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Eu Sou a Poderosa Artilharia…
Aos meus amigos e verdadeiros soldado brasileiros, Coronel Lima Gil, Major Adler, Tenente Monteiro, Tenente Cid e outros grandes Artilheiros, segue uma crônica de um dos mais respeitados infantes que já passaram pelas fileiras do Exército Brasileiro em homenagem a Poderosa Artilharia!
Nossa Artilharia
O emprego do observador avançado na artilharia, isto é, um tenente dessa arama junto aos comandantes de Companhias de Fuzileiros, fez com que nossos da arma irmã sentissem mais de perto o valor do Infante. A criação das Companhias de Obuses nos Regimentos de Infantaria e seu emprego pelos próprios infantes, provaram que, para estes a rigor, não há grandes segredos na técnica do tiro de Artilharia.
A bravura com que suportou o Capitão Raul, oficial de ligação da Artilharia junto ao nosso Batalhão, ante o cerrado bombardeio inimigo ao Posto de Comando de combate do batalhão, quando do nosso primeiro ataque a Monte Castello; a bravura com que os observadores avançados de Artilharia sempre se portaram dos comandantes das Companhias de Fuzileiros deste Batalhão, quando dos nossos ataques, mostraram-nos perfeitamente que nossos artilheiros são tão bravos quantos os mais bravos infantes. O próprio convívio continuado de infantas e artilheiros. Em todas as fases do combate, uniram-nos sensivelmente.
Por outro lado a justa simpatia de que se gozava o comandante da Artilharia Divisionária, o General Cordeiro da Farias, no meio dos infantes, muito concorreu para que essa união se tornasse definitiva. Para nós, essa união foi sempre dos maiores benefícios que essa guerra trouxe para o nosso Exército Brasileiro.
Vejamos uma justificativa do que dissemos: Certo dia, nosso Batalhão ocupava o setor Morro dell Oro x Roca Pitigliana, quando o comando do Regimento nos informou constar que o inimigo se havia retirado e, como consequência, o comando da nosso Divisão ordenava mandássemos imediatamente patrulhas ocupar as posições inimigas e aí aguardaram ordens, talvez para prosseguirem. Essas patrulhas deviam partir imediatamente.
Eram 9 horas. Em fase missão recebida, o comando do Batalhão resolveu enviar 2 patrulhas: a principal a cargo da 1ª Companhia e uma outra, apenas para distrair do inimigo, a cargo da 3ª Companhia. A principal, com efetivo de uma pelotão de Fuzileiro, uma seção de metralhadoras leves, 3 sapadores devia progredir na direção de “Oratório dello Sassone” e procurar atingir o Morro “Della Vedetta”; a outra com dois grupos sob o comando de uma oficial devia progredir na direção de Cá de Giansimone e procurar atingir a localidade de Pietra Colora. O Batalhão contava com o apoio do Grupo de Artilharia do Coronel Da Camine de seus próprios fogos, inclusive três metralhadoras de calibre .50, sob o comando do bravo tenente Carlos Pinto, e um canhão 57, do não menos bravo tenente Paiva.
O comandante do Batalhão ai se deslocando para a morro Dell’Oro onde coordenaria pessoalmente o movimento da patrulhas, quando surge no Posto de Comando do Batalhão o ulistre ortopedista da FEB, professor Caio Amaral, que vinha à frente, dizia ele, “para que não regressasse ao Brasil sem ver a guerra”. O comandante do Batalhão informou o que se estava passando e convidou-o para ir à frente, ver a guerra mais de perto. E lá se foram! Com eles foi também o Dr. Camara. No Morro Dell’Oro encontraram o destemido capitão Everaldo, comandante da 1ª Companhia. Mais ou menos às 10 horas partiram as patrulhas: a da 1ª sob o comando do tenente Oliveira Lima e a da 3ª sob comando do tenente Romeu. Essa, ao atingir a região de Bordigone, encontrou um emaranhado de minas. Aí se detém pra retirá-las e recebe forte rajadas de metralhadoras. A da 1ª Companhia, ao atingir Oratório dela Sassone, é recebida com rajadas de metralhadoras pela esquerda. O inimigo, ante a ameaça de ser envolvido, tenta se retirar. Os 3 primeiros que surgem são mortos pelos próprios sapadores. Estavam acompanhando tudo pelo rádio. O capitão Everaldo incentivou o tenente Oliveira Lima para que prosseguisse e deixasse alguns elementos a fim de vasculhar Mela.
