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Bandeira Inimiga – A simbologia da Derrota
Quando em guerra, os espólios sempre foram o sonho de consumo dos exércitos vencedores. Não por acaso, quando as unidades americanas já como tropa de ocupação, passavam os dias bebendo comemorando a paz em terras conquistadas, eles enviavam através de um serviço do US Army esses espólios para os Estados Unidos, por isso, vários pequenos objetos chegaram nas casas de famílias americanas.
Ao final das hostilidades na Itália, nossos pracinhas também trouxeram toda a sorte de suvenir, dentre uma das mais curiosas, o soldado Giovanne trouxe uma Estátua de uma Santa que ele encontrou em uma igrejinha destruída no interior italiano. Entretanto o espólio mais comum eram as armas, nossos soldados trouxeram para o Brasil vários tipos de armas brancas, pistolas e até metralhadoras alemães.
Mas o espólio de guerra mais simbólico para um Exército era, sem sombra de dúvidas, a bandeira da nação inimiga ou do Exército enfrentado. Essa simbologia milenar não foi diferente na Segunda Guerra Mundial. Podemos encontrar centenas de fotos de soldados ostentando as bandeiras inimigas derrotadas. Inclusive, no desfile da vitória em Moscou as bandeiras nazistas foram devidamente humilhadas e destruídas para representar a vitória total sobre o regime.
Crônicas de Guerra – A FEB em Relatos!
Muito se escreveu na Itália sobre a atuação dos pracinhas brasileiros durante a Segunda Guerra Mundial. Relatos não escritos por pessoas que falavam sem conhecimento de causa, escreveram fatos e acontecimentos que presenciaram ou estiveram em contato logo após o acontecimento. Muitos destes, foram elementos chave no dispositivo da FEB ou jornalistas importante enviados para realizar a cobertura da guerra. Entres estes, podemos citar as crônicas de Rubens Braga e as do Olívio Gondim de Uzêda, jornalista do Diários Associados e Comandante do 1º Batalhão do I Regimento de Infantaria, respectivamente. Essas testemunhas escreveram importantes crônicas sobre as peculiaridades do cotidiano da campanha na Itália e que, compartilhadas, passam uma nova perspectiva da guerra, longe da visão do Alto Comando, mas a perspectiva de quem viu os combates ou de quem esteve nele, literalmente falando.
Portanto vamos publicar, além dos dois autores citados, crônicas de outros autores que estiveram no Teatro de Operações da Itália e compartilharam para a posteridade os acontecimentos que ceifaram a vida de quase 500 brasileiros, longe de sua pátria e distante de suas famílias.
Iniciamos hoje com uma crônica do Coronel Uzêda. O Coronel é citado no livro do Marechal Lima Brayner (Recordando os Heróis), como sendo um comandante de primeira linha, que após o ataque fracassado a Monte Castello no dia 12 de dezembro, tendo seu batalhão sido substituído por um batalhão do 11º RI, não mediu esforço, quando teve que voltar a linha para reforçar o mesmo regimento, depois de um voraz contra-ataque alemão, mesmo com sua tropa exausta. O Coronel Uzêda, por algum motivo, não fez o curso de Estado-Maior, por isso foi para reserva como Coronel, fato também citado pelo Marechal Lima Brayner.
Os Super-Homes e os Brasileiros
No silêncio da noite reboam gritos de socorro! O sentinela, atento, enrija seus músculos comprimindo fortemente a coronha do seu fuzil, e procura ouvir melhor, localizar os gritos. De repente, ouve como que um desesperado apelo: Brasiliani, brasilliani! Chama o comandante do seu posto e informa-lhe o ocorrido. Agora, já todo o posto ouve o apelo, por sinal que com voz feminina. O desejo que os domina é se largarem imediatamente na direção de onde provinha os gritos, aproximadamente a de Navechie; mas, as ordens eram positivas; não podiam abandonar seus posições, nem tão pouco transpor a linha de frente, sem autorização.
Se se ausentassem de suas posições, prejudicariam a missão de vigilância; se traspusessem a linha de frente, podiam cais sob os tiros de inquietação que fazíamos todas as noites com a nossa artilharia sobre os pontos mais importantes do inimigo. Por outro lado, esses gritos podiam ser uma armadilha. O comandante do posto, resolve, pois comunicar a Companhia, e esse com o do Batalhão.
O comandante do Batalhão informa ao da Companhia que não havia nenhum tiro de inquietação previsto para aquela direção, durante a noite; e autoriza-lhe a enviar uma patrulha de reconhecimento.
