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68 anos se passaram…
Há 68 anos a Força Expedicionária Brasileira, entrava efetivamente na 2ª Guerra Mundial, quando o General Mark Clark, decidiu que a tropa brasileira, constituída por um Grupamento Tático, sob o Comando do General Zenóbio, ficasse subordinada ao 4º Corpo do V Exército Americano a partir do dia 13 de Setembro de 1944.
Este Grupamento Tático foi batizado de Destacamento FEB, sendo assim constituído:
- 6º Regimento de Infantaria
- II/1º Regimento de Obuses Auto Rebocável (R.O.Au.R)
- 1 Cia de Engenharia do 9º Batalhão de Engenharia
- Pelotão da Cia de Transmissões
- Cia de Evacuação e Pelotão de Tratamento do 1º Batalhão de Saúde
- Pelotão da Companhia de Intendência
- Pelotão de Polícia do Exército
- Pelotão de Sepultamento
Neste mesmo dia, ficou determinado que este destacamento se deslocasse para a Região de Ospedaleto(situada ao sul da cidade de Pisa), movimentação feita rapidamente, num percurso de 50 km a partir da cidade de Vada. E, ao final do dia recebeu a seguinte ordem do 4º Corpo:
– Substituir os elementos do II/370º Regimento de Infantaria americano às 19 horas de 15 de Setembro de 1944
– Substituir 0 434º Grupo de Artilharia Antiaérea americano às 19 do mesmo dia
– Manter contato com o inimigo e sondar o dispositivo por meio de vigorosa ação de patrulhas
– No caso do inimigo retirar-se, persegui-lo mediante ordem, e
– Manter contato com a 1ª Divisão Blindada, situada à leste.
Em consequência destas ordem o 6º regimento de Infantaria deslocou-se para Vecchiano e o II Grupo deslocou-se para Monte Bastioni, sendo que, nesta movimentação dois Batalhões do 6º RI fizeram o percurso motorizado, enquanto o III, com menos sorte o fez à pe.
Por volta da meia noite do dia 15 para 16 de Setembro a tropa substituiu a tropa americana, que já não mantinha contato com o inimigo. A zona de Operações do Destamento FEB, se iniciava no paralelo de Vecchiano e à frente, se limitava a oeste pelo Lago de Massaciucoli(onde constantemente, grupos de soldados alemães em pequena embarcações, hostilizavam a nossa tropa) e a leste pelo Rio Serchio, no sopé dos Apeninos.
As patrulhas lançadas no decorrer desta noite, não encontraram o inimigo, apesar de ter atingido a transversal via Bertini – Ponte Vignole, o que mostrou o pleno conhecimento da situação pelo general Mark Clark, que em seu discurso à nossa tropa, falou que os alemães não eram super-homens, tanto que já estavam aos poucos sendo batidos de suas posições, mas que seria mais salutar à nossa tropa experimentar aos poucos os combates, pois era uma tropa inexperiente.
O Regimento Ipiranga avançou cautelosamente para o Norte com 2 Batalhões em primeiro escalão e, a inexperiência da tropa, a artilharia inimiga com seus morteiros, os campos minados e o terreno desconhecido, tornaram esta progressão bastante lenta e enervante para nossos soldados. Apesar de tudo, antes de escurecer, a Infantaria Brasileira apoderou-se da cidade de Massarosa. Neste mesmo dia, às 14:22 horas, a 1ª/II grupo de Artilharia lançou o primeiro projétil sobre o inimigo( o estojo desta projétil encontra-se no Museu de Exército).
Nesta posição, a tropa brasileira foi informada por uma patrulha americana, que nas imediações havia uma incursão terrestre alemã, informação que foi repassada ao P.C., e para várias instalações, mas foram recebidas com displicência pelos Oficiais.
O General Alemão Rommel, diz em suas memórias, que sua experiência adquirida durante a 1ª Guerra Mundial lhe ensinou duas coisas importantíssimas:
– O primeiro ataque nunca é esperado por tropas inexperientes
– Nunca repita o mesmo golpe, em um curto espaço de tempo sobre a mesma tropa.
A Força Expedicionária Brasileira, soube superar todas as adversidades encontradas no Teatro de Operações da Itália e demonstrou que apesar de ser formada das classes mais simples de nossa sociedade, era muito valorosa, além de mostrar que o homem brasileiro tem muito brio.
Este post é dedicado a todos os Pracinhas que lutaram na 2ª Guerra Mundial.
“Conspira contra sua própria grandeza, o povo que não cultiva seus feitos heroicos”
Artigo enviado pelo Pesquisador Rigoberto Souza
Brasiliano, brava gente!
Os ceguinhos de Podenzano
Já a paz havia sido declarada quando, uma tarde, chega-nos o capitão Verejão e convida-nos para irmos visitar o colégio para crianças cegas.
Como sempre, munimo-nos dos clássicos mantimentos de que a população tanto necessitava, e fomos.
O colégio ficava à margem da estrada que liga S. Carlos a Podenzana, e se achava instalada num amplo casarão, no fundo de aprazível chácara.
Fomos recebidos pelas madres orientadoras do colégio que nos conduziram por um salão onde nos foram apresentados os alunos.
À Diretoria demos mantimentos, às crianças demos chocolates e balas.
É bem verdade que os que se afastavam de sua Pátria e de sua família, como que o coração se lhes enche de ternura e de bondade; entretanto o quadro era realmente de comover.
Os ceguinhos se aconchegavam uns aos outros, saboreando as balas com desmedido prazer, vestidos humildemente, uns sem pai, outros sem mãe.
A Diretora ao agradecer-nos as dádivas, confessou-nos que havia muito que lhes faltava tudo, inclusive sabão.
Passamos a cuidar mais de perto dos ceguinhos. Mandávamos-lhes o “show” da companhia de Petrechos do Batalhão e o capitão Arnóbio. Os ceguinhos, assim ouviram diversas canções brasileiras e mesmo algumas italianas. Pediram que cantassem a “Aurora” cujo o ritmo eles acompanhavam com as palmas. Cantamos-lhes o nosso Hino Nacional, cujas palavras lhes traduzimos.
Em certo momento colhemos a mão de uma das meninas e trouxemo-la para perto de nós. Carla tinha apenas 10 anos. Cega de nascença, viva e inteligente, conversou muito conosco, espontaneamente agradeceu-nos os chocolates e pediu-nos notícias do Brasil.
Depois, volvendo seus tristes olhos para uma direção infinita, chegou-se mais perto de nós e desse-nos, como num segredo: os “tedescos” levaram meu paizinho, será que ele volta?
Respondemos a Carla que sim e apressamos nossa retirada.
Dias após recebemos a carta que se segue:
Senhor Major
A vossa gratíssima visita, e a excepcional delicadeza que tiveste em trazer-nos, além de uma farto e boníssimo presente, a alegria de ouvir a harmonia e a doce poesia do vosso belo país, nos comoveu assim, tão profundamente, que sentimos a necessidade de oferecer a Vós o nosso agradecimento muito sincero. Quanta gratidão, quanta admiração sentimos por Vós, pelo vossos soldados, que não se desdenharam de dar a nós, pobres e humildes crianças, o nosso tempo preciso que nos fez conhecer a bondade e a Cristã irmandade da alma brasileira.
Que o bom Deus faça descer sobre Vossos caros a abundância dos seus favores celestes. Proteja, prospere a Vossa casa, a Vossa terra que nenhuma Pátria, e faça que nenhuma sombra de dor que tem dilacerado a nossa infeliz Pátria, toque de leve o benéfico Brasil que vejo de tão longe para enxugar-nos as lágrimas e trazer-nos a Paz.
Pedimo-vos para transmitirdes as nossas saudações aos Vossos, os quais, estamos certos, serão como seu grande pai, que recordaremos sempre com reconhecimento. Com o agradecimento dos Cegos.
Instituto dos Cegos – Madonna dela Bomba
Piacenza, 11-6-44
Crônicas de Guerra – Coronel Olívio Gondim de Uzêda
O “Fritz” Cansado de Guerra!
Os nazistas são sabidamente arrogantes e presunçosos! Hitler conseguiu acrescentar-lhe mais uma outra característica: um fanatismo doentio!
Por isso não nos surpreendiam os prisioneiros que nos chegavam cobertos de condecorações, batendo os calcanhares e saudando-nos com o seu “famoso”: HEIL HITLER!
Entretanto, a fome, a bala, e, sobretudo, a baioneta não fazem graça para alguém rir! E os homens de Hitler, que ficavam calmamente atrás de suas metralhadoras, guardados por fortes abrigos, esperando sorridentes a aproximação dos nossos soldados para ceifá-los, começava a sentir o peso da derrota. E lá veem os prisioneiros alemães, mãos cruzadas na nuca, submissos, humildes, “inocentes”!
Certo dia, porém, assistíamos o tenente Renato Gonçalves proceder a interrogação de uma leva de prisioneiros. O oficial de informações do Batalhão manda sair um deles já interrogado e entrar outro. A porta se abre bruscamente e entra um alemão de meia idade, risonho e satisfeito, gritando alô! Alô volvendo-se ora para um ora para outro de nós.
Dissemos ao nosso soldado intérprete que chamasse a atenção do prisioneiro para que se portasse convenientemente. Que ele se achava num Posto de Comando brasileiro, local ao qual ele devia muito respeito e consideração.
O prisioneiro, toma uma atitude respeitosa e pede para intérprete que nos diga que começou a guerra na Polônia; foi para a África, onde arrostou todo aquele vai e vem de Rommel; viveu nos desertos; retirou-se para Itália, e vem de léo e léo, sempre para trás, para trás, sofrendo derrotas e mais derrotas, a munição escasseando cada vez mais; por último, vem comendo o que consegue no local! E lá se vão cinco anos! E os senhores sabem o que foram cinco anos de guerra? Pergunta o Alemão. Sem notícia da família havia mais de uma ano, assombrado por desilusões, desenganados, sofrimentos!
Bem podíamos avaliar! Essa guerra termina hoje pra mim! Não vos estou desrespeitando, mas, me sinto muito e muito alegre, concluiu o “Fritz” impando de vera satisfação.
Fonte: Crônicas de Guerra – Coronel Olívio de Gondim Uzêda
- Margarida Hirschaman espiã que fazia as transmições em português incitando os pracinhas da FEB a se renderem.
- Tenente General Otto Fretter Pico com o General Falconieri
- Região de Montese. Essa foto pertence ao acervo Alemão
- Patrulha da FEB na região entre Montese e Fanano antes do ataque final
- O General von Gablenz comandante da 232ª Divisão de Infantaria Alemã, nos Apeninos.
- Ninho de Matralhadora na Região dos Apeninos. Esse ninho esteve protegendo a linhas alemães dos ataques brasileiros.
Será um Camelo ou um Brasileiro? A Chegada da FEB ao Teatro de Operações.
Crônica de Autoria do Coronel Uzêda relatando o desembarque e a chagada para acampamento em Pisa, onde o 2º e 3º Escalão permaneceram por mais de um mês até a ordem para entrarem na linha de combate.
Fonte: Crônicas de Guerra – Olívio Gondim de Uzêda.
Desembarcamos em Livorno, comprensados entre as malas A e B, formos levados através de um lamaçal sem fim, para uma área de reunião de caminhões, próxima do cais.
Embarcamos nos caminhões. Partimos. Atingimos uma estrada asfaltada. Destruições e mais destruições. Próximo ao Rio Arno elas se acentuam. Em todo o trajeto as crianças iam pedindo “sigarreta, cioccolatta e caramella”. Atravessamos o rio Arno num ponte provisória de vez que a primitiva fora destruída. Surge-nos à direita a característica torre inclinada de Pisa. A cidade apresenta uma parte nova e outra velha; essa é envolvida por uma muralham aquela está praticamente destruída pelos bombardeios.
Desbordamos a cidade pelo leste e nos dirigimos para oeste. Aparecem umas placas escritas: “Braziliam Expedicionary Force – Bivouac Area”, e uma seta indicando a direção.
Surgem as barracas: uma maiores, outras menores; algumas mais aperfeiçoadas, com as paredes laterais de tela e madeira, de lona no teto.
A área do nosso acampamento era, visivelmente, um magnífico parque de pinheiros. Á margem da estrada, placas marcavam o número dos Batalhões e Regimentos.
Desembarcamos na região destinada ao nosso Batalhão
As barracas alinhadas, a céu aberto, indicavam que não havia aviação inimiga;
Identificamos o acampamento. Achávamo-nos em “Tenuta de San Rossore”, o famoso parque do Rei da Itália.
As barracas maiores eram para os oficias; as menores para os praças; as especiais eram as cozinhas que, por sinal, nos foram entregues funcionando cada uma com 3 ótimos fogões à gasolina, nelas trabalhando soldados do 6º Regimento e americanos.
Ao fundo, a linha das privadas.
Existiam dois banheiros com água quente e fria para toda a área.
Tão pronto nos adaptamos, fomos alongar nosso reconhecimento. Só podíamos passear, com segurança, na área que ocupávamos e ao longo das estradas, com garantia de 3 pés à margem dessas. Tudo mais estava balizado com um cadarço branco, indicando-nos zona minada.
Entretanto, passamos a observar que nessa zona, que não podíamos penetrar, andavam uns camelos. Alguém nos informou que os colocaram ali de propósito para explodirem as minas. Seria? Na verdade, de quando em vez ouvia-se uma explosão e o nosso soldado dizia: Lá vai um camelo!
Passamos alguns dias, alguns soldados brasileiros já não respeitavam as marcas e se embrenhavam nos campos supostamente minados: distanciavam-se em busca de conquistas amorosas, de lavadeiras “de verdade”, para darem uma escapada até Pisa, para tomarem banho de mar em “Marina de Pisa”, a famosa praia dos bacanais de Mussoline.
Depois fizeram mais, penetravam nas próprias casamatas alemães para trazerem tábuas para revestirem o piso de suas barracas. E cada um se afoitava mais, embora de quando vez morresse um desses imprudentes!
E aí nos detivemos mais de um mês, adaptando-nos ao clima, à alimentação, recebendo armamento, fazendo instrução.
De quando em tempo ouvíamos uma explosão e perguntávamos a nós próprios: será um camelo ou um brasileiro?
- Preparação para o acampamento
- Transporte nos LCI americanos.
- Grupamento do 11º RI (Acervo pessoal do Veterano Rigoberto Souza)
- Vista aérea acampamento San Rossore
Eunucos da Segunda Guerra
Este relato foi extraído do Livro “E foi assim que a Cobra Fumou” da Major Elza Cansanção de Medeiros.
Casos divertidos aconteceram em todos os setores de nossa gloriosa FEB e, quando as enfermeiras estavam indo para o Teatro de Operações da Itália, viajavam de acordo com a disponibilidade dos aviões que partiam do Rio de Janeiro.
Do segundo grupo a deixar o Brasil, fazia parte a Srta. Lúcia Osório, mulher bonita e descontraída, de gênio alegre, desencanada e que nunca levou desaforo para casa. Quando ela chegou a Dacar, cansada da extenuante viagem, a primeira coisa que tratou de fazer foi tomar um banho refrescante.
Como não tinham o posto de Oficial, ficaram alojadas com as moças da Cruz Vermelha que trabalhavam como assistentes sociais. Despreocupadamente, entrou no banheiro e começou a se deliciar com a água fresca, mas de repente, o sabonete caiu-lhe das mãos quando estava de costas para a porta do box e, abaixou-se para apanhá-lo, e deparou-se com uma mão preta que também estava tentando apanhar o objeto.
