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Analisando As Duas Faces da Glória – William Waack – Parte 01

Muito se escreveu sobre a Força Expedicionária Brasileira ao longo dos anos. Muitos desbravadores se enveredaram pela literatura para contemplar a sua própria visão da Campanha da FEB, dentre eles, vários pracinhas de todas as patentes. Evidentemente o mais relevante relato é do próprio Comandante da FEB, Marechal Mascarenhas que escreveu A FEB pelo seu Comandante, em 1946. Tinha como objetivo que sua obra fosse parâmetro para outras.

E si tratando de obras sobre a FEB, nenhuma outra conseguiu tanta repercussão quanto à do jornalista Wiliam Waack em As Duas Faces da Glória – Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1985. Essa obra de cunho jornalístico expunha a visão dos aliados e dos inimigos sobre a Força Expedicionária Brasileira, desde a sua formação até a sua atuação como força combativa. O trabalho do jornalista foi severamente atacado pelas Associações de Ex-Combatentes por direcionar a obra para minimizar a atuação da FEB, contradizendo a História oficial e todas as outras pesquisas e memórias anteriores.

Esta e outras publicações no blog terão como objetivo a análise do livro AS DUAS FACES DE GLÓRIA. Nosso objetivo é realizar uma exposição da obra para verificar se ela cumpre o papel a que se propõe:

ser uma contribuição para novas reflexões sobre o passado e para que a História comece a ser escrita com critérios realmente sérios e científicos.” – As Duas Faces da Glória – pág. 15

 

Não temos a pretensão de ser referência para a leitura do livro ou nos considerarmos críticos da obra, tão pouco, queremos desmerecer o trabalho de uma dos maiores jornalistas desse país, mas precisamos ter critério para analisar a HISTÓRIA, pois a pesquisa histórica impõe uma visão que não pode seguir uma linha argumentativa tendenciosa; não pode ser vista segundo a visão declaradamente preconceituosa. Infelizmente observa-se o teor revanchista logo na introdução da obra, antes mesmo de iniciar a exposição de suas ideias.

Introdução de as Duas Faces da Glória

 É importante analisar o período histórico em que a obra foi escrita.  O livro foi escrito em 1985. O Brasil era um país ansioso pela redemocratização e havia um apelo público generalizado para que os laços de condução voltassem a figurar em mãos civis. É exatamente nesse clima que o autor informa que a sua geração era chamada a condução do país, sendo categórico quando liga militares integrantes da Força Expedicionária aos acontecimentos de 1964. Isso é correto? Seria correto relacionar a FEB aos acontecimentos de 1964? E mais ainda, utilizar desse relacionamento para explicar o país em 1985. Essas perguntas devem constituir uma análise em primeira instância das pretensões do jornalista. Ligar à ascensão da carreira militar de indivíduos que fizeram parte da FEB nas décadas posteriores a desmobilização, e a própria tropa brasileira, relacionando-a a 1964 é uma incoerência. Fazendo uma breve análise da carreira de dois Marechais que lutaram na Itália, e que são citados pelo autor, o General Castello Branco (Chefe da 3ª Seção da FEB) e o General Henrique Teixeira Lott (Oficial de Ligação da FEB e posteriormente Chefe da Comissão de Reaparelhamento do Exército). O primeiro participou ativamente dos acontecimentos de 1964 e se tornou o primeiro Presidente Militar do Regime, assinando os primeiros Atos Institucionais que davam plenos poderes ao regime que se instaurava no país. O segundo foi candidato à presidência em 1961, perdendo a eleição para Jânio Quadros, mesmo assim, não apoiou a tentativa de um golpe para impedir que o vice-presidente, João Goulart assumisse a presidência após a renúncia de Jânio. Sendo o mais importante apoio conseguido por Brizola na Campanha da Legalidade. Foram militares com visões diferentes da conjectura política brasileira na década de 60. Também podemos citar o Marechal Brayner (à época Chefe do Estado Maior da DIE) e que fazia oposição ferrenha ao Presidente Castello Branco, desafeto declarado desde a atuação da FEB. Essas apreciações formam um quadro interessante, mas não se relacionam com a participação dos generais citados com a Força Expedicionária Brasileira, exceto por suas carreiras, que foram evidenciadas após a guerra, o que é de se esperar, mas isso não é mérito apenas da FEB, é mérito pessoal desses militares, pois durante as décadas pós-conflito havia uma linha tênue entre a os político e os militares. Poderia citar listas e listas de oficias da FEB que nem ao menos conseguiram galgar o generalato, portanto não há como ligar o Brasil e sua participação na Segunda Guerra com os acontecimentos de 1964, são contextos diferentes. A FEB não era importante para a política interna, ao contrário do que o autor defende, mas contribuiu para o fim do Estado Novo, e fim! Encerra-se a contribuição da FEB para a História do país. Outra perspectiva de análise é que a maioria dos oficiais superiores, oficiais subalternos, graduados e soldados da FEB, após a desmobilização do contingente brasileiro, ainda na Itália, foram vítimas do governo que o constituíram, para que não fossem usados como instrumento na frágil estabilidade varguista, mas que inspirou politicamente o Brasil. O governo brasileiro fez o que estava ao seu alcance para desligar ou isolar os militares que estiveram na Itália, realizando e executando um planejamento para que não houvesse ecos dos ideais defendidos pela tropa brasileira em solo estrangeiro. Portanto, no período em que o livro do jornalista Wiliam Waack foi publicado, a maioria dos pracinhas que lutaram na Segunda Guerra estavam desassistidos pelo Estado, jogados ao esquecimento histórico mesmo após a instituição do regime militar de 1964. O que podemos afirmar é que a grande maioria dos integrantes da Força Expedicionária Brasileira foram mais vítimas do que instrumento de instauração do regime de 64. Evidente que a análise histórica corrobora com essa teoria.

