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Crônicas de Guerra – A FEB em Relatos!

Muito se escreveu na Itália sobre a atuação dos pracinhas brasileiros durante a Segunda Guerra Mundial. Relatos não escritos por pessoas que falavam sem conhecimento de causa, escreveram fatos e acontecimentos que presenciaram ou estiveram em contato logo após o acontecimento. Muitos destes, foram elementos chave no dispositivo da FEB ou jornalistas importante enviados para realizar a cobertura da guerra. Entres estes, podemos citar as crônicas de Rubens Braga e as do Olívio Gondim de Uzêda, jornalista do Diários Associados e Comandante do 1º Batalhão do I Regimento de Infantaria, respectivamente. Essas testemunhas escreveram importantes crônicas sobre as peculiaridades do cotidiano da campanha na Itália e que, compartilhadas, passam uma nova perspectiva da guerra, longe da visão do Alto Comando, mas a perspectiva de quem viu os combates ou de quem esteve nele, literalmente falando.

 Portanto vamos publicar, além dos dois autores citados, crônicas de outros autores que estiveram no Teatro de Operações da Itália e compartilharam para a posteridade os acontecimentos que ceifaram a vida de quase 500 brasileiros, longe de sua pátria e distante de suas famílias.

Iniciamos hoje com uma crônica do Coronel Uzêda. O Coronel é citado no livro do Marechal Lima Brayner (Recordando os Heróis), como sendo um comandante de primeira linha, que após o ataque fracassado a Monte Castello no dia 12 de dezembro, tendo seu batalhão sido substituído por um batalhão do 11º RI, não mediu esforço, quando teve que voltar a linha para reforçar o mesmo regimento, depois de um voraz contra-ataque alemão, mesmo com sua tropa exausta.  O Coronel Uzêda, por algum motivo, não fez o curso de Estado-Maior, por isso foi para reserva como Coronel, fato também citado pelo Marechal Lima Brayner.

Os Super-Homes e os Brasileiros

No silêncio da noite reboam gritos de socorro! O sentinela, atento, enrija seus músculos comprimindo fortemente a coronha do seu fuzil, e procura ouvir melhor, localizar os gritos. De repente, ouve como que um desesperado apelo: Brasiliani, brasilliani! Chama o comandante do seu posto e informa-lhe o ocorrido. Agora, já todo o posto ouve o apelo, por sinal que com voz feminina. O desejo que os domina é se largarem imediatamente na direção de onde provinha os gritos, aproximadamente a de Navechie; mas, as ordens eram positivas; não podiam abandonar seus posições, nem tão pouco transpor a linha de frente, sem autorização.

Se se ausentassem de suas posições, prejudicariam a missão de vigilância; se traspusessem a linha de frente, podiam cais sob os tiros de inquietação que fazíamos todas as noites com a nossa artilharia sobre os pontos mais importantes do inimigo. Por outro lado, esses gritos podiam ser uma armadilha. O comandante do posto, resolve, pois comunicar a Companhia, e esse com o do Batalhão.

O comandante do Batalhão informa ao da Companhia que não havia nenhum tiro de inquietação previsto para aquela direção, durante a noite; e autoriza-lhe a enviar uma patrulha de reconhecimento.

Sai a patrulha e momentos depois regressa trazendo duas crianças, uma com doze e outra com dez (anos) e uma senhora, todas três feridas; e mais duas crianças menores, uma com  4 e outra com 2 anos.

As feridas são cuidadosamente tratadas pelo valoroso médico do batalhão, o dedicado Dr. Barcelos. A senhora apresentava oito ferimentos, todos produzidos por arma de fogo disparada por trás, às crianças cada uma tinha um ferimento em uma das pernas a altura do joelho.

A senhora relata o fato: achava-se em casa quando ouve o grunir de seus porcos; abre a janela que dava para o quintal e vê animais serem arrastados por quatro soldados alemães. Indignado, grita pelos brasileiros, pois sabia que estavam bem pertos. Outros soldados alemães atiram sobre ela; as crianças gritam espavoridas; os alemães disparam contra as crianças.

Ouvem passos, os alemães fogem. São os brasileiros que chegam.

Os ferimentos são encaminhados na ambulância do Batalhão para um Hospital Civil.

As duas crianças menores ficaram no Posto de Comando do Batalhão para, afim de serem encaminhados, no dia seguinte, a um endereço que a senhora deixara.

Ao acordamos, encontramos as duas crianças agasalhadas nas roupas de lã que lhes deram oficiais do batalhão; lembramo-nos bem, que o tenente Paiva concorrera com uma “sweater”. A maior estava sentada, tomando uma boa xícara de leite e comendo pão e queijo, feliz na sua inocência. A menor não dormira nem queria comer nada: só queria a mãe. E lá vinha um, vinha outro, cada um com uma ideia a fim de distrair a criancinha e fazê-la pelo menos comer. Os super-homens tentaram matar-lhes a mãe e os irmãos. Os brasileiros sofriam por vê-los sofrer.

Fonte: Coronel Olívio Gondim de Uzêda, Crônicas de Guerra – Biblioteca do Exército – 1952

Especial Monte Castelo – 67 anos: 3º ataque ao Monte Castelo

                                             Monte Castelo – 67 anos

            3º ataque ao Monte Castelo

            Com a determinação de conquistar o conjunto Belvedere – Torracia antes da chegada do inverno europeu, o comandante do IV Corpo – General William Crintemberg, ordenou à Divisão de Infantaria Expedicionária (DIE) que tomasse posse de Monte Castelo, uma vez que o Monte Belvedere já estava nas mãos dos aliados.

