Archive
A Revolução de 1964: Ponderações Historiográficas!
Aproveitando os 50 anos dos eventos conhecidos por uns como Golpe Militar de 64 e por outros como Contra-Golpe de 64, republicamos o Artigo do Historiador Alessandro dos Santos Rosa.
Vietnã! Alguém Lembra os Motivos, Causas e Envolvidos?
Diferentemente do que se possa imaginar, a Segunda Guerra Mundial, para os contemporâneos deste conflito, entenderam que estavam lutando pela liberdade no mundo. Ninguém que participou deste conflito questionava a motivação da guerra. Os americanos foram atacados, os ingleses sofreram terríveis perdas e outros países justificavam sua participação simplesmente dizendo que era a guerra do bem contra o mal. Neste conflito, pelo menos para quem participou, tudo era claro.
Já a Guerra do Vietnã a coisa não foi tão fácil assim. Primeiro era uma guerra questionável. De fato, o inimigo que se lutava era muito mais do que um Exército ou uma nação vil, mas uma guerra ideológica, com o inimigo muitas vezes infiltrado entre os aliados. Era a Guerra Fria na sua versão mais pungente. Os Estados Unidos já se envolvera em conflito semelhante no início da década de 50, a Guerra da Coreia. Sabiam que uma nação dividida, uma nação separada pela ideologia e sistemas de governos diferentes poderiam produzir campos de batalha tão ou mais aterrorizante quanto as terríveis campanhas da Segunda Guerra. E eles produziram.
Refletir sobre a Guerra Vietnã é refletir sobre as consequências e dos resultados da própria Segunda Guerra Mundial. Mas do que um conflito em uma região suburbana do mundo, este evento marcaria para sempre a história da maior potência ocidental, e colocava em check a reputação das Forças Armadas mais aclamada das últimas décadas.
Como dissemos em publicações anteriores, assim como a Guerra de Inverno (1939/40) e a invasão da União Soviética, homens que lutam por seu país, em sua própria terra, sempre estarão dispostos a tudo para derrotar e expulsar o inimigo, independente de suas intenções. Depois do Vietnã, muitas outros guerras provariam isso, pois isso é o que a história ensina.
A Maior Catástrofe Militar Portuguesa Depois de Alcácer-Quibir
Portugal entrou no conflito a partir de 1914 já na linha africana, com o objetivo de defender suas colônias. Mas apenas em 09 de março de 1916, Portugal declara guerra à Alemanha e forma, no ano seguinte, o Corpo Expedicionária Português (CEP). Em 1918, as tropas portuguesas foram deslocadas para defender a região de Flandres na Bélgica. A Alemanha preparava uma ofensiva desesperada para retomar a região dos Calais na França.
As tropas portuguesas estavam exaustas. Deveriam ser rendidas por tropas inglesas, mas por falta de barcos, o CEP ficou estacionado, defendendo a linha. Porém, muitos oficiais abastados conseguiram retornar para Lisboa e outros conseguiram favores para abandonarem suas tropas. Em todo momento o General Gomes da Costa, comandante do CEP, informava o governo de Lisboa sobre as condições das tropas. Casos de insubordinação, suicídio e deserções eram cada vez mais frequentes.
Em 09 de abril de 1918, o General Erich Ludendorff eclodiu a ofensiva “Georgette”. Em algumas horas de combate 7,5 mil soldados portugueses estavam feridos, mortos ou desaparecidos em combate. Infelizmente, a ofensiva ocorreu quando o exército português recebeu ordens para se deslocarem à retaguarda, sendo substituídas por tropas britânicas. O caos e o desespero dos portugueses eram generalizados.
Dentre os muitos casos de heroísmo em situações de guerra que ocorreram no decurso das Batalhas, um soldado português chama a atenção: Aníbal Milhais. Enquanto os soldados recuavam, o soldado Milhais ficou entrincheirado e defendeu sua posição contra o avanço da Wehrmacht. Depois passou à frente e, durante toda a Batalha, esteve lutando de trincheira em trincheira. Ao final, conseguiu retornar as linhas aliadas e foi condecorado com a Ordem da Torre e da Espada, maior condecoração de Portugal. Ficou conhecido como soldado Milhão.
Mais sobre sobre o soldado Milhões:
Pernambuco: Guerra no Mar, no Ar e nas Ruas.
A história da atuação dos nazistas no Nordeste traz grupos que se reuniam uniformizados, espiões que atuavam na Base Americana em Natal e partidários que tentaram viabilizar uma rádio de ondas curtas em Pernambuco.