Seu olhar apavorado seguiu a mão, subindo pelo braço forte e negro, até que surge um sorridente negro que lhe entregava muito solícito, o sabonete. Lúcia pôs-se a gritar e tratou logo de apanhar uma toalha e, o rapaz prestimosamente alcançou a mesma e ainda tentou envolvê-la em seu corpo, fazendo com que ela cada vez se desesperasse mais ainda.
A esta altura, com todo o nervosismo além do inusitado da situação, esqueceu o inglês e o francês e, gritando em português para que o mesmo se retirasse de seu apartamento. O sorridente serviçal, abriu-lhe a porta do quarto, que ao ser passada foi batida com toda a força e trancada imediatamente.
Ao aproximar-se da cama, outra surpresa! Suas roupas estavam perfeitamente arrumadas sobre ela, na ordem exata pela qual deveria ser vestida. Então, Lúcia arrumou-se apressadamente e tratou de sair correndo em desabalada carreira em direção ao comando da base, para protestar contra a falta de segurança, que havia possibilitado a entrada daquele intruso em seu aposento.
O Coronel a recebeu, e ficou surpreso com a reação de sua hóspede. Depois de se inteirar da queixa, ele deu uma sonora gargalhada, o que aborreceu ainda mais a Srta. Lúcia.
– Não se preocupe, pois não há nada de errado. Ele está lá para isso mesmo, sendo encarregado de atender às senhoras, não se preocupe, pois não representa nenhum perigo, é completamente inofensivo.
– Como é que é inofensivo um brutamontes deste!
– Calma, ele é realmente inofensivo, pois é um EUNUCO!
Lúcia ficou pasma com a revelação. Em pleno século XX, ainda existiam eunucos?
– Olhe Coronel , eunuco ou não, quando estiverem brasileiras por aqui, é melhor o Senhor tirá-los de lá, pois nós não estamos acostumadas com eunucos, e não os aceitamos, ainda mais um eunuco deste. Estou apavorada!
– Mas Miss, ele está lá justamente para ajudá-las a lavar as costas, arrumar suas roupas, etc.
– Pode deixar Coronel, brasileira não gosta que ninguém lhe lave as costas nem nenhuma parte do corpo. Deixe que fazemos isto sozinhas!
Ao voltar ao alojamento, Lúcia trancou todas as portas e janelas.
– Eu hein, contou a Lúcia depois – sei lá se o outro que entrasse também era da mesma confraria? Eu é que não quis me arriscar…
Enfermeira Lúcia Osório
Artigo enviado pelo pesquisador Rigoberto Souza Júnior.
Nota de Felecimento: General Campello – Detentor do Bastão de Comando da FEB
Lamentamos a perda de mais um Herói da Força Expedicionária Brasileiro
Mensagem enviada pelo Tenente Monteiro – Presidente no Conselho Nacional de Oficiais R/2 do Brasil
CONSELHO NACIONAL DE OFICIAIS R/2 DO BRASIL
NOTA DE FALECIMENTO
A Diretoria do Conselho Nacional de Oficiais R/2 do Brasil, consternada, comunica o falecimento ontem, às 22 horas na Clínica São Carlos, Rio de Janeiro, do Exmo. Sr. General RUY LEAL CAMPELLO, herói da Força Expedicionária Brasileira e que desde 2009 era o detentor do Bastão de Comando da FEB. O General Campello, que faleceu aos 95 anos, era gaúcho da cidade do Rio Grande. Foi declarado Aspirante a Oficial da Arma de Infantaria pela Escola Militar do Realengo em 1940. Na Itália, foi Subcomandante da 5ª Companhia do 1º Regimento de Infantaria – Regimento Sampaio. Com o retorno da FEB, ainda em 1945 foi promovido a Capitão, permanecendo no Regimento Sampaio já no comando da companhia. Após concluir o curso de Comando e Estado-Maior, foi para a 3ª Divisão de Cavalaria, em Bagé-RS, servindo depois no I Exército, de 1955 a 1957, de onde foi para o Curso de Infantaria da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais. Integrou o “Batalhão Suez” indo depois para o Estado-Maior da 1ª Divisão de Infantaria. Em 1959, serviu novamente no QG do I Exército, sob o comando do General Odylio Denys. Passou depois para o Gabinete do Ministro, com a ascensão do General Denys a esse cargo. Promovido aos postos de Oficial Superior por merecimento, de 1961 a 1964 pertenceu ao Estado-Maior do Exército. Em abril de 1964 passou a integrar a 2ª Seção do Estado-Maior da 1ª Divisão de Infantaria, comandada pelo General Orlando Geisel, vindo, a partir de maio, para o Gabinete do Ministro do Exército, General Arthur da Costa e Silva.
De 1966 a 1968 comandou o Regimento Sampaio. Foi em seguida para Chefia da 3ª Seção do I Exército e daí para o Gabinete do Ministro Orlando Geisel, de onde saiu para a Comissão Militar Brasileira em Washington-EUA, dali retornando ao Gabinete do Ministro em 1973, quando foi promovido a General-de-Brigada. Nesse posto exerceu os seguintes cargos: Diretor de Movimentação, Comandante da 8ª Brigada de Infantaria Motorizada e Diretor do Pessoal Civil. Deixou o serviço ativo em 1978. Dentre as condecorações que lhe foram outorgadas por sua participação na FEB destacam-se: Cruz de Combate de 2ª Classe, Medalha de Campanha, Medalha de Guerra e Cruz ao Valor Militar da Itália.
O General Campello exerceu até meados de 2009 a Presidência do Conselho Deliberativo da Associação Nacional dos Veteranos da FEB (ANVFEB). Residia no Rio de Janeiro, no bairro de Laranjeiras. Grande amigo dos Oficiais R/2, o herói ora desaparecido, por solicitação da família ao CNOR, teve o apoio do Comando do CPOR/RJ que colocou seus alunos e demais militares à disposição para doação de sangue. O sepultamento do bravo General Campello será hoje, dia 22 de junho, às 16 horas, no Cemitério São João Batista.
LUTO OFICIAL
O Presidente do Conselho Nacional de Oficiais R/2 do Brasil, no uso de suas atribuições estatutárias, RESOLVE decretar, no âmbito das Associações filiadas ao CNOR, LUTO OFICIAL de 5 (cinco) dias pelo falecimento no Rio de Janeiro, em 22 de junho de 2012, do General de Brigada Reformado RUY LEAL CAMPELLO, detentor do Bastão de Comando da Força Expedicionária Brasileira. Aos Veteranos da FEB e à família enlutada, nossas sentidas condolências pela perda de tão ilustre Oficial.
Rio de Janeiro, 22 de junho de 2012
Sérgio Pinto Monteiro – 2º Ten R/2 Art
Presidente do CNOR
“Patriotismo, União, Lealdade, Trabalho – Assim Atua a Reserva Atenta e Forte”
Fotos: Portal da FEB
Na Guerra, Sorte e Coisa Bem Rara! Homenagem a FEB.
A observação da Segunda Guerra e a participação brasileira no conflito, se analisadas do ponto de vista social, proporcionaram um cenário improvável, que marcou uma geração por colocar em combate, sul-americanos que não tinham o perfil de um combatente moderno, não era dotado dos recursos físicos e da preparação psicológica adequada para combater sob o manto sagrado da democracia, que ele mesmo não entendia ou desfrutava. Era difícil de imaginar que um cidadão nascido no interior da Paraíba, filho de um Coletor de Impostos, pudesse participar de um conflito mundial lutando pelo Brasil contra regimes que, teoricamente, possuíam similaridade com o de Getúlio Vargas, ou pior, que um pernambucano, que nascera em 1922, na Rua Imperial, número 67, tradicional via da cidade do Recife, que passou sua infância na capital pernambucana tomando banhos no Rio Capibaribe na década de 30, frequentando as serestas e ouvindo os pianos nas casas de família na Rua da Concórdia, quem poderia imagina que esse pernambucano iria morrer em combate, lutando em solo italiano em 12 de dezembro de 1944? Jovens que independente da ideologia ou posição social lutaram pelo seu país, em defesa da democracia que eles mesmos não tinham acesso, mas todos tinham a consciência do papel a desempenha, todos queriam entrar na guerra pelo seu país, pelas suas famílias. Mesmo que muitos brasileiros abastados tenham utilizado recursos para evitar sua incorporação ao efetivo que iria lutar na Segunda Guerra, outros foram voluntariamente, e embasados na desigualdade social latente em nosso país, esses jovens vestiram seus uniformes e foram à luta, era o melhor que nosso país poderia oferecer naquele momento, longe de qualquer discussão política, a alma do povo brasileiro estava presentes naqueles soldados, com suas virtudes e defeitos. Soldados subnutridos? Sim! Pois o nordestino passava fome. Sem instrução? Sim! Nosso país possuía um alto índice de analfabetismo, então como esperar que a Força Expedicionária estivesse acima das expectativas do Povo Brasileiro, se a FEB era o próprio POVO BRASILEIRO; O EXÉRCITO ERA O POVO BRASILEIRO.
Coragem e abnegação sempre foram referências que seguiram a Força Expedicionária Brasileira desde sua saída até a sua desmobilização, nesse aspecto, eram atributos do povo brasileiro espelhados no Exército ali representado e que, em última instância era a representação do próprio povo brasileiro; eram seus valores identificados na raiz de nossa raça. Nosso povo, o mesmo que expulsou holandeses de Pernambuco; o mesmo que buscou a liberdade nas Revoluções de 1818 e 1824; o mesmo que proclamou a Farroupilha, lutou a Balaiada, Praieira, Cabanagem e tantas outras revoltas que tiveram a participação do povo brasileiro que, independente das causas ou objetivos, são as provas cabais que nosso povo é um povo guerreiro, e que, a célebre frase de Euclides da Cunha, no clássico Sertões: “O sertanejo é antes de tudo, um Forte!”, é extensível para o nosso povo de uma forma geral, sendo a FEB um exemplo da dinâmica na declaração do escritor, pois tenha a certeza que se ele tivesse presenciado, como presenciou em Canudos, nossos soldados lutando contra as excelentes posições alemães em Monte Castello, teria lembrando dessa frase e se orgulhado dos filhos de nossa pátria, sertanejos, sulistas, paulistas e cariocas, que lutaram e morreram em solo estrangeiro.
O nosso soldado, o soldado febiano, não precisou de sorte para desempenhar seu papel, provou seu valor pelo sangue derramado de quase 500 filhos caídos; provando seu valor não apenas pelas vitórias conquistadas, ou pelos números de tropas e equipamentos inimigos capturados, mas principalmente pela bravura, chegando ao Teatro de Operações com a fama de mal preparado, mal equipado e pouco combativo, e no final da guerra, comparada a outras Divisões de mesmo porte, se destacou dentro do Corpo de Exército que se integrou. O Soldado brasileiro mostrou seu valor na Itália, e o soldado brasileiro da FEB será, em última instância, a representação fidedigna do próprio POVO BRASILEIRO.
Analisando As Duas Faces da Glória – William Waack – Parte 01
Muito se escreveu sobre a Força Expedicionária Brasileira ao longo dos anos. Muitos desbravadores se enveredaram pela literatura para contemplar a sua própria visão da Campanha da FEB, dentre eles, vários pracinhas de todas as patentes. Evidentemente o mais relevante relato é do próprio Comandante da FEB, Marechal Mascarenhas que escreveu A FEB pelo seu Comandante, em 1946. Tinha como objetivo que sua obra fosse parâmetro para outras.
E si tratando de obras sobre a FEB, nenhuma outra conseguiu tanta repercussão quanto à do jornalista Wiliam Waack em As Duas Faces da Glória – Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1985. Essa obra de cunho jornalístico expunha a visão dos aliados e dos inimigos sobre a Força Expedicionária Brasileira, desde a sua formação até a sua atuação como força combativa. O trabalho do jornalista foi severamente atacado pelas Associações de Ex-Combatentes por direcionar a obra para minimizar a atuação da FEB, contradizendo a História oficial e todas as outras pesquisas e memórias anteriores.
Esta e outras publicações no blog terão como objetivo a análise do livro AS DUAS FACES DE GLÓRIA. Nosso objetivo é realizar uma exposição da obra para verificar se ela cumpre o papel a que se propõe:
“ser uma contribuição para novas reflexões sobre o passado e para que a História comece a ser escrita com critérios realmente sérios e científicos.” – As Duas Faces da Glória – pág. 15
Não temos a pretensão de ser referência para a leitura do livro ou nos considerarmos críticos da obra, tão pouco, queremos desmerecer o trabalho de uma dos maiores jornalistas desse país, mas precisamos ter critério para analisar a HISTÓRIA, pois a pesquisa histórica impõe uma visão que não pode seguir uma linha argumentativa tendenciosa; não pode ser vista segundo a visão declaradamente preconceituosa. Infelizmente observa-se o teor revanchista logo na introdução da obra, antes mesmo de iniciar a exposição de suas ideias.
Introdução de as Duas Faces da Glória
É importante analisar o período histórico em que a obra foi escrita. O livro foi escrito em 1985. O Brasil era um país ansioso pela redemocratização e havia um apelo público generalizado para que os laços de condução voltassem a figurar em mãos civis. É exatamente nesse clima que o autor informa que a sua geração era chamada a condução do país, sendo categórico quando liga militares integrantes da Força Expedicionária aos acontecimentos de 1964. Isso é correto? Seria correto relacionar a FEB aos acontecimentos de 1964? E mais ainda, utilizar desse relacionamento para explicar o país em 1985. Essas perguntas devem constituir uma análise em primeira instância das pretensões do jornalista. Ligar à ascensão da carreira militar de indivíduos que fizeram parte da FEB nas décadas posteriores a desmobilização, e a própria tropa brasileira, relacionando-a a 1964 é uma incoerência. Fazendo uma breve análise da carreira de dois Marechais que lutaram na Itália, e que são citados pelo autor, o General Castello Branco (Chefe da 3ª Seção da FEB) e o General Henrique Teixeira Lott (Oficial de Ligação da FEB e posteriormente Chefe da Comissão de Reaparelhamento do Exército). O primeiro participou ativamente dos acontecimentos de 1964 e se tornou o primeiro Presidente Militar do Regime, assinando os primeiros Atos Institucionais que davam plenos poderes ao regime que se instaurava no país. O segundo foi candidato à presidência em 1961, perdendo a eleição para Jânio Quadros, mesmo assim, não apoiou a tentativa de um golpe para impedir que o vice-presidente, João Goulart assumisse a presidência após a renúncia de Jânio. Sendo o mais importante apoio conseguido por Brizola na Campanha da Legalidade. Foram militares com visões diferentes da conjectura política brasileira na década de 60. Também podemos citar o Marechal Brayner (à época Chefe do Estado Maior da DIE) e que fazia oposição ferrenha ao Presidente Castello Branco, desafeto declarado desde a atuação da FEB. Essas apreciações formam um quadro interessante, mas não se relacionam com a participação dos generais citados com a Força Expedicionária Brasileira, exceto por suas carreiras, que foram evidenciadas após a guerra, o que é de se esperar, mas isso não é mérito apenas da FEB, é mérito pessoal desses militares, pois durante as décadas pós-conflito havia uma linha tênue entre a os político e os militares. Poderia citar listas e listas de oficias da FEB que nem ao menos conseguiram galgar o generalato, portanto não há como ligar o Brasil e sua participação na Segunda Guerra com os acontecimentos de 1964, são contextos diferentes. A FEB não era importante para a política interna, ao contrário do que o autor defende, mas contribuiu para o fim do Estado Novo, e fim! Encerra-se a contribuição da FEB para a História do país. Outra perspectiva de análise é que a maioria dos oficiais superiores, oficiais subalternos, graduados e soldados da FEB, após a desmobilização do contingente brasileiro, ainda na Itália, foram vítimas do governo que o constituíram, para que não fossem usados como instrumento na frágil estabilidade varguista, mas que inspirou politicamente o Brasil. O governo brasileiro fez o que estava ao seu alcance para desligar ou isolar os militares que estiveram na Itália, realizando e executando um planejamento para que não houvesse ecos dos ideais defendidos pela tropa brasileira em solo estrangeiro. Portanto, no período em que o livro do jornalista Wiliam Waack foi publicado, a maioria dos pracinhas que lutaram na Segunda Guerra estavam desassistidos pelo Estado, jogados ao esquecimento histórico mesmo após a instituição do regime militar de 1964. O que podemos afirmar é que a grande maioria dos integrantes da Força Expedicionária Brasileira foram mais vítimas do que instrumento de instauração do regime de 64. Evidente que a análise histórica corrobora com essa teoria.
