Archive
Carro Movido a Gasogênio – Uma Saída para o racionamento da Guerra
No Rio, por conta do racionamento de gasolina, estimava-se, só naquele Estado, a paralização de cerca de 10.000 automóveis. E à meia-noite do dia 15 de julho de 1942 entrava em vigor, em todo o território nacional, uma importante portaria suspendendo drasticamente o tráfego de todos os carros particulares e da grande maioria da frota oficial do Recife. Um colunista famoso pedia que essa proibição fosse encarada esportivamente pela população, já que o importante era, custasse o que custasse, vencer o nazismo.
A Standard Oil divulgava uma série de conselhos sobre o que fazer com os carros parados na garagem, como o desligamento dos cabos da bateria, e retirada da água do radiador para evitar ferrugem etc, etc. Era solicitada, por alguns interessados, permissão para a circulação de cabriolés e nós já começávamos a vislumbrar a volta, à nossas ruas, dos cavalos e das românticas carruagens…Como grande atração, nossas ruas se enchiam de bicicletas, outras alternativas para a crise de combustível, e nos divertíamos vendo pessoas ilustres se dirigindo ao trabalho montadas em suas bicicletas…
Em São Paulo eram instalados várias usinas para construção de aparelhos de gasogênio que poderiam ser usados também em carros particulares. E, no Recife, motivo de grande curiosidade para todos nós, começavam a aparecer, numa fumaceira danada, os primeiros carros movidos a gasogênio, os de Ubaldo Gomes de Matos, Torquato de Castro, Ernesto Odenheimer, e outros poucos mais….
Eram, o racionamento da gasolina e a entrada em cena dos movidos a gasogênio, duas novas modificações importantes nos hábitos de vida do recifense, induzidas pelo conflito europeu…
Texto Extraído do Livro: Recife e Segunda Guerra Mundial – Rostand Paraíso, editora COMUNICARTE, 1995 – pg. 119
SlideShow
Crônica de um Pernambucano
Povo pernambucano de memória curta…Quando tempo mais nós temos que suportar a mediocridade histórica e a falta de reconhecimento de teus heróis? Quantos de nós pernambucanos conhecemos a História do Nosso Brasil? É verdade que importamos a cultura das grandes potências e deixamos ao relento aquelas homens que forjaram nossa sociedade; é verdade que enaltecemos heróis estrangeiros ao ponto de ridicularizarmos aqueles que derramaram sangue pelo país que chamamos de nosso. Afinal de contas, quem é Frei Joaquim do Amor Divino Rabelo em comparação ao Magnífico Stálin? Quantos brasileiros, nordestinos, pernambucanos idolatram o ditador georgiano e ignoram completamente o sangue derramado pela causa desse…Frei Caneca? Quantos mais outros ídolos teremos que importar?
Pernambuco da Revolução de 1817, Pernambuco da Confederação do Equador, Pernambuco da FEB e Pernambuco de povo guerreiro, a qual declara em seu Hino “Pernambuco Imortal”, mas a sua História é tratada como efêmera e sem graça em relação as Grandes Nações do Mundo Civilizado. Como assim? Diria Gilberto Freyre se ainda vivo! Como nossa geração poderia explicar a tantos que morreram e deram seu sangue por sua terra, na esperança que nós (as futuras gerações do passado), tivéssemos um mundo melhor?
…Povo Pernambucano!
Quantos jovens choram e entram em êxtase quando se referem a ídolos enlatados em programas chamados de “reality show”, que nem mesmo o título foi possível constituir em nossa língua-mãe, e ignoram o fato de centenas de brasileiros terem deixando sua juventude e sua vida nos campos de batalha da Itália, dentre esses brasileiros doze pernambucanos pereceram, e tantos outros ainda vivos, observam a ignorância dos seus conterrâneos. Eles lutaram por nós! Esses que hoje, sendo velhos, ainda são testemunhas da ingratidão de um povo de memória curta.
Isso me assombra…Por ser Pernambucano!
Homenagem aos Pernambucanos Mortos no Teatro de Operações do Mediterrâneo entre os anos de 1944 e 1945:
Manoel Barbosa da Silva
Severino Barbosa de Farias
Epitácio de Souza Lucena
Eutrópio Wilhelm de Freitas
Gonçalo de Paiva Gomes
Hermínio Antônio da Silva
Honório Corrêa de Oliveira Filho
José de Souza
José Graciliano Carneiro da Silva
Otávio Sinésio Aragão
Walmir Ernesto Holder
Joaquim Xavier de Lira
José Gomes de Barros
Heróis e pernambucanos que deixaram sua vida em uma terra distante, honrando seus antepassados que lutaram e também deram sua vida em holocausto para as futuras gerações. Nós!
Chico Miranda.
Campo de Concentração de Pouso Alegre – MG
Entre os campos de concentração ou presídios verificados como estabelecimentos destinados ao internamento dos “súditos do Eixo” no Brasil, encontramos uma única situação envolvendo prisioneiros militares. Trata-se do Campo Militar para Prisioneiros de Guerra de Pouso Alegre, que acomodou, entre 21 de setembro de 1943 e 15 de abril de 1944, 62 marinheiros do navio alemão Anneleise Essberger.
Esse campo gora regulamentado pelo Ministério da Guerra para meio do Aviso Reservado n 411/348, de 24 de agosto de 1943, no qual o general Mario José Pinto Guedes, respondendo pelo expediente, designou o quartel do 1º Grupo do 8º Regimento de Artilharia Montada de Pouso Alegre, no sul de Minas Gerais, como sede do campo de prisioneiros de guerra a ser instalado e regulamentado pela Convenção de Genebra.
O quartel do Exército do I/8º RAM de Pouso Alegre, atualmente denominado de 14º Grupo de Artilharia de Campanha (14º GAC), foi criado em 23 de fevereiro de 1915 pelo Decreto n. 11488 de 10 de fevereiro de 1915, como 10º Regimento de Artilharia Montada, mas foi organizado em 19 de março de 1918, sendo esta data aniversário da Unidade. A partir de 20 de julho de 1919, passou a ser chamado o 8º RAM, constituindo-se no 1º Grupo do 8º RAM somente em 1940. Após a declaração de guerra o quartel foi designado para cooperar com o esforço de guerra na proteção do litoral brasileiro.
Mesmo sendo um cargueiro da Marinha Mercante Alemã, o Anneleise Essberger contava com uma tripulação de 35 marinheiros, 14 oficiais e 13 suboficiais. Essa tripulação mista justificava-se pelo fato de o cargueiro ser um furador de bloqueio, destinado a abastecer os submarinos alemães no Atlântico de combustível, mantimentos, munições e matérias-primas. Fazia a rota Bordeaux, na França, até Kobe, no Japão, transportando cargas de borracha entre o Atlântico e o Pacífico.
Em 1942, o Anneleise Essberger rumava do Japão pelo Atlântico Sul quando foi interceptado pela 4ª Esquadra Americana, sediada em Recife, sob o comando do Almirante norte-americanos Jonas Ingran, já na linha do Equador. Desde o início de novembro, cruzadores e contratorpedeiros norte-americanos aguardavam a chegada de furadores de bloqueio do Eixo, quando, no dia 22, o Somers da esquadra americana aproximou-se de uma navio desconhecido intimidando-o a se identificar. A demora visava retardar sua captura pelos Estados Unidos possibilitando que a própria tripulação o destruísse.
Ao cair da noite, com o cargueiro afundando, seus tripulantes foram capturados e levados para Recife, entregues ao general Mascarenhas de Morais, comandante da 7ª Região Militar. Lá chegaram a bordo do cruzador norte-americano Cincinatti, sendo recebidos na Praça de Derby pelo Capitão de Infantaria José Arnaldo Cabral de Vasconcelos, comandante da Polícia Militar de Pernambuco, em cuja sede os prisioneiros ficavam internados de novembro de 1942 e julho de 1943. De Recife foram conduzidos para o Rio de Janeiro pelo navio brasileiro Poconé, aportando na capital federal em 03 de julho de 1943, e recolhidos pela Polícia Militar do Distrito Federal, comandada pelo Coronel Odylio Denys, até serem encaminhados para Pouso Alegre.
“A Guerra chegou a Pouso Alegre a 21 de setembro de 1943, desembarcando na estaçãozinha da Rede [Ferroviária Mineira de Viação Sul], por volta das sete horas da noite. Ela apareceu sob a forma de 48 prisioneiros de guerra alemães, escoltados desde o Rio de Janeiro, por soldados teuto-brasileiros do Exército” – ARARIPE, L. Prisioneiros de Guerra Alemães no Brasil: campo provisório de concentração de Pouso Alegre (MG) durante a Segunda Guerra Mundial (I), p.53.