Quando estoura a 2ª Guerra Mundial, no dia 1º de Setembro de 1939, Mussolini tem mais adeptos em Pernambuco do que Hitler. Em parte, graças à propaganda que o consulado italiano vinha fazendo desde a década de 1920, quando o “Duce“ assumiu o poder. Além disso, o fascismo conta com muitos simpatizantes entre os integralistas que, um ano antes, tentaram assassinar o presidente Getulio Vargas e sua família, no Palácio Guanabara, no Rio de Janeiro. Os italianos são mais presentes em várias atividades: comércio, mecânica leve, funilaria, música e na fabricação de alimentos e refrigerantes (a Fratelli Vita, na Boa Vista, que foi depredada em Agosto de 1942), depois do afundamento dos navios mercantes brasileiros.
A colônia alemã era menor, porém mais influente, especialmente nos meios industriais e, a propaganda alemã também foi mais eficiente, especialmente após a ascensão do Nazismo – que adotou um tom anticomunista: “ A Segunda Guerra Mundial empolgou a população de Pernambuco que logo se dividiu entre partidários do Eixo e dos Aliados. No Recife, havia uma velha tradição de admiração pela Alemanha em que Tobias Barreto introduziu o germanismo no Estado, o que era reforçado pela admiração que muitas pessoas tinham pela decantada inteligência, competência e dedicação ao trabalho do povo alemão, herdada da Primeira Guerra Mundial. Esta colônia era expressiva sobretudo nos meios industriais e, esta admiração aumentou na década de 1930, quando o Consulado alemão fez uma intensa divulgação entre os estudantes e profissionais, da propaganda contra o comunismo russo, procurando amedrontar a população com a hipótese de os comunistas um dia chegarem ao poder no Brasil”(Manuel Correia de Andrade – em Pernambuco Imortal).
O Partido Nazista existiu em Pernambuco, entre meados da década de 30 até Getúlio Vargas proibir [partidos estrangeiros em 1937]. Até o momento, os nazistas nunca precisaram agir na clandestinidade: seus integrantes, na maioria absoluta eram funcionários da Fábrica Lundgren, na cidade de Paulista, que iam às reuniões uniformizados(inclusive com a braçadeira com a suástica), e até assinavam atas. Não foi apenas em Pernambuco que os Nazistas foram ativos, pois haviam núcleos importantes em outros estados – Paraná, Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, sendo que estas representações foram criadas por Hans Hanning Von Consul, que era oficialmente adido cultural na Embaixada da Alemanha no Brasil.
Foram ao todo 83 células com 2.822 militantes, o maior número de filiados ao Partido nazista fora da Alemanha (os Landesgruppe). Estes militantes, mesmo depois da proibição de fazer política, continuaram na ativa, tanto na espionagem como na propaganda. O Recife interessava à espionagem por causa do movimento do Porto, que passa a ser base da 4ª Frota Naval Americana e, da proximidade com a base aérea de Natal, montada pela Força Aérea Americana.
Uma parte considerável da história da atuação dos nazistas no Nordeste está nos arquivos do extinto DOPS (Departamento de Polícia Política e Social de Pernambuco). Este órgão, depois que o Brasil entrou na guerra ao lado, entre outros da União Soviética, pararam de caçar comunistas, para caçar nazistas e fascistas. Uma das maiores descobertas nestes arquivos foi feitas pela historiadora Susan Lewis, foi que houve na cidade de Igarassu, durante a 2ª Guerra Mundial, um campo de confinamento, para onde foram mandadas, cerca de 400 famílias de alemães e japoneses, mas em condições que em nada lembravam os campos de extermínio nazistas, onde foram executados milhões prisioneiros, a maioria judia.
Até o final da guerra, em todo o país, foram presos 47 espiões, todos condenados pelo Tribunal de Segurança do Estado Novo e, em Recife o DOPS teve muito trabalho com espiões alemães, inclusive dois processos – ambos assinados pelo delegado Pedro Corrêa, sendo um de espionagem e outro por propaganda, que ilustram bem a situação que aqui se passava.