Continua…
Embarque da Força Expedicionária Brasileira
Artigo enviado pelo pesquisador Rigoberto Souza Júnior.
O embarque da FEB se processou da seguinte maneira:1º Escalão, embarcado no Porto do Rio de Janeiro em 02/07/1944 e desembarcado em Nápoles, no dia 16/07/1944, com um efetivo de 5.075 homens, inclusive 304 oficiais; 2º e 3º escalões, embarcados em 22/09/1944, com um efetivo de 10.375 homens, inclusive 686 oficiais; 4º escalão, embarcado em 23/11/1944, com um efetivo de 4.691 homens, inclusive 285 oficiais e 5º e último escalão, embarcado em 08/02/1945 e desembarcado em 22/02/1945, com um efetivo de 5.082 homens, inclusive 247 oficiais.
Foram ainda transportados por via aérea, 44 médicos e 67 enfermeiras, totalizando 25.334 participantes da Campanha da Itália.
Considerando a possibilidade de ataques por submarinos alemães, a travessia do Atlântico e do Mediterrâneo, foi cercada de um rigoroso dispositivo de segurança, do qual participou também , a valorosa Marinha brasileira.
O transporte foi feito pelos navios americanos “General Mann” e “General Meigs”, comboiados por destróiers da nossa Marinha e navios de combate americanas até o Estreito de Gilbraltar. Essa medidas de segurança foram completadas com as bombas de profundidade dos nossos destróiers, com o próprio armamento dos transportes de guerra e o contínuo funcionamento do radar e dos aviões existentes nos cruzadores americanos da escolta. Apesar de todo este aparato de segurança, eram diários os exercícios de alarme para abandono de navio e obrigatório o uso permanente de coletes salva-vidas, as regras de segurança impuseram também, o escurecimento
do navio durante a noite.
A partir do Estreito de Gibraltar, a escolta foi feita somente por navios americanos e ingleses, dispondo inclusive, de permanente cobertura aérea.
A entrada do “General Mann” no mediterrâneo, se revestiu de grande solenidade, tendo o Comandante do navio, o Capitão Paul Maguire, dirigiu à FEB, uma entusiástica saudação, ao qual extraiu-se este trecho: “ Brasileiros! Sois a primeira força sul americana que deixou seu continente para combater em ultramar, com destino ao Teatro de Guerra Europeu, constituindo um novo Exército de homens livres que se vem a juntar a tantos outros na luta pela liberdade dos povos oprimidos. Quem poderá avaliar da suprema importância que podereis representar nos campos de batalha? Não a primeira vez na História, que a adição de alguns homens, em determinado setor de luta, fizesse pender definitivamente para eles o fiel da balança e os louros da vitória”.
Em resposta assim se expressou o General mascarenhas de Morais: – “Senhor Comandante! Conduzistes as primeiras tropas terrestres sul americanas através do Atlântico; ides fazê-las penetrar no Mediterrâneo e depois entregá-las ao Teatro de Guerra no Sul da Europa. A minha Pátria está vivendo assim, o ciclo da grande e gloriosa Pátria de Washington. Colonizados e vitalizados pela civilização europeia, somos as Nações do Hemisfério Ocidental mais identificadas na defesa do patrimônio da Humanidade em terras americanas e, em muito em breve, nos campos de batalha da Europa. E esta identidade de destino de dois povos unidos por tão alevantada aliança, traduz-se no entrelaçamento de nossa bandeiras no Mediterrâneo, no próprio berço da civilização cristã, que hoje engrandece os Estados Unidos e o Brasil. Unidos na América e sobre as águas do Atlântico, seremos na Europa também irmãos do mesmo ideal”.
A primeira missão da Marinha Brasileira chegara ao fim comboiando o 1º Escalão até o Estreito de Gibraltar. Nesta ocasião o General Mascarenhas de Morais transmitiu a seguinte mensagem telegráfica ao Capitão de Mar e Guerra Antônio Alves de Câmara Júnior, Comandante da Frota brasileira: “ – Em nome dos brasileiros que partem para a linha de frente, a fim de continuar o glorioso trabalho de nossa Marinha na defesa de nossa soberania, apresento minhas despedidas: gratíssimo pela vossa proteção contra os submarinos”.
Em seguida, recebeu o General Mascarenhas de Morais a seguinte resposta: “Os representantes da Marinha do Brasil tiveram a grande honra em comboiar vossa Forças e fazem votos de todo o sucesso para maior glória das Armas brasileiras.”
Em todos os escalões, estabeleceu-se as mesmas medidas de segurança durante a viagem
marítima.
A Conquista do Monte Castelo – 67 anos depois
Artigo enviado pelo Pesquisador Rigoberto Souza Júnior – Secretário da ANVFEB-PE.
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O Monte Castelo é até hoje, aclamado como o maior feito da Força Expedicionária Brasileira no Teatro de Operações da Itália. Acredito que isto se deve ao fato de ter havido quatro ataques, até a sua conquista definitiva.
Esta elevação, a mais alta da crista dos Apeninos, já havia se tornado uma fortaleza inexpugnável, que causava arrepios em nossos combatentes e nas tropas aliadas, pois ingleses, sul-africanos, poloneses e americanos, já haviam tentado conquistá-lo sem êxito.
Além dos soldados mortos em ação, houveram muitos problemas com o socorro dos feridos, ou mesmo com o recolhimento dos corpos, pois os alemães, uma tropa impiedosa, tinham por hábito ligar os cadáveres a armadilhas, como as temidas body-traps conectadas às plaquetas de identificação(dog-tag), ou então deixavam na mão do morto uma granada já sem o pino de segurança, que qualquer movimento que fosse feito, explodiam causando mais danos aos nossos pracinhas.
Gostaria de reproduzir alguns depoimentos de italianos, que viveram aqueles momentos de horror durante a 2ª guerra mundial:
Giuseppe Cechelli – Gaggio Montano – Bolonha – Itália
“Lembro- me que nesta época havia falta de tudo, principalmente comida, e os brasileiros nos davam “scatole”(caixas de ração) que continham biscoitos, chocolate, carne enlatada, e às vezes minha mãe fazia polenta, que todos apreciavam muito, vivíamos como uma grande família. Também me recordo dos negros americanos da 92ª DI, que fugiram e vieram se esconder na parte de cima da minha casa, e posteriormente chegaram os americanos brancos para procurá-los, e ao interrogar o meu pai, ele não balbuciou nenhuma palavra, mas fez um gesto com a mão apontando para cima, indicando que os mesmos estavam no sótão.
Com relação ao Monte Castelo, não posso me esquecer principalmente do ataque de 21 de Fevereiro de 1945, quando eu e minha família podíamos ver tudo de nossa casa, pois nunca a abandonamos, e era possível ver o fogo cerrado também sobre Rochindos, mas o que mais nos aterrorizava não era o fogo da artilharia, mas os tiros das metralhadoras, que partiam de todos os lados, enquanto nos abrigávamos em um abrigo no porão.”
Francesco Arnoaldo Berti – Guanella Gaggio Montano – Bolonha – Itália
A Família Berti está ligada à história da cidade, pois além de ser proprietária de grande extensão de terras, mas porque a casa onde mora faz parte do antigo burgo que formou a cidade. Guanella é formada por um conjunto de casa no sopé do Monte Castelo.
“ Em 1944 eu tinha 18 anos e faziz parte da Brigada Giustizia e Libertà, e os primeiros aliados que encontramos foram os americanos e cerca de 20 a 30 dias depois chegaram os brasileiros e ficaram onde hoje é o nosso jardim, pois o front estava praticamente parado, e onde hoje está o Monumento Liberazione, era a “terra de ninguém.
Os brasileiros começaram avançar e não deram conta que o front estava parado, nós também não sabíamos, pois só depois soubemos que algumas divisões foram desviadas para atender ao desembarque na Normandia e aqui faltavam soldados. As primeiras tentativas para a tonmada de Monte Castelo foram feitas com muitas perdas da parte brasileira, nossos campos ficaram recobertos de cadáveres, pois foram ataques mal preparados, e somente em Fevereiro de 1945 o Monte Castelo foi tomado pelos brasileiros.
A brigada partigiana tinha a função de administração da cidade, e aquele momento não era de combate, e me recordo que da casa Di Franchi se via o Monte castelo, e se dava para escutar um bombardeamento de grande intensidade sobre o morro, e aquilo era um crescente ensurdecedor. Não se tinha ideia de onde vinham os tiros, talvez de cinco canhões, fazendo um barulho enorme, e logo em seguida nuvens negras surgiam, este tomento durou cerca de três horas, até que enfim os brasileiros conquistaram o Monte Castelo.”
Fabio Gualandi – Gaggio Montano – Bolonha – Itália
“ Os americanos chegaram em Gaggio Montano no dia 13 de Outubro de 1944, uma sexta-feira, e na metade do mês seguinte chegaram os brasileiros, que procuravam um lugar para erguer seu acampamento, ocupando as casas maiores, e rapidamente faziam amizade com as senhoritas.
Na cozinha do acampamento se fazia um pouco de tudo: mingau feito de leite em pó; churrasco feito de carne de boi ou porco; arroz com feijão preto, omelete feito com ovo em pó, mas o que eles mais apreciavam era um pão crocante, que era fabricado na Toscana, regado a muito café que era colocado em um recipiente grande. Os brasileiros levavam para a casa comida que alimentava uma centena de pessoas(uma companhia), os oficiais comiam numa mesa separada. Havia frutas, principalmente laranjas, e quando eles terminavam a população invadia o acampamento, e durante este tempo estes refugiados não passaram fome.
Na época da guerra aqui era um pavor, vi mortos pelas estradas, os corpos ficavam ali até que viessem recolhê-los. A miséria era grande, a fome então… os brasileiros formavam um exército diferente, gostavam de estar em família, e chamavam as senhoras mais velhas de mamma”. Lembro-me das patrulhas à noite, e algumas eram divertidas, e alguns fumavam desavisadamente, acendiam fogueiras, e hoje penso como fomos nos expomos ao fogo inimigo.
Pensei em seguir com os brasileiros, mas o meu pai não deixou, e nunca mais encontrei ninguém desta companhia. Temos um grande respeito e carinho pelos brasileiros, principalmente eu e minha família, pelos dias difíceis que passamos na guerra e a maneira que não passamos fome com a ajuda humanitária deste Exército.”
Este relato mostra que apesar das dificuldades enfrentadas por nossos Pracinhas, eles não perderam seus valores adquiridos em uma educação pautada no respeito ao próximo, característico do homem simples brasileiro.
Fontes: “E foi assim que a Cobra Fumou” – Elza Cansanção – 1987
“ Nas trilhas da 2ª Guerra Mundial – Carmen Lúcia Rigoni – 2001
Monte Castelo – A Bravura do Soldado Brasileiro
Artigo do Historiador Alessandro dos Santos Rosa.
Do sopé ao cume: a bravura destemida do soldado brasileiro
A efetiva participação da Força Expedicionária Brasileira foi marcada por alguns episódios que destacaram de forma explicita a bravura de homens, em sua maioria camponeses, de costumes simples, poucos estudos, porem, com o peito arraigado de patriotismo, coragem e destemor. Sentimentos de verdadeiros heróis e que deram mostras da valorosa participação do pracinha brasileiro no cenário da Segunda Guerra Mundial.
A Batalha de Monte Castello foi travada ao final da Segunda Guerra Mundial, entre as tropas aliadas e as forças do Exército alemão, que tentavam conter o seu avanço no Norte da Itália. Esta batalha marcou a presença da FEB no conflito. A batalha arrastou-se por três meses, de 24 de novembro de 1944 a 21 de fevereiro de 1945, durante os quais se efetuaram seis ataques, com grande número de baixas devido a vários fatores, entre os quais as temperaturas extremamente baixas. Quatro dos ataques não tiveram êxito, por falhas de estratégia. Situado a 61,3 km sudoeste de Bolonha (monumento ai Caduti Brasiliani), via Località Abetaia (SP623), próximo a Abetaia. Coordenadas 44.221799, 10.954227, a 977m de altitude.
A 1ª Divisão Expedicionária do Exército Brasileiro (DIE), em novembro de 1944, desviou-se da frente de batalha do Rio Serchio, onde vinha combatendo há pelo menos dois meses, para a frente do Rio Reno, na Cordilheira Apenina. O General Mascarenhas de Moraes, havia montado seu QG avançado na localidade de Porreta-Terme, cuja área era cercada por montanhas sob controle dos alemães, este perímetro tinha um raio aproximado de 15 quilômetros. Qualquer que fosse a movimentação. Ficava dificultada, pois as posições alemãs eram consideradas privilegiadas e submetiam os brasileiros a uma vigilância constante,. Estimativas davam que o inverno prometia ser rigoroso, além do frio intenso, as chuvas transformaram as estradas, já esburacas pelos bombardeiros aliados, em verdadeiros mares de lama.
O comandante das Forças Aliadas na Itália, o General Mark Clark, pretendia direcionar sua marcha com o 4º Corpo de Exército rumo a Bolonha, antes que as primeiras nevascas começassem a cair. Entretanto, a posição de Monte Castelo se mostrava extremamente importante do ponto de vista estratégico, além de dominado pelos alemães dava pleno controle sobre a região.
A frente italiana estava sob a responsabilidade do Grupo-de-Exércitos “C”, sob o comando do General Oberst Heinrich von Vietinghoff. A ele estavam subordinados três exércitos alemães: 10º, 14º e “Exército da Ligúria”, este último defendendo a fronteira com a França. O 14º era composto pelo 14º Corpo Panzer e pelo 51º Corpo de Montanha. Dentro do 51º Corpo estava a 232ª Divisão de Granadeiros (Infantaria), do general Barão Eccart von Gablenz, um veterano de Stalingrado.
A 232ª foi ativada a 22 de Junho de 1944, e era formada por veteranos convalescentes que foram feridos na frente russa e era classificada como “Divisão Estática”. Era composta por três regimentos de infantaria (1043º, 1044º e 1045º), cada um com apenas dois batalhões, mais um batalhão de fuzileiros (batalhão de reconhecimento) e um regimento de artilharia com 4 grupos, além de unidades menores. Esta formação totalizava cerca de 9.000 homens. A idade da tropa variava entre 17 e 40 anos e os soldados mais jovens e aptos foram concentrados no batalhão de fuzileiros. Durante a batalha final, ela foi reforçada pelo 4º Batalhão de Montanha (Mittenwald), que foi mantido em reserva. Os veteranos que defendiam essa posição não tinham o mesmo entusiasmo do início da guerra, mas ainda estavam dispostos a cumprir com o seu dever.