Continua…

Especial Monte Castelo – 67 anos: 4º ataque ao Monte Castelo

No dia 9 de Dezembro de 1944, foi enviada ao comando da FEB, uma Ordem Geral de Operações que ordenava o ataque ao Monte Castelo, marcando para o dia 11 do mesmo mês, o início das operações.

            Ataque da Divisão da Infantaria Divisionária

  1. A Divisão vai atacar na manhã do dia 11 a região de Monte Castelo
  2. O ataque será executado com os seguintes meios:

            a) O comandante da tropa será o General Zenóbio

            b) A tropa será assim constituída:

            1º Escalão de ataque

            1º R.I. (menos o I Batalhão e a Companhia de Obuses)

            Reserva

            III Batalhão do 11º R.I.

            Cobertura do flanco leste

            I Batalhão do 11º R.I.(além da guarda da base de partida)

            Apoio

            Companhia de obuses do 1º e 1º R.I.

            Companhias P.P./11º R.I.(elementos fixos na base de partida)

            1ª Companhia de tanques( 1 Pel. L.,2 Pels. M. E 1 Pel. T.D.)

            Artilharia

            Cada Batalhão do 1º Escalão de ataque terá um grupo de apoio direto.

            No dia 10 de Dezembro, o comando recebeu a seguinte informação: “ Em virtude de ordem superior, todas as datas e prazos contidos na Ordem Geral de Operações, sofrerão um adiamento de 24 horas”.

            A 2ª Seção repassou as seguintes informações sobre o inimigo no dia 11 de Dezembro:

  • O inimigo dispõe de um Batalhão defendendo a área que interessa à conquista do Monte Castelo, com a possibilidade de se reforçar suas posições, ou efetuar contra ataques com 2 batalhões, que poderão intervir apoiados por tropas de assalto.
  • A região da cota 977 está fortemente organizada, o que indica ser o ponto forte e ao mesmo tempo, sensível das defesas inimigas em Monte Castelo. Possíveis contra ataques contra o setor oeste de Monte castelo deverão ser encarados sobre a crista Oeste –  Leste que vincula o Monte castelo ao Monte Della Toraccia.

            O 4º ataque ao Monte Castelo foi executado sob o comando do General Zenóbio, e a força atacante foi constituída pelo 1º e 11º R.I., ambos desfalcados de uma Batalhão, e apoio foi dado por toda a artilharia da FEB, reforçada com mais um grupo americano. O esforço principal seria feito na direção de Casa Guanella – cota 887 e caberia ao 1º R.I. , enquanto o 11º R.I. Faria a cobertura na área de Falfare.