O processo por propaganda indiciou Evaldo Stalleiken, que, se hoje fosse vivo seria considerado um designer de primeira: ele fez o desenho da carteira de cigarros Nacionaes, de modo que a junção de 4 carteiras, formava a suástica e, as mesmas postas em outra posição, formavam a Cruz de Ferro, uma das maiores condecorações do Exército Alemão. Ao ser chamado pelo delegado para se explicar, ele disse que fez o desenho de múltipla utilidade sem querer…
O segundo inquérito, referente à espionagem, foi sobre a tentativa de montar uma rádio de ondas curtas, para aproveitar a posição geográfica do saliente nordestino, chamado de Trampolim do Atlântico Sul, que acusou Hans Heinrich Sirvet e Herbert Friedich Julius Von Heyer, que ofereceram dinheiro para que o técnico Walter Grapetim faça as instalações desta rádio, que já estava montada. O técnico Grapetim, procurou o alemão Oscar Shiler, responsável pela parte técnica da Rádio Clube de Pernambuco, que o aconselha a “não se meter em tal assunto”, que foi seguido à risca por ele.
Artigo enviado pelo Pesquisador Rigberto de Souza Júnior
Texto extraído da “Revista Continente Documento Ano III nº 33/2005”
Uniformes Alemães de Hugo Boss
Para quem não lembra. Publicamos duas séries sobre Uniformes. O primeiro do Exército Alemão e o segundo os uniformes do Exército Vermelho.
As Idas e Vindas dos Ingleses na Segunda Guerra Mundial
Quando a França caiu em 1940 e a Alemanha passa a desferir pesados bombardeios sobre Londres, o mundo não acreditava na resistência inglesa por muito tempo. Todos sabiam que as forças alemãs iriam a qualquer momento cruzar o Canal e desembarcar suas tropas nas terras do Rei George VI. Era uma questão de tempo.
Contudo, a heroica resistência inglesa e o apoio dos Estados Unidos para furar o bloqueio naval, aliado a incompetência da Luftwaffen de não conseguir superioridade aérea sobre a Grã-Bretanha, foram determinantes para que a Alemanha se voltasse para o seu inimigo natural, a União Soviética.
Em 1941, a guerra entra em uma nova fase, Hitler é compelido pela Itália para o norte da África. Nasce o mito da Raposa do Deserto, que não resiste à entrada americana na guerra. Os Aliados passam para a ofensiva. A Itália cai. Recursos e homens se voltam para a Europa. É o Dia D tomando forma.
Mais do que uma simples campanha, a retomada da França significava o reavivamento do brio inglês. Quando meio-milhão de soldados ingleses e franceses foram expulso da Europa Continental de forma melancólica abalou o moral da pátria inglesa, por isso, a simples hipótese de retomar a campanha perdida em 1940, levou vários veteranos da Força Expedicionária Britânica ao delírio.
Na campanha da Normandia coube aos Estados Unidos o comando das operações. Mas as divisões inglesas não se importavam, elas queriam uma revanche contra o exército alemão, pela humilhação sofrida naquele mesmo terreno. E eles avançaram!
Depois da Companha da Normandia, queriam mais! Queriam chegar a Berlim antes do natal. Nasce a Operação Market Garden. É neste ponto que o melhor soldado inglês, Monty, se desfez do sonho de acabar com um inimigo que quase destruiu sua terra. Os alemães ainda tinham forças. A prova maior foi ofensiva no inverno de 1944.
No final das contas, a Inglaterra viu de tudo na Segunda Guerra Mundial. De inimigos declarados serem aliados; e de aliados virarem inimigos. Derrotas e morte de soldados e civis eram uma contingência de guerra que os ingleses sabiam exatamente oferecer.
E a Tal Guerra de Inverno?
Quem poderia imaginar que um país com pouca tradição militar poderia enfrentar uma nação de larga experiência nos campos de batalha? A Guerra de Inverno foi à oportunidade perfeita para o Grande Exército do Povo se dispusesse contra um inimigo relativamente fraco, onde as demais potências iriam tremer perante a força descomunal do exército do povo soviético. Mera falácia! Os soviéticos encontraram um exército finlandês aguerrido e disposto a não entregar seus territórios para o inimigo bolchevista. Stálin esperava o controle total da Finlândia até o final de 1939, teve que se contentar com um acordo de paz que cedeu 10% do território gelado finlandês e 20% da sua capacidade industrial para à União Soviética. A Finlândia manteve a soberania e conseguiu congregar nações aliadas para sua causa.
O fracasso militar soviético na Guerra de Inverno fortaleceu a ideia de Hitler que o Exército Vermelho estaria em frangalhos depois de poucas semanas da Operação Barbarossa. Novamente, seguindo o mesmo ego de invencibilidade do georgiano Stálin, Hitler se depara com seus próprios erros estratégicos.
Moral da História? Nenhum inimigo é fraco o suficiente quando estão lutando por sua própria terra.