O trajeto pela Rede Ferroviária Mineira de Viação Sul da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, até a pequena estação próxima ao quartel do Exército de Pouso Alegre levava 12 horas, com uma baldeação na cidade paulista de Cruzeiro. Além da desconfortável viagem, os prisioneiros alemães ignoravam o destino do trem devido às venezianas bloqueadas, que os impediam de ver a paisagem. Ao chegarem a Minas, em trajes civis, com uma ou outra peça remanescente do uniforme da marinha alemã, traziam pouca bagagem, com mudas de roupas e raros objetos pessoais. Marcharam da estação de trem até o quartel, escoltados por cinco sargentos, três cabos e 15 soldados do Batalhão de Guardas, sob o comando do Primeiro-Tenente Diniz Silva.
Fonte: Prisioneiros de Guerra – Os “Súditos do Eixo” nos campos de concentração brasileiros (1942-1945) – Editora Humanitas – São Paulo – 2010
7º GAC – Uma Gloriosa Unidade Militar Resplandece da Tragédia.
O 7º Grupo de Artilharia de Campanha (7º GAC) é das mais tradicionais Unidades Militares do Estado de Pernambuco e a principal de cidade de Olinda. Sua história é uma verdadeira epopéia. Criado pelo Decreto-lei Nr 4.342, de 26 maio de 1942, como 7º Grupo de Artilharia de Dorso (7º GADo), teve seu efetivo enviado do Rio de Janeiro para Pernambuco nos vapores Baependi e Itagiba, que foram torpedeado pelo U-Boot 507 em 15 e 17 de agosto de 1942, respectivamente.
Naquele histórico e dramático momento, pereceram 153 militares que iriam constituir o 7º GADo, dentre eles o Major LANDERICO DE ALBUQUERQUE LIMA, comandante da tropa em deslocamento.
Segue abaixo o relato do Capitão Lauro Reis e publicado em 1948, no livro “Seleção de Seleções”, uma coletânea de artigos publicados na revista “Seleções do Reader’s Digest”.
“Deixamos o porto de Salvador, Bahia, às sete horas da manhã, rumando para o norte. Do Rio até ali o mar tinha estado calmo. Agora se apresentava picado, espumoso, com fortes marolas, e o velho Baependi arrastava-se, moroso, balançando desagradavelmente.
O vapor ia repleto — umas trezentas e cinqüenta pessoas, incluindo a tripulação e uma unidade do Exército, cujos componentes — oficiais e soldados — iam acompanhados de suas famílias, algumas com muitas crianças.
Como esse dia — 15 de agosto — era o aniversário natalício do comissário de bordo, um excelente homem, o jantar foi festivo, a orquestra tocou animadamente e a alegria reinou a bordo até bastante tarde. Enquanto no salão se dançava, lá fora na popa, os soldados, — quase todos cariocas — montados em canhões e grandes caixas, reunidos em grupos, tocando pandeiros e batendo em latas, cantavam seus sambas à moda do morro…
Noite fechada, as luzes todas apagadas, navegávamos a umas 20 milhas da costa, quando súbito um tremendo estampido sacode violentamente o velho barco. Quebram-se as vidraças; o madeiramento range, estala, racha e, arremessados por forças invisíveis, voam estilhaços de vidro e madeira para todos os lados. Caem as primeiras vítimas, e há diversas pessoas com o rosto sangrando, devido a ferimentos provocados por fragmentos de vidro.
As máquinas param, o vapor altera o rumo abruptamente, e somos jogados pela inércia, com força, para a frente.
O primeiro instante deixa todas as pessoas imóveis de espanto, a respiração suspensa, as fisionomias pálidas e angustiadas… Não há gritos; nenhum pânico. Percebe-se em cada um o esforço mental para entender o ocorrido, para buscar uma solução, pressentindo a gravidade do terrível momento…
Estou no vestíbulo, de onde partem as escadas para o deck superior e para os camarotes de baixo. Tomado de surpresa, tenho imediata intuição do sucedido: fomos torpedeados ! Logo a seguir, ouço o apito surdo do navio, pedindo socorro… O Baependi começa a adernar.
Corro ao meu camarote ali perto, empurro a porta, que felizmente não ficou emperrada, apanho rápido o meu salva-vidas, e saio.
Há muitas pessoas no vestíbulo; umas, principalmente mulheres e crianças, paradas, como se esperassem que uma providência alheia as salvasse; outras caminhando febrilmente, na direção em que julgam poder encontrar salvamento. O navio aderna mais e mais; só podemos andar, agora, agarrados às paredes.
Alguns descem com dificuldade as escadas para os camarotes inferiores, em busca de salva-vidas, ou para se reunir às suas famílias; infelizmente, para não voltarem mais… Ficarão na companhia dos que nem sequer conseguiram sair dali.
Vejo tudo isso de relance e, ainda enfiando o cinto salva-vidas, subo a escada para o deck de cima, em busca da minha baleeira; agarrado ao corrimão, chocando-me com pessoas que descem, aturdidas, estou quase no alto, quando um segundo torpedo explode, abalando fragorosamente todo o navio. O corrimão, ao qual me agarrava, fica feito em frangalhos, e rolo na escada, de costas, aos trambolhões, até a porta do refeitório, de onde saíra. Entre o primeiro e o segundo torpedos, não decorreram mais de trinta segundos.
As luzes se apagam; esbarramos uns nos outros, desorientados, no meio de profunda escuridão. O navio aderna consideravelmente, já sendo impossível, agora, andar de pé.
O segundo torpedo foi o tiro de misericórdia. O Baependi agoniza… Percebo que o afundamento vai ser rápido. Esforço-me por sair do interior. Um cheiro sufocante e enjoativo, proveniente da explosão, invade tudo.
Tateando, com grande esforço consigo agarrar-me à escada e, de restos, segurando-me nas saliências, vou subindo devagar.
Na escuridão, apenas distingo, numa pequena claridade vinda de fora, o contorno de uma porta, ao fim da escada que tento subir. É preciso atingí-la a todo custo, porque senão eu afundarei dentro do navio. Mais um esforço e consigo chegar.
O navio, nesse momento, está quase de lado: o que era parede passou a ser chão. Atravesso aquela porta com os movimentos de quem, pela abertura do teto, passa para o forro de uma casa.
Alcanço a baleeira em frente à porta. Presa aos turcos, num emaranhado de cordas, alguns marinheiros tentam soltá-la. Não trocamos palavra. Começo a ajudá-los, procurando desvencilhar cordas, febrilmente.
Mas é inútil: o Baependi continua a afundar-se vertiginosamente ! As ondas revoltas quase nos atingem e ouço, bem perto, os gritos pungentes dos que já lutam com elas.
Compreendo, então, que devo atirar-me imediatamente ao mar, para não ser arrastado pelo turbilhão que faria a massa do navio ao submergir. Mas já é tarde demais, porque, estando ele quase horizontal, se eu der um salto, cairei, conforme o lado, sobre o casco ou sobre o convés. Ouço ainda o apito tenebroso do vapor, um apito surdo e contínuo, agonizante, de estertor.
As águas me envolvem violentamente, jogando-me de encontro a uma parede. Depois… sinto que mergulhamos, arrastados pelo navio.
Penso, conformado, na morte: deste mergulho não voltarei, certamente ! Não perco o raciocínio, nem me deixo dominar pelo desespero. Antes me conservo calmo, resignado, enfrentando o desfecho da vida. Continuo a merguIhar, a mergulhar… Quantos metros ? Nem sei ! Sinto nos ouvidos o barulho forte e característico das bolhas de ar, numa escala cromática extravagante, que vai num crescendo do grave para o agudo, à proporção que me aprofundo nas águas… A falta de ar já me tortura; começo a engolir água…
Súbito, porém, paro de mergulhar, e percebo que vou voltando. Mas sou, então, violentamente imprensado entre dois volumosos fardos, e tenho a sensação de que vou ficar esmagado. Inexplicavelmente, não sinto nenhuma dor. Por felicidade, fico de novo livre, e continuo a voltar, aos trancos, à superfície, recebendo pancadas pelo corpo, agora mais rápido — cada vez mais rápido — até que, de repente, dou um salto, saindo-me fora d’água o tronco todo, tal o empuxo.
O navio está completamente submerso. Imagino que não deve ter levado a afundar-se mais de três ou quatro minutos, tornando impossível qualquer providência de salvamento, ou a descida de qualquer das baleeiras.
