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A FEB Indo para a Guerra: o Filme que o Exército Americano Gravou em 1944

O roteiro do vídeo

Julho de 1944. Meio do Oceano Atlântico. Num navio de tropas americano, cinco mil soldados brasileiros seguem para a guerra. E no convés, a tropa assiste a uma corte de fantasiados. É o Rei Netuno, que veio a bordo.

Uma câmera do Exército americano estava lá, e filmou. Esse filme está hoje no Arquivo Nacional dos Estados Unidos. E é com ele que a gente vai fazer, agora, a viagem da FEB.

2 de julho de 1944. O primeiro escalão da Força Expedicionária Brasileira deixa o porto do Rio de Janeiro. São cinco mil e setenta e cinco homens, trezentos e quatro deles oficiais. O navio é o transporte americano General Mann. O destino, Nápoles, na Itália.

A travessia era o trecho mais perigoso. Havia submarinos do Eixo no Atlântico. Contratorpedeiros da Marinha brasileira e navios de combate americanos escoltavam o comboio até o Estreito de Gibraltar.

A bordo, alerta total. Exercício de abandono de navio todos os dias. Colete salva-vidas o tempo todo. E à noite, todas as luzes apagadas, para não entregar a posição. Com o navio fechado e o calor, a viagem era desgastante.

Para passar o tempo, xadrez, baralho, conversa. E a comida. O jantar era brasileiro; o almoço, americano, cheio de coisas que a maioria nunca tinha visto. No primeiro almoço, veio um tal de Nabisco: um rolo de trigo seco e duro, parecendo palha de aço. Um tenente médico tentou com açúcar. Depois, com manteiga e sal. Depois, puro. Cada vez pior. Até que um capitão que já tinha estado nos Estados Unidos explicou: aquilo se come mergulhado no leite.

No General Mann, os alto-falantes davam as ordens em inglês para os americanos e em português para os brasileiros, sempre depois de um apito agudo. A tropa logo aprendeu que, depois do apito, vinha novidade. E gritava: lá vem peixe!

E foi na linha do Equador que o Rei Netuno apareceu. A Marinha americana tinha uma brincadeira tradicional: quem cruzava a linha pela primeira vez ganhava um diploma do Rei Netuno. Num navio às escuras, com medo de submarino, a festa aliviou a tensão. E a irreverência brasileira fez o resto.

Dois meses depois, a festa se repetiu com o segundo escalão. E ficou registrada num documento oficial, o boletim de bordo, assinado pelo comandante: amanhã o navio atravessará a linha do Equador. Devem ser tomadas precauções especiais, pois muitas vezes se sente um choque muito violento, podendo até mesmo a hélice embaraçar-se na referida linha.

O general Falconière, que viajava no outro navio, telegrafou: disciplina da tropa ótima. Somente os artilheiros de bordo tiveram de ser amarrados em suas camas, com receio do grande choque contra a linha do Equador.

Em Gibraltar, a Marinha brasileira terminou sua missão de escolta. Dali em diante, o comboio seguiu com navios americanos e ingleses. E a entrada no Mediterrâneo virou cerimônia. O comandante do General Mann, o capitão Paul Maguire, saudou a tropa: sois a primeira força sul-americana que deixou seu continente para combater em ultramar. O general Mascarenhas de Morais respondeu: unidos na América e sobre as águas do Atlântico, seremos na Europa também irmãos do mesmo ideal.

16 de julho de 1944. O General Mann atraca em Nápoles. E o cinegrafista americano anota na claquete: Exército brasileiro desembarcando. Nápoles. 16 de julho de 44.

A câmera passa de rosto em rosto. No convés, o general Mascarenhas recebe os oficiais americanos. No cais, uma banda. Dois meses depois, em 16 de setembro, um batalhão do 6º Regimento de Infantaria iniciava a marcha na frente do rio Serchio, entre Pietrasanta e Lucca. A FEB entrava em combate.

Em 22 de setembro de 1944, ao meio-dia e quinze, partiu o segundo escalão, junto com o terceiro: dez mil, trezentos e setenta e cinco homens, sob o comando do general Falconière. Um veterano guardou a cena: da saída da barra ainda se via, sem binóculo, o relógio da Central do Brasil. Quando voltaríamos a rever essas praias?

Eles desembarcaram em Nápoles e seguiram em navios de desembarque americanos até Livorno. E lá estava a câmera de novo. Na claquete: chegada das tropas brasileiras, Livorno, 11 de outubro de 44.

O oficial Olívio Gondim de Uzêda contou a chegada. Desembarcamos espremidos entre as malas, por um lamaçal sem fim, até os caminhões. Pela estrada, destruição e mais destruição. E as crianças pedindo cigarro, chocolate e caramelo.

O acampamento ficava num parque de pinheiros perto de Pisa: a Tenuta di San Rossore, o parque do rei da Itália. Ali, por mais de um mês, a tropa se adaptou ao clima e à comida, recebeu armamento e fez instrução.

Em volta, tudo marcado com fita branca: campo minado. E dentro dele andavam uns camelos. De vez em quando, uma explosão, e os soldados diziam: lá vai um camelo. Até que alguns começaram a desrespeitar as marcas. E a pergunta, a cada estouro, passou a ser outra: será um camelo ou um brasileiro?

Entre julho de 1944 e fevereiro de 1945, mais de vinte e cinco mil brasileiros fizeram essa viagem. A câmera americana filmou o começo dela. Se tem um pracinha na sua família, conta aqui nos comentários.

Fontes

Imagens: filmes do U.S. Army Signal Corps, de 1944, em domínio público (obra do governo dos EUA), copiados do Internet Archive. As tomadas a bordo são do 1º escalão, identificado pela presença do general Mascarenhas de Morais.

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