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Os alemães e o Brasil – A Imigração Alemã – Parte VI
Autor: Professor Mestre Alessandro dos Santos Rosa
A Política do Estado Novo
Com a Revolução de 1930, Getúlio Vargas é levado a presidência da República, como analisado por Ricardo Seitenfus[1]: “Em outubro de 1930, um movimento armado conduz o gaúcho Getúlio Dornelles Vargas à presidência da república. A Primeira República conhece seu ocaso e tem início a Era de Vargas”.
Após passar pelo governo provisório (1930-1934) e pelo governo constitucional (1934-1937), apoiado por militares e pela população, Getúlio Vargas derrubou a constituição e declarou o Estado Novo (1937-1945). Com o advento do Estado Novo, em novembro de 1937, “Vargas passou a governar com poderes ditatoriais, iniciando oito anos de domínio incontrastável”[2].
Iniciava-se um período de ditadura na História do Brasil. Alegando a existência de um plano comunista para a tomada do poder (Plano Cohen) Getúlio fechou o Congresso Nacional e impôs ao país uma nova Constituição, que ficaria conhecida depois como “Polaca” por ter se inspirado na Constituição da Polônia, de tendência fascista.
O governo de Getúlio Vargas contava com grande apreço popular e tinha como meta principal enquadrar o Brasil em uma era de desenvolvimento. Procurando uma autonomia em bens industriais, não desejava que o país continuasse tão dependente das economias internacionais.
O país contava com uma economia muito sensível, o que vem dar mostras dessa fragilidade econômica foi à crise de 1929, onde foi grandemente diminuída a compra do café brasileiro, produto que servia como base da economia nacional, fazendo com que as preocupações de uma industrialização tomassem lugar de destaque, como explica Ricardo Seitenfus[3]:
A crise econômica mundial de 1929 mostrou bem que o Brasil não mais poderia continuar a depender inteiramente do estrangeiro para o suprimento de bens industriais. A importância da siderúrgica para o Brasil e para sua política externa é imensa: Getúlio Vargas a considerou o “problema básico” da economia brasileira. Enquanto não resolvido, o Brasil não reconheceria “a opulência econômica”. A partir de outubro de 1930, a implantação de um complexo siderúrgico tornou-se um dos elementos chave do programa getulista, condicionando a atitude brasileira em relação à Alemanha e aos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial. (p. 04)
A política comercial brasileira parte para a tentativa de diminuir as barreiras que o protecionismo internacional impunha, procurando uma aproximação com as nações que dominavam os mercados pelo mundo.
O Estado Novo foi marcado pela expansão industrial e pelo crescimento das exportações nacionais. “O país apresentava uma estrutura agrária, com o café respondendo por 70% das exportações e 60% dos seus quase 40 milhões de habitantes vivendo em áreas rurais”[4].
Desde o final de 1935 o governo havia reforçado sua propaganda anticomunista, amedrontando a classe média e de certa forma preparando a mesma para prestar seu apoio. O Golpe de Getúlio Vargas teve sua articulação com apoio dos militares, contando também com o apoio maciço da sociedade, dessa forma conseguindo uma centralização política que desde então se desencadeava.
Vargas impôs a censura aos meios de comunicação, reprimiu a atividade política, perseguiu e prendeu inimigos políticos, adotando medidas econômicas nacionalizantes e deu continuidade a sua política trabalhista com a criação da CLT[5], em 1943.
Desde a sua ascensão ao poder a política getulista sempre seguiu a esteira das políticas totalitárias e ditatoriais. Fato esse que, com a proximidade do evento da Segunda Guerra Mundial, a sociedade e até mesmo o meio militar ficava duvidoso de qual seria sua decisão, a quem prestar apoio, como analisado por Roney[6]: “Como terceiro e “outro” fator aparece a guerra que já em 1939 “produzia seus efeitos no Brasil, pois, como se não bastasse a ditadura do Estado Novo, havia o temor de que Getúlio Vargas optasse por alinhar o país ao lado da Alemanha nazista”.
