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Mascarenhas de Morais: Um Exemplo de General Brasileiro
Relato retirado do livro Crônicas de Guerra do Coronel Olívio Gondim de Uzêda, comandante do 1º Batalhão do 1º Regimento de Infantaria, Regimento Sampaio.
Relato:
O Coronel Mascarenhas de Morais já fora nosso Diretor de Ensino, quando cursávamos a Escola das Armas, já fora nosso comandante, quando éramos instrutores na Escola Militar.
Tornamos a servir sob o comando do general Mascarenhas de Morais, fora um dos motivos que nos alegraram ao sermos designados para servir na FEB.
E não erramos: onde quer que nos achássemos tínhamos sempre a nos orientar e a nos estimular o nosso dedicado chefe.
Estava nosso Batalhão aguardando ordens em Gagio Montano para o nosso primeiro ataque ao Monte Castelo quando aí foi ter ao nosso Posto de Comando o nosso General.
O inimigo nos vinha bombardeando cerradamente, e foi nesse ambiente que nosso chefe nos veio trazer suas palavras de estimulo.
As granadas caiam mais amiudamente em torno da casa onde nos achávamos e o nosso comandante em chefe, sereno e imperturbável continuava falando-nos.
Com o mesmo ardo patriótico o nosso comandante nos telefonou no dia 21-2-45, quando nosso Batalhão atacava pela segunda vez Monte Castelo, concitando-nos, estimulando-nos: que era o nosso dia, o dia do nosso Brasil, e que ele confiava em nós. O ataque estava planejado, apenas sendo montado: ia ser iniciado dentro em breve, mas o fizemos com redobrado entusiasmo ante as palavras do nosso General, o comandante que se lembrou dos subordinados aos quais confiara tão importante missão.
E foi com o coração cheio de fé que respondemos ao nosso querido chefe: o nosso Batalhão vos dará o Castelo hoje! E deu!
E o nosso General prosseguiu conosco!
Um dia achávamo-nos no inverno. A neve prosseguiu caindo impiedosamente, dificultando nossos transportes e deslocamentos, antecipando a explosão de nossas minas, arrebentado nossos fios telefônicos, fazendo ruir a cobertura dos abrigos, recrudescendo a vida nas trincheiras.
Eis que surge no Post de Comando do Batalhão o nosso General. Queria ver nossas posições. Mostramos-lhe o depósito de rações e o posto de remuniciamento e depois as posições dos morteiros.
Fomos alguns metros mais à frente de Jeep e dissemos ao nosso General que daí não podíamos prosseguir senão a pé, já porque a neve, muito profunda, dificultava o emprego do jeep, como porque o itinerário, que daí nos conduzia a qualquer elemento de fuzileiros, estava submetido às vistas e fogos inimigos. Em face disso propusemos ao nosso General, apenas mostrar-lhe a posição do canhão de 57mm que havia atirado sobre Pietra Colora e uma metralhadora de calibre 50 em defesa contra a aviação. Ele viu isso tudo e por fim repetiu: quero ver os fuzileiros. O ajudante de ordens do nosso comandante em chefe, por sinal seu genro, lançou-nos um olhar significativo. Ponderamos ao nosso General, apresentamos-lhe as mesmas razões: o itinerário era perigoso e muito cansativo, o inimigo observava nossos movimentos, a neve ali tinha mais de 80 cm de espessura.
Ele respondeu energicamente, em tom que não admitia réplica: vocês estão me fazendo mais velho do que sou! É meu deve estar com meus soldados onde eles se acharem e eu quero vê-los.
Arranjamos uma capa branca, para disfarce na neve e uma bengala ferrada para o nosso General. Lembramos-lhe que devíamos marchar distanciados, para dificultarmos os tiros e as observações dos inimigos.
Partimos à frente para mostrarmos o itinerário, e de quando em vez olhávamos para trás.
Lá nos seguia, num magnifico exemplo de cumprimento do dever, de tenacidade e de destemor, o nosso querido General!