Foi delegado aos brasileiros a responsabilidade de conquistar o setor mais combativo de toda a frente Apenina. Porém havia um problema: a 1ª DIE era uma tropa ainda sem experiência suficiente para encarar um combate daquela magnitude. Mas como o objetivo de Clark era conquistar Bolonha antes do Natal, o jeito seria o de aprender na prática, ou seja, em combate.
Dessa Forma, em 24 de novembro, o Esquadrão de Reconhecimento e o 3º Batalhão do 6º Regimento de Infantaria da 1ª DIE juntaram-se à Força-Tarefa 45 dos Estados Unidos para a primeira investida ao Monte Castello. No segundo dia de ataques tudo indicava que a operação seria exitosa: soldados americanos chegaram até a alcançar o cume de Monte Castelo, depois de conquistarem o vizinho Monte Belvedere. Entretanto, em uma contra-ofensiva poderosa, os homens da 232ª Divisão de Infantaria germânica, responsável pela defesa de Castello e do Monte Della Torracia, recuperaram as posições perdidas, obrigando os soldados brasileiros e americanos a abandonar as posições já conquistadas – com exceção do Monte Belvedere.
O 2º ataque ao monte foi palnejado em 29 de novembro. Nesta contra-ofensiva a formação de ataque seria quase em sua totalidade obra da 1ª DIE – com três batalhões – contando apenas com o suporte de três pelotões de tanques americanos. Todavia, um fato imprevisto ocorrido na véspera da investida comprometeria os planos: na noite do dia 28, os alemães haviam efetuado em contra-ataque contra o Monte Belvedere, tomando a posição dos americanos e deixando descoberto o flanco esquerdo dos aliados.
Inicialmente a DIE pensou em adiar o ataque, porém as tropas já haviam ocupado suas posições e deste modo a estratégia foi mantida. Às 7 horas uma nova tentativa foi efetuada.
As condições do tempo mostravam-se extremamente severas: chuva e céu encoberto impediam o apoio da força aérea e a lama praticamente inviabilizava a participação de tanques. O grupamento do General Zenóbio da Costa no início conseguiu um bom avanço, mas o contra-ataque alemão foi violento. Os soldados alemães dos 1.043º, 1.044º e 1.045º Regimentos de Infantaria barraram os avanços dos soldados. No fim da tarde, os dois batalhões brasileiros voltaram à estaca zero.
Em 5 de dezembro, o general Mascarenhas recebe uma ordem do 4º Corpo: “Caberia à DIE capturar e manter o cume do Monte Della Torracia – Monte Belvedere.”[3] Ou seja, depois de duas tentativas frustradas, Monte Castelo ainda era o objetivo principal da próxima ofensiva brasileira, a qual havia sido adiada por uma semana.
Mas em 12 de dezembro de 1944, a operação foi efetivada, data que seria lembrada pela FEB como uma das mais violentas enfrentadas pela tropas brasileiras no Teatro de Operações na Itália.
Com as mesmas condições meteorológicas da investida anterior, o 2º e o 3º batalhões do 1º Regimento de Infantaria fizeram, inicialmente, milagres. Houve inicialmente algumas posições conquistadas, mas o pesado fogo da artilharia alemã fazia suas baixas. Mais uma vez a tentativa de conquista se mostrou infrutífera e, o pior, causando 150 baixas, sendo que 20 soldados brasileiros haviam sido mortos. A lição serviu para reforçar a convicção de Mascarenhas de que Monte Castello só seria tomada dos alemães se toda a divisão fosse empregada no ataque – e não apenas alguns batalhões, como vinha ordenando o 5º Exército.
Somente em 19 de Fevereiro de 1945, após a melhora do inverno o comando do 5º Exército determinou o início de uma nova afensiva para a conquista do monte. Tal ofensiva utilizaria as tropas aliadas, incluindo a 1ª DIE, ofensiva que levaria as tropas para o Vale do Pó, até a fronteira com a França
Utilizando-se ainda da formação brasileira para a conquista do Monte e a consequente expulsão dos alemães, seria novamente a ofensiva batizada de Encore, ou Bis. Desta vez a tática utilizada, seria a mesma idealizada por Mascarenha de Moraes em 19 de Novembro.Assim, em 20 de Fevereiro as tropas da Força Expedicionária Brasileira apresentaram-se em posição de combate, com seus três regimentos prontos para partir rumo a Castello. À esquerda do grupamento verde-amarelo, avançaria a 10ª Divisão de Montanha dos Estados Unidos, tropa de elite, que tinha como responsabilidade tomar o Monte della Torracia e garantir, dessa forma, a proteção do flanco mais vulnerável do setor.
O ataque começou às 6 horas da manhã, o Batalhão Uzeda seguiu pela direita, o Batalhão Franklin na direção frontal ao Monte e o Batalhão Sizeno Sarmento aguardava, nas posições privilegiadas que alcançara durante a noite, o momento de juntar-se aos outros dois batalhões. Conforme descrito no plano Encore, os brasileiros deveriam chegar ao topo do Monte Castelo às 18 horas, no máximo – uma hora depois do Monte della Torracia ser conquistado pela 10ª Divisão de Montanha, evento programado para as 17 horas. O 4º Corpo estava certo de que o Castelo não seria tomado antes que Della Torracia também o fosse.
Entretanto, às 17h30, quando os primeiros soldados do Batalhão Franklin do 1º Regimento conquistaram o cume do Monte Castelo, os americanos ainda não haviam vencido a resistência alemã. Só o fariam noite adentro, quando os pracinhas há muito já haviam completado sua missão, e começavam a tomar posição nas trincheiras e casamatas recém-conquistadas. Grande parte do sucesso da ofensiva foi creditada à Artilharia Divisionária, comandada pelo General Cordeiro de Farias, que entre 16h e 17h do dia 22, efetuou um fogo de barragem perfeito contra o cume do Monte Castelo, permitindo a movimentação das tropas brasileiras.
Falhas estratégicas, terreno íngreme, tiros, lama, frio, bombardeios, o medo corroendo o estômago, a presença constante da morte, foram alguns dos detalhes que rondaram as mentes e corpos dos bravos heróis. Alguns pereceram, outros de medo sucumbiram, porem, a grande maioria, superando seus medos, com atos de bravuras, como coração de verdadeiros heróis, saíram do sopé e conquistaram o cume daquela elevação quase intransponível.
Não nos esqueçamos dos nossos pracinhas, não deixamos se perder esse legado deixado pelos verdadeiros heróis de nossa nação, não nos esqueçamos dos feitos daquele dia 21 de fevereiro de 1945. Vamos rememorar atos heróicos como esse para evitar que nossa sociedade seja escrava de sua própria ignorância.
“… povo que não tem virtude acaba por ser escravo….”[1]
Bibliografia
MORAES, João Baptista Mascarenhas de. A FEB pelo seu comandante. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 2005. v. 416.
SILVEIRA, Joaquim Xavier da. A FEB por um soldado. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 2001.
JOEL, Silveira, O Inverno na Guerra – Objetiva,2005
PAES, Walter de Menezes: Lenda Azul – Bibliex 1992
ECKERT, José Edgar. Memórias de um ex-combatente: Relato de um ex-combatente da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial. Florianópolis: Insular, 2000.
[1] Parte do Hino Rio-Grandense.
Citações de Combate da Força Expedicionária Brasileira – Parte II
Soldado João Martins da Silva, do I Regimento de Infantaria – IG – 224.132. Estado do Rio de Janeiro.
Em 23-2-1945:
Eis outro episódio que, na sua simplicidade, reflete as belas virtudes do soldado brasileiro.
Durante o bombardeio do seu posto em BELAVISTA, foi atingido por três estilhaços de granada o soldado MARTINS. Assim ferido, deixou-se ficar no mesmo lugar sem uma queixa sequer. E ali permaneceu cerca de oito horas. Sabedor do fato pelos companheiros do soldado ferido, o Comandante do Pelotão determinou sua evacuação. No posto de socorro, interrogado pelo médico, porque resolvera calar sobre seu estado de saúde, respondeu-lhe simplesmente que, ciente de que os alemães iram lançar contra-ataques, decidira não se afastar do posto para ajudar a repeli-los uma vez que o Pelotão se encontrava desfalcado e ainda se sentia forte. Possuía, realmente, o soldado MARTINS, a tempera do verdadeiro combatente. O seu exemplo, pela sua grandeza e pelo estoicismo envaidece a tropa brasileira.
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Soldado ROMEU SIQUEIRA MACEDO, do I Regimento de Infantaria – 1G – 266.733. Estado do Rio de Janeiro.
Em 23-2-45
O seu Pelotão atacara e se apossara de LA SERRA, e agora se esforçava para manter o terreno conquistado, eliminando as resistências alemãs que ainda perduravam o cumprimento integral da missão. No curso da ação já se havia distinguido o Soldado Romeu. Agora, como esclarecedor de uma patrulha, devia reconhecer uma posição inimiga que se revelara poucos momentos antes. Avizinhando-se dessa posição, ele ouve rumores partidos do interior do abrigo. À porta do citado abrigo, surge-lhe inesperadamente, um adversário: o soldado Romeu logo tomara a iniciativa e o faz prisioneiro, e a resistência foi reduzida.
O desassombro, a decisão inflexível e rápida, a vontade forte do Soldado Romeu, são belos exemplos que tenho o prazer de apontar à tropa brasileira.
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Soldado ISINO NEUMAN, do I Regimento de Infantaria – 2G – I26.883. Estado de Santa Catarina.
Em 23-2-45
Pertencia ao Grupo de Comando da 6ª CIA. Esta subunidade se empenhava com raro vigor, na conquista da linha LA SERRA COTA 958.
Partira ela, ao ataque, na noite de 23 e, para cumprir a missão, necessitava que funcionassem sem interrupção seus variados meios de transmissão. O sargento e o soldado de transmissão haviam baixado ao hospital. Entretanto a presença do soldado ISINO era uma garantia para que as transmissões não falhassem: tomou sob a sua responsabilidade exclusiva a integridade das ligações de rádio S.C.R 300 com o batalhão, S.C.R. 536 com os pelotões, e telefônicas com 6 pelotões de fuzileiros e petrechos. Toda vez que os bombardeios lançavam a procura de ponto de ruptura dessas linhas e imediatamente fazia as reparações indispensáveis. O desejo ardente de servir à causa de seu país superava toda a dificuldade e guiava as ações no ataque.
A iniciativa, o ânimo forte brasileiro, o destemor, a noção perfeita do cumprimento do dever, a capacidade profissional, do soldado ISINO são exemplos de realce, que deve apontar a todos os quantos combatem neste setor da FEB.
A FEB – Lendas e a Verdade Histórica – Parte II
A FEB e o Governo de Vargas
Criamos alguns tópicos para explicar os diversos itens que suscitam dúvidas e inverdades sobre a FEB
De quem foi a ideia de enviar tropas para o exterior?
Quando houve o alinhamento das posições brasileiras com os americanos a partir da Encontro de Chaceleres em janeiro de 1942, no Rio de Janeiro e o consequente rompimento das relações diplomáticas com as nações do Eixo, o país se preparou para a retaliação dos alemães. Isso fica evidenciado com a atuação dos embaixadores Ugo Sola, da Itália e Kurt Prüffer, da Alemanha, esse diplomatas realizaram encontros, reuniões para deliberar contra as aspirações americanas e o alinhamento brasileiro, inclusive com ameaças veladas, afirmando que o rompimento das relações diplomatas acarretaria consequências beligerantes entre as nações; o Embaixador Itaro Ishii também agia enviando cartas diretamente ao Ministro da Guerra, General Dutra. Nada adiantou, o Brasil em 28 de janeiro rompe as relações com o Japão, pelo ataque a Pearl Harbor, e com Alemanha e Itália, pela declaração de guerra contra os EUA.
Esse episódio inicial da posição brasileira abriu uma consequência e um fato, primeiramente o torpedeamento de navios brasileiros na costa do nosso país por submarinos alemães. E isso é um fato irrefutável, mas que não cabe nesse momento uma argumentação sobre assunto nesse artigo; a segunda é a fragilidade das defesas brasileiras, principalmente no nordeste, que não ofereceria qualquer tipo de resistência a uma possível incursão inimiga. Sabedora das deficiências brasileiras, um dos acordos realizado pelos Estados Unidos e o governo brasileiro era a criação de uma Comissão Mista de Defesa Brasil-Estados Unidos (Join Brazil/Unided State Defense Commission), essa comissão iria estabelecer as bases para cooperação militar, envio de material bélico e ajuda econômica com o objetivo de defesa do continente, a partir do território brasileiro. Contudo na reunião de 27 de agosto de 1942, na presença do General Leitão de Carvalho, chefe da delegação brasileira, foi informado pelo Major General J. Geresché Ord, que a estratégia dos Aliados e as operações que ocorriam nos diversos teatro de operações seguiriam um postura ofensiva, isso implicaria em mudança de postura em relação as expectativas brasileiras, principalmente para aquisição de material bélico na defesa do litoral brasileiro e o reaparelhamento das Forças Armadas. Ord confirmou a indicação americana de limitar a contribuição a quadros de instrução para o material técnico e o mínimo de homens necessários para esse fim.
Com a mudança de estratégia americana houveram divergências entre os dois governos, e o Brasil insistiu no envio do material para proteção do litoral. Uma das formas de manter as negociações abertas para o suporte econômica-militar americano, foi quando o Brasil manifestou interesse na formação de um contingente a ser enviado para um Teatro de Operações. A partir desses entendimentos ficou estabelecido a continuidade do apoio logístico e a criação de uma Força Expedicionária constituída de um Corpo de Exército formado por 03 Divisões de Infantaria e elementos de Corpo, com as seguintes características:
1. Organizada e estrutura igual à adotada nos Estados Unidos;
2. Organização de uma Força Aérea Expedicionária de cooperação;
3. Os Corpo Expedicionário e a FaE ficariam subordinadas ao Alto Comando Americano;
4. Utilização das instalações e dos serviços do Exército americano no Teatro de Operações;
5. O material da Força Expedicionária seria de origem norte-americana;
6. 50% do material seria entregue no Brasil, para instrução;
7. Técnicos norte-americanos seriam enviados para o Brasil, quando requisitados;
8. Oficiais do Corpo Expedicionário e determinados números de oficiais das Escolas de Centros de Instruções do Exército brasileiro, iriam estagiar no Exército americano;
9. O pagamento da tropa, fora do continente, seria em dólares;
10. A Força Expedicionária brasileira ficaria sob a jurisdição da Justiça Militar Brasileira.
No final das contas, o Presidente Getúlio Vargas sabia exatamente dos riscos que corria no envio de uma tropa para uma guerra que se arrastava há mais de cinco anos, mas ele viu uma oportunidade política e econômica. Na verdade o Governo não queria enviar tropas ao exterior, mas também não queria se indispor com seus Aliados, principalmente os Estados Unidos, tendo em vista a grande quantidade de equipamentos militares que chegavam ao Brasil e os Acordos econômicos que estavam sendo traçados. Ele queria formar uma Força Expedicionária, mas “para inglês ver…”, na verdade para “americano ver”.
Preparação da Força Expedicionária Brasileira
Estamos com o desejo de cobrir todos os aspectos da Força Expedicionária Brasileira, tendo a pretensão de ser um pequeno livro virtual da FEB. Portanto estamos publicando o 4º Capítulo. E para quem não acompanhou também estou colocando os três iniciais. Espero que gostem:
I – Introdução
II – O Brasil em cima do Muro!
