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Será um Camelo ou um Brasileiro? A Chegada da FEB ao Teatro de Operações.
Crônica de Autoria do Coronel Uzêda relatando o desembarque e a chagada para acampamento em Pisa, onde o 2º e 3º Escalão permaneceram por mais de um mês até a ordem para entrarem na linha de combate.
Fonte: Crônicas de Guerra – Olívio Gondim de Uzêda.
Desembarcamos em Livorno, comprensados entre as malas A e B, formos levados através de um lamaçal sem fim, para uma área de reunião de caminhões, próxima do cais.
Embarcamos nos caminhões. Partimos. Atingimos uma estrada asfaltada. Destruições e mais destruições. Próximo ao Rio Arno elas se acentuam. Em todo o trajeto as crianças iam pedindo “sigarreta, cioccolatta e caramella”. Atravessamos o rio Arno num ponte provisória de vez que a primitiva fora destruída. Surge-nos à direita a característica torre inclinada de Pisa. A cidade apresenta uma parte nova e outra velha; essa é envolvida por uma muralham aquela está praticamente destruída pelos bombardeios.
Desbordamos a cidade pelo leste e nos dirigimos para oeste. Aparecem umas placas escritas: “Braziliam Expedicionary Force – Bivouac Area”, e uma seta indicando a direção.
Surgem as barracas: uma maiores, outras menores; algumas mais aperfeiçoadas, com as paredes laterais de tela e madeira, de lona no teto.
A área do nosso acampamento era, visivelmente, um magnífico parque de pinheiros. Á margem da estrada, placas marcavam o número dos Batalhões e Regimentos.
Desembarcamos na região destinada ao nosso Batalhão
As barracas alinhadas, a céu aberto, indicavam que não havia aviação inimiga;
Identificamos o acampamento. Achávamo-nos em “Tenuta de San Rossore”, o famoso parque do Rei da Itália.
As barracas maiores eram para os oficias; as menores para os praças; as especiais eram as cozinhas que, por sinal, nos foram entregues funcionando cada uma com 3 ótimos fogões à gasolina, nelas trabalhando soldados do 6º Regimento e americanos.
Ao fundo, a linha das privadas.
Existiam dois banheiros com água quente e fria para toda a área.
Tão pronto nos adaptamos, fomos alongar nosso reconhecimento. Só podíamos passear, com segurança, na área que ocupávamos e ao longo das estradas, com garantia de 3 pés à margem dessas. Tudo mais estava balizado com um cadarço branco, indicando-nos zona minada.
Entretanto, passamos a observar que nessa zona, que não podíamos penetrar, andavam uns camelos. Alguém nos informou que os colocaram ali de propósito para explodirem as minas. Seria? Na verdade, de quando em vez ouvia-se uma explosão e o nosso soldado dizia: Lá vai um camelo!
Passamos alguns dias, alguns soldados brasileiros já não respeitavam as marcas e se embrenhavam nos campos supostamente minados: distanciavam-se em busca de conquistas amorosas, de lavadeiras “de verdade”, para darem uma escapada até Pisa, para tomarem banho de mar em “Marina de Pisa”, a famosa praia dos bacanais de Mussoline.
Depois fizeram mais, penetravam nas próprias casamatas alemães para trazerem tábuas para revestirem o piso de suas barracas. E cada um se afoitava mais, embora de quando vez morresse um desses imprudentes!
E aí nos detivemos mais de um mês, adaptando-nos ao clima, à alimentação, recebendo armamento, fazendo instrução.
De quando em tempo ouvíamos uma explosão e perguntávamos a nós próprios: será um camelo ou um brasileiro?
- Preparação para o acampamento
- Transporte nos LCI americanos.
- Grupamento do 11º RI (Acervo pessoal do Veterano Rigoberto Souza)
- Vista aérea acampamento San Rossore
O Conquistador Solitário de Monte Castello – O Bravo Soldado Brasileiro!
A mistura racial que forjou nosso país ao longo dos séculos, também enriqueceu nosso espírito de sobrevivência e nossa alma de guerreiro, basta para tanto observar nossa história para contemplar o quanto o povo brasileiro é guerreiro. Para vislumbrar as revoltas armadas nas capitanias hereditárias, nas províncias imperiais e em qualquer tipo de acontecimento que exigisse do brasileiro às armas, ele lá estava! Não somos um povo covarde!