Quando o pelotão progride mais alguns metros, tentando galgar um espigão existente entre o Oratório Della Sassone e Geleto, é detido por tiros que partem de diversas direções, de frente e dos flancos. Dividimos essas resistências entre os nossos morteiros 81 e o grupo de Artilharia que nos apoiava.
Nessa altura, nem o Dr; Caio Amaral escapou: já estava funcionando direitinho como agente de transmissão, por sinal otimamente. Agora o próprio comandante do batalhão incentivava o tenente para que progredisse sob o apoio de fogos que lhe estava sendo dado, para que, pelo menos, mandasse buscar os documentos dos mortos inimigos. O tenente respondeu que o pelotão encontrara em toda a frente rede de minas, e que não podia usar suas armas automáticas porque se enterravam na neve.
O comandante do Batalhão e o capitão Everaldo prosseguiam incentivando o Pelotão: que aos sapadores tirassem as minas e que o conjunto prosseguisse sob o apoio de fogos que lhe seria renovado.
Estavam os sapadores empenhados em sua missão, quando vimos nitidamente rebentar no ar, na altura das linhas inimigas um foguete de fumaça amarelo. Já era nosso conhecido: era o sinal de contra-ataque inimigo.
E o fogo inimigo recrudesceu. Já não eram só as metralhadoras, também vinham granadas de morteiros.
Compreendemos a situação. Devíamos fazer retroceder a patrulha. Mas como, se ela estava com seu itinerário de regresso cortado por ajustados fogos de metralhadoras inimigas?
Nossos recursos de fogos estavam todos empenhados, inclusive 57 e as metralhadoras de calibre .50. Não tínhamos como bater Cá de Giansimone, de onde devia partir o contra-ataque inimigo, nem como neutralizar as últimas metralhadoras inimigas que se tinham revelado.
Mas, era para nós uma questão de honra salvar nossa Patrulha! Toda sim! Para que não ficasse como jamais ficou, um só homem do nosso Batalhão em mãos inimigas!
Comunicamos o fato ao Regimento; pedimos mais artilharia: demos os pontos a bater.
A hora combinada vimos um colar de fogos se sobrepor às resistências inimigas.
As balas traçantes do canhão 57 e das metralhadoras cortavam o espaço. Por sobre nossas cabeças era um sibilar sem fim! Eram nossos bravos artilheiros que vinham nos ajudar e salvar nossos homens. De quando em vez ouvia-se um sibilar mais forte: era o 155 do Grupo Escola do Rio que batia, com uma precisão de tiro ao alvo, a localidade de Cá de Giansimone.
E nós, infantes, sentimos que o apoio que nos era dados pela nossa valorosa artilharia não era apenas uma “missão cumprida”, tecnicamente perfeita. Não! Os seus tiros levavam o influxo dos corações dos artilheiros que vinham colaborando com seus irmãos infantes na causa comum da defesa da nossa Pátria.
Fonte: Coronel Olívio Gondim de Uzêda – Crônicas de Guerra
A Artilharia da Força Expedicionária Brasileira
Quando a 2ª guerra mundial começou, o Exército Brasileiro acabara de receber da Alemanha uma primeira remessa de peças de artilharia de 75 mm fabricada pela Krupp, que na sua época era o que havia de mais moderno em matéria de Artilharia de Campanha. O novo sistema biflecha permitia aumentar o seu movimento em direção cerca de 10 vezes mais, o número variável de cargas dava-lhe maior facilidade de manuseio e, o seu carregamento semiautomático aumenta em muito a sua capacidade de tiro. O restante do pedido ficou retido no porto de Lisboa proibido de prosseguir viagem por pressão do governo da Inglaterra.
Com a entrada no Brasil na guerra, recebemos obuses de 105 e 155 tracionados a motor e que já apresentavam sobre o material alemão algumas novidades, sendo mais evidentes a utilização de trajetórias curvas, o aumento do calibre e o fato de serem auto rebocados. Nessa época, a variação da nomenclatura militar já motivava alegres comentários por parte de nossa tropa e, como os Regimentos organizados se chamavam ROAuR(Regimento de Obuses Auto Rebocáveis), foram apelidados de Auauau( os praças diziam: “Pertenço ao 1º ou 2º Auauau).