            Nesta ocasião o frio já era intenso, chuvas torrenciais tornavam o solo um gigantesco lamaçal, que impediam o reconhecimento, além de manter em terra os aviões de reconhecimento, levando o comando americano concordou com a sugestão brasileira para adiar o ataque para o dia 12 de Dezembro, com intuito de esperar melhores condições climáticas. Infelizmente, isso não aconteceu, e a operação que seria desencadeada de surpresa, foi dispensada a preparação da artilharia, que fez uma manobra pelo flanco direito.

            Ao amanhecer o dia, caia uma chuva fina, prejudicando a visibilidade, tornando-a quase nula, e um nevoeiro intenso cobria todo o front. O ataque estava previsto para começar às 6 da manhã, mas por falta de coordenação, a artilharia americana abriu fogo, quebrando o sigilo e, quando os 2º e 3º batalhões do 1º R.I.,partiram às 6:30 horas, os alemães fizeram cair uma chuva de morteiros e metralhadoras, fazendo com que nossos bravos pouco progredissem. Por volta das 7 da manhã o III / 11 R.I., conquistou Le Roncole e Casa Guanella, enquanto o II / 11º R.I., ao atrasar sua partida, foi detido por fogos vindos da Região de Abetaia, e o I / 11º R.I., ocupou Falfare, e finalmente alguns homens do III / 11° R.I., atingiram o cume do Monte Castelo, mas foram abatidos e seus corpos ficaram insepultos durante todo o inverno.

            A noite caiu e mais uma vez o Monte Castelo não foi conquistado pela Força Expedicionária Brasileira.

            Concluímos como prováveis causas do fracasso deste ataque:

  1. o ataque isolado ao Monte Castelo deixando de  lado o Monte Belvedere, Gorgolesco e Toraccia
  2. frente demasiada extensa para a Divisão de Infantaria Expedicionária
  3. vistas e fogos dominantes do inimigo em todos os setores
  4. não obtenção do fator surpresa devido à artilharia americana
  5. condições climáticas inapropriadas(chuva, nevoeiro e lama)
  6. falta de apoio dos blindados e da aviação de caça
  7. inexistência da observação aérea.

            Depois do fracasso deste 4º ataque, nada mais restava ao comando brasileiro a não ser manter a defensiva, e ordens foram dadas para uma pequena retração em busca de um terreno mais favorável.  A Ordem Geral de operações do dia 13 de Dezembro prescrevia como missão manter as atuais posições.

            A partir desta data, até o reinício da luta ofensiva em Fevereiro de 1945, limitou-se a verificação de contato por operações de reconhecimento ou patrulhas, além da intensificação da vigilância.

Especial Monte Castelo – 67 anos: 3º ataque ao Monte Castelo

                                             Monte Castelo – 67 anos

            3º ataque ao Monte Castelo

            Com a determinação de conquistar o conjunto Belvedere – Torracia antes da chegada do inverno europeu, o comandante do IV Corpo – General William Crintemberg, ordenou à Divisão de Infantaria Expedicionária (DIE) que tomasse posse de Monte Castelo, uma vez que o Monte Belvedere já estava nas mãos dos aliados.

            A ordem era a seguinte: “Dentro de sua ação, capturar a crista que corre de Monte Belvedere para nordeste, inclusive o Monte Castelo, a fim de impedir que o inimigo tenha vistas sobre a Rota 64 (Pistóia – Porreta Terme – Bolonha)” .

            O grupamento de ataque ficou constituído da seguinte forma:

            Comandante: General Zenóbio da Costa

            Tropa – um batalhão por Regimento de Infantaria da Divisão de Infantaria Divisionária:

  • I / 1º R.I. –  Major Uzeda sobre Monte Castelo
  • III / 11º R.I. – Major Cândido cobrindo o flanco
  • III / 6º R.I. –  Major Sylvino

Ficou como reserva divisionária o II / 6º R.I.

            Apoio de 4 grupos de artilharia.

            A missão geral era:

  1. apoderar-se de Morro Castello, com esforço na direção C. Viteline – cota 887
  2. ocupar e manter a linha: cabeceira leste do Rio Liberaccio, vertente norte do Morro do Castello, região de Carrulo, de maneira a impedir que o inimigo transpusesse este , como também  o Rio Marano e, que progrida para cota 930
  3. cobrir-se entre Le Roncole e a região de Gaggio Montano, e levar esta cobertura à crista 1053-1036
  4. unir-se a Task Force 45 na região de Torracia

            Foi informado que a força aérea não daria apoio, haveria preparação de artilharia durante 40 minutos, e a 2ª seção deu como provável a existência de um batalhão inimigo defendendo a posição, podendo ser reforçado em curto prazo, com mais dois batalhões.