Superioridade de Raça Não é Uma Invenção Nazista
Muito se fala sobre a Segunda Guerra Mundial e muito se estuda esse evento, contudo não para a História como Ciência, mas importante do que o evento em si, é o contexto em que esse evento se enquadra dentro de um aspecto mais amplo. Por exemplo, Hitler não inventou a superioridade das raças, esse aspecto particular do Nacional-Socialismo foi criado a partir de teorias científicas aceitas como a teoria da Eugenia defendida como ciência pelo antropólogo inglês Francis Galton em 1883, baseada na melhoria das qualidades inatas de uma determinada raça. Segundo artigo publicado na Revista História da Biblioteca Nacional:
– Na afirmação de Galton, os cérebros de uma “raça-pátria-mãe” encontrava-se, sobretudo em suas elites, e aí se deveria concentrar a atenção e os esforços para o aprimoramento. Seria estatisticamente “mais proveitoso” investir nas elites e promover “melhor estoque do que favorecer o pior”
Outro aspecto que definiu e moldou o pensamento científico sobre o tema é do francês Arthur de Gobineau (1816-1882), em seu “Essai sur l’inégalité des races humaines” (Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas) de 1853, supôs que a raça indo-europeia seria a ancestral de todas as classes dominantes da Europa e da Ásia Ocidental, sobretudo da nobreza francesa da qual ele alegava ser descendente.
A partir das observações postas, podemos afirmar que muitos dos pensamentos sobre superioridade de raça não foi novidade exclusiva dos alemães, mas o Nacional-Socialismo inovou na implementação de políticas governamentais para exterminar outras etnias.
O entendimento da Segunda Guerra Mundial vai muito além dos aspectos militares. Entender esse evento cataclísmico com profundidade nos oferece um quadro exato do cenário geopolítico do mundo contemporâneo.
Recife Precisa de Respeito!
Sou recifense. Cresci e testemunhei as mudanças de minha cidade. Presenciei o quanto ela teima, quase que naturalmente, a se manter bela, mesmo com a insistência de alguns governantes em “modernizá-la”, ignorando seus contornos acolhedores. Recife é muito maior que as expressões culturais, ricas expressões, diga-se de passagem. Ela brilha não apenas no Carnaval. Ela brilha o ano inteiro. Cidade que tem em sua história a pluralidade de nomes, de Maurícia; dos mascates; dos arrecifes, são as provais irrefutáveis das transformações de nossa cidade. Apesar do tempo, nunca deixou de lado seu belo jeito de cidade elegante e acolhedora.
De certo, muitos irão pensar e refletir sobre seus problemas; de certo que eles existem. Mas qual o grande centro que não os tem? O verdadeiro filho dessa Terra enxerga a cidade como se olhasse para a mulher amada, pois pensa que suas qualidades são o suficiente para fazê-lo esquecer de qualquer defeito. O coração sempre bate mais forte quando estamos olhando para ela.
Portanto, políticos e homens públicos, respeitem esta cidade!
O Que A Invasão da Polônia Pode Nos Ensinar?
O quadro se redesenha para a História. Impressiona como ainda não sabemos olhar para trás e verificar o que a História nos ensina. Apesar de contextos diferentes, a retórica de acontecimentos explode em nossas caras, e mesmo assim não conseguimos perceber a semelhança dos fatos e acontecimentos e as decisões erradas tomadas no passado, não servem de referência para as tomadas de decisões hoje.
Em uma época não muito distante, uma nação com poucos recursos, tanto econômicos, quanto militares, valia-se do apoio de grandes potências para existir como nação. Possuía uma região autônoma e estava na fronteira de influências de nações opositoras! Qualquer semelhança é mera consciência, será?
Em 01 de setembro de 1939, a Alemanha invade à Polônia! As potências ocidentais enviam ultimato a Hitler para desocupar o território polaco. A Alemanha argumenta que o motivo da invasão é a proteção da população de origem alemã (outra consciência?). As potências que, inicialmente, protestam, ameaçam enviar tropas e aplicar sanções econômicas a Alemanha, nada fazem. Assistem de camarote a Polônia capitular em 06 de outubro daquele mesmo ano. O país inteiro é anexado a Nova Alemanha e a região Livre da Danzig deixa de existir. Este evento marca o início de seis longos anos de morte e destruição para toda a Europa.
Certamente estamos em contextos diferentes. Não estamos comparando a Rússia com a Alemanha nazista. Estamos relacionando fatos históricos ocorridos e que levaram o mundo a beira do apocalipse. Os atores são diferentes, mas os resultados podem ser os mesmos. Temos que pensar que as consequências de um conflito mundial terá o cenário descrito por Albert Einstein:
“Eu não sei com que armas a Terceira Guerra Mundial acontecerá, mas a Quarta Guerra será lutada com paus e pedras.”
