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Fotos & Detalhes Históricos – Especial FEB – Parte V
Ainda em homenagem ao efetivo da FEB que deixou sua terra para lutar nos campos da Itália e, em especial, para os quase quinhentos que lá pereceram, segue mais um tributo do acervo da ANVFEB-PE, cedidos gentilmente por Rigoberto Souza Júnior – Secretário – Ad hoc.
Os Veteranos da FEB e os Combatentes pela FEB de HOJE
Vários artigos e livros já foram publicados sobre o esquecimento dos nossos soldados após a Segunda Guerra Mundial. Embora ainda haja muito para se falar sobre a falta de identidade histórica dos brasileiros, gostaríamos hoje de dissertar sobre o outro lado da moeda. Sim ela existe!
Enquanto pensamos que nosso passado está jogado ao poço profundo do esquecimento, há de forma quase velada, verdadeiros guerreiros que lutam uma batalha injusta contra esse inimigo voraz: o esquecimento. Nesta batalha muitas vezes perdem terreno, outras vezes avançam sobre o inimigo, mas nunca deixam de guerrear.
Nos últimos meses tivemos o prazer de compartilhar e acompanhar as batalhas de alguns desses bravos soldados, e por uma questão de justiça, quero nominar alguns deles.
O melhor soldado no campo de batalha é aquele que luta pelo que acredita, e o senhor Rigoberto Júnior é um desses soldados. Não luta pelo o que não conhece, luta pelo o que tem conhecimento de causa. É um ávido leitor da FEB, e se não é um historiador acadêmico, o é na prática. Secretário da ANVFEB-PE Rigoberto, como já afirmamos em outro artigo, é o Braço Operacional da associação. Mas ele é muito mais que isso! Também é zeloso e cuidadoso com os próprios veteranos; preocupado com a saúde de cada veterano, com deslocamentos, alimentação, acomodação e/ou qualquer coisa que esteja relacionado ao bem estar dos nossos guerreiros. Leva sobre seus ombros a responsabilidade de cuidar de tão honrosa tropa!
Sargento Alessandro dos Santos é a cara do Exército Brasileiro moderno. O Santos é Mestre em História e sua tese: “A Reintegração social dos Ex-Combatentes da Força Expedicionária Brasileira (1946-1988)”, não é apenas uma dissertação de mestrado, mas um “grito” para os que ainda insistem em ignorar a história de vida dos membros da FEB antes, durante e depois do conflito. E Santos o fez com a maestria acadêmica que em nada deixa a desejar para uma publicação literária de primeira linha.
Sargento Bruno Ribeiro é um entusiasta e estudioso da FEB. Trocando algumas palavras percebemos imediatamente a vibração de um soldado que vestiu a farda, colocou a faca nos dentes e encara o inimigo de frente, mesmo sendo de artilharia, luta como um infante. Licenciando em História, tem objetivos claros para a FEB e, a partir deles, teremos uma produção acadêmica de qualidade. Melhor que isso, teremos um professor comprometido com a divulgação das ações da Força Expedicionária Brasileira nos campos da Itália e um especialista nas operações de u-boots no atlântico sul, quer mais?
Obviamente ainda há alguns nomes que irei citar, como a do Coronel Lima Gil comandante do 7º GAC e a do Major Adler Comandante da 14ª Bateria de Artilharia Antiaérea, esses oficiais têm um compromisso histórico no comando de suas unidades que, diga-se de passagem, unidades com um rico passado, reforçando para a tropa o sentido da importância de se reverenciar os sacrifícios de homens para com a sua pátria.
E para encerrar, vou citar o Tenente-Coronel Monteiro, mesmo com pouco contato, já é fácil perceber a enorme contribuição desse oficial nas atividades da associação. Com isso presta um grande serviço, não aos integrantes da FEB, mas a memória do povo pernambucano, e se torna um oásis de reconhecimento no enorme deserto de esquecimento. Deserto esse que é nosso maior inimigo.
A todos os meus sinceros agradecimentos!
Uma “Via Sacra” Diferente! – Memórias de um Soldado Brasileiro
Estávamos na Itália como participante da Força Expedicionária Brasileira.