            Os reconhecimentos para o ataque foram iniciados no dia 27 de novembro d 1944, e deslocamento dos batalhões ocorreram em condições desfavoráveis, em consequência de grandes chuvas e lamaçais que dificultavam o avanço da tropa, e como fator complicador os batalhões do 1º R.I. E 11º R.I. Iam ter seu batismo de fogo, enquanto as tropas do 6º R.I., estavam exaustas pela longa campanha que vinha sofrendo.

            O General Mascarenhas de Morais tinha como ideia de  manobra, o seguinte esquema:

  1. Manter fortemente as regiões de Africo, Torre de Nerone, Boscaccio e Monte Cavalloro
  2. Apoderar-se no ataque do dia 29 de Novembro de 1944 do Monte Castelo e estabelecer cobertura na região de Falfare para em seguida, em combinação com a Task Force 45, repelir o inimigo das cotas 1027 e 1053.

            Na noite do dia 28 para 29 de Novembro, enquanto se organizava o ataque, a tropa brasileira foi informada da expulsão dos americanos do monte Belvedere, ficando o flanco esquerdo completamente descoberto, e o bom senso sugeria um adiamento das operações, o que não foi feito, talvez por orgulho nacional, em virtude do comando estrangeiro.

            O início das operações estava marcado para começar às 7 horas da manhã do dia 29. No dia 28 de novembro, por volta das 19 horas o I / 1º R.I. Saiu de Gaggio  Montano, e seus últimos integrantes atingiram a base da partida às 6 horas da manhã do dia 29 de Novembro, e o batalhão teria ainda uma hora para iniciar a operação. Do ponto de partida para o objetivo, a distância era de aproximadamente 500 metros e teriam que subir 300 metros.

            A  artilharia atacou pesadamente, antes do avanço da tropa, que começou às 7 horas da manhã pelo I / 1º R.I., que progrediu até o meio dia. Às 8 da manhã partiu o III / 11º R.I. Que após conquistar a cota 760 a oeste de Falfare foi detido à frente de Abetaia.

            Os alemães fortalecidos e melhor instalados, reagiram violentamente, desarticulando o escalão de ataque, que logo depois foi apanhado pelo flanco, e de frente por fogos de metralhadoras instaladas em Mazzancana, Fornace, Cota 887 e Abetaia.

            Na segunda parte do ataque o I / 1º R.I.,  foi obrigado a retornar à base e o III / 11º R.I. Recuou um pouco sob pressão da artilharia inimiga e, com a chegada da noite e a intensificação dos ataques do inimigo, houve uma ordem para o retorno imediato para a posição inicial, não tendo sido empregados o III / 6º R.I., nem a reserva divisionária.

            Pela 3ª vez o Monte Castelo resistiu, deixando cerca de 200 baixas, sendo que apenas uma granada matou 9 de nossos pracinhas. A verdade é que a Divisão de Infantaria Expedicionária não atingiu seu primeiro objetivo ofensivo sob direção exclusivamente brasileira.

            Concluímos que o 3º ataque não teve sucesso, pelo seguinte:

  1. falta de preparação para o ataque
  2. determinação alemã em manter a elevação a todo custo
  3. meios deficientes para concluir o objetivo
  4. ausência do apoio da força aérea
  5. condições climáticas completamente desfavoráveis
  6. ataque frontal ao inimigo
  7. parte da tropa era inexperiente em combates(III / 11º R.I.)
  8. terreno bastante íngreme e muito enlameado.

            Após o ataque frustrado, jaziam sobre o terreno do Monte Castelo inúmeros corpos dos pracinhas, que simbolizavam a bravura do soldado brasileiro.

"Em uniforme de inverno, no mês de Dezembro de 1944, patrulha da FEB se prepara para incursão às linhas alemãs"

 

Na maca, o Batalhão de Saúde transporta um pracinha ferido num dos assaltos ao Monte Castelo