O mar, violentíssimo, encapelado, está coberto de destroços e, não sei como, ainda caem paus de todos os lados, como estilhaços.
Ouço gritos terríveis, angustiosos, de socorro, e vejo homens, mulheres e crianças se afogando em torno de mim.
Nado um pouco e me agarro a uns paus que flutuam, e que as fortes ondas me arrancam logo das mãos; imediatamente me seguro noutros, mas também não consigo sustê-los, e fico nesse jogo, pulando de uma tábua para outra, durante algum tempo.
Reparo que há sobre as águas duas luzes avermelhadas, como archotes, a iluminar aquela cena macabra: são bóias de iluminação, que se acendem automaticamente, ao contato com a água.
O mar limita-me a visão, e só quando me elevo numa onda melhora o meu horizonte. Em dado momento, avisto com surpresa um projetor lançando seu feixe luminoso sobre o local do sinistro: firmo o olhar e diviso, iluminado pelas luzes que dançam na água, o perfil do submarino assassino, bem próximo de nós, contemplando os resultados da sua bárbara missão ! Em seguida, perco-o de vista…
Estou agora junto de uma grande tábua branca, com aberturas que me parecem janelas: consigo com facilidade deitar-me nela, de bruços, e me sinto mais bem acomodado. Pelo menos descanso um pouco. Mas me agarro com todas as forças, para que as ondas não me arranquem dali.
Perto de mim, alguém grita em desespero, já quase a perder o fôlego:
— Não posso mais, vou desistir…
Animo o companheiro, chamando-o para junto de mim, e isso me dá mais animo! Ele se aproxima, e com algum esforço se agarra à minha tábua: vem ofegante, exausto. Trocamos algumas palavras. É um tripulante do Baependi.
As ondas violentas e o forte vento começam agora a espalhar náufragos e destroços; os gritos dispersos de socorro chegam cada vez de mais longe. Somos também impelidos para longe do local do sinistro, arrastados naquela tábua, em rumo desconhecido.
Conjugando nossos esforços, examinamos o mar em todas as direções. Nada ! Provavelmente nenhuma baleeira pôde ser lançada ao mar. Nossa salvação é provisória, sem dúvida… E ficamos vogando ao sabor das ondas por um tempo difícil de estimar: talvez meia hora, uma hora… Ouvem-se agora menos gritos de socorro: a maioria sucumbiu, desesperada !
Mas, repentinamente, divisamos uma silhueta que não é de um destroço, passando defronte das bóias de iluminação, já bem longe. Parece-nos uma baleeira… Dentro, um vulto, de pé… Não resta dúvida, é uma baleeira ! Mas está muito distante. Para alcançá-la, teríamos que nadar contra o vento e as ondas e, cansados como estamos, isso não nos parece empresa fácil.
Começamos então a gritar, com todas as forças dos nossos pulmões. Grito, grito ! Lembro-me de gritar meu nome, e o faço diversas vezes. Lembrança talvez salvadora: ouvimos, pouco depois, uma resposta que nos pareceu “espera”… Graças a Deus, tinham-nos ouvido, e remam em nossa direção ! Foi o primeiro alento, a primeira sensação de poder sair com vida daquela pavorosa catástrofe.
A baleeira se aproxima. Abandonando a benfazeja tábua, damos umas braçadas, lançam-nos uma bóia presa a uma corda, e somos içados para bordo, onde encontro dois tenentes, dois sargentos e três soldados, da minha unidade. Abraçamo-nos, comovidos, mas poucas palavras trocamos. Pensamos na sorte dos outros camaradas, e não nos conformamos com a idéia de que somos os únicos sobreviventes.
É talvez esta a única baleeira que escapou ao desastre, arrancada dos turcos pela violência da explosão.
Recolhidos mais alguns náufragos, somos ao todo vinte e oito. Entre eles, há uma moça que, mal explodiu o torpedo, lançou-se resolutamente ao mar, nadando, agarrada a um pequeno destroço, durante mais de uma hora!
Mas em que direção ficará a costa? Não podemos orientar-nos com segurança, pois mal se vêem as estrelas, e a escuridão impede-nos de consultar a única bússola, que corria de mão em mão, inutilmente.
Mas entre os náufragos está, felizmente, o piloto do Baependi. Recobrando as forças, ele resolve com simplicidade o problema da navegação, mandando “remar na direção do vento, pois o mesmo soprava para terra”.
Somente na baleeira noto que estou ferido. O sangue jorra abundantemente do meu rosto, e, levando a mão à face direita, percebo que sofri uma fratura. Mas não sinto nenhuma dor.
A pequena embarcação joga como uma casca de noz naquele mar agitado e de vez em quando uma onda mais forte invade-a; um grande rombo da proa aumenta a nossa inquietação; é preciso baldear continuamente a água, tal a quantidade que entra.
O vento é cortante, sentimos um frio tremendo, uma sede desoladora, e o enjôo apodera-se da maioria.
Pouco depois avistamos, não muito longe, um navio iluminado. Ficamos hesitantes: valerá a pena remar na sua direção ? Alcançá-lo-emos ? Desistimos da idéia, o que foi providencial, pois cerca de uma hora depois, ouvimos o eco de uma tremenda explosão, que nos pareceu um trovão longínquo: o navio que passara por nós — o Araraquara, soubemos depois — fora também torpedeado !
Navegamos assim, impelidos pelo vento e pelos remos, durante toda a noite — que nos parece interminável. Os rapazes, incansáveis, se revezam nos remos e os outros no balde de água.
Ao clarear o dia, ainda na penumbra, temos uma explosão de contentamento: a uns dois quilômetros de nós, percebemos a faixa branca de areia de uma praia ! Mais umas remadas, a manobra para vencer a forte arrebentação, e eis-nos em terra firme. Nossos corações pulam de alegria !
A praia, desabitada, é formada por vastas dunas de areia, onde os pés se enterram, agravando nosso cansaço. Caminhamos algum tempo, seguindo uma pequena trilha, até avistarmos uma cabana onde apenas encontramos água.
Felizmente, indicam-nos uma picada que vai ter a uma povoação. Andamos até o meio-dia, ou antes, arrastamo-nos, pois há diversas pessoas feridas, e outras esgotadas. Por sorte encontramos muitos coco-da-baía, cuja água saborosa bebemos sofregamente.
Ao chegarmos à povoação, todas as portas e janelas se batem, violentamente ! “Que teria havido ?” Consultamo-nos, surpresos… Estamos tão embrutecidos, que nos custa a compreender: a nossa nudez quase total ofendeu o pudor da gente da terra ! Um parlamentar, que enviamos em trajes mais decentes, resolve a situação, e recebemos algumas roupas usadas, que nos permitem improvisar tangas.
Depois de alimentados, seguimos de canoa para Estância, no Estado de Sergipe, termo das nossas provações. Ali soubemos, mais tarde, terem chegado à praia, numa pequena balsa de madeira, mais oito náufragos do Baependi. Trinta e seis sobreviventes — eis o que restava !
Quase todos os nossos camaradas tinham sido tragados pelas ondas. E quando um médico, náufrago também, nos relatou o episódio da morte do mais jovem dos nossos companheiros de armas, não pudemos conter as lágrimas. Ao atirar-se ao mar, sem salva-vidas, certo do fim que o aguardava, o Tenente Assunção lançara em voz vibrante este grito derradeiro de patriotismo:
— “Viva o Brasil!”
__________________
O Capitão Lauro Moutinho dos Reis, oficial de artilharia do Exército Brasileiro, fazia parte de uma unidade(7º GAdo) que viajava no Baependi para o Nordeste, quando na noite de 15 de agosto de 1942, o navio do Lóide brasileiro foi atingido por dois torpedos na altura da fronteira entre Bahia e Sergipe, fato que, ao lado dos outros quatro torpedeamentos efetuado pelo U-507, suscitou a onda de revolta nacional que levou o Brasil entrar efetivamente na Segunda Guerra contra as potências do Eixo. Das 323 pessoas que estavam a bordo do Baependi, apenas se salvaram 18 passageiros e 18 tripulantes.
________________
Fonte:
A Agressão Alemã Contra o Brasil
Figurou por muitos anos a tola menção de que os navios torpedeados na costa brasileira era fruto inevitável de submarinos aliados com o objetivo de incriminar deliberadamente a Alemanha, e forçar a entrada no Brasil na Segunda Guerra Mundial. Evidentemente essa teoria nunca se sustentou, muito embora ainda haja pessoas que acreditam em tão fraco argumento.