            A ordem era a seguinte: “Dentro de sua ação, capturar a crista que corre de Monte Belvedere para nordeste, inclusive o Monte Castelo, a fim de impedir que o inimigo tenha vistas sobre a Rota 64 (Pistóia – Porreta Terme – Bolonha)” .

            O grupamento de ataque ficou constituído da seguinte forma:

            Comandante: General Zenóbio da Costa

            Tropa – um batalhão por Regimento de Infantaria da Divisão de Infantaria Divisionária:

  • I / 1º R.I. –  Major Uzeda sobre Monte Castelo
  • III / 11º R.I. – Major Cândido cobrindo o flanco
  • III / 6º R.I. –  Major Sylvino

Ficou como reserva divisionária o II / 6º R.I.

            Apoio de 4 grupos de artilharia.

            A missão geral era:

  1. apoderar-se de Morro Castello, com esforço na direção C. Viteline – cota 887
  2. ocupar e manter a linha: cabeceira leste do Rio Liberaccio, vertente norte do Morro do Castello, região de Carrulo, de maneira a impedir que o inimigo transpusesse este , como também  o Rio Marano e, que progrida para cota 930
  3. cobrir-se entre Le Roncole e a região de Gaggio Montano, e levar esta cobertura à crista 1053-1036
  4. unir-se a Task Force 45 na região de Torracia

            Foi informado que a força aérea não daria apoio, haveria preparação de artilharia durante 40 minutos, e a 2ª seção deu como provável a existência de um batalhão inimigo defendendo a posição, podendo ser reforçado em curto prazo, com mais dois batalhões.

            Os reconhecimentos para o ataque foram iniciados no dia 27 de novembro d 1944, e deslocamento dos batalhões ocorreram em condições desfavoráveis, em consequência de grandes chuvas e lamaçais que dificultavam o avanço da tropa, e como fator complicador os batalhões do 1º R.I. E 11º R.I. Iam ter seu batismo de fogo, enquanto as tropas do 6º R.I., estavam exaustas pela longa campanha que vinha sofrendo.

            O General Mascarenhas de Morais tinha como ideia de  manobra, o seguinte esquema:

  1. Manter fortemente as regiões de Africo, Torre de Nerone, Boscaccio e Monte Cavalloro
  2. Apoderar-se no ataque do dia 29 de Novembro de 1944 do Monte Castelo e estabelecer cobertura na região de Falfare para em seguida, em combinação com a Task Force 45, repelir o inimigo das cotas 1027 e 1053.

            Na noite do dia 28 para 29 de Novembro, enquanto se organizava o ataque, a tropa brasileira foi informada da expulsão dos americanos do monte Belvedere, ficando o flanco esquerdo completamente descoberto, e o bom senso sugeria um adiamento das operações, o que não foi feito, talvez por orgulho nacional, em virtude do comando estrangeiro.

            O início das operações estava marcado para começar às 7 horas da manhã do dia 29. No dia 28 de novembro, por volta das 19 horas o I / 1º R.I. Saiu de Gaggio  Montano, e seus últimos integrantes atingiram a base da partida às 6 horas da manhã do dia 29 de Novembro, e o batalhão teria ainda uma hora para iniciar a operação. Do ponto de partida para o objetivo, a distância era de aproximadamente 500 metros e teriam que subir 300 metros.

            A  artilharia atacou pesadamente, antes do avanço da tropa, que começou às 7 horas da manhã pelo I / 1º R.I., que progrediu até o meio dia. Às 8 da manhã partiu o III / 11º R.I. Que após conquistar a cota 760 a oeste de Falfare foi detido à frente de Abetaia.

            Os alemães fortalecidos e melhor instalados, reagiram violentamente, desarticulando o escalão de ataque, que logo depois foi apanhado pelo flanco, e de frente por fogos de metralhadoras instaladas em Mazzancana, Fornace, Cota 887 e Abetaia.

            Na segunda parte do ataque o I / 1º R.I.,  foi obrigado a retornar à base e o III / 11º R.I. Recuou um pouco sob pressão da artilharia inimiga e, com a chegada da noite e a intensificação dos ataques do inimigo, houve uma ordem para o retorno imediato para a posição inicial, não tendo sido empregados o III / 6º R.I., nem a reserva divisionária.

            Pela 3ª vez o Monte Castelo resistiu, deixando cerca de 200 baixas, sendo que apenas uma granada matou 9 de nossos pracinhas. A verdade é que a Divisão de Infantaria Expedicionária não atingiu seu primeiro objetivo ofensivo sob direção exclusivamente brasileira.

            Concluímos que o 3º ataque não teve sucesso, pelo seguinte:

  1. falta de preparação para o ataque
  2. determinação alemã em manter a elevação a todo custo
  3. meios deficientes para concluir o objetivo
  4. ausência do apoio da força aérea
  5. condições climáticas completamente desfavoráveis
  6. ataque frontal ao inimigo
  7. parte da tropa era inexperiente em combates(III / 11º R.I.)
  8. terreno bastante íngreme e muito enlameado.

            Após o ataque frustrado, jaziam sobre o terreno do Monte Castelo inúmeros corpos dos pracinhas, que simbolizavam a bravura do soldado brasileiro.

"Em uniforme de inverno, no mês de Dezembro de 1944, patrulha da FEB se prepara para incursão às linhas alemãs"

 

Na maca, o Batalhão de Saúde transporta um pracinha ferido num dos assaltos ao Monte Castelo