de tão longe para enxugar-nos as lágrimas e trazer-nos a Paz.
Pedimo-vos para transmitirdes as nossas saudações aos Vossos, os quais, estamos certos, serão como seu grande pai, que recordaremos sempre com reconhecimento. Com o agradecimento dos Cegos.
Instituto dos Cegos – Madonna dela Bomba
Piacenza, 11-6-44
Crônicas de Guerra – Coronel Olívio Gondim de Uzêda