A convite do então Ministério da Marinha, o Almirante Jorgen Horhwer esteve no Brasil e, no dia 28 de março de 1982, na Escola de Guerra Naval, pronunciou uma conferência intitulada “Operações navais da Alemanha”. O Almirante, que combateu na marinha alemã durante a Segunda Guerra Mundial, relatou de forma precisa como os submarinos de seu país torpedearam navios brasileiros. O depoimento histórico abrange todas as operações navais realizadas nesta parte do oceano atlântico, do início ao fim das hostilidades, e foi publicado na íntegra, no número 18 da revista Navegator.
Vamos verificar abaixo um resumo de algumas atividades das operações submarinas da marinha alemã na costa brasileira a partir de 1942.
Semanas antes do afundamento do Lacônia, precisamente no dia 7 de agosto de 1942, Doenitz tomou uma decisão que mudaria a História Contemporânea do Brasil: o U-507 recebeu por rádio a mensagem para usar “manobras livres” na costa brasileira. De modo que o submarino comandado pelo capitão-de-fragata Harro Schacht então com 35 anos, afundou cinco navios brasileiros de cabotagem nos litorais da Bahia e Sergipe, acarretando a morte de mais de 600 pessoas, inclusive de mulheres e crianças. Diga-se agora e a bem da verdade que a grande mortandade ocorrida nos afundamentos do Baependi, Araraquara, Anibal Benevolo foi devido ao tipo de ataque devastador desfechado pelo comandante Schacht, ou seja, sem prévio aviso e lançando dois torpedos um após outro, levou aqueles navios ao fundo em questões de minutos e isso debaixo de uma noite escura e de um mar revolto. Em outras palavras, a maioria dos tripulantes e passageiros não tiveram a oportunidade de abandonar os navios devido ao rápido afundamento. Tudo indica que as ordens dadas a Schacht era o de causar o maior número de vítimas fatais. Para se ter uma idéia da dimensão da tragédia cometida pelo U-507, somente uma baleeira do Baependi, com apenas 28 sobreviventes atingiu a costa no dia seguinte. E apenas oito náufragos, agarrados em destroços de madeira, lograram alcançar a terra dois dias após o ataque. Portanto, das 305 pessoas que estavam a bordo do famoso navio do Lloyd Brasileiro, pereceram 269. Já entre os 142 ocupantes do Araraquara, 131 morreram. Tanto pior ocorreu com o Anibal Benevolo, pois morreram todos os seus 83 passageiros e apenas quatro dos 71 tripulantes, sobreviveram. Foi uma matança sem igual, porquanto até fins de julho de 1942, a Marinha Mercante brasileira de longo curso tinha perdido onze navios com 135 vítimas fatais.
Esse massacre ocorrido em águas territoriais brasileiras, provocou grande consternação entre o povo brasileiro. A indignação foi geral. Em várias cidades houve violentas manifestações populares contra súditos do Eixo e suas propriedades. Tanto o governo autoritário do Estado Novo quanto a opinião pública que vivia manietada pelo DIP, consideraram indispensável uma reação. O Brasil seria lançado definitivamente na infernal Segunda Guerra Mundial. No Rio de Janeiro, a notícia, divulgada no dia 18, desencadeou uma série de passeatas e comícios populares, onde os cariocas exigiam retaliação. No fim da tarde, uma massa popular se dirigiu para o Palácio do Itamaraty – sede do Ministério das Relações Exteriores – clamando pelo chancelar Oswaldo Aranha, que apareceu na sacada do edifício para exclamar: “A situação criada pela Alemanha, praticando atos de beligerância, bárbaros e desumanos contra a nossa navegação pacífica e costeira, impõe uma reação à altura dos processos e métodos por eles empregados contra oficiais, soldados, mulheres, crianças e navios do Brasil. Posso assegurar aos brasileiros que me ouvem, como a todos os brasileiros, que, compelidos pela brutalidade da agressão, oporemos uma reação que há de servir de exemplo para os povos agressores e bárbaros, que violentam a civilização e a vida dos povos pacíficos.”
Mas em verdade o Brasil naquele momento estava longe de ser um país pacífico. Vide o que a FAB estava fazendo em maio de 1942, ao atacar os submarinos italianos que estavam posicionados ao longo da costa nordeste brasileira.
As memórias equivocadas de Doenitz
É bem verdade que em agosto de 1942, o Brasil já estava em beligerância não declarada com o Eixo, mas sobre o nefasto acontecimento que chocou o Brasil, Doenitz, em suas memórias veio escrever: “Finalmente, havia a possibilidade de operações ao largo da costa do Brasil. Nossas relações políticas com aquele País vinham há já algum tempo cada vez mais se deteriorando e as ordens emitidas pelo Alto Comando Naval referentes à nossa atitude para com a navegação brasileira se agravaram em correspondência(…)Depois que o Brasil rompeu relações diplomáticas, seus navios continuaram a ser tratados da mesma maneira que os de todos os outros Estados neutros, desde que fossem reconhecidos e agissem como neutros, de acordo com a Convenção Internacional. No entanto, entre fevereiro e abril de 1942, os U-boats torpedearam e afundaram sete navios brasileiros, com todo direto de fazê-lo de acordo com o estabelecido na Convenção de Praças de Guerra( Prize Ordenance), desde que os capitães dos U-boats não puderam reconhecer suas identidades de neutros. Estavam navegando sem luzes em curso de zigue-zague, alguns deles armados e alguns pintados de cinza e nenhum deles ostentava uma bandeira ou signo de sua identidade de neutro. Depois disso mais e mais navios brasileiros montaram canhões até que toda sua Marinha Mercante estava armada.(…)No fim de maio, o Ministro da Aeronáutica brasileiro anunciou que um avião brasileiro tinha atacado submarinos do Eixo e que continuaria a fazê-lo. Sem nenhuma declaração formal, achamo-nos assim num estado de guerra com o Brasil, e a 4 de julho os U-boats receberam permissão dos nossos líderes políticos de atacarem todo os navios brasileiros. Na primeira semana de julho, quando estávamos planejando as primeiras operações dilatadas de U-boats, perguntei ao Ministro do Exterior se haveria alguma objeção às planejadas operações ao largo do estuário do Rio da Prata, área de reunião para os navios-frigoríficos que eram tão importantes no suprimento de carne da Inglaterra. Sem considerar a opinião da Argentina, o Ministro do Exterior negou permissão para qualquer operação ao largo das costas daquele País, mas não fez objeção à continuação de nossas atividades ao largo do Brasil, que haviam sido permitidas em maio e que estavam em progresso desde então. Decidi portanto mandar, em associação com as operações planejadas contra o tráfego de navios Norte-Sul ao largo de Freetow, mais um barco para a costa brasileira. Do outro lado do estreito entre a África e a América do Sul, o U-507(Tenente-Comandante Schacht) estava operando. Ali fora das águas territoriais, ele afundou cinco navios brasileiros. Nisto ele agia de acordo com as instruções expedidas, com a cooperação do Ministro do Exterior, pelo Quartel-General das Forças Armadas. O Governo brasileiro tomou o afundamento destes navios como ocasião para declarar guerra à Alemanha. Embora isto não tivesse em nada alterado nossas relações existentes como o Brasil, que já havia tomado parte em atos hostis contra nós, foi sem dúvida um erro levar o Brasil a uma declaração oficial; politicamente deveríamos ter sido melhor aconselhados para evitar tal fato. O U-boat Command, porém, e o capitão do U-boat envolvido, como membros das Forças Armadas, não tinham senão que obedecer as ordens que lhe haviam sido dadas; não competia a eles pesar e calcular as conseqüências políticas…”
CONTUDO…Primeiro é preciso que se diga que certas informações fornecidas acima por Doenitz não correspondem com a verdade. Os três primeiros navios comprovadamente afundados pelos nazi-fascistas(Buarque, Olinda e Cabedelo, 14, 16 e 25 de fevereiro de 1942, respectivamente), navegavam com as luzes de bordo e de navegação acesas, assim como estavam iluminadas as bandeiras do costado e da popa, bem como a chaminé que identificava a nacionalidade e a companhia proprietária. Foi depois dessas iniciativas da parte da ressentida Alemanha contra os interesses brasileiros, que o governo do Estado Novo junto com autoridades navais norte-americanas, tomaram medidas para tentar evitar que os barcos fossem afundados tão facilmente. Assim, o terceiro a ser atacado, o Arabutan, estava pintado de cinza, navegava às escuras e sem bandeira. E foi após a perda do Cairu ao largo da costa leste dos EUA, o qual veio gerar a morte de 53 pessoas, que os navios mercantes brasileiros começaram a ser dotados de um sistema de defesa, dispondo tão-somente de uma peça de artilharia( O Parnaíba, o quinto navio torpedeado em 1-5-42, trazia na popa um canhão de 120mm) Entrava-se numa dialética de ação e reação de atos de beligerância. O Comando da Marinha alemã solicitou a Hitler que fossem levantadas as restrições para o ataquue a navios brasileiros(vistoria e ordem de abandono), no que foi atendido. Daí por diante, os navios brasileiros seriam considerados beligerantes e torpedeados sem aviso. Mas bem antes disso, o governo de Getúlio Vargas havia protestado perante a Alemanha através do embaixador português em Berlim, que transmite em 27 de fevereiro o seguinte: “devem cessar os atos da Marinha de Guerra alemã contra os navios mercantes sem defesa, e que pertencem a um país que não está em guerra.” Mas a Alemanha hitlerista não levou em conta esses protestos.