III – Osvaldo Aranha – O cara que decidiu
IV – FEB – A Preparação:
É necessário que possamos entender de forma completa todo o cenário político que caracterizou o processo de entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, entendendo, inclusive, a estratégia brasileira para barganhar apoio técnico-financeiro em contrapartida a cessão de bases para o engajamento no conflito.
A política externa brasileira se volta para o alinhamento diplomático com os Estados Unidos a partir do rompimento das relações com as potências do Eixo em 1942. E o resultado concreto dessa aproximação é a formação da uma Comissão Mista de Defesa Brasil-Estados Unidos (Joint Brazil/United State Defense Commission), com a intenção de realizar o planejamento estratégico da defesa do país, e cujo acordo de cooperação, divulgado em 23 de março de 1942, cita a utilização de tropas brasileiras no continente americano “mediante decisão do governo brasileiro”, é a primeira vez que é cogitada a utilização de força brasileira em operações de guerra fora do seu território. Em 29 de março de 1943, o Presidente Getúlio Vargas autoriza o General Leitão de Carvalho, membro da Comissão, a realizar um estudo sobre a utilização de tropas brasileiras nas operações de guerra. Outro ponto a ser analisado é a situação extremamente sensível do nordeste brasileiro, onde o Brasil fez muito pouco, ou quase nada para mobilizar recursos militares para a região durante os momentos mais vulneráveis do front africano. Cidades importantes como Natal, Recife, Salvador e Rio de Janeiro estavam completamente desprotegidas e sem qualquer plano de defesa para inibir ataques de força estrangeira. Durante os anos de 1940 a 1943, o Ministério da Guerra promoveu apenas o deslocamento de pequenas unidades para o litoral, como é o caso de unidades de infantaria que tiveram efetivos do tamanho de uma fração de combate enviadas para proteção do litoral da Paraíba e cidades litorâneas do Rio Grande do Norte. A falta de condições de defesa de seu litoral foi um dos motivos que levou o país a buscar o apoio militar dos Estados Unidos na própria Comissão Mista de Defesa. Mas o governo brasileiro também desejava ter uma tropa que pudesse ser capacitada e equipada com o melhor que os americanos tinham, portanto começa a tomar corpo a estruturação da FEB.
Com a preparação para a formação de uma Força Expedicionária Brasileira o Exército passa por uma reformulação que, do ponto de vista militar, é bastante custosa; a mudança da doutrina militar. O emprego de militares formados segundo as técnicas de doutrinamento utilizadas pelo país durante décadas seria um dos principais problemas enfrentados pelos militares, principalmente aqueles de carreira.
A Missão Militar Francesa (MMF) estabeleceu no país, através de convênio entre o Brasil e a França, esforços no sentido de modernizar a Força Terrestre, sendo aplicada nas décadas de 20 e 30, e tendo encerrado suas atividades no país com a eclosão da Segunda Guerra Mundial. Nesse contexto, o Brasil deveria formar uma Força Expedicionária que pudesse absorver a doutrina americana, que é completamente diferente da doutrina francesa, para combater como uma divisão americana, esse foi o primeiro grande obstáculo a ser ultrapassado pelo Exército brasileiro para formação de uma Divisão Expedicionária, e essa dificuldade passava pela especialização das unidades e elementos a serem empregados na guerra moderna, como é o caso das unidades especializadas no emprego logístico, policiamento, engenharia, medicina e especialidades armamentistas que simplesmente não existiam no Exército, e nem mesmo no país; outro ponto é que os oficiais que comandariam as unidades deveriam conhecer profundamente as táticas militares e os armamentos individuais e coletivos utilizados pelos seus soldados, tudo de origem americana. Todos os oficiais estavam familiarizados com a doutrina francesa utilizada em centros de formação de oficiais, como a Escola Militar de Realengo. Portanto um impacto que o Exército ainda não sabia a dimensão disso na atitude e no comando das tropas.
O início da formação da Força Expedicionária Brasileira começou com o recrutamento de seus membros, para tanto, um grupo de oficiais superiores foram enviados como observadores nos Estados Unidos e na África, desse grupo sairia o Comandante da FEB. Coube ao Presidente Vargas a escolha do comando, sendo indicado o General Mascarenhas de Morais, que estava servindo em São Paulo e respondeu positivamente a mensagem reservada enviada pelo Ministro da Guerra Eurico Gaspar Dutra, sendo nomeado comandante da Força Expedicionária Brasileira. Também foram escolhidos os três Regimentos Militares que iriam compor a espinha dorsal da FEB: 1º Regimento de Infantaria, sediado no Rio de Janeiro, 11º Regimento de Infantaria, sediado em Minas Gerais e 6º Regimento de Infantaria, sediado no Estado de São Paulo. Além desses grandes Regimentos, citaremos o 9º Batalhão de Engenharia, que viria a ser a primeira tropa a entrar na linha de frente na Itália. Outras unidades mais especializadas foram reestruturadas para compor a FEB ou criadas completamente, como é o caso do Pelotão de Polícia Militar (Military Police). Alguns oficiais Generais e Oficiais Superiores foram enviados para os Estados Unidos para realizarem Curso de Aperfeiçoamento em Academias Militares americanas. O objetivo dessa formação era diminuir o impacto com doutrina que iria ser utilizada nos campos de batalha com a FEB.
Após a fase de tramitação burocrática para constituição da FEB, seguiu a fase de incorporação dos seus efetivos. Inicialmente os militares dos Regimentos já citados foram convocados e, preferencialmente, aqueles militares que desejaram ser incorporados, sendo que a maioria dos praças, eram oriundos das cidades onde os regimentos estavam localizados. Mas, evidentemente, o efetivo de uma Divisão exigiu que outros oficiais e praças fossem transferidos de outras regiões do país, sendo o procedimento de voluntariado, conforme descrito abaixo, pelo então 3º Sargento Virgílio, da Paraíba, e servindo no 15º Regimento de Infantaria em depoimento:
“…Estava minha Companhia em instrução, quando recebemos ordens para suspender os exercícios e regressar ao quartel, lá mandaram os graduados e praças antigas para o alojamento, onde ficaram aguardando ordem para falar com o comandante da Companhia, quando chegou minha vez, entrei, o comandante olhou para mim e disse: Sargento Virgílio, recebi ordens de relacionar voluntários para a Força Expedicionária Brasileira, vou lhe fazer uma pergunta, você responda sim ou não: você deseja se voluntariar como voluntário para a FEB? Respondi sim! Após minha reposta, ele me mandou que saísse e não mais voltasse ao alojamento.”
A FEB não era constituída de homens que foram convocados aleatoriamente como ainda hoje se pensa; a FEB foi formada em sua grande maioria por voluntários que manifestaram seu desejo de lutar, mais evidentemente havia cargos que foram necessários convocações, como é o caso de funções especializadas que, infelizmente, foram preenchido por especialistas convocados. Outro ponto a se observar, eram as Inspeções de Saúde, realizadas por médicos americanos, que classificaram muitos dos soldados brasileiros como inaptos para serviços, tendo em vista os padrões americanos.
Todos esses percalços fortaleceram a imagem de uma Divisão de Guerra que nunca iria sair do país, inclusive com seus problemas sendo expostos constantemente pela impressa brasileira, sendo parte dessa propaganda negativa, ainda relacionada com pessoas que nutriam simpatia pelos alemães e italianos. Mesmo quando a Divisão Brasileira estava formada e em período de treinamento eram constantes cortes por inaptidões físicas e outros problemas de saúde, como bem cita o Coronel Adhemar Rivermar em sua obra Montese – Marco Glorioso de uma Trajetória:
“Lembro-me bem de certa manhã que, em vez de sairmos para a realização de uma marcha, seguida de tomada de contato com o inimigo, como estava programado, tivemos de permanecer em forma por várias horas, pois dezenas de dentistas civis, de ambos os sexos, lá estavam a fim de colaborar na verificação dentária da tropa, alvo de grandes preocupações por parte dos organizadores da FEB. Ainda em forma, depois de uma exame superficial, foram relacionados todos aqueles que tinham de ser prontamente atendidos. Durante vários dias de extrações e tratamentos diversos tornaram-se prioritários e baldes sem conta encheram-se de dentes careados, sendo que muitos deles, em outras condições, teriam sido restaurados”.
No final das contas essa tropa com soldados relativamente desnutridos, desacreditado e mal equipado, chegou a Itália sobre o bastião da desconfiança de seus comandantes americanos, mas nas adversidades os brasileiros se mostraram um tropa corajosa e foram, ao poucos, conquistando a confiança dos mesmos comandantes que viram a força e a coragem dos soldados brasileiros tomarem Camaiore, S. Maria Villiana, Monte Prano, Fornacci, Galicano, Barga, San Quirino, Monte Cavalloro, Monte Castelo, Castelnuovo, Montese, Paravento, Collecchio, Riverla, Zocca, Formigine, Castelvetro e Monte Maiolo. Capturaram 2 Oficiais Generais, 892 Oficiais, 19.689 praças, 80 canhões, 5000 viaturas e 4000 cavalos. O que mais podemos dizer dessa tropa?
FIM DA GUERRA! Por Joel Silveira.
Em uma deliciosa reportagem de Joel Silveira fala sobre seu encontro de uma tropa alemã no final da guerra, então percebemos algo que, inicialmente, é difícil de encontrar ou entender durante um estado de guerra. Primeiro a disciplina alemã é incrivelmente inquestionável, mesmo totalmente destroçada as tropas marchavam em formação, com respeito e obediência hierárquica, e na narrativa do Joel parece algo surreal para exército desfarelado. Outra observação é o ponto em que o próprio correspondente de guerra percebe que um novo universo estava se formando para vencido e vencedores, e como um profeta ele pergunta: O que será de nós? Como se previsse o descaso que aconteceria como a desmobilização e abandono do contingente vitorioso da FEB. Então curtam esse maravilhoso relato:
Publicado anteriormente: O Primeiro Dia – Relato de Joel Silveira – Correspondente de Guerra
Então para fechar vamos publicar o último dia da guerra para Joel Silveira.
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Fim da Guerra
Foi no dia 03 de maio de 1945.
Haviam-nos dito, no QG avançado da FEB, que a guerra iria acabar dentro de três dias, quatro no mais tardar. Mas na verdade já havia acabado, embora muitos combatentes – aliados e alemães – ainda não soubessem disso. Eu sabia. Mas não sabia o sargento alemão que fomos encontrar, num trecho de autoestrada que vai de Milão para Bolonha, tentando comandar decentemente um grupo de soldados amarfanhados e barbudo. Atrás do aturdido Batalhão, um pequeno carro italiano camuflado levava um coronel de rosto duro, que sentava ereto ao lado do motorista como se estivesse em posição de sentido. E o motorista era quase um menino, as faces cavadas pelo cansaço, olheiras profundas e maltratados cabelos sobrando do casquete cinza-esverdeado.
Alcançamos com o nosso jipe o carro do coronel, que andava sem pressa, fiz um gesto pedindo que parasse. Mas, antes de frear, o menino olhou apreensivo para o impassível oficial. Este levantou o braço direito, cuja mão segurava uma luva de couro, e imediatamente o jovem chofer pisou no freio.
Lá na frente, o sargento e os soldados, vendo que o carro do coronel estacara, também interrompeu a marcha. E logo uma vintena rodeava nosso jipe. Numa voz que pretendia ser autoritária, o sargento grunhiu uma ordem que ninguém pareceu ouvir. Ou, se ouviram, não obedeceram.
Entre Milão e Bolonha, a larga estrada ainda não era inteiramente de ninguém, nem nossa, nem deles – e por ignorar isto é que o Correspondente de Guerra Rubem Braga levou um inesperado tiro na mão. Logo a magnífica rodovia estaria desimpedida, mas naquela manhã havia trechos dos quais o inimigo ainda não havia sido expulso. O difícil era saber o que já era nosso e o que ainda era deles. E sabe isso era o que precisamente estava acontecendo naquele instante no quilometro 312 do caminho que nos trouxera de Milão, libertada poucos dias antes, e que deveria nos levar a Bolonha, já tomada a muito tempo.
O Corporal Hans sabia um pouco de italiano e, a uma pergunta minha, respondeu que estava recuando.
– Para onde?
– Para qualquer lugar, não sabemos ainda.
Perguntei depois quem era o coronel. Hans me disse que o coronel se chamava Gunther Habecker, comandante do 114º Regimento de Artilharia – ou do que restava dele. E o que restava do 114 era o que se encontrava ali, diante de nós: uns 50 homens de todas as idades, de uniformes os mais variados, a maioria já sem qualquer arma, quase todos de olhos enterrados nos rostos magros, fechados na barba de dias. O 114º era a sobra da Divisão, a 543, que por sua vez, havia sobrado de uma Corpo de Exército – o do Marechal Kelsering – que não existia mais e que começara a dispersar-se desde que foram expulsos do seu QG, em Genôva.
Foi ao Corporal Hans que indaguei para onde eles pretendiam ir, mas ao fazer a pergunta fixei por um instante os olhos no coronel Gunther, que permaneceu como estava: vertical e distante. Hans queria saber se de fato a guerra havia acabado.
– Acabou mesmo, não?
– Acabou.
– Nós já sabíamos. Horas atrás encontramos um Batalhão de ingleses, perto de Pádua, e eles nem nos quiseram prender. Só o nosso Coronel não quer entender ou aceitar isso.
Marchavam agora, ou melhor, caminhavam quase se arrastando, como no final de um prolongado passeio. Direção: a retaguarda. Ponto de chegada: qualquer um. Talvez Bréscia, talvez Alessandria, porque as rações estavam chegando ao fim e os italianos, antes não amigos e prestativos, já não queriam mais nada com eles. Estavam sem comida. E sem cigarros.
– O último o Coronel acaba de fumar.
Quando Hans soube que era jornalista passou a me fazer uma série de atropeladas perguntas. Atropeladas e ansiosas. E logo não era apenas ele, mas todos a querer saber se era verdade que a Alemanha havia se rendido, se o Marechal Kesselring havia sido preso. Minhas respostas os deixavam ainda mais inquietos. Com exceção do coronel, que fingia não ouvir a conversa (da qual Hans servia de intérprete para os companheiros, no seu italiano confuso), mas era evidente que estava escutando e entendendo tudo.
Hans me disse mais, que as últimas notícias que haviam tido “lá do norte” não eram nada boas, coincidindo com as que eu lhe dava: Mussoline e seus gerarcas haviam sido executados pelos partigiani, Berlim praticamente fora varrida do mapa, Hitler se matara, e os vitoriosos, particularmente os russos, estavam sendo implacáveis para os vencidos.
Que ia ser deles? Uma era de Bremen, outro de Hamburgo, outro de Dresden (Dresden também acabou), outro de Kiel. E havia também alguns tchecos, um russo ucraniano e quatro polacos. Que ia ser de todos? Muitas das cidades onde havia nascido, e para onde pretendiam retornar um dia, eram naquele instante apenas nomes, referências sem sentido num geografia que a guerra havia passado a limpo, nalguns pontos apagando-a por completo do mapa.
Houve um momento em que o sargento segurou meu braço, me olhou dentro dos olhos e perguntou se tinha cigarros: “zigarette?” Não fumo – mas tinha.
– Cambiare?
Trocar por quê? Que teria ele a me dar? O alemão meteu a mão no bolso do culote folgado e dele tirou uma Cruz de Ferro e mais outro crachá no centro do qual uma iracunda águia nazista desfraldada as suas outrora temíveis asas.
–Cambiare?