Eu pertencia ao 1° pelotão da 2ª companhia do Regimento Sampaio (1° RI). Na sexta-feira da paixão em 1945, o meu pelotão, comandado pelo então 1° Tenente. Fredímio Trota foi designado para formar uma patrulha noturna afim de verificar se um casarão (tipo casa de chácara) que havia na “terra de ninguém”, encosta de morro onde estavam os alemães bem à nossa frente, estaria sendo usada ou não pelos alemães como posto de observação de nossas posições. Como sabemos, as posições tanto nossa como as do inimigo eram situadas seguindo os caprichos das sinuosas linhas de cristas das elevações que se contrapunham. Em linha reta, ora estavam próximas ora se distanciavam um pouco, mas as variações eram cerca de 300 a 500 metros. Para a sortida em patrulha, a coisa mudava de figura, tínhamos que descer ao fundo do vale que os separava e em seguida galgar as encostas em direção às linhas alemãs, multiplicando as distâncias. Assim a patrulha saiu às 20 horas e como de costume, caminhávamos pé ante pé. Não se dava uma palavra, Apenas um cochicho aqui outro ali e comunicação por gestos, pois andávamos bem próximos um dos outros, cuidando para que o companheiro não se desviasse da rota. Nessas condições leva-se horas para percorrer 400, 500 metros, um tempo extraordinário… Fomos chegar ao objetivo passava da meia noite.
Chegamos, cercamos a cara (era grande) e usando pequenas lanternas em formato de cachimbo, verificamos cômodo por cômodo. Encontramos vestígios, gorros alemães, pequenos restos de comida (pão), mas alemão mesmo, nenhum. Após isso todos foram se comunicando em vozes mais altas. Houve a ordem de retrair. O retorno era por uma estradinha carroçável (quase um carreiro coberto de grama e arbusto).Fomos regressando. Comunicação feita pelo rádio. “Não foi encontrado inimigo na posição tal!” e como é natural, ninguém pode evitar isso, houve aquele suspiro, um alívio. Quando estávamos a uns 150 metros da casa as metralhadoras alemãs entraram em ação (eles tinham posto “lurdinhas” em posições bem distantes da casa em um monturo de folhas e lixo), havíamos verificado apenas a casa e pagamos o preço…
As descargas pegaram o pelotão em cheio, a caminhada em declive e a rapidez em que nos jogámos no solo fez o milagre de não ter havido baixas. Mal havia deitado e percebi que no outro lado da estradinha havia uma pequena valeta para escoamento das águas. Resolvi atravessar a estrada em busca de abrigo melhor. Atravessei a estrada num lance com as balas traçantes passando entre minhas pernas e cai do outro lado. Junto a mim um soldado do meu grupo, Joaquim, também nordestino acompanhou-me. Cai na valeta e ele junto. A partir daí o soldado passou a fazer uma chamada de santos… Ele não pedia socorro (tal como: Me ajude, me proteja, etc) ele só dizia São Benedito, São Sebastião, São Luiz, São Francisco, São Leão. Começou a desfiar um rosário de nomes de santos que eu até hoje não sei se existem.
Em seguida às “lurdinhas”, os alemães mandaram uma chuva de monteiros que por terem usado “alça longa” caiu à nossa frente, a considerável distância fazendo o declive nos proteger! Embora tenha “barrado” o nosso retorno por bastante tempo. Aguardamos imóveis no terreno e cessada a refrega regressamos silenciosos chegando quase ao amanhecer com a missão cumprida, pois essas armas alemãs foram devidamente mapeadas para serem neutralizadas durante a “operação encore” (ofensiva geral sobre os alemães) que se desencadearia brevemente.
Este foi o meu exercício de “Via Sacra” na paixão de 1945. Claro que me obstive de falar sobre Joaquim com os companheiros para não haver as inevitáveis gozações.