O Lobo Cinzento U-199 e o Tenente Torres
___________________
No final de 1942, a Alemanha começou a lançar novos submersíveis para a sua frota oceânica. O tipo IXD2 tinha como principal missão bloquear, ainda mais, o fluxo de matérias primas necessário ao esforço de guerra de seus inimigos. Os submarinos do tipo IXD2 (very long-range) da 12º flotilha – Bordeaux – começaram a operar em novembro de 1942. Considerados, na época, como de última geração, eram capazes de executar patrulhas de ataque em regiões afastadas do Atlântico Sul. Em suas longas jornadas, eram abastecidos em alto mar por unidades submarinas de apoio, chamadas “vacas leiteiras”, estendendo assim, ainda mais, sua grande autonomia de 44.000 Km. Deslocava 1.600 ton. Sua velocidade na superfície atingia 20,8 nós e submerso chegava a 6.9 nós. Como armamento de convés tinha um canhão naval de 105mm, dois canhões antiaéreos – de 37 e 20 mm – e duas metralhadoras pesadas. Podia operar com 24 torpedos e 44 minas. Sua tripulação era de 61 homens. O U-199 era comandado pelo Kapitänleutnant (capitão-tenente) Hans-Werner Kraus, de 28 anos.
O“Lobo Cinzento” U-199 (o submarino era pintado no estilo camuflado nas cores cinza-claro, marrom e azul cobalto, e tinha na sua torre o desenho de uma embarcação viking), partiu de Kiel em 13 de maio de 1943, chegando à sua área de patrulhamento, ao sul do Rio de Janeiro, em 18 de junho. Durante a investida na costa brasileira, o U-199 fez as seguintes vítimas:
– 27 de junho: disparou três torpedos contra o cargueiro artilhado norte-americano Charles Willson Peale, da Classe Liberty, a 50 milhas ao sul do Rio de Janeiro, errando dois torpedos e danificando o navio com o terceiro. A embarcação respondeu com seu armamento, provocando a fuga do submarino. O navio conseguiu chegar ao porto do Rio de Janeiro.
– 03 de julho: foi atacado, sem danos, por um avião A-28A Hudson, operando da Base Aérea de Santa Cruz,
– 03 de julho: durante a noite foi atacado e abateu um hidroavião PBM 3 martin mariner do VP-74, esquadrão americano parcialmente baseado no Galeão, comandado pelo Tenente Harold Carey. Toda a tripulação pereceu.
– 22 de julho: atacou e afundou a tiros de canhão o pequeno barco de pesca brasileiro Shangri-lá, matando seus 10 tripulantes.
– 24 de julho: atacou e afundou o cargueiro inglês Henzada, de 4.000 ton.
O Afundamento do U-199
31 de julho de 1943, pela manhã. O U-199, navegando na superfície, avistou um avião ainda distante e o comandante Kraus, na torre, comandou força total à frente e mudança de rota. A tripulação teria entendido mal a ordem e iniciou uma frustrada submersão, que retardou a fuga do submarino. A antiaérea foi acionada. O avião americano, um PBM 3 martin mariner comandado pelo Tenente Walter F. Smith, lançou seis bombas de profundidade MK47 que danificaram o submarino impedindo-o de submergir. Dado o alerta pelo rádio, foi acionada a Força Aérea Brasileira através de um avião Hudson A-28A pilotado pelo Aspirante da Reserva Sérgio Cândido Schnoor, que lançou duas bombas MK17 que explodiram próximas ao alvo, sem, entretanto, provocarem maiores danos. Numa segunda passada, a nossa aeronave metralhou o convés do submarino, atingindo alguns artilheiros das peças antiaéreas. Finalmente, também alertado pelo rádio, surgiu um hidroavião “Catalina” PBY-5 da FAB, pilotado pelo Aspirante Torres que, especialista naquele avião, pode demonstrar toda a sua perícia. Na primeira passagem, com todas as suas metralhadoras .50 disparando, lançou três bombas MK44 . Ele próprio, em seu livro “Overnight Tapachula” (1985, Ed. Revista de Aeronáutica) descreve o ataque:
“Já a uns 300 metros de altitude e a menos de um quilômetro do submarino podíamos ver nitidamente as suas peças de artilharia e o traçado poligônico de sua camuflagem que variava do cinza claro ao azul cobalto. Quando acentuamos um pouco o mergulho para o início efetivo do ataque, o U-199 guinou fortemente para boreste completando uma curva de 90 graus e se alinhou exatamente com o eixo da nossa trajetória, com a proa voltada para nós. Percebi uma única chama alaranjada da peça do convés de vante, e, por isso, efetuei alguma ação evasiva até atingir uns cem metros de altitude, quando o avião foi estabilizado para permitir o perfeito lançamento das bombas. Com todas as metralhadoras atirando nos últimos duzentos metros, frente a frente com o objetivo, soltamos a fieira de cargas de profundidade pouco à proa do submarino. Elas detonaram no momento exato em que o U-199 passava sobre as três, uma na proa, uma a meia-nau e outra na popa. A proa do submersível foi lançada fora d’água e, ali mesmo ele parou, dentro dos três círculos de espuma branca deixadas pelas explosões. A descrição completa sobre a forma por que as cargas de profundidade atingiram o submarino me foi fornecida em conversa que tive com o piloto do PBM, tenente Smith, que a tudo assistiu, de camarote, e que inclusive me presenteou com uma fotografia do U-199. Em seguida, nós abaixáramos para pouco menos de 50 metros e, colados n’água para menor risco da eventual reação da antiaérea, iniciamos a curva de retorno para a última carga que foi lançada perto da popa do submarino que já então afundava lentamente, parado. Nesta passagem já começavam a saltar de bordo alguns tripulantes. Ao completarmos esta segunda passagem é que vimos o PBM americano mergulhando em direção ao objetivo. Depois saberíamos de onde viera. Transmitimos com emoção o tradicional SSSS – SIGHTED SUB SANK SAME – em inglês, usado pelos Aliados para dizer: submarino avistado e afundado – e ficamos aguardando ordens, sobre o local. Em poucos segundos o submarino afundou, permanecendo alguns dos seus tripulantes nadando no mar agitado. Atiramos um barco inflável e o PBM lançou dois. Assistimos aos sobreviventes embarcarem nos três botes de borracha, presos entre si, em comboio. Eram doze. Saberíamos depois que eram o comandante, três oficiais e oito marinheiros”.
Era o fim do “lobo cinzento”, primeiro submarino do tipo IXD2 a ser afundado na II GM. Sobreviveram 12 tripulantes, resgatados pelo navio-tender americano USS Barnegat, (o mesmo que socorreu os náufragos do U-513, recentemente localizado no litoral de Santa Catarina), tendo sido encaminhados a uma unidade prisional em Recife e posteriormente enviados aos Estados Unidos. Alguns destes relatos foram obtidos do interrogatório dos tripulantes por autoridades americanas. O comandante Kraus negou o ataque do dia 3 de julho ao PBM3 martin mariner, afirmando que a aeronave explodiu antes de ser atingida pela antiaérea, o que parece improvável.
O Tenente R/2 Torres foi o único piloto brasileiro que, comprovadamente, afundou um submarino alemão. Pelo feito, recebeu do governo americano a DFC – Distinguished Flying Cross (Cruz de Bravura).