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Será um Camelo ou um Brasileiro? A Chegada da FEB ao Teatro de Operações.
Crônica de Autoria do Coronel Uzêda relatando o desembarque e a chagada para acampamento em Pisa, onde o 2º e 3º Escalão permaneceram por mais de um mês até a ordem para entrarem na linha de combate.
Fonte: Crônicas de Guerra – Olívio Gondim de Uzêda.
Desembarcamos em Livorno, comprensados entre as malas A e B, formos levados através de um lamaçal sem fim, para uma área de reunião de caminhões, próxima do cais.
Embarcamos nos caminhões. Partimos. Atingimos uma estrada asfaltada. Destruições e mais destruições. Próximo ao Rio Arno elas se acentuam. Em todo o trajeto as crianças iam pedindo “sigarreta, cioccolatta e caramella”. Atravessamos o rio Arno num ponte provisória de vez que a primitiva fora destruída. Surge-nos à direita a característica torre inclinada de Pisa. A cidade apresenta uma parte nova e outra velha; essa é envolvida por uma muralham aquela está praticamente destruída pelos bombardeios.
Desbordamos a cidade pelo leste e nos dirigimos para oeste. Aparecem umas placas escritas: “Braziliam Expedicionary Force – Bivouac Area”, e uma seta indicando a direção.
Surgem as barracas: uma maiores, outras menores; algumas mais aperfeiçoadas, com as paredes laterais de tela e madeira, de lona no teto.
A área do nosso acampamento era, visivelmente, um magnífico parque de pinheiros. Á margem da estrada, placas marcavam o número dos Batalhões e Regimentos.
Desembarcamos na região destinada ao nosso Batalhão
As barracas alinhadas, a céu aberto, indicavam que não havia aviação inimiga;
Identificamos o acampamento. Achávamo-nos em “Tenuta de San Rossore”, o famoso parque do Rei da Itália.
As barracas maiores eram para os oficias; as menores para os praças; as especiais eram as cozinhas que, por sinal, nos foram entregues funcionando cada uma com 3 ótimos fogões à gasolina, nelas trabalhando soldados do 6º Regimento e americanos.
Ao fundo, a linha das privadas.
Existiam dois banheiros com água quente e fria para toda a área.
Tão pronto nos adaptamos, fomos alongar nosso reconhecimento. Só podíamos passear, com segurança, na área que ocupávamos e ao longo das estradas, com garantia de 3 pés à margem dessas. Tudo mais estava balizado com um cadarço branco, indicando-nos zona minada.
Entretanto, passamos a observar que nessa zona, que não podíamos penetrar, andavam uns camelos. Alguém nos informou que os colocaram ali de propósito para explodirem as minas. Seria? Na verdade, de quando em vez ouvia-se uma explosão e o nosso soldado dizia: Lá vai um camelo!
Passamos alguns dias, alguns soldados brasileiros já não respeitavam as marcas e se embrenhavam nos campos supostamente minados: distanciavam-se em busca de conquistas amorosas, de lavadeiras “de verdade”, para darem uma escapada até Pisa, para tomarem banho de mar em “Marina de Pisa”, a famosa praia dos bacanais de Mussoline.
Depois fizeram mais, penetravam nas próprias casamatas alemães para trazerem tábuas para revestirem o piso de suas barracas. E cada um se afoitava mais, embora de quando vez morresse um desses imprudentes!
E aí nos detivemos mais de um mês, adaptando-nos ao clima, à alimentação, recebendo armamento, fazendo instrução.
De quando em tempo ouvíamos uma explosão e perguntávamos a nós próprios: será um camelo ou um brasileiro?
- Preparação para o acampamento
- Transporte nos LCI americanos.
- Grupamento do 11º RI (Acervo pessoal do Veterano Rigoberto Souza)
- Vista aérea acampamento San Rossore