Sai a patrulha e momentos depois regressa trazendo duas crianças, uma com doze e outra com dez (anos) e uma senhora, todas três feridas; e mais duas crianças menores, uma com 4 e outra com 2 anos.
As feridas são cuidadosamente tratadas pelo valoroso médico do batalhão, o dedicado Dr. Barcelos. A senhora apresentava oito ferimentos, todos produzidos por arma de fogo disparada por trás, às crianças cada uma tinha um ferimento em uma das pernas a altura do joelho.
A senhora relata o fato: achava-se em casa quando ouve o grunir de seus porcos; abre a janela que dava para o quintal e vê animais serem arrastados por quatro soldados alemães. Indignado, grita pelos brasileiros, pois sabia que estavam bem pertos. Outros soldados alemães atiram sobre ela; as crianças gritam espavoridas; os alemães disparam contra as crianças.
Ouvem passos, os alemães fogem. São os brasileiros que chegam.
Os ferimentos são encaminhados na ambulância do Batalhão para um Hospital Civil.
As duas crianças menores ficaram no Posto de Comando do Batalhão para, afim de serem encaminhados, no dia seguinte, a um endereço que a senhora deixara.
Ao acordamos, encontramos as duas crianças agasalhadas nas roupas de lã que lhes deram oficiais do batalhão; lembramo-nos bem, que o tenente Paiva concorrera com uma “sweater”. A maior estava sentada, tomando uma boa xícara de leite e comendo pão e queijo, feliz na sua inocência. A menor não dormira nem queria comer nada: só queria a mãe. E lá vinha um, vinha outro, cada um com uma ideia a fim de distrair a criancinha e fazê-la pelo menos comer. Os super-homens tentaram matar-lhes a mãe e os irmãos. Os brasileiros sofriam por vê-los sofrer.
Fonte: Coronel Olívio Gondim de Uzêda, Crônicas de Guerra – Biblioteca do Exército – 1952
Especial Monte Castelo – 67 anos: 4º ataque ao Monte Castelo
No dia 9 de Dezembro de 1944, foi enviada ao comando da FEB, uma Ordem Geral de Operações que ordenava o ataque ao Monte Castelo, marcando para o dia 11 do mesmo mês, o início das operações.
Ataque da Divisão da Infantaria Divisionária
- A Divisão vai atacar na manhã do dia 11 a região de Monte Castelo
- O ataque será executado com os seguintes meios:
a) O comandante da tropa será o General Zenóbio
b) A tropa será assim constituída:
1º Escalão de ataque
1º R.I. (menos o I Batalhão e a Companhia de Obuses)
Reserva
III Batalhão do 11º R.I.
Cobertura do flanco leste
I Batalhão do 11º R.I.(além da guarda da base de partida)
Apoio
Companhia de obuses do 1º e 1º R.I.
Companhias P.P./11º R.I.(elementos fixos na base de partida)
1ª Companhia de tanques( 1 Pel. L.,2 Pels. M. E 1 Pel. T.D.)
Artilharia
Cada Batalhão do 1º Escalão de ataque terá um grupo de apoio direto.
No dia 10 de Dezembro, o comando recebeu a seguinte informação: “ Em virtude de ordem superior, todas as datas e prazos contidos na Ordem Geral de Operações, sofrerão um adiamento de 24 horas”.
A 2ª Seção repassou as seguintes informações sobre o inimigo no dia 11 de Dezembro:
- O inimigo dispõe de um Batalhão defendendo a área que interessa à conquista do Monte Castelo, com a possibilidade de se reforçar suas posições, ou efetuar contra ataques com 2 batalhões, que poderão intervir apoiados por tropas de assalto.
- A região da cota 977 está fortemente organizada, o que indica ser o ponto forte e ao mesmo tempo, sensível das defesas inimigas em Monte Castelo. Possíveis contra ataques contra o setor oeste de Monte castelo deverão ser encarados sobre a crista Oeste – Leste que vincula o Monte castelo ao Monte Della Toraccia.
O 4º ataque ao Monte Castelo foi executado sob o comando do General Zenóbio, e a força atacante foi constituída pelo 1º e 11º R.I., ambos desfalcados de uma Batalhão, e apoio foi dado por toda a artilharia da FEB, reforçada com mais um grupo americano. O esforço principal seria feito na direção de Casa Guanella – cota 887 e caberia ao 1º R.I. , enquanto o 11º R.I. Faria a cobertura na área de Falfare.