A Divisão de Infantaria Expedicionária, que se preparava na cidade do Rio de Janeiro comportou logo logo uma Artilharia Divisionária constituída por três grupos de 105 mm e um de 155 mm. Vale ressalvar que o choque entre novas e velhas ideias surgiram, mas rapidamente a doutrina americana predominou.
Com o embarque do 1º escalão da Força Expedicionária Brasileira, seguiu o II/1º ROAuR, sob o comando do competente Coronel da Camino, tendo como oficial de operações o Major Ramiro Gorreta Júnior. Do seu aquartelamento em Campinho, seguiu a pé para a estação ferroviária de Madureira, onde embarcou em direção ao Porto do Rio de Janeiro.
Chegando na cidade de Nápoles(Itália), ficou acampada na cidade de Bagnoli e pouco tempo depois seguiu por rodovia e via férrea para a milenar cidade de Tarquínia, onde recebeu seu material e armamento. Da cidade de Tarquínia, deslocou-se em caminhões para a cidade de Vada, em marcha noturna.
Neste novo acampamento, um grande parreiral em época de colheita, iniciou intensos preparativos para estar em condições de apoiar o 6º RI, que seria em breve lançado à luta. De toda a sua dotação, só não recebeu nesta oportunidade, seus L-4(aviões de ligação e observação).
No dia 13 de Setembro de 1944 deslocou-se par a cidade de Ospedaleto, estando próximo o batismo de fogo. No dia 15 de Setembro entrou em posição na Região de Monte Bastione, em apoio ao 6º RI, e às 14:22 horas do dia 16,lançou o primeiro obus contra o inimigo. Foi um momento de grande emoção para todos, quando o barulho do canhão assinalou a abertura das hostilidades.
O fato das operações iniciais da FEB terem se caracterizado por ser uma autêntica marcha para o combate, a 1ª Bateria realizou um lance no dia 17 de Setembro, a fim de assegurar a continuidade do apoio, ocupando posição na Região de Le Corti. Em seguida o grupo deslocou-se em direção a V. Lippi, C. D’Babano e Torcigliano, e durante o este mês foram utilizdas 3.182 granadas.
Aos primeiros dias do mês de Outubro de 1944, enquanto a 2ª Bateria permaneceu apoiando as ações do 6º RI, a maioria do grupamento seguiu para a Região de Pietrasanta para reforçar a Artilharia que apoiava a 92ª Divisão Americana(conhecida como Cabeça de Búfalo, que era constituída apenas por negros), que em vão, tentava prosseguir no setor costeiro.
Da cidade de Pietrasanta o grupo retornou para apoiar a tropa brasileira, ocupando posição ao Norte de Borgo a Mozzano, na Região de Cardozo. Durante este deslocamento, através de uma picada que era desaconselhada a sua utilização por parte dos oficiais que fizeram o reconhecimento do terreno, que nosso material ficou dois dias atolado na lama.
O chuvoso mês de Outubro terminou com o grupo na cidade de Fornacci di Barga, apoiando a Infantaria Brasileira na conquista da cidade de Lama di Sotto. O contra ataque alemão, visando proteger a posição chave de Castelnuovo di Garfagnana, encerrou o ciclo operacional de Destacamento Brasileiro no Vale do Sercchio. O mês de Outubro consumiu 6.630 tiros.
No dia 5 de Novembro de 1944, o Grupo já se encontrava no novo setor do Reno, ocupando seu PC em um sobrado nas proximidades da ponte de Silla, que foi impiedosamente martela pela artilharia inimiga. Neste sobrado, que apresentava numerosos buracos feitos por granadas, o Posto de Comando sofreu um grande ataque de metralhadora de um avião inglês, levando um motorista americano a falecer.
Desde o dia 1º de Novembro de 1944, o Grupo passou ao controle da Divisão de Infantaria Divisionária, e no dia 15 foi incorporado à AD/1E. Os outros três grupos de Artilharia, chegados com o 2º e 3º escalões da FEB, entraram em ação beneficiando-se da experiência do II/1º ROAuR.