Entreguei-lhe os dois maços de cigarros. Ele me deu as medalhas. Depois acendeu um cigarro, sorveu demorada e gulosamente a fumaça, os olhos semicerrados, num total enlevo. Em seguida ajeitou o bornal que trazia dependurado ao ombro, gritou um ordem imperativa e o grupo voltou a se reunir.
Foi então que começou a cair uma chuvinha rala e fria – e também absolutamente neutra, pois molhava a todos nós, vencedores e vencidos. Imperturbável, o Coronel Gunther Habecker continuou como estava. Mas o sargento, ao vê-lo exposto à chuva que engrossava, gritou qualquer coisa em alemão. E como ninguém, no grupo palrador, parecesse tê-lo ouvido, gritou mais alto. Logo um velho soldado destacou-se do resto do Batalhão, trazendo um guarda-chuva. O sargento arrancou-o das mãos do soldado, pulou para o assento de trás do pequeno carro do coronel e abriu sobre sua cabeça o guarda-chuva providencial. O coronel Gunther, comandante do 114º de Artilharia, repetiu o mesmo jeito de momentos antes, erguendo a mão que segura a luva de couro, e o seu carros pôs-se novamente em movimento. Ao roçar nosso jipe, fez uma espécie de continência, à qual o meu motorista, um enfezado e exausto terceiro-sargento, respondeu com um sonoro palavrão em português.
Não havia dúvida: a guerra tinha acabado, definitivamente. Tudo indica isso: o prosaico guarda-chuva aberto sobre a cabeça do coronel alemão, a sua continência vaga (mas um cumprimento que continência) e o indisciplinado palavrão do meu sargento – não restava mais dúvida: tais demonstrações tão à margem da ordem castrense eram a prova definitiva, a que me faltava, de que de fato a guerra chegara ao fim.
A guerra havia acabado – e, do lado de lá e do lado de cá, que seria de todos nós? Do lado de lá, um era de Bremen, outro de Hamburgo, outro de Praga – que ia ser deles? Do lado de cá, eu era de Aracajú e o sargento de São João del Rei – que ia ser de nós dois? Nossa situação, naquele momento, era ironicamente a mesma, ou quase. Vencidos e vencedores, a fábrica de matar, onde vínhamos trabalhando havia meses, anos, fora fechada, e agora estávamos todos sem emprego. Dentro de mais algumas horas, quando o armistício fosse assinado, não seríamos mais do que intrusos sem função num terra que não era a nossa e que por justas razões só tinha motivo para nos detestar e estava ansiosa para nos ver pelas costas.
Quando o último soldado alemão desapareceu na estava, o Sargento Alcebíades me perguntou para onde iríamos agora? Pensei alguns segundos, decidi:
– Vamos voltar.
– Para Milão?
– Exato
– Mas acabamos de sair de lá.
– E daí? A guerra acabou. O coronel deles pensa que não, mas o fato é que acabou. Você viu aquele guarda-chuva do sargento? A guerra acabou mesmo. Vamos para Milão. Lá tem luz, tem aquecimento, tem bebida, tem mulher. E já é hora de arrumar a nossa trouxa.
Na verdade, metido naquela farda velha de quase 10 meses, eu já começava a me sentir um tanto ridículo. Como alguém fantasiado de palhaço num quarta-feira de cinzas.
– Quer dizer que é Milão mesmo?
– É
– Pois que seja, o Capitão é que manda.
Minha reação ríspida:
– E pare de me chamar de “capitão”. “Capitão” é a mão!
– E como vou chamar o senhor a partir de agora?
– “Senhor” também é a mãe! Me chame simplesmente de Joel. É o meu nome. E é o que sou.
– Depois de tanto tempo, vai ser difícil. Mas vou tentar.
– Pois comece logo. E basta de conversa. Milão!
Fonte: A Luta dos Pracinhas – Joel Silveira/Thassilo Mitke. Ed. Record, 1993
A Reintegração Social dos Ex-Combatentes da FEB – Parte III
BRASIL: CONDUZIDO AO CONFLITO ARMADO
A abordagem sobre o direcionamento político, que aconteceu no cenário brasileiro, se torna importante para que possamos ter um entendimento de como foi demorada a tomada de decisão de apoiar, militarmente, os países aliados. Também, auxilia na compreensão de como teve que se organizar às pressas e de forma desordenada esse efetivo, que comporia a Força Expedicionária. Esse contingente foi mobilizado sem organização, fruto, principalmente, da inexperiência em guerras, situação que permaneceu presente na mobilização, participação e desmobilização da FEB, direcionando para a problemática social que se apresentou ao findar da participação brasileira no episódio da Segunda Guerra Mundial.
Com a Revolução de 1930, Getúlio Vargas é levado à presidência da República, conforme análise de Ricardo Seitenfus:[1]: “Em outubro de 1930, um movimento armado conduz o gaúcho Getúlio Dornelles Vargas à presidência da república. A Primeira República conhece seu ocaso e tem início a Era de Vargas”. Após passar pelo governo provisório (1930-1934) e pelo governo constitucional (1934-1937), apoiado por militares e pela população, Getúlio Vargas derrubou a constituição e declarou o Estado Novo (1937-1945). Com o advento do Estado Novo, em novembro de 1937, “Vargas passou a governar com poderes ditatoriais, iniciando oito anos de domínio incontrastável.”[2]
Iniciava-se um período de ditadura na História do Brasil. Alegando a existência de um plano comunista para a tomada do poder (Plano Cohen) Getúlio fechou o Congresso Nacional e impôs ao país uma nova Constituição, que ficaria conhecida mais tarde como “Polaca”, por ter se inspirado na Constituição da Polônia, de tendência fascista. O governo de Getúlio Vargas contava com grande apreço popular e tinha como meta principal enquadrar o Brasil em uma era de desenvolvimento. Procurando uma autonomia em bens industriais, não desejava que o país continuasse tão dependente das economias internacionais.
O país contava com uma economia muito dependente. O que vem dar mostras dessa fragilidade econômica foi à crise de 1929, na qual foi grandemente reduzida à compra do café brasileiro, produto que servia como base da economia nacional, fazendo com que as preocupações de uma industrialização tomassem lugar de destaque, como explica Ricardo Seitenfus:[3]:
A crise econômica mundial de 1929 mostrou bem que o Brasil não mais poderia continuar a depender inteiramente do estrangeiro para o suprimento de bens industriais. A importância da siderúrgica para o Brasil e para sua política externa é imensa: Getúlio Vargas a considerou o “problema básico” da economia brasileira. Enquanto não resolvido, o Brasil não reconheceria “a opulência econômica”. A partir de outubro de 1930, a implantação de um complexo siderúrgico tornou-se um dos elementos chave do programa getulista, condicionando a atitude brasileira em relação à Alemanha e aos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial (p. 04)
A política comercial brasileira partiu para a tentativa de diminuir as barreiras que o protecionismo internacional impunha, procurando uma aproximação com as nações que dominavam os mercados pelo mundo. O Estado Novo foi marcado pela expansão industrial e pelo crescimento das exportações nacionais: “O país apresentava uma estrutura agrária, com o café respondendo por 70% das exportações e 60% dos seus quase 40 milhões de habitantes vivendo em áreas rurais.”[4]
Desde o final de 1935 o governo havia reforçado sua propaganda anticomunista, amedrontando a classe média e de certa forma preparando a mesma para prestar seu apoio. O Golpe de Getúlio Vargas teve sua articulação com apoio dos militares, contando também com o apoio maciço da sociedade. Dessa forma, conseguiu uma centralização política que, desde então, se desencadeava. Vargas impôs a censura aos meios de comunicação, reprimiu a atividade política, perseguiu e prendeu inimigos ligados a ela, adotando medidas econômicas nacionalizantes e deu continuidade a sua política trabalhista com a criação da CLT[5], em 1943.
Desde a sua ascensão ao poder, a política getulista sempre seguiu a esteira das políticas totalitárias e ditatoriais. Fato esse que, com a proximidade do evento da Segunda Guerra Mundial, a sociedade e até mesmo o meio militar ficava duvidoso de qual seria sua decisão, a quem prestar apoio, como analisado por Roney Cytrynowicz[6]:
Como terceiro e “outro” fator aparece a guerra que já em 1939 “produzia seus efeitos no Brasil, pois, como se não bastasse a ditadura do Estado Novo, havia o temor de que Getúlio Vargas optasse por alinhar o país ao lado da Alemanha nazista.
Embora identificado com os regimes totalitários europeus, o Estado Novo getulista conservava-se neutro em relação ao conflito que eclodira em 1939, neutro quanto aos Estados liberais e ao nazi-fascismo europeu. As riquezas minerais, como, por exemplo, o minério de ferro em grande quantidade, era estrategicamente ambicionado pelos dois lados, pois essas matérias-primas seriam utilizadas para a fabricação de arsenais de guerra, tecnologia que, nesse período, estava em pleno desenvolvimento.
Apesar das pressões norte-americanas, o governo continuava indeciso. E essa indecisão era reflexo das tendências contraditórias dos homens do governo: enquanto Filinto Müller, chefe da polícia do Rio de Janeiro, e Francisco Campos, Ministro da Educação, eram favoráveis às potências fascistas do eixo Berlim – Roma – Tóquio, Osvaldo Aranha, ministro das Relações Exteriores, colocava-se contra. Entre as duas tendências oscilavam os generais Góis Monteiro e Dutra.
Todavia, muito preocupavam aos Estados Unidos as ligações comerciais que o Brasil mantinha com a Alemanha e, principalmente, a postura tomada por Vargas diante da ideologia dos países do Eixo. Em 1940, Vargas citou em um discurso as qualidades do Eixo. Isso fez com que todos acreditassem na possibilidade do Brasil, em breve, se unir a eles, até porque o Estado Novo era um governo que se identificava com os regimes totalitários europeus. Mas apesar do fato do presidente ser um simpatizante do regime alemão, “economicamente, nas circunstâncias, o Brasil não podia viver sem os Estados Unidos. A Alemanha não era bastante grande para substituí-lo em nossos negócios.”[7]
Segundo Roberto Gambini[8]:
Deve ficar bem claro que essa possibilidade de um duplo sistema comercial foi usada, mas não criada pelo Brasil. À medida que se concretizava as medidas que definiam a aliança entre Brasil e Alemanha, os Estados Unidos concentravam seus esforços para subverter o comércio entre os dois países, visando impedir que a Alemanha prosseguisse em sua marcha armamentista.
Sendo assim, o governo determinou através do DIP[9], que qualquer meio de comunicação permanecesse neutro ao relatar notícias da guerra que acontecia na Europa, uma vez que a censura era rigorosamente exercida em todas as ocasiões. A inclinação a favor das potências aliadas deu-se a partir do sucesso das negociações de empréstimos entre o Brasil e o Eximbank, em 1941. Já na II Conferência de Consulta dos Chanceleres no Rio de Janeiro, em meados de janeiro de 1942, a aliança política entre Brasil e Estados Unidos foi efetivada. Tornou-se inevitável naquela ocasião o rompimento das relações diplomáticas com o Eixo. Em março do mesmo ano, o comprometimento do Brasil se aprofundou, com a assinatura de um acordo que permitia aos Estados Unidos a utilização das costas nordestinas como bases aeronavais.
A participação direta do Brasil no conflito mundial aconteceu após repetidos ataques aos navios brasileiros por parte da força submarina alemã. Cerca de dezoito navios foram perdidos nesses ataques, realizados até em águas brasileiras. Além das perdas materiais, foi grande o número de brasileiros mortos, conforme analisado pelo Marechal Floriano de Lima Brayner[10]:
Foram grandes as nossas perdas, em embarcações e vidas preciosas. E deste modo registrou-se a inevitável exaltação do amor próprio nacional, e mais de se acentuou a nossa aproximação aos Aliados Ocidentais. Em 22 de agosto de 1942, o Brasil rompia relações com os países do Eixo Berlim-Roma em seguida ao cruel afundamento do Afonso Pena, por um submarino, nas costas da Bahia, e do Aníbal Benévolo, Baependi, Araraquara, Itagiba e Arara, entre 15 e 16 de agosto de 1942, a 8 milhas da costa de Sergipe, fazendo 653 vítimas.
Até o momento que ocorreu o fato acima citado, a política getulista tinha um alinhamento com as ideologias ditadas pelos países do eixo, em especial com a Alemanha, como abordado anteriormente. Quando ocorre esse episódio, o sentimento de simpatia transforma-se em sentimento de justiça como explicado por Italo Conti[11]:
Realmente era admirável a forma da política alemã e Getúlio Vargas fez um discurso muito ambíguo, dizendo que forças novas estavam surgindo no mundo, realmente dava a entender que estava com pensamento a apoiar as ideologias alemãs, as quais estavam sendo vitoriosas. Mas no instante que virou a opinião pública do Brasil, inclusive a simpatia do exército brasileiro que tinha pelo exército alemão, virou em 24 horas.
Evidentemente, isso provocou reações espontâneas que resultaram em manifestações populares, exigindo a entrada do Brasil na guerra. Em 21 de agosto de 1942, finalmente, Osvaldo Aranha, ministro das Relações Exteriores, declarou oficialmente guerra contra a Itália e a Alemanha. O país acaba participando do episódio da Segunda Guerra Mundial, não porque estava na eminência de ser atacado ou ocupado, mas sim, porque as articulações políticas e econômicas acabaram conduzindo ao desfecho desse processo.
A participação inicial do Brasil ficou limitada ao fornecimento de matérias-primas estratégicas e ao auxílio no policiamento do Atlântico Sul. Somente em 1944 foi enviado à Itália um contingente de soldados, que compuseram a Força Expedicionária Brasileira (FEB), que foi criada um ano antes, sob o comando do General Mascarenhas de Morais, a qual passará a ser analisada em item específico.
A sociedade brasileira tinha em todos os seus segmentos, sejam eles políticos, instituições de segurança, comércio, indústria, produção rural, uma ligação muito forte com os imigrantes alemães e italianos, dificultando de forma expressiva a tomada de decisão contrária aos países do eixo, em especial a Alemanha. Essa atitude, depois de tomada, acabaria afetando até mesmo a forma como seria tratado o povo germânico aqui residente, o que acabou acontecendo de fato.
Ainda, conforme abordagem dos autores Roberto Ganbini, Leôncio Basbaum, Renato Eickhoff, Roney Cytrynowicz, Ricardo Seitenfus e Paulo Brandi, nos possibilita uma visão de como foi articulado dentro do Estado Novo uma situação que pudesse beneficiar a economia brasileira até os últimos momentos, em que uma decisão havia de ser tomada: tomar partido e apoiar os países do Eixo, seguindo as políticas totalitárias, ou apoiar os países aliados e lutar contra essas ideologias. Dentro do exposto acima, fica possível uma análise de como acaba se desencadeando o processo que leva o país aos campos de batalha da Europa, desde suas dificuldades, devida à relação construída com os imigrantes germânicos, ideologia política alinhada com os regimes ditatoriais e, ainda, interesses econômicos.
BIBLIOGRAFIA
BASBAUM, Leôncio. História sincera da República: de 1930 a 1960. São Paulo: Alfa-Omega, 1976.
BRAYNER, Floriano de Lima. A verdade sobre a FEB: memórias de um chefe do estado-maior na campanha da Itália. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.
CYTRYNOWICZ, Roney. Guerra sem guerra: a mobilização e o cotidiano em São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Edusp, 2000.
EICKHOFF, Renato. A Força Expedicionária Brasileira e os seus veteranos. 2005. 42 f. Trabalho de conclusão de curso (Licenciatura Plena) – Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Tuiuti do Paraná, Curitiba, 2005.