Referencia Bibliográfica
*GERTZ, René. O perigo alemão. Porto Alegre: Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1991
*OLIVEIRA, Dennison de. Os soldados alemães de Vargas. Curitiba: Juruá, 2008
*SEYFERTH, Giralda. A colonização alemã no vale do Itajaí – Mirim. Porto Alegre: Movimento, 1985
*BRANDI, Paulo. Vargas: da vida para a história. Rio de Janeiro: Zahar, 1983.
*EICKHOFF, Renato. A Força Expedicionária Brasileira e os seus Veteranos. 2005. 42 f. Trabalho de conclusão de curso (Licenciatura Plena) – Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Tuiuti do Paraná, Curitiba, 2005.
*CYTRYNOWICZ, Roney. Guerra sem guerra: a mobilização e o cotidiano em São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Edusp, 2000.
*Consolidação das Leis do Trabalho. Criada pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943
[1]SEITENFUS, Ricardo. O Brasil vai à guerra: o processo de envolvimento brasileiro na Segunda Guerra Mundial. 3.ed. – Barueri, SP: Mamole, 2003. p.01
[3] Idem. p.4
[4]EICKHOFF, Renato. A Força Expedicionária Brasileira e os seus Veteranos. 2005. 42 f. Trabalho de conclusão de curso (Licenciatura Plena) – Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Tuiuti do Paraná, Curitiba, 2005. p.5
[5]Consolidação das Leis do Trabalho. Criada pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943. A consolidação das leis trabalhistas era uma necessidade do governo Vargas, populista e dependente da aclamação popular. Nesse período foi criado o Ministério do Trabalho, e a maioria das leis trabalhistas nasceram após 1930, quando triunfou a revolução que levou Vargas ao poder. O sindicalismo crescia sob as asas do governo e foram feitas muitas leis para regulamentar o trabalho.
[6] CYTRYNOWICZ, Roney. Guerra sem guerra: a mobilização e o cotidiano em São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Edusp, 2000. p.292
Os alemães e o Brasil – A Imigração Alemã – Parte V
Autor: Professor Mestre Alessandro dos Santos Rosa
Perseguidos e atacados!
Com a decisão de apoiar aos países aliados, mudou drasticamente o tratamento com os imigrantes alemães e seus descendentes. Na compreensão da sociedade brasileira e ainda motivada por lideranças políticas nacionais e locais, todo aquele que tivesse descendência germânica era culpado pelas mortes ocasionadas nos incidentes marítimos, como explica o general da reserva, Italo Conti[1], ex-combatente da Força Expedicionária Brasileira:
A partir do dia em que ocorreu o afundamento dos navios brasileiros ocorreu uma mudança na opinião social. Inclusive eu estava em Cachoeira, no Rio Grande do Sul, quando ocorreu os afundamentos dos navios, o quebra-quebra foi violento. O que era pertencente a alemães foi tudo quebrado, indústria, casas, clubes, comércio. Isso ocorreu de forma mais agressiva no Rio Grande do Sul e Paraná, já em Santa Catarina foi de uma forma mais acentuada e também algumas casas no Rio de Janeiro. De qualquer forma, era a opinião publica mostrando sua revolta contra o que havia acontecido…
A mudança de pensamento a respeito daqueles que possuíam origem germânica foi imediata. Existiam aqueles agitadores que seguiam as orientações vindas do Reich e grupos extremistas que estavam estabelecidos em território nacional, como analisado pelo 2o tenente reformado Aristides Saldanha Verges[2], ex-combatente da Força Expedicionária Brasileira:
Houve uma mudança sim, principalmente porque haviam aqueles que se manifestavam, esses sofreram ainda mais. Inclusive uma firma que eu trabalhava, uma vidraçaria chamada “Vidraçaria Vitro”, aqui da cidade de Curitiba na rua Marechal Deodoro, os proprietários eram de origem alemã. Portanto quando foi declarada a guerra com Alemanha e Itália, a firma foi depredada, toda quebrada, pela população civil. Porém eles pertenciam ao grupo dos integralistas.
