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Rússia, 1941. Uma Guerra Sem Louros – Parte XIII

PARTE 13

Lidar com tais massas provoca uma pressão ímpar. A 12ª Divisão, por exemplo, capturou 3.159 prisioneiros entre 31 de agosto e 8 de outubro de 1941 o que, em termos numéricos, equivale a 25% do sua própria força efetiva que variava entre 12.000 a 13.000 homens. A 18ª Divisão, ponta de lança dos avanços do Grupo de Exércitos Centro, fez 5.500 prisioneiros do Exército Vermelho durante as cinco primeiras semanas da campanha, ao passo que o seu efetivo foi reduzido de 17.000 para 11.000 em agosto. Desta maneira, poucos soldados estavam disponíveis para vigiar os prisioneiros que totalizavam em torno de 40% do efetivo da própria divisão. As unidades Panzer à frente da infantaria tinham que manter o avanço, conter os cercos nos bolsões e guardar a massa de prisioneiros enquanto que o número de infantes e de tanques diminuía constantemente.

A enormidade deste problema pode ser comparada com o efetivo das divisões alemãs de infantaria. Ao final de julho, os alemães tinham que administrar o equivalente a 49 divisões em termos de cuidados médicos, transporte e alimentação sem contar com o seu próprio efetivo total. Uma simples divisão alemã necessitava uma logística de 70 toneladas de suprimentos por dia das quais 1/3 correspondia à alimentação. Não havia recursos logísticos necessários para manter um avanço constante e menos ainda para os prisioneiros de guerra. Pouca importância, afora o severo objetivo ideológico, foi dada ao afluxo repentino e inesperado de prisioneiros. O tenente de artilharia Hubert Becker declarou após a guerra:

“Isso era sempre um problema porque nenhum manual de guerra diz o que fazer com 90.000 prisioneiros. Como eu lhes dou abrigo e os alimento? O que se deve fazer? De repente havia 90.000 homens vindo em nossa direção em uma coluna sem fim.”

O Schütze Benno Zeiser, pertencente a uma Companhia de operações especiais, testemunhou o resultado desta negligência oficialmente endossada:

“Era como um crocodilo enorme, de uma cor marrom-terra, lentamente marchando pela estrada em direção a nós. Dele vinha um zumbido baixo, como o de uma colméia. Prisioneiros de guerra, russos, em seis filas. Nós não conseguíamos ver o final da coluna. Enquanto eles se aproximavam, um fedor terrível chegou a nós e quase nos fez passar mal; era como o mau cheiro penetrante da jaula do leão juntamente com o odor nojento de uma jaula de macaco.”

Este era um problema que não poderia ser ignorado. Mesmo que cada soldado alemão fosse designado para tomar conta de 50 homens, 18 batalhões de seis regimentos seriam necessários para administrar os 800.000 prisioneiros feitos apenas no final do mês de julho, um número que iria aumentar para 3 milhões até o final do ano. Esta necessidade não era apenas para vigiar os prisioneiros; eles precisavam de tratamentos médicos, alimentação e transporte. O tenente Knappe concluiu corretamente que se havia perdido o controle. Ele escreveu: “Eu primeiramente me perguntei se seria possível cuidar de tantos, mas como o número aumentava, eu tive a certeza de que não.”. As condições degradantes que resultaram iriam tornar realidade as intenções do planejamento ideológico conforme concebido. Knappe comentou: “Nossa linha de suprimento fez bem em conseguir manter pelo menos o Exército Alemão abastecido. Nós não poderíamos ter previsto tantos prisioneiros.”.

C O N T I N U A

Traduzido Por A.Reguenet

Rússia, 1941. Uma Guerra Sem Louros – Parte III

Presenciar a morte dos seus semelhantes gerava uma mistura emocional de rancor, tormento, medo e um sentimento de profunda perda. Werner Adamczyk se lembra de enterrar seus dois primeiros amigos de uma bateria (de artilharia). “Era o fim; eles não estavam mais lá. Eu fiquei parado lá, angustiado.” Ambos haviam voado pelos ares em pedaços quando da explosão de um caminhão de munição.

“Eu realmente sentia pena das famílias daqueles dois sujeitos. Poderia ter sido eu. Com uma crescente emoção eu visualizei as reações dos meus familiares e amigos caso aquilo tivesse ocorrido comigo. Pela primeira vez na vida eu percebi integralmente o que o amor e carinho realmente significavam.”