GAMBINI, Roberto. O duplo jogo de Getúlio Vargas. São Paulo: Ed. Símbolo, 1977.
RIBEIRO, P. da S. As batalhas da memória: uma história da memória dos ex-combatentes brasileiros. Niterói, 1999. Dissertação (Mestrado em História): Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Universidade Federal Fluminense.
SALUM, A. O. Zé Carioca vai à Guerra. São Paulo, 1996. Dissertação (Mestrado em História) Pontifícia Universidade Católica.
SEITENFUS, Ricardo. O Brasil vai à guerra: o processo de envolvimento brasileiro na Segunda Guerra Mundial. 3.ed. Barueri, SP: Mamole, 2003.
BRANDI, Paulo. Vargas: da vida para a história. Rio de Janeiro: Zahar, 1983.
[1] SEITENFUS, Ricardo. O Brasil vai à guerra: o processo de envolvimento brasileiro na Segunda Guerra Mundial. 3.ed. Barueri, SP: Mamole, 2003. p.01
[2] BRANDI, Paulo. Vargas: da vida para a história. Rio de Janeiro: Zahar, 1983. p. 03.
[3] Idem. p.4
[4] EICKHOFF, Renato. A Força Expedicionária Brasileira e os seus veteranos. 2005. 42 f. Trabalho de conclusão de curso (Licenciatura Plena) – Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Tuiuti do Paraná, Curitiba, 2005. p.5
[5] Consolidação das Leis do Trabalho. Criada pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943. A consolidação das leis trabalhistas era uma necessidade do governo Vargas, populista e dependente da aclamação popular. Nesse período foi criado o Ministério do Trabalho, e a maioria das leis trabalhistas nasceram após 1930, quando triunfou a revolução que levou Vargas ao poder. O sindicalismo crescia sob as asas do governo e foram feitas muitas leis para regulamentar o trabalho.
[6] CYTRYNOWICZ, Roney. Guerra sem guerra: a mobilização e o cotidiano em São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Edusp, 2000. p.292
[7] BASBAUM, Leôncio. História sincera da República: de 1930 a 1960. São Paulo: Alfa-Omega, 1976. p. 122.
[8] GAMBINI, Roberto. O duplo jogo de Getúlio Vargas. São Paulo: Ed. Símbolo, 1977. p. 165
[9] O Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), criado em dezembro de 1939, foi o principal responsável pela legitimação de Vargas e do Estado Novo perante a opinião pública. Com maior amplitude de ação que o Departamento Nacional de Propaganda, o DIP, dirigido por Lourival Fontes, tornou-se porta-voz autorizado do regime e o órgão coercitivo máximo da liberdade de pensamento e expressão até 1945.
[10] BRAYNER, Floriano de Lima. A verdade sobre a FEB: memórias de um chefe do estado-maior na campanha da Itália. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968. p. 19
[11] Ítalo Conti. Ex-combatente da Força Expedicionária Brasileira. Entrevista realizada no dia 12 de novembro de 2009, na cidade de Curitiba – PR. Natural da cidade de Mallet – PR, de origem italiana, participou como voluntário. Após a declaração de guerra do Brasil contra as nações do eixo, todos os oficiais receberam do ministro um telegrama, solicitando que compusessem o efetivo da FEB, o qual ele fez prontamente. Fez parte do efetivo do 1o Grupo de Artilharia em apoio ao 11o RI. Tinha a função de oficial de ligação, era capitão naquela oportunidade, tendo como seu superior o coronel Valdemar Levi Cardoso, comandante do 1o Grupo de Artilharia. Após passar para a Reserva, desempenhou funções como chefe de segurança do Estado do Paraná e foi também, por algumas vezes, eleito Deputado Estadual. Configura uma das grandes personagens do Estado do Paraná. Conta atualmente com 94 anos.
A Reintegração Social dos Ex-Combatentes da FEB – 46/88 – Parte II
Dando continuidade a publicação da excelente pesquisa sobre a reintegração social dos Ex-Combatentes, realizada magistralmente pelo Mestre Alessandro Santos, segue a segunda etapa. Para quem não acompanhou a primeira parte, clique no link abaixo:
A Reintegração Social dos Ex-Combatentes da FEB – 46/88 – Parte I
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CONTINUACAO
No momento em que se oficializou o retorno do efetivo da Força Expedicionária, a mesma já nem existia mais. Havia sido diluída através de decreto baixado quando ainda na Europa. Com atitudes como essa, tomadas de forma muito prematura naquele momento, uma das consequências foi a abertura de caminhos que poderiam conduzir a uma problemática social, situação essa que ainda era invisível e acabaria afetando uma grande parcela da população brasileira. Devido à forma como iniciou o processo de desmobilizar a FEB, ficariam as dúvidas acerca da representatividade que teriam, perante a sociedade, os ex-combatentes e, da mesma forma, como esses passariam a ser vistos pelo meio social. Tais atitudes dificultavam ainda mais uma ligação sólida entre ambas as partes, aumentando a possibilidade de ocorrerem fatos como a discriminação e isolamento.
Todo esse novo cenário, que teve início com a desmobilização, ainda em solo italiano. Configurou-se como algo que se posicionava contra o que idealizavam os vitoriosos combatentes. Estes tinham o anseio de não somente reencontrar suas famílias, mas restabelecer contato com seu povo. Esperavam uma recepção calorosa, o que de fato aconteceu, mas não esperavam que fosse tudo tão rápido. Queriam uma continuidade do reconhecimento e viver com dignidade, pois precisaram partir para o cenário da guerra, na Europa, arriscar suas próprias vidas em combate, e agora contavam com o reconhecimento público.
Contrariando as orientações realizadas pelos norte-americanos, foi efetivada uma desmobilização rápida, sem preocupações básicas, como por exemplo, ter uma legislação específica que oportunizasse uma preparação para um restabelecimento em meio à sociedade, capacitando estes novos cidadãos a, novamente, sintonizarem-se com o seu meio social. As orientações dos norte-americanos eram a de se manter a FEB como tropa de ocupação ou, pelo menos, como alavanca pra a modernização do exército brasileiro.
Como consequência dessas decisões, tomadas de forma precipitada e sem cautela, os ex-combatentes ficaram sem uma estrutura para se readaptar. A brutalidade de uma guerra possivelmente pode acabar interferindo no sistema nervoso do ser humano, principalmente em sua dimensão psicológica. O desamparo que vai acabar ocorrendo, principalmente por parte das autoridades político-militares, traz problemas de efeito “cascata”. Inicia afetando os ex-combatentes; posteriormente, familiares e amigos, que convivem de forma direta com os mesmos; e, por final, traz prejuízos incalculáveis para a sociedade e, finalmente, até mesmo para a memória historiográfica.
Após a desmobilização, algumas medidas começam a ser adotadas na tentativa de minimizar as dificuldades sociais, pelas quais estavam passando os ex-componentes da FEB. No ano de 1946 é editada a primeira lei de amparo, a qual procura atender, primeiramente, aqueles que ficaram mutilados nos campos de batalha. Ainda, na década de 1940, outras leis foram criadas, seguindo pelas décadas subsequentes. Porém, a legislação será um assunto abordado à parte, especificamente em um capítulo dessa pesquisa.
Com essa legislação a situação dos ex-combatentes começa a ser minimizada, embora tardiamente, inicia-se um processo demorado para reparar os prejuízos causados aos ex-militares e seus familiares. Existiram alguns entraves, o que fez a aplicação dessa leis sofrerem de lentidão. O principal motivo que levava as leis demorarem em ser votadas e aprovadas era a constante solicitação daqueles militares que, em nada tinham a ver com o episódio da Segunda Guerra Mundial, em querer receber os mesmos benefícios.
Com a dificuldade encontrada pelos ex-febianos para se restabelecer dentro da sociedade, de se reintegrar ao meio social, ao longo das décadas inicia-se um processo de aproximação com as Forças Armadas, de forma especial com o exército, fato que se explica por ser desse o maior efetivo de componentes. Essa proximidade, ocorrida entre ambos os lados, fazia com que houvesse uma fusão de idéias, “onde era referir-se aos pracinhas e ao Exército como se fossem uma coisa só.” [1]
Alguns esclarecimentos se fazem necessários. Essa dissertação, em seu título, privilegia o termo FEB, referindo-se a todos aqueles que participaram de forma efetiva do Teatro de Operações na Itália, de uma forma generalizada, como sendo parte da Força Expedicionária Brasileira, por assim termos essa compreensão. Porém, o efetivo em seu número maciço era da Força Expedicionária, tendo ainda o Grupo de Aviação de Caça da Força Aérea Brasileira e do Corpo de Enfermeiras. Esses dois últimos possuíam um número de componente bastante reduzido, fato que não diminui de importância sua participação, pois vivenciaram o mesmo momento e processo histórico, partilharam das mesmas dificuldades e tensões. Todos os grupos citados reúnem-se nas mesmas associações, sem usar de distinções de unidades e subunidades a que fizeram parte. Para referir-me aos grupos citados acima utilizarei os termos, ex – combatentes, ex – febianos, ex – expedicionários e veteranos. Para referir-me ao conjunto de componentes utilizarei Força Expedicionária, Força Expedicionária Brasileira e FEB.
No primeiro capítulo abordarei a criação da Força Expedicionária Brasileira, procurando relatar sobre a seleção e os apadrinhamentos, isto é, as atitudes tomadas para que determinado militar, mesmo sendo convocado, conseguisse criar mecanismos para não participar do efetivo que partiria para a Itália. Farei uma análise de como foi a partida da FEB e a chegada, após singrar o mar até a Europa. As tropas brasileiras conduziram materiais de baixa qualidade, ocorrendo, dessa forma, um reaparelhamento procedido pelos norte-americanos, ou seja, uma “americanização” da Força Expedicionária. Faremos uma abordagem sobre as grandes dificuldades enfrentadas para que houvesse uma adaptação ao novo cenário que se apresentava as superações ocorridas devido à determinação dos soldados brasileiros. Abordaremos, ainda, sobre alguns tipos de facilidades proporcionadas no Teatro de Operações, fato que, em algumas obras são negadas, principalmente naquelas de cunho militar e que foram pesquisas realizadas por oficiais do alto-escalão. Em outras análises referentes à historicidade da FEB, existem pesquisas que não aprofundam muito o assunto.
Esse aspecto não será tratado de forma depreciativa, com o intuito de denegrir ou desvalorizar a participação do efetivo expedicionário, ao contrário, tem por objetivo destacar alguns pontos sensíveis do campo de batalha que, por falta de esclarecimento oportuno na época, fez com que a sociedade, em alguns momentos, tivesse uma visão distorcida levando a comentários infundados. Ainda, analisarei como foi o retorno, momento tão esperado por todos que participaram, de forma efetiva, nos campos de batalha e como se desencadeou a receptividade organizada no país.
No segundo capítulo será abordado, de forma específica, a reintegração social dos ex-combatentes. Procuraremos analisar a problemática social gerada com a desmobilização que foi executada de maneira rápida e sem um planejamento mínimo. Os ex-integrantes da Força Expedicionária sofreram uma forte decepção ao se deparar com a realidade que, de uma hora pra outra, lhes foi imposta, nascendo um sentimento de abandono por parte do Estado e por parte da sociedade. Essa última agiu dessa forma principalmente por não ter sido preparada pelas autoridades para acolher seus heróis de guerra.
Uma luta pior do que aquela enfrentada nos dias e noites gélidos dos Apeninos, na Itália, estava por vir. Iniciaram-se as novas lutas, verdadeiras batalhas, agora em solo pátrio, para que se recebesse, no mínimo, o reconhecimento. Passaram a ser discriminados dentro da sociedade, que isolava e rotulava aqueles que estiveram em frente de combate, afirmando que haviam se tornado perturbados mentais. Mesmo aqueles que conseguiram voltar para seus lares, suas famílias e amigos, enfrentaram grandes dificuldades em se readaptar sem um tratamento psicológico adequado. Esses aspectos citados acima serão trabalhados de forma detalhada em subtítulos, tentando trazer a luz a realidade vivenciada pelos ex-combatentes.
No terceiro capítulo, será abordado, de forma específica, a busca constante que durou décadas, pelos amparos, por leis que assegurassem o mínimo de dignidade aos ex-combatentes e seus familiares. Amparos esses que foram tardiamente aplicados, agravando a precária condição social que grande número de ex-febianos, que ainda estavam vivos, vivenciavam. As legislações criadas, muitas vezes demoravam décadas para chegar e atender aqueles que se encontravam deslocados, morando em regiões afastadas dos grandes centros. Esse aspecto será abordado de forma mais profunda.
Muitos desses ex-componentes da FEB já haviam ido a óbito ou viviam em situação de pedintes, numa condição lamentável à margem da sociedade, verdadeiros mendigos, vivendo de restos, de sobras, quando as leis foram sancionadas. Será, ainda, realizada uma análise sobre entidades e instituições que foram criadas pelo Estado para dar amparo e levantar fundos para os ex-combatentes e sua famílias, os quais passavam por uma dificuldade extrema e careciam de toda ajuda possível. Além das entidades, os próprios estados, municípios, aos quais pertenciam os ex-integrantes da Força Expedicionária, procuravam dentro de suas possibilidades, oferecer benefícios que pudessem minimizar suas precárias condições sociais. Os aspectos sobre as entidades serão abordados, de forma mais detalhada, em subtítulo exclusivo, que procurará esclarecer em que pontos contribuíram para minimizar o problema social gerado e se foi de forma positiva ou negativa.
As fontes orais utilizadas nessa pesquisa, com ex-integrantes da Força Expedicionária Brasileira, serão trabalhadas no sentido de trazer informações inéditas, que auxiliem na compreensão das dificuldades enfrentadas no momento da reintegração social. Essas entrevistas não ficaram limitadas somente a esse aspecto, mas ilustrarão outros momentos, como a organização do efetivo expedicionário, participação efetiva nos campos de batalha, as adversidades enfrentadas e superações, trazendo um aspecto inédito, como as facilidades proporcionadas pela guerra, mesmo não sendo esse o tema central da pesquisa. Essas informações trarão grande enriquecimento em detalhes, a fim de contribuir para uma melhor compreensão desse momento da história militar brasileira, qual seja a participação no episódio da Segunda Grande Guerra Mundial, agregando informações inéditas coletadas junto aos ex-combatentes.