Souza
(Recife, Páscoa de 2005, 60 anos depois)
Nome: Severino Gomes de Souza
Graduação na FEB: Terceiro Sargento
Funções: Comandante de Grupo de Combate
Comandante de pelotão (48 horas – Monte Castelo)
Orientador de Pelotão
Posto Atual: Capitão Reformado
Formação Civil: Administração de Empresas (Diploma UFPe)
Condecorações:
Cruz de Combate
Medalha de Campanha
Medalha de Guerra
Medalha de Tempo de Serviço
Medalha Monte Castelo
Medalha Mascarenhas de Morais
Medalha Asp. Mega
Residência Atual:
Candelária – Natal-RN
Centenário de Nascimento do Sgt Max Wolf Filho
Nascido em Rio Negro – PR, em 29 de julho de 1911, era filho de Max Wolff, descendente de alemães e de D. Etelvina, natural de Lapa-PR. Até os 4 (quatro) anos viveu as tensões da Guerra do Contestado. Aos 5 (cinco) anos, durante a Primeira Guerra Mundial, freqüentou a escola em Rio Negro (PR). Aos 11 (onze) anos já era o principal auxiliar de seu pai na torrefação e moagem de café. Aos 16 (dezesseis) anos passou a trabalhar como escriturário de uma companhia que explorava a navegação no Rio Iguaçu. Nas horas de folga, juntava-se aos carregadores para ensacar erva-mate, carregar e descarregar vapores.
Serviu ao Exército pela primeira vez, se alistando no então 15ºBC, em Curitiba, hoje 20ºBIB, onde participou da Revolução de 1930. Transferido para o Rio de Janeiro, combateu a Revolução de 1932 no Vale do Paraíba. Foi professor de Educação Física e Defesa Pessoal. Ingressou na Polícia Militar do Rio, então Distrito Federal, sendo Cmt da Polícia de Vigilância.
Na época da 2ª Grande Guerra Mundial, apresentou-se voluntariamente, tendo sido designado para a 1ª Cia, do 1°Btl do já tradicional 11°Regimento de Infantaria, em São João Del Rei. Contava ele com 33 (trinta e três) anos de idade.
Ingressou na FEB como 3° Sargento, desde cedo tornou- se muito popular e querido, dada as suas atitudes desassombradas e a maneira carinhosa e paternalista com que tratava seus subordinados (apelidado de carinhoso) com o passar do tempo, passou a ser admirado não só pelos seus camaradas, mas pelos superiores tanto da FEB como do V Exército de Campanha americano, pelas suas inegáveis qualidades.
Todas as vezes que se apresentava para missões dificeis a serem cumpridas, lá estava o Sgt Wolff se declarando voluntário, principalmente participando de patrulhas. Fazia parte da Companhia de Comando e, portanto, sem estar ligado diretamente às atividades de combate, participou de todas as ações de seu Batalhão no ataque de 12 de dezembro a Monte Castelo, levando, de forma incessante, munição para a frente de batalha e retornando com feridos e, na falta deste, com mortos. Indicado por sua coragem invulgar e pelo excepcional senso de responsabilidade, passou a ser presença obrigatória de todas as ações de patrulha de todas as companhias, como condição indispensável ao êxito das incursões. Um desses exemplos está contido no episódio em que o General Zenóbio da Costa, ao saber do desaparecimento do seu Ajudante-de-Ordens, Cap João Tarciso Bueno, que fora colocado à disposição do escalão de ataque, pelo General, por absoluta falta de recompletamento de oficiais, ordenara ao Cmt do Btl que formasse uma patrulha para resgatar o corpo do seu auxiliar. O Cmt adiantou ao emissário que a missão seria muito difícil, mas que tentaria. Para tanto, sabedor que só um Wolff poderia cumpri-la, o chamou, deu a ordem e ouviu do Sgt Wolff, com a serenidade, a firmeza e a lealdade que só os homens excepcionalmente dotados podem ter: ”Coronel, por favor, diga ao General que, desde o escurecer, este padioleiro e eu estamos indo e voltando às posições inimigas para trazer os nossos companheiros feridos. Faremos isto até que a luz do dia nos impeça de fazer. Se, numa dessas viagens, encontrarmos o corpo do Capitão Bueno, nós o traremos também”. Não logrou o Sgt Wolff trazer o corpo do Cap Bueno que, apenas ferido, havia sido resgatado por um soldado, mas ainda lhe foi possível, naquela madrugada, salvar muitas outras vidas.