Nesta ocasião o frio já era intenso, chuvas torrenciais tornavam o solo um gigantesco lamaçal, que impediam o reconhecimento, além de manter em terra os aviões de reconhecimento, levando o comando americano concordou com a sugestão brasileira para adiar o ataque para o dia 12 de Dezembro, com intuito de esperar melhores condições climáticas. Infelizmente, isso não aconteceu, e a operação que seria desencadeada de surpresa, foi dispensada a preparação da artilharia, que fez uma manobra pelo flanco direito.
Ao amanhecer o dia, caia uma chuva fina, prejudicando a visibilidade, tornando-a quase nula, e um nevoeiro intenso cobria todo o front. O ataque estava previsto para começar às 6 da manhã, mas por falta de coordenação, a artilharia americana abriu fogo, quebrando o sigilo e, quando os 2º e 3º batalhões do 1º R.I.,partiram às 6:30 horas, os alemães fizeram cair uma chuva de morteiros e metralhadoras, fazendo com que nossos bravos pouco progredissem. Por volta das 7 da manhã o III / 11 R.I., conquistou Le Roncole e Casa Guanella, enquanto o II / 11º R.I., ao atrasar sua partida, foi detido por fogos vindos da Região de Abetaia, e o I / 11º R.I., ocupou Falfare, e finalmente alguns homens do III / 11° R.I., atingiram o cume do Monte Castelo, mas foram abatidos e seus corpos ficaram insepultos durante todo o inverno.
A noite caiu e mais uma vez o Monte Castelo não foi conquistado pela Força Expedicionária Brasileira.
Concluímos como prováveis causas do fracasso deste ataque:
- o ataque isolado ao Monte Castelo deixando de lado o Monte Belvedere, Gorgolesco e Toraccia
- frente demasiada extensa para a Divisão de Infantaria Expedicionária
- vistas e fogos dominantes do inimigo em todos os setores
- não obtenção do fator surpresa devido à artilharia americana
- condições climáticas inapropriadas(chuva, nevoeiro e lama)
- falta de apoio dos blindados e da aviação de caça
- inexistência da observação aérea.
Depois do fracasso deste 4º ataque, nada mais restava ao comando brasileiro a não ser manter a defensiva, e ordens foram dadas para uma pequena retração em busca de um terreno mais favorável. A Ordem Geral de operações do dia 13 de Dezembro prescrevia como missão manter as atuais posições.
A partir desta data, até o reinício da luta ofensiva em Fevereiro de 1945, limitou-se a verificação de contato por operações de reconhecimento ou patrulhas, além da intensificação da vigilância.
A Morte de Frei Orlando
Vamos publicar duas visões sobre uma das baixas mais sentidas pela tropa brasileira na Itália, infelizmente o Frei Orlando caiu ferido por um trágico acidente que tirou a vida de dos mais queridos integrantes da FEB.
Essas visões são foram extraídas das seguintes publicações: De São João del-Rei ao Vale do Pó, / Frei Orlando, os dois de Gentil Palhares
As duas visões são complementares e bastante interessante, narrando um triste acontecimento.
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Frei Orlando, Capelão do Batalhão, estivera pela manhã do dia 20 de fevereiro de 1945, no desempenho de seus deveres funcionais, em visita as posição da 4ª Cia., na região entre Falfare e Columbura. A zona da 4ª e a 6ª Companhias, esta indo de Falfare a Bombiana, eram as que estavam sendo mais castigadas pelos alemães. Por isso, Frei Orlando, no observatório do Batalhão, em Monte Dell’Oro, manifestou ao Major Ramagem, seu Comandante, a intenção de visitar também a 6ª Cia. Quis, então, atingir as posições dessa Companhia pelo caminho mais curto, que ia do observatório a casa M di Bombiana e desta a Bombiana. Mas o Major Ramagem não concordou com esse itinerário, pois, na ocasião, estava todo ele sendo pesadamente batido pelos alemães. Sugeriu ao Capelão que do observatório ganhasse a contra-encosta de Monte Dell’Oro e fosse até o PC do Batalhão em Docce, de onde poderia chegar às posições da 6ª por um caminho menos exposto.
Frei Orlando encaminhou-se para Docce pelo itinerário lembrado pelo Major e achava-se à margem do caminho que ligava o PC do Batalhão ao ponto cotado 789, a 300 metros de Bombiana, quando por ele sua eu num “jeep”, para esta última região. O Capelão, inteirado da direção da viatura, nela tomou lugar. No “jeep” já se encontravam o Cabo Gilberto Torres Ruas, motorista, um praça do II Batalhão e um militar italiano, posto à disposição do Regimento, para os serviços de transporte em montanha.