Visando facilitar a compreensão e a leitura dessa pesquisa, por parte daqueles que possuem pouco contato com denominações militares, algumas delas usadas nesse trabalho, farei um breve resumo da composição da Força Expedicionária Brasileira. A apresentação dessa forma organizacional tem a finalidade de passar a idéia de como foi distribuído esse efetivo. A FEB, seguindo as novas doutrinas norte – americanas e se adequando a ela, teve participação efetiva com uma divisão de exército, foi composta de vários tipos de unidades, que cumpriam finalidades específicas, auxiliando umas as outras no cumprimento de missões no campo de batalha. As unidades mais citadas são os Regimentos de Infantaria, pelo fato de que essa estrutura foi a que melhor se adaptava ao terreno em que haveria a participação brasileira, como explicado por Francisco César Alves Ferraz[2]:
A estrutura da FEB era “ternária”, ou seja, cada unidade dividia-se em três menores, que se dividiam em outras três menores e, assim, sucessivamente, até chegarmos aos Grupos de Combate. Esta é a unidade básica, formada por 13 homens, sendo 11 soldados, um cabo e um sargento, que o comanda. Um pelotão é composto por três Grupos de Combate, que soma 41 homens, comandados por um tenente e tendo como auxiliar direto um segundo sargento, a praça mais antiga, ocupando a função de adjunto. Três Pelotões de fuzileiros e mais um Pelotão de Petrechos Leves (morteiros e metralhadoras leves) compõem uma Companhia (193 homens), comandada por um capitão. Três Companhias de fuzileiros e mais uma Companhia de Petrechos Pesados (com 166 homens, possui dotação de metralhadoras e morteiros pesados, de maior calibre) formam um Batalhão (871 homens), comandado por um major. Três Batalhões constituem um Regimento de Infantaria (R. I.), que possui 3.256 homens e é comandado por um coronel. Dessa forma, os três Regimentos que compuseram a FEB formaram a Infantaria de sua Divisão. Mesmo que cada unidade abrigasse soldados de todos os Estados brasileiros, era maior a concentração de soldados de sua sede. Assim, o 1º R. I., com sede no Rio de Janeiro, concentrou mais expedicionários cariocas e fluminenses. O 6º R. I., com sede em Caçapava, São Paulo, reuniu mais paulistas. O 11º R. I., com sede em São João Del Rei, Minas Gerais, teve a maior concentração de mineiros. A composição da Artilharia era de quatro Grupos de Obuses, três dos quais com 12 canhões de 105mm e um, com 12 canhões de 155mm. Um Grupo de Obuses era dividido em três baterias, de quatro canhões. A Artilharia tinha como auxiliar, o Esquadrão de Ligação e Observação, que usava aviões pequenos e frágeis para monitorar, por via aérea, os alvos a serem atingidos pela Artilharia. O Batalhão de Engenharia, o Batalhão de Saúde, o Esquadrão de Reconhecimento (possuía 13 carros blindados (sobre rodas) e 5 carros de meia-lagarta, tendo como comandante um capitão, eram unidades e subunidades que completavam o quadro operacional. Outras companhias como de Transmissões, de Manutenção, de Intendência e de Polícia, além daquela destinada ao Quartel General da Divisão, faziam parte. Pequenas unidades e quadros completavam a FEB, como os capelães militares, os componentes do Pelotão de Sepultamento, os padioleiros, a Justiça Militar, a Banda de Música e a agência do Banco do Brasil.
BIBLIOGRAFIA
BONALUME NETO, Ricardo. A nossa Segunda Guerra: os brasileiros em combate, 1942-1945. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1995.
CABRAL, F. Um batalhão no Monte Castelo. São Paulo, 1982. Tese (Doutorado em História), Universidade de São Paulo
FERRAZ, Francisco César Alves. A guerra que não acabou: a reintegração social dos veteranos da Força Expedicionária Brasileira (1945-2000). Tese de doutorado. São Paulo, 2003.
FERRAZ, F. C. A. O Brasil na guerra: um estudo de memória escolar. Comunicação apresentada no IV Encontro Perspectiva do Ensino de História. Ouro Preto. Universidade Federal de Ouro Preto, 24 de abril de 2001. Anais da ANPOC.
LINS, M de L. F. A Força Expedicionária Brasileira: uma tentativa de interpretação. São Paulo, 1972. Dissertação (Mestrado em História) Universidade de São Paulo (publicada em 1975 pela Editora Unidas de São Paulo).
MASCARENHAS DE MORAES, João Batista. A FEB pelo seu Comandante. São Paulo: Instituto Progresso Editorial, 1947.
NASS, Sirlei de Fátima. Legião Paranaense do Expedicionário: indagações sobre a reintegração social dos febianos paranaenses (1943-1951). Dissertação – UFPR, 2005.
OLIVEIRA, D. História e memória entre ex-combatentes: o caso da Força Expedicionária Brasileira (1943-2000).
RIBEIRO, P. da S. As batalhas da memória: uma história da memória dos ex-combatentes brasileiros. Niterói, 1999. Dissertação (Mestrado em História): Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Universidade Federal Fluminense.
SALUM, A. O. Zé Carioca vai à Guerra. São Paulo, 1996. Dissertação (Mestrado em História) Pontifícia Universidade Católica.
[1] FERRAZ, F. C. A. A guerra que não acabou… op. cit. p. 09.
[2] FERRAZ, Francisco César Aves. A Guerra que não acabou… op. cit. 10-11; BONALUME NETO, Ricardo. A nossa Segunda Guerra: os brasileiros em combate, 1942-1945. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1995, p. 134-135; e MASCARENHAS DE MORAES, João Batista. A FEB pelo seu Comandante. São Paulo: Instituto Progresso Editorial, 1947, p. 263-264.
Medalha Aspirante Mega – Agradecimentos
Com muito orgulho, recebemos comenda da Associação de Ex-Combatentes da Força Expedicionária Brasileira, Regional Pernambuco, com a Medalha Aspirante Mega. Nesse momento, claro eu sinto-me honrado, mas também com maior responsabilidade para continuar a propagar o valor histórico da presença brasileira nos campos da Itália, em memória aos que lá ficaram e em reconhecimento pelos que voltaram.
A vida de um historiador é movida pela paixão, e se torna mais peculiar quando seu objeto de estudo é acessível e tem vontade de se expressar. É o caso dos nossos pracinhas que ainda estão aqui. Pois qual o historiador medievalista não gostaria de entrevistar um cavaleiro medieval? Ou qual o historiador da Guerra de Paraguai não gostaria de ouvir a história oral de um soldado dos Batalhões Voluntários da Pátria? Esse é uma dos muitos fatos que me orgulham e me fazem exercer a Estudo Histórico não por profissão, mas por paixão, aliás, por Paixão.
Não poderia deixar de citar o valor Histórico que essa Medalha Aspirante Mega representa, tendo o seu dignitário Francisco Mega – o qual tive a honra de conhecer membros de sua família nesse mesmo blog – que faz cessão do seu nome a Medalha ter sido um homem resoluto e exemplo de liderança, dando sua própria vida, de forma consciente, e exercendo suas funções de inspirador de liderados, vindo a tombar pelo que acreditava.
Agradeço aos veteranos que fazem parte da Mesa Diretoria da Associação por me indicarem e outorgarem essa enorme honraria, também agradeço a Rigoberto Júnior pelo apreço e indicações e empréstimos bibliográficos; ao Tenente R1 Messias pelas considerações sempre oportunas nas conversas sobre a FEB e a vida na caserna; ao Valdner sempre agradável e de bom trato.
Para encerrar, ficamos na esperança pela recuperação do Major Archias, presidente da Associação, que se encontra internado, mas graças a Deus em situação estável. Estaremos orando pela sua recuperação e na tomada das atividades da Associação. Finalizo agradecendo a todos que acompanha esse humilde BLOG, que é despretensioso, mas tem um objetivo claro: ser um inspirador da História em um período tão critico para a humanidade, e trazer à luz os fatos heroicos de jovens brasileiros; de 25.334 jovens brasileiros, dos quais quase 500 permaneceram em Pistóia após a guerra, mas muitos outros perderam as vidas posteriormente, abandonados à própria sorte.
A TODOS MEUS SINCEROS AGRADECIMENTOS
CHICO MIRANDA
- Eu e meu Amigo e Mestre Alessandro Santos
- Recebendo a Medalha do Veterano Gastão
- Chico Miranda
- Chico Miranda e Esposa Micheline Miranda
- História do Aspirante Mega
“Eu Vi Morrer o Sargento Wolf ” – Relato de Joel Silveira
Vamos publicar uma série de informações sobre a atuação do Sargento Max Wolf Júnior na Itália, com uma análise sobre o ícone em que se transformou o Sargento herói, que tem sido colocado na galeria dos grandes soldados brasileiros.
Relato de Joel Siveira:
Vi perfeitamente quando a rajada de metralhadora rasgou o peito do Sargento Max Wolf Júnior. Instintivamente ele juntou as mãos sobre o ventre e caiu de bruços. Não se mexeu mais. O tenente que estava do meu lado no posto de observação apertou os dentes com força, mas não disse uma palavra. Quando lhe perguntei se o homem que havia tombado era o Sargento Wolf, ele balançou a cabeça afirmativamente.
Menos de uma hora antes eu estivera conversando com o sargento. Creio que foi a mim que ele fez suas últimas confidências. Falou-me de sua filha, uma menina de 10 anos de idade. Disse-me que era viúvo e deu-me notícias de que a promoção a segundo-tenente, por ato de bravura, não tardaria a chegar. E como eu estava colhendo mensagens de homens do seu “Pelotão de Choque”, já formados para a patrulha de minutos depois, o Sargento Max Wolf pediu-me que também enviasse sua carta. Estão comigo as poucas linhas que sua letra delicada e carta escreveu no meu caderno de notas:
“Aos parentes e amigos. Estou bem. À minha querida filhinha – Papai vai bem e voltará em breve.”
Tenho ainda nos ouvidos, muito vivas, as últimas palavras que escutei do sargento. Um dos soldados pedira uma faca, e ele respondeu, sorrindo:
– Voi non bisogna faca – Tedesco não é frango.
O sargento saiu com seus homens pela sebes e ravinas da direita e nós seguimos para as montanhas ao Norte, defronte ao ponto que a patrulha deveria atingir. Vimos quando os homes apontaram na “terra de ninguém” e seguiram cautelosos pela estrada deserta. O sargento havia transformado seus pentes de munição num colar que o sol incendiava. Levava o capacete de aço debaixo do braço e a pequena Thompson apontada para a frente. Nossa Artilharia, à esquerda, cessara de atirar e agora o silêncio era total. O tenente me disse:
– Não é possível que os alemães estejam ali.
O primeiro objetivo da patrulha eram as três casas, a menos de um quilômetro de nós, e que os homens do Sargento Wolf atingiram às duas horas da tarde. O grupo cercou os três edifícios em ruínas e o sargento empurrou com o pé a porta de um deles. Vimos quando ele empurrou com o pé a porta de um deles. Vimos quando ele entrou e fez um sinal para seus homens: novamente as duas fileiras espaçadas voltaram a caminhar pelos campos proibidos. Fazia um sol muito claro e alguma coisa – uma vidraça partida ou um esqueleto de munição – cintilava forte no casario de Montese.
Às duas horas e meia da tarde, a patrulha estava a menos de cem metros do último objetivo a ser atingido: um novo grupo de casas sobre uma lombada macia. O Sargento Wolf deu os últimos passos à frente. Então uma gargalhada curta e nervosa rasgou o silêncio do vale e o sargento caiu de bruços sobre a grama. Os outros homens se agacharam, rápidos, e o alemães começaram a atirar, bloqueando nossos homens com uma chuva de granadas de mãe e rajadas de metralhadoras. Sacudiram depois para o ar foguetes luminosos, pedindo fogo de suas baterias, e minutos depois os projetos de artilharia nazista assoviavam sobre nós e iam explodir no caminho percorrido pela patrulha. O tenente indicou posições aos nossos morteiros e durante mais de uma hora o duelo continuou, um diálogo de fogo. Nossos morteiros rebentaram dois quilômetros e meio além, onde possivelmente estariam localizadas as baterias nazistas, e os obuses alemães explodiam perto, no chão onde nossos homens continuavam agachados ou nas fraldas do morro onde estávamos com o posto de observação. De vez em quando, uma rajada de metralhadora cortava o ar, como um vento mau, e ia inquietar os galhos das árvores próximas. Foi um desses “Leques” que raspou nossas cabeças e nos jogou para dentro do buraco, onde ficamos por uma hora. Levantamos de vez em quando até o parapeito da trincheira, mas os morteiros só nos davam folgas de segundos: escutávamos seu assovio a distância e voltávamos a nos espremer no foxhole antes de a explosão sacudisse a terra.
Quando a noite caiu, conseguimos, rastejando, deixar as posições batidas e alcançar as trincheiras de retaguarda. Chegamos ao PC do Batalhão perto das dezenove horas. Minutos depois, voltaram também os homens da patrulha do Sargento Max Wolf Júnior. Mas ele ficara lá. Quando nossos padioleiros foram à “terra de ninguém” recolher os corpos e os feridos, os nazistas os recebiam com rajadas impiedosas.
Muitos dos que voltaram tinham os olhos rasos de água. Uma deles era o Segundo-Sargento Nilton José Facion, de São José Del-rei, em Minas, que me contou a história:
– Eu estava a trinta metros de Wolf quando ele foi atingido. O soldado Alfredo Estevão da Silva, que ia na frente, virou-se para mim e disse: “Parece que Wolf está morto. Vou puxar o corpo para cá”. Respondi que ia atrás dele. Mas uma rajada matou também o pracinha Estavão antes que ele pudesse fazer qualquer coisa. Chegou a minha vez e consegui arrastar o corpo do sargento uns trinta metros. Depois veio a chuva de morteiros e não pude fazer mais nada.
O Sargento Alfeu de Paula Oliveira (ele também enxugava os olhos úmidos com a manga da blusa) me levou depois ao estreito compartimento onde Wolf tinhas suas coisas: ali estava a condecoração que o General Truscott colocara no peito, poucos dias antes; a citação elogiosa do General Mascarenhas; o retrato da filhinha, de olhos vivos e brilhantes como os do seu pai. Tudo agora muito desgarrado. “Este foi um dia triste para nosso Batalhão”, me disse o Major Manuel Rodrigues Carvalho Lisboa. “Nós Perdemos um BRAVO!!”
Fonte: Fatos e Homens da Segunda Guerra – Caio de Freitas, Joel Siveira, Mário Martins, R Magalhães Júnior e Zevi Ghivelder – editora Bloch
FEB – Todos os Detalhes – A Série
Com o intuito de preservar a memória histórica dos mais de 25 mil homens que embarcaram a partir do dia 02 de julho de 1944 para lutarem na Segunda Guerra Mundial contra as potências do Eixo, estaremos realizando uma profunda reflexão histórica sobre a vida desses brasileiros e os desdobramentos políticos que levaram a criação dessa força de combate impar na America latina. Teremos duas publicações semanais que compreenderá o período do envolvimento político brasileiro com a Alemanha, sua decisão em lutar ao lado dos Aliados e a consequente formação de uma Divisão de Exército Expedicionário; seu retorno como tropa vencedora, os movimentos políticos para desmobilizar a FEB; o reconhecimento com a Constituição de 1988. Nosso objetivo é produzir um material de qualidade que possa ser utilizado como apoio para pesquisas. Não temos um intuito de escrever uma obra literária, contudo prezaremos pelo que há de mais importante para a pesquisa histórica, os fatos! Para tanto nos apoiaremos em obras importantes para deliberar sobre todos os acontecimentos que culminaram com a entrada do Brasil na Segunda Guerra e o resultado para o governo brasileiro a partir da década de 40.
Esperamos sinceramente que os artigos publicados nessa série possam estar a altura de todos aqueles que acompanham o BLOG, pois sabemos que o nível de nossos internautas é elevado! Portanto, Acompanhem! Comentem e divulguem, pois devemos lutar contra a ignorância histórica desse país e valorizar os homens que lutaram pelo Brasil e honrando aqueles que perderam sua vida longe de sua pátria.
Deixo aqui uma frase clássica da FEB: “Conspira contra a sua própria grandeza, o povo que não cultiva seusfeitos heróicos” Iniciaremos as Publicações AMANHÃ – 27/09







































































































