Os incidentes marítimos foram determinantes para que o Brasil optasse por apoiar os aliados. Fato esse que fica constatado através do depoimento de Ítalo Conti.
Mesmo com a mudança de opinião a respeito dos imigrantes alemães, tanto no meio social como também no meio militar, não houve discriminação a respeito daqueles que se apresentavam como voluntários para integrar o efetivo da Força Expedicionária Brasileira, como abordado por Italo Conti[3]: “…o que não impediu que muitos filhos de alemães compusessem o efetivo da FEB. Temos como símbolo da coragem da FEB, o sargento Max Wolf Filho, filho de alemães. Eu convivi com esse sargento, porque ele pertencia ao batalhão que nós dávamos apoio”.
De certa forma era interessante para o próprio Exército que militares de descendência germânica estivessem compondo o efetivo da Força Expedicionária Brasileira. Se houvesse necessidade de uma comunicação entre militares brasileiros e militares alemães havia uma facilidade de entendimento, isso no caso de cair prisioneiro de guerra ou de fazerem prisioneiros, como analisado por Dennison[4]:
A presença de um teuto-brasileiro entre os febianos que fosse fluente em alemão sempre foi reputada como sendo de alto valor. No caso dos brasileiros que caíram prisioneiros dos alemães, como o Cabo Amynthas Pires de Carvalho, do 11o RI, essa habilidade era considerada de forma ainda mais alta. Ele e o seu grupo de combate foram capturados, em 22.10.1944, na Região de Barga. Seu cativeiro foi tornado mais suportável por entenderem os alemães e por serem por eles entendidos, graças a presença, no grupo, de Casemiro Muller, um catarinense descendente de alemães, que falava alemão perfeitamente. (p.58)
Como ainda nos confirma o senhor Lindolfo Arendt[5] sobre essas mudanças: “Com certeza. Iniciou perseguição, nas cidades haviam inspetores de quarteirão (rua), os quais queriam mostrar serviço. Haviam famílias de descendentes de italianos e alemães que não falavam uma palavra em português, isso passa a não ser mais permitido. Mesmo vivendo dentro de uma colônia de alemães, ainda fui voluntário pra ir no efetivo da FEB”.
Fica evidenciada a diferença na forma de trato com os teuto-brasileiros, inicialmente incentivados a colonização, efetivaram grande desprendimento com seu trabalho. Após a decisão de o Brasil apoiar os países aliados, a grande mudança ocorrida, uma verdadeira aversão a quem fosse descendente de imigrantes alemães, como abordado por Virginia Leite, ex-enfermeira integrante da FEB[6]:
No Brasil houveram as coisas mais absurdas que se possa imaginar, por que aqui mesmo em Curitiba, as lojas que eram dos alemães, italianos e japoneses, foram depredadas e os donos eram presos, o brasileiro “pintou e bordou”, com os imigrantes e descendentes. Quem estava aqui não tinha nada a ver, foi até um absurdo, mas guerra é guerra.
As perseguições ocorridas dentro do país possuíam a representatividade das lutas ocorridas contra os regimes totalitários. Porém, as perseguições foram realizadas de uma maneira generalizada, sem haver uma averiguação se aquelas pessoas estavam envolvidas ou não com grupos extremistas.
Referencia Bibliográfica
*GERTZ, René. O perigo alemão. Porto Alegre: Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1991
*OLIVEIRA, Dennison de. Os soldados alemães de Vargas. Curitiba: Juruá, 2008
*SEYFERTH, Giralda. A colonização alemã no vale do Itajaí – Mirim. Porto Alegre: Movimento, 1985
*Virginia Leite. Ex-enfermeira da Força Expedicionária Brasileira. Entrevista realizada no dia 09 de novembro de 2009 na cidade de Curitiba – PR
*Lindolfo Guilherme Arendt. Ex-combatente da Força Expedicionária Brasileira. Entrevista realizada no dia 26 de outubro de 2009 na cidade de São Miguel do Oeste – SC.