Frei Orlando, em caminho, depois de dizer o que fizera pela manhã e o que pretendia fazer, falava de uma irradiação feita pelos holandeses livres para a parte ocupada de seu país. A uma observação qualquer chegou a soltar uma das suas costumeiras gargalhadas. O “jeep” marchava lentamente pelo caminho conduzindo ao ponto cotado 789, quando, de repente, estaca, imobilizado por uma pedra. Prendia esta o eixo dianteiro. Os passageiros conseguem retirar a viatura, que é posta alguns metros além da pedra fatídica. Tomo a manivela do “jeep” e me esforço para removê-la. O italiano, no intuito de ajudar-me, recurva-se junto à pedra e também tenda retira-la a violentas coronhadas de sua carabina. Esta dispara. Frei Orlando, que se achava parado a uns três metros, é atingido pelo projétil, solta um grito e leva a mão ao peito, dá alguns passos à frente, tirando, ao mesmo tempo, com a mão direita, do bolso do casaco, o seu terço e balbuciando, às pressas, uma Ave-Maria. Corro para ele e o faço deitar-se à margem do caminho. A oração, apenas começada, é abafada pelo ofegar da agonia. Tudo isso, desde o fatal disparo, dura uns dez segundos.
Retorno rapidamente a Docce, em busca de socorro médico e trago o Capitão João Batista Pereira Bicudo, facultativo do Batalhão. Este pôde apenas verificar achar-se morto o Capelão, desde o momento, talvez, em que acabara de ser deitado à margem do caminho. O italiano abraçado ao corpo do Capelão, chorava e se lamentava. Um pastor das redondezas contemplava esta cena. O médico descobre-se, persigna-se e reza pela alma de Frei Orlando, no que é seguido pelo Capitão e pelo Cabo.
Eram, aproximadamente, 14:00 horas do dia 20 de janeiro de 1945…
obra: De São João del-Rei ao Vale do Pó
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No dia 21 de fevereiro, às 5h30 da manhã, foi dada a partida para a conquista definitiva do Monte Castelo. As notícias que chegavam era da impetuosidade dos nossos companheiros galgando resolutamente as posições a serem atingidas, inclusive o topo do Monte Castelo. Mas, por outro lado, afirmavam haver muitas perdas e muitos feridos. Frei Orlando, sabendo de tudo isso, ficou em profunda emoção e a todos externou que seu lugar era na frente, cuidando de seus soldados. Ele então reuniu seu equipamento, apanhou o estojo de hóstias e saiu morro acima, galgando a estrada. Houve tentativas de demovê-lo, mas foi em vão. Frei Orlando era teimoso demais quando se tratava de levar o conforto espiritual aonde quer que fosse. Pôs-se a galgar os caminhos tortuosos de Monte Castelo sob o bombardeio cerrado da artilharia de morteiros e armas automáticas inimigas; avançando com cuidado, quando já estava nas imediações da 6ª Companhia, itinerário recomendado pelo seu comandante de Batalhão. Major Ramagem, a mais ou menos 300 metros de Bombiana, passa por ele um jipe que lhe deu carona, pois o destino de todos era o mesmo. Seus ocupantes eram os seguintes: capitão Francisco Ruas, cabo Gilberto, o motorista, e um sargento italiano (guia alpinista à disposição das tropas brasileiras). O jipe seguia normalmente quando a estrada piorou e o eixo dianteiro ficou preso por uma pedra. Vários recursos foram utilizados, inclusive com ferro da manivela. Infelizmente, o sargento italiano, com o intuito de ajudar, martela violentamente com a proteção metálica da carabina, que dispara e fere mortalmente o Frei Orlando, este triste fato foi largamente comentado por todo o front como uma das maiores perdas de nossa FEB. O lastimável fato aconteceu justamente quando Monte Castelo estava praticamente dominado. A lutar é renhida, o escalão bordeja, ataca, toma pé nos últimos 277 metros de altura. Súbito, um foguete luminoso corta os ares, sendo assinalado pelos postos de observação três estrelas verdes, que no código de sinais objetivo conquistado.
obra: Frei Orlando
- Veteranos da ANVFEB-PE, Visitam o local do acidente que tirou a vida do Frei Olrlando
- Frei Orlando é patrono do Serviço Religioso do Exército
- Cartas enviadas do front pelo Frei
- Placa lembra o local do acidente na Itália










































