Ataque de Infantaria na Primeira Pessoa – Segunda Guerra
Um vídeo muito interessante produzindo com o objetivo de tornar a pessoa que assiste um participante da ação de um pequena grupo de combate contra uma guarnição da Wehrmacht. Muito legal!
Especial 100 Anos da Grande Guerra – A Sangrenta Batalha de Verdun!
A história do homem foi moldada a partir dos seus conflitos, infelizmente, claro. O estudo da História Militar proporciona uma perspectiva interessante do passado do homem, permitindo enxergarmos com nitidez os cenários onde política e diplomacia fracassam. Todos esses fatores são recorrentes na História da Humanidade. Até hoje o homem não aprendeu a lidar diretamente com os seus próprios anseios e demandas conflitantes entre os povos e, vez por outra, os exércitos se mobilizam para resolver no “braço” o que os líderes não conseguiram nas negociações. Não chegamos a este estágio evolutivo. O século passado deixa esses argumentos explícitos. Em termos de conflitos generalizados e de grandes proporções. Duas guerras que transformaram o mundo, politicamente e geograficamente, marcaram a História da Humanidade para sempre. A Grande Guerra e a Segunda Guerra Mundial serão sempre lembradas pelos seus resultados devastadores e incalculáveis.
Aproveitemos então uma data significativa para lembrarmos dos fracassos diplomáticos e políticos que tornaram possível o primeiro grande conflito bélico generalizado do mundo, A Grande Guerra. É necessária uma profunda reflexão sobre a motivação e as consequências de um evento apocalíptico, para que os responsáveis por fomentar as disputas entre os povos entendam que todos perdem quando o mundo é jogado para os campos de batalha. Todos!
Por isso, nos desdobraremos para expor a construção do cenário que proporcionou a Grande Guerra, suas principais batalhas e uma exposição analítica histórica de todo o evento que infligiu a humanidade de 1914 a 1918, e ceifou a vida de 19 milhões de pessoas. O Conflito abriu caminho para um novo mundo, muito longe do que se esperava, mas um mundo diferente.
A Carnificina!
Para iniciar a exposição abordaremos uma das batalhas mais questionáveis de todos os tempos da guerra, a Batalha de Verdun. Esta batalha se tornou celebre pela sua duração, de 21 de fevereiro a 18 de dezembro de 1916, e pela quantidade de baixas, estimadas contemporânea indicam em 976 mil. Isso quer dizer que em média teria ocorrido 70 mil baixas por mês na região de Verdun-sur-Meuse.
Objetivo Militar!
É necessário, para que haja uma ofensiva em uma guerra, que os objetivos militares possam ser claros, definidos e valiosos; seja valioso do ponto de vista estratégico ou até mesmo político. O planejamento de uma ofensiva militar levam em consideração os custos das possíveis perdas de homens e material em contraposição aos benefícios desses objetivos alcançados. Por exemplo, os Estados Unidos utilizaram o argumento de que uma invasão a ilha principal do Japão durante a Segunda Guerra Mundial teria uma estimava em 200 mil baixas do lado americano, por isso optaram pela utilização da Bomba Atômica sobre as cidades japonesas. Prerrogativas válidas ou não, deixa claro que todos os objetivos militares devem ser pesados e repensados, para que os resultados alcançados cubram os riscos da investida.
É exatamente neste ponto em que a Batalha ocorrida nos arredores da cidade francesa de Verdun passa a ser uma batalha com poucos argumentos que sustentem as perdas em vida e material ao longo de quase todo o ano de 1916.
O então Erich von Falkenhayn, Chefe do Exército Alemão, após fracassos nas ofensivas em setembro de 1914, com o bloqueio do progresso em território francês na Primeira Batalha de Marne, além dos fracassos e elevados números de baixas de Artois e Champagne, tomou uma decisão, realizar uma ofensiva para, em tese, destruir o Exército francês. Falkenhayn acreditava que um conflito direto com as forças francesas possibilitaria um ponto de ruptura nas linhas de defesa e, consequentemente, uma vitória política e moral sobre a Inglaterra, que lutava ferozmente na Europa Continental. Para tanto, era necessário ter a certeza de que os alemães enfrentariam apenas exércitos franceses. E a única linha possível estava sobre a região de Verdun, com fortificações pouco. Verdun, historicamente, reunia um conjunto de fortificações para deter um possível avanço inimigo no norte da França, muito embora em 1916 estas instalações estivessem obsoletas e desguarnecidas. Acreditava-se ainda que o comando francês reforçasse a região e, assim, os alemães teriam condições de aniquilar as forças inimigas.