Zeiser sentiu que “era pior quando você via pela primeira vez (a morte) de um com o uniforme field gray… você olha para ele, deitado ali com o mesmo uniforme que você usa e você pensa que ele também tem uma mãe e um pai, talvez irmãs, ele até mesmo poderia ser oriundo da mesma região que a sua.” A exposição prolongada à realidade nua e crua do combate corrompia os códigos aceitáveis de um comportamento normal. Cadáveres se tornavam comuns. Zeiser continua:

“Com o tempo você acostuma com isso. Você na real passa a não se importar mais quando há cada vez mais e mais corpos, mesmo que estejam todos com o uniforme alemão. Então, no final, você passa a perceber que está no mesmo nível que os outros, tanto alemães quanto russos no chão e sem vida com os seus vários uniformes; você mesmo se torna então como uma daquelas criaturas as quais na realidade nunca viveram, você é apenas um relevo do solo.”

O bizarro sutilmente passava a ser a regra. Violência e morte, comportamento cruel e o esvaziar de uma vida passavam a ser procedimentos normais. Matar, tanto dentro quanto fora do campo de batalha, ficava fora desta categoria. Embora o comportamento “normal” tanto dentro quanto em torno do campo de batalha seja paradoxalmente um termo errôneo, o ato de matar seres humanos – semear a morte – era uma experiência emocional marcante. O impacto em termos psicológicos é imprevisível. Tais incertezas são a única constância neste ambiente bizarro e de rápidas mudanças. O resultado é o medo.

“Então, num dia, você vê bem de perto. Você está conversando com um dos seus companheiros quando de repente ele se dobra, cai todo contorcido e está mortinho da silva. Esse é o verdadeiro terror. Você vê os outros pisando nele, tal como qualquer um pisa em cima de uma pedra e você encara a morte do seu amigo da mesma maneira como qualquer outro que tenha morrido – aqueles mesmos os quais você aprendeu a encarar como nunca tivessem vivido, sendo apenas relevos do solo.”

Rússia, 1941. Uma Guerra Sem Louros – Parte II

 PARTE 2

A pressão psicológica ia aumentando conforme o soldado se aproximava do front. Na maioria das vezes, o primeiro sinal visível era dos inimigos mortos. Muitos daqueles jovens soldados nunca tinham visto antes um cadáver. Werner Adamczyk, pertencente a uma bateria de artilharia de 150mm perto de Minsk ficou morbidamente fascinado com o resultado do manuseamento dos seus canhões. Ele disse: “A cena repulsiva me causou uma tremedeira; mesmo assim, eu tive estômago suficiente para dar uma caminhada no entorno. O que vi era mais cruel ainda.” A guerra rapidamente eliminava o verniz provocado pela propaganda. As trincheiras em volta dele estavam repletas de soldados soviéticos mortos. “Eu fiquei arrepiado e dei meia volta para retornar ao caminhão” admitindo que “a realidade da morte era demais para se agüentar.” Ele ficou perturbado. Antes ele tinha assistido as instruções sugerindo que o soldado russo era “mal treinado e não muito inclinado a atos de heroísmo.” Na realidade:

“Ficou claro para mim que eles tinham a convicção de lutar até o fim. Se isso não era heroísmo, então o que era? Os comissários comunistas os forçaram a lutar até a morte? Eu não gostava disso. Eu não tinha visto nenhum comissário morto.”

Logo o soldado alemão percebeu que o combatente russo era infinitamente superior se comparado com aquele que os seus oficiais o fizeram acreditar. “Com este entendimento,” admitiu Adamczyk, “o meu sonho de voltar para casa logo retrocedeu.” O soldado alemão Benno Zeiser também foi surpreendido ao avistar os primeiros russos mortos. Ele refeltiu: “Há apenas pouco tempo atrás, ele era um ser humano vivo.” “Eu pensei que, depois disso, nunca iria me livrar deste pensamento.” O Kriegsmaler (artista/pintor oficial de guerra) Theo Scharf, avançando junto com a 97ª Divisão do Grupo de Exército Sul, passou “por um soldado do Exército Vermelho, aparentemente dormindo em uma vala ao lado da estrada, mas coberto no rosto e por todo o corpo por uma grossa camada de poeira.” Era o primeiro de vários corpos que ele encontraria.

Com o passar do tempo, tal familiaridade fez crescer um tipo de indiferença. Benno Zeiser via cada vez mais corpos de russos mortos. “E rapidamente eu me acostumei a encarar como relevos do solo que pertenciam à própria terra onde estavam e que provavelmente estavam ali há muito tempo.” Era bem menos perturbador vê-los como se “praticamente nunca tiveram vida.”

Tradução: A Raguenet – (WebKits)

C O N T I N U A

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