A Força Expedicionária Brasileira é um exemplo exato dessa condição. Foi uma cópia sociológica fiel do seu povo, com suas virtudes e suas insuficiências. O soldado da FEB foi considerado em grande número abaixo do padrão em comparação a outros exércitos, por sua desnutrição, baixa instrução e outros problemas que, no contexto geral, eram a tipificação do Povo Brasileiro, pois o Exército Brasileiro é o espelho de seu povo.
Contudo o raquítico e desnutrido soldado brasileiro no combate se agigantou. Mostrou de forma inequívoca a bravura de seu povo.
Citando apenas um, entre tantos exemplos de bravura que foram demonstrados nos campos de batalha da Itália, contamos a História de um Herói, João Ferreira da Silva que, como não poderia deixar de ser um “JOÃO” e um “DA SILVA”, representou o melhor de sua Pátria. João Ferreira da Silva foi considerado o CONQUISTADOR SOLITÁRIO DE MONTE CASTELLO. Nas operações de 12 de dezembro de 1944, mesmo com ordem de retrair o I Batalhão do I Regimento de Infantaria, sua unidade, o soldado do Estado de Sergipe continuou a subir o Monte. Não se teve notícias do mesmo e ele foi considerado como “Desaparecido em Combate”, mas quando a Tomada de Monte Castello foi concretizada em fevereiro de 1945, o corpo do Soldado João Ferreira da Silva foi encontrado muito além das linhas brasileiras de 12 de dezembro. Abatido com um tiro, ao seu redor corpos de inimigos mortos. Ninguém saberá como aconteceu a guerra solitária desse herói brasileiro, com quantos ele lutou para chegar atrás das linhas inimigas. Seu corpo foi conservado pelo rigoroso inverno italiano, e permitiu que o tempo parasse no exato instante do sacrifício, para que servisse de testemunha o sacrifício pelo seu país.
Temos que divulgar o quanto João Ferreira da Silva é importante para a história de nosso país. Sabe o motivo? Essa geração só tem notícia de imoralidade pública e desrespeito com povo brasileiro e o com o próprio Brasil.
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Segue abaixo dois Artigos sobre o João Ferreira da Silva. O primeiro é do autor Joaquim Xavier da Silveira e o segundo é do seu comandante o então Major Olívio Gondim de Uzêda em uma belíssima crônica a seu comandado, vale a pena sentir o orgulho do Comandante de um dos Heróis mais valentes da Força Expedicionária Brasileira.
“Perto do Monte Castello, foi encontrado o corpo de um soldado solitário morto por um tiro e que estava bem distante dos pontos mais avançados que a trapa brasileira atingira nos ataques do dia 12 de dezembro. Em sua arrancada, ele transpôs as linhas inimigas até ser abatido. Que impulso moveu este soldado, que atos de coragem e heroísmo praticou? Não se poderá saber nunca sua história, porque em sua volta só restaram mortos. A neve que conservou o corpo na posição exata em que tombou à frente do inimigo, quis resgatar o silêncio sem história esse exemplo sacrifício e da coragem do infante brasileiro. Identificado como José F. da Silva, da 3ª Companhia do I Batalhão do Regimento Sampaio, ele bem mereceu o título que lhe deram posteriormente: Conquistador Solitário de Monte Castello.” – A FEB por um Soldado – Joaquim Xavier da Silveira
PARA O SOLDADO JOÃO FERREIRA DA SILVA
Dizem que o céu é o lugar dos bons e dos justos. Deve ser também dos heróis, dos que sabem morrer como você, com galhardia e com bravura, na defesa de sua Pátria. É lá, pois, que você merece e deve estar.
Para você essa última homenagem do seu comandante de Batalhão. Que ela chegue ao seu destino.
O nosso Batalhão não conseguiu lhe acompanhar. Por uma série de fatores adversos, ficamos a meio caminho e tivemos que recuar para onde partimos. Por medo, por covardia? Não! Você sabe que não! Você viu quantos dos seus companheiros tombaram no meio da jornada; você não os viu recuar.
Eles não o abandonaram! Eles recuaram, depois, por ordem. Recuaram para depois voltar. E voltaram para se encontrar com você aí, no alto deste Monte, onde você teve suprema glória de ser o primeiro soldados brasileiro a chegar.
Encontramos seu corpo ainda intacto sob o manto protetor da neve. Como que você sabia que voltaríamos, e todos nós gostamos que você testemunhasse que voltássemos; que voltássemos para buscar você, que voltássemos para com você darmos à nossa Pátria a glória de tão soberba vitória: A CONQUISTA DO MONTE CASTELLO.
- Patrulha Brasileira
- Monte Castello ao fundo
Cel. Uzêda



