“A situação em França atingiu um ponto de ruptura. Um ataque em massa — que em qualquer dos casos está fora do nosso alcance — é desnecessário. Ao nosso alcance está a nossa capacidade de retenção de todos os homens que o Estado-maior francês enviar contra nós. Se eles o fizerem, as forças de França vão sangrar até à morte “.
Memórias de Falkenhayn
Relato de Verdun
A guerra de trincheiras, França e Flandres, 1914-18 – Charles Messenger – Renes
O 5º Exército do Kronprinz (Príncipe Herdeiro) Wilhelm, que estava defronte ao setor de Verdun há alguns meses, foi escolhido para realizar o ataque. O príncipe já examinara o problema de Verdun há algum tempo e, com seu chefe de Estado-Maior, von Knobelsdorf, achava que qualquer operação contra a fortaleza teria que ser em frente ampla e abrangendo as duas margens do Mosa. Como escreveu ele mais tarde: “insistimos que Verdun era a pedra angular da frente ocidental e, portanto, nada menos que um ataque de frente ampla poderia prevalecer contra as forças que o inimigo por certo usaria em sua defesa”. Falkenhayn não estava interessado em capturar Verdun, isto não se encaixaria de modo algum nos seus planos para uma batalha de atrito e, além disso, ele achava que não dispunha de divisões suficientes para operar numa frente ampla. Portanto, ele insistiu que o 5º Exército deveria desfechar seu ataque somente da margem oeste do Mosa. Tendo eliminado o sul e o oeste de suas cogitações devido à inadequação do terreno, o Príncipe Herdeiro decidiu-se por um ataque pelo norte e nordeste. Para fazer isso ele tinha 12 divisões estacionadas numa frente de 13 Km, extensão muito maior que a utilizada pelos aliados em 1915, com mais três divisões na reserva. Seriam empregadas nada menos que 1.400 peças de artilharia, a começar por obuseiros de sítio. Wilhelm simplesmente planejava abrir um rombo nas defesas de Verdun, por onde seria lançada sua infantaria. Isto seria feito de acordo com o princípio dos objetivos limitados, mas, ao mesmo tempo, seus comandantes subordinados estavam ligeiramente confusos diante da ordem que mandava manter pressão constante sobre a defesa inimiga uma vez iniciado o ataque. Este plano foi aprovado por Falkenhayn a 6 de janeiro, embora o conceito de Wilhelm não se encaixasse no seu desejo secreto de uma batalha prolongada. Para este fim, assegurou-se de que as reservas, com as quais Wilhelm contava dispor no primeiro dia de luta, teriam sua chegada atrasada.
No outro lado da linha a situação não estava tão calma quanto os alemães pudessem ter imaginado. Em essência, Verdun consistia de duas linhas de fortes rodeando-a numa perfeita circunferência de 48 quilômetros. Os bombardeios ali efetuados pela artilharia de sítio alemã durante 1915, ao contrário do que acontecera em Liège no começo da guerra, causaram poucos danos. Verdun podia ser mesmo considerada uma cidade inexpugnável. Infelizmente, seus “dentes”, na forma de canhões e homens, haviam sido totalmente retirados para ajudar a ofensiva de outono de Joffre.
A defesa de Verdun, sob a responsabilidade do XXX Corpo, de Chrétien, consistia, sobretudo de soldados territoriais de segunda linha. Mais tarde, Pétain assim descreveu a situação: “Os fortes erguiam-se silenciosos, como se estivessem abandonados. Entre eles e mais além só havia ruínas: trincheiras em grande parte destruídas; alambrados cortados, com seus emaranhados inextricáveis cobrindo os bosques da Côte-de-Meuse e a lamacenta planície de Weovre; estradas e trilhas transformadas em atoleiros; equipamento espalhado; madeira apodrecendo, e, tudo que era metal, enferrujando na chuva”.
Um homem, porém, estava perturbado diante da situação. Era Émile Driant, tenente-coronel, comandante de um batalhão de caçadores e deputado, que advertiu seus colegas da Comissão do Exército da Câmara dos Deputados já a 1º de dezembro, e esta advertência chegou aos ouvidos de Joffre, que a ignorou, considerando-a uma tolice. Os que estavam em Verdun começaram a perceber os sinais característicos de preparativos para um ataque em janeiro, mas o Alto Comando francês pouca atenção lhes deu, exceto enviar mais duas divisões àquela cidade em fevereiro e colocar dois corpos, de apoio, à distância. Ele havia sido iludido por uma série de ataques diversivos alemães ao longo de toda a frente francesa entre 9 de janeiro e 21 de fevereiro, recebendo, em consequência, uma chuva de pedidos de reforços de toda parte.