O Tenente Torres, pilotando o P-47 Thunderbolt A-4, integrou a esquadrilha vermelha e realizou 99 missões de guerra ofensivas (a primeira em 6 de novembro de 1944 e a última em 1º de maio de 1945) e uma defensiva – cobertura de um jogo amistoso de futebol entre combatentes da FEB e do VIII Exército inglês, realizado em Florença – completando um total de 100 missões, tendo sido o recordista brasileiro em missões de combate. Em uma delas, foi condecorado com outra DFC – Distinguished Flying Cross. Recebeu ainda dos EUA, a Air Medal com cinco estrelas, valendo cada estrela como mais uma medalha. Da França, recebeu a La Croix de Guerre Avec Palme e finalmente no Brasil foi agraciado com a Cruz de Aviação Fita A, Cruz de Aviação Fita B, Campanha da Itália, Campanha do Atlântico Sul e a Ordem do Mérito Aeronáutico. O Tenente-Aviador R/2 Alberto Martins Torres foi o grande patrulheiro e caçador da FAB na II guerra mundial.
Após retornar da Itália pilotando um P-47 Thunderbolt, Torres foi licenciado do serviço ativo e promovido ao posto de Capitão.
Memórias de um Soldado da FEB – Parte I
Apresentaremos a partir de hoje, uma série especial contendo o relato do 3º Sargento Virgílio Daniel de Almeida que combateu pelo Regimento Sampaio durante a campanha na Itália. Nordestino valente, Sgt. Virgílio fez um relato abrangente que compreende desde o patrulhamento da costa paraibana, passando pelo seu voluntariado para compor a Força Expedicionária Brasileira até a atuação individual dos combatentes da FEB.
É com satisfação que publicamos um material tão rico em detalhes e temos a convicção de que estamos contribuindo para que as histórias aqui narradas possam ser utilizadas como reflexão pelos milhares de brasileiros que não conhecem a história da participação brasileira na Segunda Guerra Mundial e, portanto, não valorizam o sacrifício de jovens brasileiros em um período tão importante para o mundo.
Iremos realizar a publicação em cinco Partes, sendo uma por dia.
Todos os comentários enviados nos POSTS serão entregues ao próprio Major R-1 Virgílio Daniel de Almeida. Portanto fiquem à vontade!!
PRIMEIRA PARTE – O VOLUNTARIADO
Desde a declaração de guerra contra o eixo, as forças armadas aumentaram seus efetivos. Os regimentos de infantaria passaram a contar com efetivos de guerra. No nordeste foi criado o Campo de Instrução Engenho Aldeia (atualmente Centro de Instrução Marechal Newton Cavalcanti), todos os quartéis ficaram vazios, já que o efetivo da 7ª Região Militar foram acampar por tempo indeterminado em Aldeia, com exceção de duas companhias de fuzileiros por regimento, as quais, ficaram guarnecendo as praias contra eventual desembarque de tropas ou náufragos.
No 15º Regimento de Infantaria ficaram a 4ª e 5ª Companhias, fazíamos parte da 4ª Companhia, a qual coube manter a vigilância das praias do litoral sul da Paraíba, sua sede foi transferida, a princípio, do quartel para a praia de Tambaú, na época como 3º Sargento de Infantaria , comandava um grupo de combate. Recebi a missão com meu grupo, de manter a vigilância da praia de Jacumã, meu regimento naquela época era hipomóvel, contudo fomos deslocados por viaturas motorizadas de um grupo de artilharia, sediado em João Pessoa. Em nosso deslocamento para Jacumã, o subtenente da companhia nos acompanhou, conduzindo os gêneros para nossa alimentação nos próximos 15 dias, e estava ainda, autorizado a requisitar uma casas a beira mar para alojar o grupo e conseguir crédito na pequena padaria local para compra dos pães, a casa requisitada tinha fogão, mas faltava os utensílios de cozinha e lenha. Para a função de cozinheiro resolvemos com a seguinte pergunta: quem deseja ser dispensado da guarda noturna da praia e assumir a função de cozinheiro? Não difícil, apareceu logo candidato. Com criatividade resolvemos o impasse dos utensílios de cozinha e a lenha, a água para uso diária, era recolhida de uma cacimba, que ficava a uns dois quilômetros de distância da casa. O nosso banho, era uma pequena lagoa, formada por um córrego que saia de uma mata e desaguava na praia. Contudo algo lamentável aconteceu, contraí malária! Quando decorreu 15 dias que estávamos na praia, o capitão Ari, comandante da companhia, veio nos inspecionar. Me encontrou deitando em uma rede, com febre, tremores, frio e dor de cabeça. Ele então mandou o cabo assumir o comando do grupo e levou-me para a sede da companhia e, depois, para a enfermaria do regimento. Fui medicado com comprimidos de quinino, o medicamente não surtiu o efeito desejado e agravou ainda mais meu estado de saúde. O capitão Ari, então, me levou para o Serviço Geográfico do Exército, sediado em João Pessoa, e naquela organização o médico administrou ateblina. Foi quando me recuperei da malária e permaneci na sede da companhia.
Da praia de Tambaú, a companhia se deslocou para a cidade de Goiana em Pernambuco, onde fui designado para manter a vigilância da praia de Pitimbú, distante pouco mais de 40km daquela cidade. Em Pintimbú as missões eram as mesmas de Jacumã, a única novidade era um estação de rádio, chefiada por um sargento rádio telegrafista, que em caso de necessidade, eu me comunicaria com o comando da companhia em Goiana.
Em 1943 começaram os preparativos para a organização da FEB, sendo escolhido para o comando da Divisão de Infantaria Expedicionária 1ª DIE, o General de Divisão João Batista Mascarenhas de Morais, para comandar a Infantaria Divisionária, o General Euclides Zenóbio da Costa, para Artilharia Divisionária o General Osvaldo Cordeiro de Farias.
Em junho de 1944, o Ministério da Guerra determinou às Regiões Militares que organizassem contingentes para seguir destino ao primeiro escalão da FEB no Rio de Janeiro. A prioridade adotada foi o voluntariado e caso não atingisse o número exigido, as faltas seriam preenchidas por militares escalados, então me apresentei como voluntário, como explicado abaixo:
Estava com a companhia em instrução, quando recebemos a ordem para suspender os exercícios e regressar ao quartel. Lá mandaram os oficiais e praças antigas para o alojamento, onde ficaram aguardando a ordem para falar com o comandante da companhia. Quando chegou minha vez, o comandante olhou para mim e disse – sargento Virgílio recebi ordens para selecionar voluntários para a Força Expedicionária Brasileira, vou olhe fazer uma pergunta, você responde sim ou não: você deseja se inscrever como voluntário para a FEB? Respondi – sim. Após a minha resposta, ele me mandou que saísse e não mais voltasse ao alojamento. No dia seguinte, na leitura do boletim da Unidade, foi publicado a minha inclusão como voluntário no contingente destinado a FEB, ficando adido para atender os vários procedimentos, tais como inspeção de saúde, receber proventos, aguardar ordem de embarque e outros. A 20 de junho fui excluído do estado efetivo da Unidade e embarquei para Recife, ficando adido ao 7º Grupo de Artilharia de Dorso, em Olinda-PE, aguardando envio para seguir destino para o Rio de Janeiro.
CONTINUA…
Recife e a Segunda Guerra Mundial
Em 1939 Recife sediava o III Congresso Eucarístico Nacional, que seria inaugurado no local o Parque 13 de maio. Neste local foram levantadas apressadamente arquibancadas e todo local foi preparado para o evento. Peregrinos de todo o país e do mundo chegavam para um dos maiores eventos religiosos da Igreja Católica do mundo.
Os rumores de guerra já batiam às portas da cidade e isso ficou mais evidente quando a embarcação britânica Amanzora, que trouxe à cidade os participantes do congresso, foi chamada as pressas para retornar à Inglaterra. E de fato, durante a própria abertura do congresso os alto-falantes comunicavam aos pernambucanos e a todos os peregrinos, a invasão da Polônia pela Alemanha. Recife ainda não sabia, mas ela seria uma das cidades mais impactadas com o alvorecer dessa nova ordem mundial.
Ainda em 1941, os EUA iniciou a política de envio de observadores navais para vários portos brasileiros. O primeiro a chegar foi o capitão aposentado da USNavy WA Hodgman. Ele chegou ao Recife em 26 de fevereiro, sob as ordens do Escritório de Inteligência Naval. O observador foi instalado inicialmente em um escritório no consulado americano e posteriormente no terceiro andar do prédio do Banco de Londres, na Rua do Bom Jesus, próximo ao Porto do Recife, com isso ele poderia acompanhar as atividades portuárias.