Tais qualidades o elevaram ao comando de um pelotão de choque, integrado por homens de elevados atributos de combatente, especializado para as missões de patrulha, que marcharia sobre o acidente capital “Ponto cotado 747”, ação fundamental nos planos concebidos para a conquista de Montese. Foi-lhe lembrado sobre a poupança da munição para usá-la no momento devido, pois, certamente, os nazistas iriam se opor à nossa vontade. Foi-lhe aconselhado que se precavesse, pois a missão seria à luz do dia. Partiu às 12 h de Monteporte, passou pelo ponto cotado 732 e foi a Maiorani, de onde saiu às 13:10h para abordar o ponto cotado 747. Tomou, o Sgt Wolff, todas as precauções, conseguindo aproximar-se muito do casario, tentando envolvê-lo pelo Norte. Estavam a 20 metros e o Sgt Wolff, provavelmente, tendo se convencido de que o inimigo recuava, estando longe, abandonou o caminho previsto para, desassombradamente, à frente de seus homens, com duas fitas de munição trançadas sobre seus ombros, alcançar o terço superior da elevação. O inimigo deixou que chegasse bem perto, até quando não podiam mais errar. Eram 13:15 h do dia 12 abril de 1945. O inimigo abriu uma rajada, atingindo e ferindo o comandante no peito que, ao cair, recebeu nova rajada de arma automática, tendo caído mortalmente também soldado que estava ao seu lado. Após esta cena, sucedeu-se a ação quase suicida de seus liderados para resgatar o corpo do comandante. A rajada da metralha inimiga rasgava um alarido de sangue. A patrulha procurava neutralizar a arma que calara o herói. Dois homens puxaram o corpo pelas penas. Um deles ficou abatido nessa tentativa. O outro, esquálido e ousado, trouxe Wolff à primeira cratera que se lhe ofereceu. Ali, mortos e vivos se confundiam. A patrulha, exausta, iniciava o penoso regresso às nossas linhas, pedindo que a artilharia cegasse o inimigo com os fogos fumígenos e de neutralização. Os soldados do Onze queriam, a qualquer custo, buscar o companheiro na cratera para onde tinha sido trazido, lembrando a ação que ele mesmo praticara tantas vezes. Queriam trazer o paciente artesão das tramas e armadilhas da vida e da morte das patrulhas. Foi impossível resgatá-lo no mesmo dia face a eficácia dos fogos inimigos, inclusive de Artilharia. O dia seguinte era a largada da grande ofensiva da primavera. O Sgt Wolff lá ficara para que estivéssemos presentes na hora da decisão.
Montese foi conquistada. Seu nome será sempre presente porque as grandes ações resistem ao tempo e são eternas. Foi promovido “post-mortem” ao posto de 2º Tenente (Decreto Presidencial, de 28 Jun 45). Deixou na orfandade sua filha Hilda, seu elevo e maior afeição de sua vida de soldado. Da Itália, escreveu a sua irmã Isabel, relatando seu orgulho em pertencer ao Exército Brasileiro e que, se a morte o visitasse, morreria com satisfação. Foi homenageado com a distinção de ser agraciado com quatro medalhas: de Campanha; sangue do Brasil; Bronze Star (americana) e Cruz de Combate de 1ª Classe.Eis a síntese do heroísmo de um homem simples e valoroso. Seus restos mortais encontram-se no Monumento aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, no jazido 32, quadra G.
DEPOIMENTO
Eu estava a uns trinta metros de Wolff quando ele foi atingido. O soldado Alfredo Estevão da Silva, que ia na frente, virou-se para mim e disse: “Parece que Wolff está morto. Vou puxar o corpo para cá”.Respondi que ia atrás dele. Mas uma rajada matou também o pracinha Estevão antes que ele pudesse fazer qualquer coisa. Chegou a minha vez e consegui arrastar o corpo do sargento até uns trinta metros. Depois veio a chuva de morteiros, e não pude fazer mais nada. O Sargento Alfeu de Paula Oliveira me levou depois ao estreito compartimento onde Wolff tinha suas coisas: ali estava a condecoração que o General Truscott colocara no seu peito, poucos dias antes, a citação elogiosa do General Mascarenhas; o retrato da filhinha, de olhos vivos e brilhantes como os do seu pai. Tudo agora muito desgarrado. “Este foi um dia triste para nosso Batalhão”, me disse o Major Manuel Rodrigues Carvalho Lisboa. “Nós perdemos um bravo”.