Os ataques haviam sido programados anteriormente para 11 de fevereiro, mas o mau tempo obrigara o Kronprinz a adiá-lo e, ao amanhecer de 21, o bombardeio finalmente começou. Ao contrário dos Aliados, os alemães eram favoráveis a bombardeios bem curtos. Durante as cinco primeiras horas de fogo, começando pelos desvios ferroviários da própria Verdun até as trincheiras de linha de frente, tudo foi sistematicamente bombardeado. Usou-se boa proporção de granadas de gás contra as posições de artilharia francesas, a fim de impedir o contra-bombardeio. O bombardeio então parou e, quando os defensores se ergueram das ruínas a fim de se prepararem para atacar, os alemães, com seu sistema muito amplo de observação, que incluía aviões e balões, puderam notar que as posições ainda estavam defendidas. Então, prosseguiram no bombardeio por mais quatro horas, desta vez usando morteiros contra aquelas partes da linha onde se notou a presença dos franceses. Quando cessou o bombardeio, às 16 horas, em vez de desfechar um ataque em massa, os alemães sondaram, cautelosos, a frente com patrulhas de combate, mas somente à direita é que houve algum progresso digno de nota.
Dessa vez o princípio do ataque ombro a ombro teria funcionado. O bombardeio conseguira o efeito desejado. A defesa estava aturdida, sua artilharia estava desorganizada e as frágeis comunicações com a retaguarda, cortadas. Os alemães não teriam tido muitas dificuldades em penetrar as linhas de defesa e chegar até Verdun propriamente dita. Surpreso com a facilidade com que as sondas haviam penetrado as linhas francesas, o Kronprinz Wilhelm ordenou um ataque geral para o dia seguinte, com a cobertura de um bombardeio preparatório. Os franceses, apesar de tudo, conseguiram fazer contra-ataques locais (num dos quais morreu o Tenente-Coronel Driant) antes que os alemães começassem a agir; embora sem êxito, devido à sua desorganização, como resultado das manobras inimigas da véspera. Os alemães continuaram a mover-se com cautela, ainda sem acreditar que tudo aquilo pudesse ser tão fácil. Eles empregaram lança-chamas (seis companhias haviam sido confiadas a Wilhelm) com bons resultados contra pontos-fortes, até que os franceses descobriram como enfrentá-los, alvejando o sapador que transportava o volumoso equipamento, antes de chegar à distância de disparo.
O 25 de fevereiro talvez tenha sido o dia mais trágico para os franceses. Uma pequena patrulha de dez homens do 24º Regimento do Brandenburgo capturou o forte de Douaumont, a pedra angular das defesas francesas. No mesmo dia, Pétain foi nomeado comandante da defesa e logo pôs ordem ao caos. Os fortes foram rearmados; os setores, adequadamente organizados; novas linhas de trincheiras, construídas, e o sistema de abastecimento foi reorganizado. No primeiro dia da batalha, a única ferrovia que chegava a Verdun fora destruída, e os franceses ficaram apenas com uma estrada estreita para uso de suas comunicações com a retaguarda. Em contraste, os alemães tinham nada menos de 14 linhas principais a disposição, bem como um bom sistema rodoviário, embora os últimos 20 Km da frente ficassem em terreno muito acidentado e árido, o que acarretava problemas.
La Voie Sacrée (A Via Sacra), a estrada carroçável que liga Verdun a Bar-le-Duc, tornou-se a única linha vital dos franceses. Como disse Jacques Meyer, que lutou na batalha, “… este ‘transportador de baldes’ estendia-se pelos 120 Km da artéria que levava a Verdun o sangue generoso dos homens dos reforços e trazia de volta os soldados exaustos e os pobres feridos”. O homem responsável pela sua administração, Major Doumec, deu instruções precisas de que “excluiremos totalmente os comboios a cavalo ou a pé, desviando-os para rotas paralelas; finalmente, não interromperemos de maneira alguma o tráfego para fazer quaisquer reparos no leito da estrada… Nenhum comboio militar a atravessará, a menos que tenha permissão de fazer a volta nela… Qualquer veículo encontrado ali sem condições de ser rebocado será jogado nas margens fora da estrada. Ninguém tem o direito de parar o carro, a não ser que haja enguiço; nenhum caminhão pode ultrapassar o outro”. A partir de 29 de fevereiro, cerca de 3.000 caminhões transportaram 50.000 toneladas de munição e 90.000 homens para a frente todas as semanas. Foi, sem dúvida, uma obra-prima de organização administrativa e, não fora ela, os franceses teriam, na certa, perdido a batalha.