*Italo Conti. Ex-combatente da Força Expedicionária Brasileira. Entrevista realizada no dia 12 de novembro de 2009 na cidade de Curitiba – PR
[1] Italo Conti. Ex-combatente da Força Expedicionária Brasileira. Entrevista realizada no dia 12 de novembro de 2009, na cidade de Curitiba – PR
[2]Aristides Saldanha Verges. Ex-combatente da Força Expedicionária Brasileira. Entrevista realizada no dia 12 de novembro de 2009 na cidade de Curitiba – PR. Natural da cidade de Curitiba – PR. Incorporado em 01 de dezembro de 1943 no 23o BI. Em fins de março de 1944, foi designado para viajar, sendo transferido para a cidade do Rio de Janeiro, sendo incorporado ao 6o RI. A sede dele era em Caçapava, mas já estava deslocado para a cidade do Rio de Janeiro. Iniciaram treinamentos em diversos lugares na cidade, como preparação para a Guerra. Quando partiu, no primeiro escalão, pertenceu a Cia Cmdo do 3o batalhão, do 6o RI., tendo como chefe direto o Tenente Silvio Miscov e comandante do batalhão o Capitão Antonio Barcellos. Conta na atualidade com 88 anos.
[3]Italo Conti. Ex-combatente da Força Expedicionária Brasileira. Entrevista realizada no dia 12 de novembro de 2009 na cidade de Curitiba – PR
[4] OLIVEIRA, Dennison de. Os soldados alemães de Vargas. Curitiba: Juruá, 2008. p.58
[5]Lindolfo Guilherme Arendt. Ex-combatente da Força Expedicionária Brasileira. Entrevista realizada no dia 26 de outubro de 2009 na cidade de São Miguel do Oeste – SC. Natural de São Pedro do Sul – RS, nascido em uma colônia de imigrantes alemães. Antes de partir efetivamente para a guerra, pertenceu ao 30 Pel. 70 Batalhão de Infantaria, o qual ficou fixado em diversas instalações na cidade de Santa Cruz do Sul – RS, embarcando para Santa Maria, onde foi formado um contingente de todo o Rio Grande do Sul, partindo daí para o Rio de Janeiro em 25 de dezembro de 1944, chegando lá dia 01 de janeiro de 1945. Compuseram o efetivo de 96 militares, sendo 1 Sgt, 14 Cbs e 81 Sds. Sendo dividido esse efetivo entre as diversas frações que partiriam para a Itália compor o Depósito de Pessoal em Stafler. Não receberam nenhum tipo de treinamento, somente rigorosa inspeção de saúde, permanecendo até o dia 28 de janeiro de 1945, data em que se deu a partida do 3o escalão com destino ao depósito de pessoal na Itália, devido as baixas ocorridas nas tentativas da tomada de Monte Castelo. O referido ex-combatente conta atualmente com 89 anos, conseguiu seus benefícios de aposentadoria somente na década de 80.
[6]Virginia Leite. Ex-enfermeira da Força Expedicionária Brasileira. Entrevista realizada no dia 09 de novembro de 2009 na cidade de Curitiba – PR. Natural da cidade de Irati – PR e descendente de família Luso brasileira. Foi a primeira voluntária do Estado do Paraná, participou do Corpo de Enfermeiras, órgão criado pela Cruz Vermelha. Esta por sua vez, criou em várias cidades um curso de enfermagem para que o exército pudesse compor um corpo de saúde de enfermeiras. Ficou designada ao corpo de saúde da FEB, seguindo para África, e depois partindo para Itália, desembarcado do avião em Nápoles. Chegando depois do segundo escalão. Conta atualmente com 93 anos.