Recife era a terceira cidade do Brasil, com uma população estimada à época de 400 mil pessoas. O porto, apesar do quebra-mar, era pequeno e estreito e necessitava de atracadores e rebocadores para atracar e desatracar. Armazéns estavam disponíveis com todo o tipo de loja. Instalações de abastecimento eram excelentes.
Com a declaração de guerra contra as potências do Eixo, e a cessão de bases no litoral brasileiro combinada com as operações de defesa do atlântico sul, Recife passa a ser uma cidade estratégica para as pretensões americanas, e com o apoio do então interventor do Estado Agamenon Magalhães, Recife terá a Sede da Quarta Frota Naval e será a base das operações marítimas com raio de atuação do Canal do Panamá até o extremo sul das Américas, além de um campo de pouso construído pelos americanos e chamado de Ibura Field, que atualmente é o Aeroporto Internacional dos Guararapes. O governo do Estado fez enormes esforços para disponibilizar toda a infraestrutura para a acomodação da Quarta Frota. Foi disponibilizado um prédio inteiro para o Quartel-General além de outros prédios auxiliares no centro do Recife e alguns quilômetros de distância do Porto. Além disso, em conjunto com os Estado Unidos, foram construídos Hospitais de Campanha para serem utilizados como apoio de feridos no front africano, centros de treinamento de tropas, estruturação de defesas antiaéreas em toda a costa, alocação de unidades militares para atender a possível defesa em caso de invasão, também foi criado um centro de comunicação Aliada que tinha como principal objetivo estabelecer uma comunicação direta com a África, chamada Rádio Pina, que foi mantida em atividade pela Marinha Brasileira até 1992.
Contudo as mudanças não foram meramente militares, houve um impacto profundo na sociedade pernambucana e, em especial em Recife. Primeiramente o impacto foi econômico, já que no auge de suas atividades a Quarta Frota mantinha cerca de 4000 homens no Estado, todos recebendo integralmente seus soldos e gastando, principalmente com os atrativos da vida nos trópicos. Passou a circular no mercado local dólares americanos, e isso impulsionou consideravelmente a comércio local e as atividades de apoio.
Outros aspectos interferiram na vida do recifense, que teve que passar por um racionamento de combustível e apresentou inflação de bens e serviços locais.
Segue abaixo alguns exemplos:
- Atualmente o edifício que serviu de base para a Quarta Frota ainda está em funcionamento e é utilizado por alguns órgãos do governo do Estado, mas observa-se até os dias de hoje um grupo organizado de engraxates nas calçadas da av. Guararapes, e a origem do ofício nesse local remota na implantação do Quartel General da Quarta Frota, já que havia uma concentração de militares transitando nessa região com seus sapatos e coturnos, ou seja, uma demanda em potencial. Vários engraxates tinham ali sua fonte de renda. Passados décadas o local ainda é o melhor lugar da cidade para se lustrar os sapatos.
- O Restaurante Leite é considerado o mais antigo do Recife e um dos mais requintados também. Já na década de 40 recebeu vários marinheiros e militares que, com seu soldo faziam a alegria dos garçons, já que as gorjetas eram em dólares.
- O governo de Agamenon Magalhães cedeu outro edifício para a implantação do Grêmio Recreativo, onde aconteciam bailes dançantes, contudo esses bailes eram privados para os americanos e mulheres pernambucanas tinha acesso livre. Como não poderia, isso causava revolta entre os homens pernambucanos. Não foram os poucos os casos de brigas entre militares e os naturais da cidade.
- Durante a guerra, o Porto do Recife foi um dos mais movimentados do país, e não por acaso, o bairro do Recife (uma ilha portuária), tinha uma vida noturna agitada, oferecendo aos marinheiros todos os atrativos festivos das mulheres da noite. Com o fim da guerra a região entrou em declínio e passou por um período de abandono, sendo considerado por muitas décadas o baixo meretrício, o local era evitado pela maioria das pessoas. Há alguns anos, houve um esforço para recuperação do bairro do Recife e, atualmente, o bairro abriga um polo tecnológico e é uma das principais atrações turísticas do Estado.
- Com o receio de bombardeios a cidade, foi instituída pelo governo um apagão em toda a região metropolitana do Recife; viaturas do exército realizavam rondas noturnas pela cidade para identificar moradores que desrespeitavam o apagão. Várias baterias antiaéreas foram estrategicamente posicionadas por toda a cidade na eminência de um ataque aéreo.
- Helena Roosevelt, no período em que o presidente americano visitou Natal, participou em Recife da inauguração do Cassino Americano que permaneceu em funcionamento até a década de 90 do século passado.
- O Encouraçado São Paulo ficou permanentemente estacionado no litoral pernambucano a fim de realizar a proteção marítima do Estado.
- O 200º Hospital Estação foi construído e depois transformado no Hospital da Aeronáutica
- O Ibura Field recebeu vários bombardeios B-52, B-29 e outras aeronaves de passagem para a Europa e a Itália, suas pistas ocupavam uma área maior do que atualmente ocupa o Aeroporto Internacional dos Guararapes, uma dessas pistas é atualmente a Rua Barão de Souza Leão, uma das principais vias de acesso entre Boa Viagem e o atual aeroporto.
O estilo de vida americano foi se enraizando na vida do povo do Recife, que passou a adotar o “OK” e a usar camisetas de manga curta no lugar dos ternos que eram tão tradicionais até os anos 30.
Observando tudo isso, o que mais impressiona é que apesar das evidências o povo de Pernambuco sabe muito pouco sobre esse choque de cultura causado por uma guerra que, aparentemente, parecia tão distante, e que proporcionou um intercâmbio que deixou marcas visíveis até hoje.
Algumas informações retiradas do Site: http://sixtant.net
Ataque e Afundamento na Costa Brasileira do U-Boot – U-848
Fotografias tiradas durante os ataques pelo Tenente Charles A. Baldwin, USNR, 107-B-12
Primeiro ataque – 6 Mk-47 da DB 60 FT espaçadas a 25 pés, 215 nós, ângulo do alvo 270 0 – explosões atingiram a torre de comando, os dois primeiros na entrada e quatro a estibordo, o terceiro foi um fracasso – nenhum fogo antiaéreo.
NARRATIVA PILOTOS
Decolou em patrulha da Ilha da Ascensão das 0623. Depois de estar fora cinco horas e resolvemos retornar, decidi pela transferência de combustível dos tanques das asas da popa. Isto requer que o rádio e o radar fossem desligados. Em 1110 durante a transferência de combustível e passando por uma pequena frente, eu estava voando a 3.500 pés no curso 068 0 T, a posição S 10-09 e 18-00 W, quando o relógio de arco relatou a presença de um navio através de uma abertura nas nuvens, momento em que o co-piloto me avisou que o mesmo objeto estava a cerca de cinco quilômetros, dois pontos fora da curva da porta. Eu disse, “Heck acredito que seja um submarino nazista”, colocando a tripulação a suas estações de batalha. O rádio estava ligado e por esse tempo nós estávamos entrando nas claras, ainda a 3000 pés. Avistei o submarino a minha bombordo, a distância de uma milha e meia. O submarino estava em curso 090 0 T, a velocidade de 15 kts ou maior. Fazendo uma curva de mergulho para a porta e vindo a bombordo, velocidade do ar 250 MPH altitude, 75 pés, eu deixei cair seis bombas, uma a frente para atingir a torre de comando. Puxado para cima e em um banco de porta íngreme. O submarino foi virando-se para o seu estibordo e eu fiquei incapaz de direcionar o avião a tempo quando ele passou a cerca de 60 pés. Voltou à minha frente quando iniciei a terceira tentativa de confrontamento. Em um ângulo alvo de cerca de 60 graus, altitude 25 pés, eu larguei as três bombas restantes que explodiram bem próximo. Em seguida, puxando para fora e para longe, olhei para trás e viu submarino ainda em seu curso perdendo uma grande quantidade de óleo. Eu também observei três sinais de fumaça que eu acredito que foram os tiros disparados durante os ataques. Não havia pessoal do lado superior do submarino, mas acredito que havia focos de incêndio pelo excelente tiro dos meus artilheiros e do elemento surpresa. Depois de afastar mais, fizemos contato com 107-B-4 por rádio e disse-lhes do ataque, então começou a enviar MO, de forma que ele pudesse contatar a base. Nesse meio tempo o submarino ainda estava perdendo óleo e parecia está na direção errática em direção ao sul a cerca de 4 ou 5 nós.