À medida que novas divisões eram lançadas à “máquina de moer carne”, a luta crescia em fúria. Em meados de março, a situação era tal que “Verdun agora era sinônimo de inferno. Não havia campos nem bosques. Apenas uma paisagem lunar. Um lameiro repleto de crateras. Trincheiras desmoronadas, entupidas, refeitas, novamente cavadas e, mais uma vez, entupidas. A neve derretera; os buracos de granadas estão cheios de água e, ali, os feridos se afogam. Um homem não mais pode arrastar-se para fora da lama”. Falkenhayn começava agora a compreender no que lançara suas tropas, mas não havia meio de retroceder. A luta prosseguia renhida e, em junho, até mesmo os nervos de Pétain já começavam a perder a resistência; então ele sugeriu a Joffre que os franceses deviam recuar. Tal qual Ypres fora para os britânicos, Verdun também se transformara em símbolo para os franceses. Os brados de “on les aura” e “ils ne passeront pas” representavam agora senhas não só para os defensores de Verdun, mas também para toda a nação. No espírito de Joffre, porém, por mais estrategicamente sensata que parecesse a retirada, ela estava fora de cogitação, além de que a ofensiva britânica do Somme estava prestes a começar. E ele tinha razão, pois a 11 de julho, em vista da pressão exercida no Somme, Falkenhayn reduziu os ataques. Pétain, agora, se contentava em parar e recuperar-se, mas o mesmo não acontecia com seus subordinados, especialmente Nivelle e Mangin. De outubro em diante, eles realizaram uma série de ataques violentos visando recuperar todo o terreno perdido anteriormente. E, aos poucos, o conseguiram de fato, mesmo com baixas cada vez mais numerosas para ambos os lados.
Mangin, soldado rude da “velha escola”, que acreditava que o ataque resolvia tudo, assim descreveu sua maneira de lutar: “Ataco a primeira linha com os 75 mm; nada pode atravessar a barragem. Depois martelamos a trincheira com os 155 mm e os 58 mm (morteiros)… Quando a trincheira está bem revirada, partimos para atacar seus ocupantes que, em geral, saem em grupos e rendem-se, e, enquanto isso ocorre, suas companhias de reserva são retidas nos próprios abrigos subterrâneos por uma rolha sólida de granadas pesadas. Nossos contingentes de infantaria são precedidos de uma barragem de 75 mm, os canhões de 155 mm ajudam a manter presas as companhias de reserva; as marés de aço juntam-se ao poilus (apelido dos infantes franceses) a uns 70 ou 80 m atrás. Os boches desistem… Está vendo? É tudo muito simples”. E era mesmo; sem qualquer finura, os franceses contentavam-se em levar aos limites a teoria do poder da artilharia, conforme propagada por Foch nos últimos meses de 1915.
A batalha final ocorreu a 18 de dezembro, com os franceses tendo recuperado quase todo o terreno anteriormente perdido para os alemães. O custo fora da ordem de 350.000 baixas para cada lado. Falkenhayn por pouco não esgotara por completo os exércitos franceses, como pretendera. Contudo, em seu plano original, ele não previra tão elevado número de baixas para seu lado, e isto lhe custou a posição. Mas deixemos que Jacques Meyer resuma a luta: “Verdun foi com mais frequência uma guerra de homens abandonados, uns poucos homens em torno de um chefe, um subalterno, um cabo, ou mesmo um simples soldado que as circunstâncias indicaram ser capaz de liderar. Às vezes era um único homem tomando toda a iniciativa. Punhados de homens obrigados a agir, a responsabilizar-se pela defesa – ou pela retirada. Houve os que se descontrolaram – alguns deles – e em geral isso ocorria nas unidades maiores, que nem sempre eram as mais aguerridas, e sim as mais atingidas pelo choque inesperado da catástrofe. Atos decisivos e corajosos eram, sobretudo, individuais, e, por isso, permaneciam ignorados”. A luta em Verdun, mais do que qualquer outra da frente ocidental, foi uma batalha de soldados e não de generais.
Fontes das fotos marcadas: ECPAD