Do relatório do Grupo, mandado confeccionar pelo S3, o Major Ramiro Gorreta Júnior, pode-se extrair os seguintes dados:
“O II/1º ROAuR cumpriu, de 15 de Setembro a 31 de Outubro de 1944, cerca de 1500 missões de tiro, sendo que 847 delas com observação terrestre, 21 com observação aérea, e 683 não observadas.
Estas missões se repartiram em regulações, tropas, inquietações, metralhadoras, morteiros, baterias, propaganda, pontos fortes, postos de comando, postos de observação, veículos, tiros de cegar, áreas de bivaque, pontos de reabastecimento, pontes, tiros de deter, barragem defensiva, barragem fixa, bombardeio fixo, preparação de contra ataques”.
Os artilheiros do V Exército Americano nos advertiram das manhas inimigas, que procurava atingir a retaguarda dos infantes em progressão, para fazer crer que eles estavam sendo atingidos por fogo amigo.
A Artilharia da Força Expedicionária Brasileira, sob o comando do General Osvaldo Cordeiro de Farias, somente começou a atuar como Artilharia Divisionária nas ações do Vale do Rio Reno e da Ofensiva da Primavera, apoiando o bravo infante da defensiva gelada, na demolição das linhas inimigas e na fulminante perseguição ao sul do Rio Pó. Fica claro que os riscos corridos pelos artilheiros foram incomparavelmente menores que os dos infantes das companhias de fuzileiros, mas foi um trabalhoso e duro, igualmente importante para a vitória ante o inimigo.
Enquanto o pé de poeira dormia velado pelos sentinelas, o artilheiro estava a postos, martelando sem cessar os pontos assinalados pelo infante, quase sempre assustado e nervoso nos fox-hole.
“A Artilharia é a Arma da vigília”
É à noite que ela se remunicia, que se desloca, que prepara as posições, que estende seu manto protetor sobre a Rainha da Armas.
No dia 15 de Novembro de 1944, o comandante da Artilharia Divisionária, jubilosamente anunciou a sua entrada em ação:
“Nossa Artilharia, com a maioria dos seus meios, entra hoje em linha. Esta data deve, por todos nós, ficar perfeitamente assinalada, porque representa a objetivação do nosso grande desejo de sermos efetivos combatentes para a feitura de um mundo melhor e mais justo.
O estágio de treinamento na Itália foi dispensado e devemos caracterizar este fato, porque é ele o prêmio do nosso esforço no Brasil de preparação para a guerra.”.
Abaixo, transcrevemos o item relativo à Artilharia numa das ações da FEB – 3º Ataque ao Monte Castelo:
ARTILHARIA
- 1. Missão
- ações em proveito do dispositivo de ataque ao Monte Castelo e do dispositivo de defesa dos subsetores Leste e Oeste.
- participação eventual na contrabateria a executar pela Artilharia do IV Corpo.
- 2. Repartição
- apoio direto
Ao I/1º RI – I grupo
Ao III/11º RI – II grupo
Aos Subsetores Leste e Oeste – III grupo
- ação de conjunto – IV grupo
- reforço – A artilharia do IV Corpo reforçará as ações em proveito do ataque.
3. Fogos
- preparação do ataque terá por fim a neutralização das posições alemãs, particularmente as de Monte Castelo e permitir a melhoria de base de partida, com duração de 40 minutos.
- apoio imediato entendimento entre os comandantes de grupos e batalhões apoiados e desencadeamento a pedido.
- proteção conquista o objetivo intermédio do Grupamento: de H até + 15 sobre Monte Castelo, Della Caselina e Cota 1036.
- conquista do objetivo final: de H 1 até H 1 + 15 em La Serra e Cota 1036.
- e H ! até H 1 + 30 no Morro de La Torracia e Salciccia
- de deter após conquista de 01 após conquista de 02 face aos subsetores Leste e Oeste.
“Este post é dedicado ao Veterano Manoel Clementino de Morais(In Memoriam) e ao Cel Art Ernesto de Lima Gil”
- Cel Art Ernesto de Lima Gil
- Manoel Clementino de Morais(In Memoriam)