Segundo-Sargento Nilton José Facion, de São João Del Rei, Minas Gerais (http://www.anvfeb.com.br/sgtmax.htm)
Fonte:
http://www.esa.ensino.eb.br
Memórias de um Soldado da FEB – Parte I
Apresentaremos a partir de hoje, uma série especial contendo o relato do 3º Sargento Virgílio Daniel de Almeida que combateu pelo Regimento Sampaio durante a campanha na Itália. Nordestino valente, Sgt. Virgílio fez um relato abrangente que compreende desde o patrulhamento da costa paraibana, passando pelo seu voluntariado para compor a Força Expedicionária Brasileira até a atuação individual dos combatentes da FEB.
É com satisfação que publicamos um material tão rico em detalhes e temos a convicção de que estamos contribuindo para que as histórias aqui narradas possam ser utilizadas como reflexão pelos milhares de brasileiros que não conhecem a história da participação brasileira na Segunda Guerra Mundial e, portanto, não valorizam o sacrifício de jovens brasileiros em um período tão importante para o mundo.
Iremos realizar a publicação em cinco Partes, sendo uma por dia.
Todos os comentários enviados nos POSTS serão entregues ao próprio Major R-1 Virgílio Daniel de Almeida. Portanto fiquem à vontade!!
PRIMEIRA PARTE – O VOLUNTARIADO
Desde a declaração de guerra contra o eixo, as forças armadas aumentaram seus efetivos. Os regimentos de infantaria passaram a contar com efetivos de guerra. No nordeste foi criado o Campo de Instrução Engenho Aldeia (atualmente Centro de Instrução Marechal Newton Cavalcanti), todos os quartéis ficaram vazios, já que o efetivo da 7ª Região Militar foram acampar por tempo indeterminado em Aldeia, com exceção de duas companhias de fuzileiros por regimento, as quais, ficaram guarnecendo as praias contra eventual desembarque de tropas ou náufragos.
No 15º Regimento de Infantaria ficaram a 4ª e 5ª Companhias, fazíamos parte da 4ª Companhia, a qual coube manter a vigilância das praias do litoral sul da Paraíba, sua sede foi transferida, a princípio, do quartel para a praia de Tambaú, na época como 3º Sargento de Infantaria , comandava um grupo de combate. Recebi a missão com meu grupo, de manter a vigilância da praia de Jacumã, meu regimento naquela época era hipomóvel, contudo fomos deslocados por viaturas motorizadas de um grupo de artilharia, sediado em João Pessoa. Em nosso deslocamento para Jacumã, o subtenente da companhia nos acompanhou, conduzindo os gêneros para nossa alimentação nos próximos 15 dias, e estava ainda, autorizado a requisitar uma casas a beira mar para alojar o grupo e conseguir crédito na pequena padaria local para compra dos pães, a casa requisitada tinha fogão, mas faltava os utensílios de cozinha e lenha. Para a função de cozinheiro resolvemos com a seguinte pergunta: quem deseja ser dispensado da guarda noturna da praia e assumir a função de cozinheiro? Não difícil, apareceu logo candidato. Com criatividade resolvemos o impasse dos utensílios de cozinha e a lenha, a água para uso diária, era recolhida de uma cacimba, que ficava a uns dois quilômetros de distância da casa. O nosso banho, era uma pequena lagoa, formada por um córrego que saia de uma mata e desaguava na praia. Contudo algo lamentável aconteceu, contraí malária! Quando decorreu 15 dias que estávamos na praia, o capitão Ari, comandante da companhia, veio nos inspecionar. Me encontrou deitando em uma rede, com febre, tremores, frio e dor de cabeça. Ele então mandou o cabo assumir o comando do grupo e levou-me para a sede da companhia e, depois, para a enfermaria do regimento. Fui medicado com comprimidos de quinino, o medicamente não surtiu o efeito desejado e agravou ainda mais meu estado de saúde. O capitão Ari, então, me levou para o Serviço Geográfico do Exército, sediado em João Pessoa, e naquela organização o médico administrou ateblina. Foi quando me recuperei da malária e permaneci na sede da companhia.
Da praia de Tambaú, a companhia se deslocou para a cidade de Goiana em Pernambuco, onde fui designado para manter a vigilância da praia de Pitimbú, distante pouco mais de 40km daquela cidade. Em Pintimbú as missões eram as mesmas de Jacumã, a única novidade era um estação de rádio, chefiada por um sargento rádio telegrafista, que em caso de necessidade, eu me comunicaria com o comando da companhia em Goiana.
Em 1943 começaram os preparativos para a organização da FEB, sendo escolhido para o comando da Divisão de Infantaria Expedicionária 1ª DIE, o General de Divisão João Batista Mascarenhas de Morais, para comandar a Infantaria Divisionária, o General Euclides Zenóbio da Costa, para Artilharia Divisionária o General Osvaldo Cordeiro de Farias.
Em junho de 1944, o Ministério da Guerra determinou às Regiões Militares que organizassem contingentes para seguir destino ao primeiro escalão da FEB no Rio de Janeiro. A prioridade adotada foi o voluntariado e caso não atingisse o número exigido, as faltas seriam preenchidas por militares escalados, então me apresentei como voluntário, como explicado abaixo:
Estava com a companhia em instrução, quando recebemos a ordem para suspender os exercícios e regressar ao quartel. Lá mandaram os oficiais e praças antigas para o alojamento, onde ficaram aguardando a ordem para falar com o comandante da companhia. Quando chegou minha vez, o comandante olhou para mim e disse – sargento Virgílio recebi ordens para selecionar voluntários para a Força Expedicionária Brasileira, vou olhe fazer uma pergunta, você responde sim ou não: você deseja se inscrever como voluntário para a FEB? Respondi – sim. Após a minha resposta, ele me mandou que saísse e não mais voltasse ao alojamento. No dia seguinte, na leitura do boletim da Unidade, foi publicado a minha inclusão como voluntário no contingente destinado a FEB, ficando adido para atender os vários procedimentos, tais como inspeção de saúde, receber proventos, aguardar ordem de embarque e outros. A 20 de junho fui excluído do estado efetivo da Unidade e embarquei para Recife, ficando adido ao 7º Grupo de Artilharia de Dorso, em Olinda-PE, aguardando envio para seguir destino para o Rio de Janeiro.
CONTINUA…
Série Heróis Brasileiros na FEB – Parte I
Vamos a partir de hoje publicar uma série que possa exaltar nossos ex-combatentes que participaram da Força Expedicionária Brasileira. Caso você tenha material sobre qualquer participante da FEB teremos a maior prazer de publicar, é só enviar para blogchicomiranda@gmail.com. No caso de hoje vamos publicar as fotos e resumo Enock Pires de Araujo enviados por Evan Hudes seu genro.
Capacete M1 completo c a insignia do 9o BE com assim como seus dog-tags e patches e de uma jaqueta do V exercito americano q ele conseguiu trazer de Napoles.
Enock Pires de Araujo,nascido em 26/07/1917,Alagoas,Maceio.
O Brasileiro é Acima de Tudo Um Forte – O Legado da FEB
Tradicionalmente o brasileiro é taxado de ter a memória curta, isso quer dizer que lhe é peculiar o pouco interesse no passado de seu país. Em vários aspectos discordamos dessa posição, contudo existem características no Brasil que nos arremata para esse tipo de pensamento, e uma delas é a FEB. Isso mesmo, a Força Expedicionária Brasileira é um assunto pouco expressado no meio acadêmico, a participação brasileira no conflito mundial de 39 a 45 é um grande território de estudo para as diversas universidades do país, muito embora o tema seja pouco valorizado, as obras e estudos que têm como área de pesquisa a mobilização, atuação, resultados e desmobilização da Força Expedicionária Brasileira são de pouquíssimos autores em comparação a outros períodos da história brasileira. Nesse cenário, a memória dos que combateram no Teatro de Operações Europeu ficou sob a responsabilidade dos filhos, netos e bisnetos dos ex-combatentes que têm lutado com a mesma garra de seus antepassados para manter viva a honra que esses combatentes conseguiram nos campos de batalha italiano. Nessa “guerra” injusta contra a ignorância histórica, o trabalho se torna mais difícil com o passar dos anos e, quando os ex-combatentes nos deixarem, as Associações estarão enfadadas ao esquecimento se não houver um mudança de atitude no trato com a memória desses homens que viram a guerra, e voltaram sob a égide da vitória para o país, mas também destinados ao abandono do governo que os enviou.
Existe um grupo de intelectuais que critica e questiona firmemente a atuação da FEB nos campos de batalha italianos, entre os quais citamos William Waack, um dos maiores jornalista que esse país possui é também autor do livro As Duas Faces da Glória, que trás uma visão jornalística das relações do Brasil com os demais Aliados, e se baseia em documentos trocados entre os ingleses e americanos juntamente com entrevistas de combatentes alemães que lutaram contra a FEB na campanha da Itália. Bem, claro que essas discussões são pertinentes e, até salutar, para o debate sobre a participação brasileira, contudo o ponto passivo entre os estudiosos e aficionados pelo assunto é a bravura dos soldados brasileiros no combate, isso deve ser o elemento central na exaltação da memória das futuras gerações. Uma divisão expedicionária que foi formada com soldados com claras deficiências físicas, com pouca ou nenhuma instrução, saídos de um exército que até anos antes tentou golpes de Estado que foram planejados e executados por membros de suas fileiras, um exército cujo último conflito de grandes proporções foi uma controversa guerra contra seu próprio povo, em uma cidade chamada Canudos, ainda no século XIX; e a FEB foi criada sob as ordens de um Estado ditatorial para lutar contra uma nação de regime semelhante, guardada as proporções. Essa divisão foi formada com soldados que, aparentemente, não foram bem vistos por seus Aliados, mas que no decorrer das missões mostrou-se ser de extrema bravura individual, lutando contra um inimigo experiente, vindos de outros fronts como a campanha russa, membros da temida Afrika Corps, um povo que estava lutando desde o final do século anterior. Nossos soldados foram viris frente a este inimigo, deixando de lado suas limitações logísticas e físicas demonstraram serem dignos da frase do grande escritor Euclides da Cunha, quando se referiu ao povo que o exército enfrentara na guerra de canudos – O nordestino é acima de tudo um forte, escreveu ele em sua obra-prima Os Sertões – no caso da FEB, não apenas o nordestino, mas o brasileiro se mostrou forte, enfrentando o seu oponente e todas as limitações, enfrentando o tempo, e o rígido inverno europeu, mesmo saído das regiões tropicais e nunca ter visto neve, lutou na neve, vencendo um inimigo árduo, o frio. Pode-se escrever livro questionando as operações da campanha, mas deveríamos escrever dez vezes mais, sobre a coragem dos febianos para deixar de legado para as próximas gerações.
Fechando o ciclo de exemplos que podemos elencar na busca pelo reconhecimento dos nossos brasileiros que lutaram em solo estrangeiro, podemos citar os 17 de Abetaia que foram cercados e mortos no ataque em 12 de dezembro de 1944 no Monte Castelo, seus corpos só foram recuperados após o ataque de 21 de fevereiro de 1945, e devido o frio extremo, todos estavam bem conservados, muitos ainda com o dedo travado no gatilho de seus fuzis, enquanto outros estavam com granadas na mão e sem o pino de segurança, morreram todos em formação semi-circular, cercados, mas face a face com o inimigo, encarando-os até a morte. Homens bravos! Brasileiros Bravos!
Escrito por Francisco Miranda - Proibido reprodução ou publicação sem autorização do autor
































