Em 1245 B-4 chegou e eu fiz mais um sobrevoo ao seu lado do submarino. O B-4 lançou bombas em curta distância.Depois do ataque do B-4, o U-boat continuou em um curso errático progredindo em direção ao sul e voltou para a posição onde eu originalmente o ataquei em 1330. Neste momento a U-boot foi capaz em manter-se em uma linha de cruzeiro reta para o oeste.
107-B-8 homing chegou a 1340 Z e fez mais um ataque de popa ao U-Boot. Começou a sair fumaça que alcançava 1000 metros, creio que tenha sido do moto2.
Em 1515 o U-boat parado ainda perdia óleo e, posteriormente, navegava a 10 a 12 nós por um curtos períodos de tempo.
O ÚNICO SOBREVIVENTE
Hans Schade foi resgatada pelo USS Marblehead em 03 de dezembro de 1943 – 28 dias após o U-848 ter sido afundando. Ele foi encontrado em uma balsa salva-vidas jogada pelo Avião PBY-USArmy, imediatamente após o naufrágio. Seu estado era muito crítico. Ele foi resgatado e desembarcado em Recife, em 04 de dezembro sendo imediatamente levado para o Hospital da Marinha. Mas morreu no dia seguinte e foi enterrado com honras militares em 06 de dezembro de 1943 no Cemitério de Recife – Santo Amaro –
Guarda de Honra saúda como o corneteiro tocando silêncio
Descrição do Ataque realizado pelos Pilotos
Fonte: http://www.uboatarchive.net/
Recife – Um Olhar Provinciano do Século XIX
Recife sempre foi uma cidade que se destacou no cenário brasileiro, seja pela sua cultura, seja pela sua economia. Por diversas épocas sempre estivemos na vanguarda das revoluções, das agitações políticas, dos avanços e também dos atrasos do nosso país. E apesar das intepéries da história, sempre tivemos um ar de cidade provinciana que mantivemos até o século passado, e que, infelizmente, os nossos governantes lutaram para caracterizar a cidade com o manto utópico da modernidade, e hoje, só podemos contemplar a vida das gerações passadas. Então, com esse objetivo, vamos mostrar abaixo fotos da cidade do Recife na segunda metade do século XIX, e refletirmos sobre as transformações de nossas cidades, já que Recife é apenas um exemplo, entre outras cidades brasileiras, da corrida por uma modernidade travestida de miséria e de desorganização social.
- Antigo Farol do Recife
Farol da Barra do Recife, inaugurado a primeiro de fevereiro de 1822, demolido com as obras de prolongamento do porto.
Casario do bairro do Recife visto da torre Malakoff. Vemos as ruas da Guia e do Observatório, que desemboca no cais do Apolo. Em primeiro plano o largo dos Voluntários da Pátria, atual praça Artur Oscar. Ao longe a ponte Provisória onde hoje está a ponte Buarque de Macedo que leva ao campo das Princesas, atual praça da República, e mais além, o cais da rua da Aurora e a Assembléia.
Recife, segundo um olhar no passado!
Sempre me perguntam pelas minhas fontes, sejam relatos, sejam fotos, sempre recebo emails de visitantes do blog que gostariam de saber minhas fontes. Pois bem, recebo fotos de várias pessoas e de pesquisadores, contudo hoje vou agradecer uma dessas fontes: Laudeci Maria de Oliveira que em São Paulo, encontrou as fotos postadas abaixo do seu falecido sogro, e que, revelam o olhar do centro do Recife segundo um acervo pessoal, sem a preocupação com estética fotográfica ou o embelezamento dos recursos de photoshop tão famosos atualmente. Elas representam simplesmente um olhar no passado!
Nesta fotografia em primeiro plano encontramos a Assembléia Legislativa e, logo mais a diante, o Ginásio Pernambucano, sempre uma referência em educação. Observação importante: a margem do Rio Capibaribe foi aterrada e o rio perdeu mais espaço, atualmente o chamado Cais da Aurora (a rua da foto), cresceu bastante e a construção de outros prédios, tornam as duas edificações mostradas, a única referência inalterada entre esta fotografia e a imagem atual.
Nesta imagem, tirada a partir da atual Pracinha do Diário, do lado direito a futura Av. Guararapes, observem, ao fundo, ainda não existe o famoso prédio dos correios. Em primeiro plano o edifício Sulacap, que durante as décadas e 50 e 60, foi considerado e prédio mais luxuoso do Recife. A Av. Dantas Barreto ainda não existia, e a transformação dessa área se deu a partir de 1973 quando o então Prefeito, Augusto Lucena, realiza a chamada reurbanização do centro da cidade, abrindo a Dantas Barreto, mas sob a custo da destruição de centenas de casas, dezenas de ruas e a destruição da Igreja do Corpo Santo, do século XVII. Hoje a Av. Dantas Barreto é largamente utilizada pelo comércio ambulante e pelo comelódromo.
A Ponte Maurício de Nassau, foi a primeira e maior ponte da America do Sul, construída pelo Conde holandês Maurício de Nassau, quando Pernambuco era um província de uma nação européia. Essa ponte atualmente é um das principais vias de tráfego do Recife, e na imagem a tranquilidade ficou no passado.
Teatro Santa Isabel. O Teatro possui uma das melhores acústicas do Brasil e foi construído no século XIX.
Palácio do Campo das Princesas – Sede do Governo de Pernambuco.
Antiga Estação Rodoviária – Atualmente o edifício é utilizado pela EMTU e por um Batalhão de Polícia Militar, a então estação foi desastivada na década de 80 com a construção do Terminal Integrado de Passageiros (TIP).
Rua do Sol (“Rua do Sól”) é uma das principais ruas do centro do Recife (meu caminho para o trabalho), para quem ver essa rua nos dias e nos horários de pico, sabe que essa foto é de um surrealismo que beira o absurdo!
Obrigado.
Uma Dica de Site Completo
Aos seguidores do Blog, uma dica para pesquisa sobre a partipação brasileira na Segunda Grande Guerra, um site completo com informações raras e de detalhes impressionantes:
www.sixtant.net
O Site é de propriedade do Comandante Ozires, um pesquisador interncional do assunto, e que nos disponibiliza um material maravilhoso, que foi inclusive fonte de pesquisa do tópico “Recife na Segunda Guerra Mundial – Quarta Frota Naval”, no nosso blog.
Já há algum tempo tivemos o interesse de divulgar o trabalho do Comandante Ozires, que é merecedor de toda a referência pelo excelente trabalho que tem desempenhado na busca por colocar o Brasil como um importante parceiro estratégico para os Aliados durante o conflito de 39 a 45.
Ao Comandante o agradecimento de todos os pesquisadores, historiadores e todos os apreciadores do assunto.
Acessem:
O Brasileiro é Acima de Tudo Um Forte – O Legado da FEB
Tradicionalmente o brasileiro é taxado de ter a memória curta, isso quer dizer que lhe é peculiar o pouco interesse no passado de seu país. Em vários aspectos discordamos dessa posição, contudo existem características no Brasil que nos arremata para esse tipo de pensamento, e uma delas é a FEB. Isso mesmo, a Força Expedicionária Brasileira é um assunto pouco expressado no meio acadêmico, a participação brasileira no conflito mundial de 39 a 45 é um grande território de estudo para as diversas universidades do país, muito embora o tema seja pouco valorizado, as obras e estudos que têm como área de pesquisa a mobilização, atuação, resultados e desmobilização da Força Expedicionária Brasileira são de pouquíssimos autores em comparação a outros períodos da história brasileira. Nesse cenário, a memória dos que combateram no Teatro de Operações Europeu ficou sob a responsabilidade dos filhos, netos e bisnetos dos ex-combatentes que têm lutado com a mesma garra de seus antepassados para manter viva a honra que esses combatentes conseguiram nos campos de batalha italiano. Nessa “guerra” injusta contra a ignorância histórica, o trabalho se torna mais difícil com o passar dos anos e, quando os ex-combatentes nos deixarem, as Associações estarão enfadadas ao esquecimento se não houver um mudança de atitude no trato com a memória desses homens que viram a guerra, e voltaram sob a égide da vitória para o país, mas também destinados ao abandono do governo que os enviou.
Existe um grupo de intelectuais que critica e questiona firmemente a atuação da FEB nos campos de batalha italianos, entre os quais citamos William Waack, um dos maiores jornalista que esse país possui é também autor do livro As Duas Faces da Glória, que trás uma visão jornalística das relações do Brasil com os demais Aliados, e se baseia em documentos trocados entre os ingleses e americanos juntamente com entrevistas de combatentes alemães que lutaram contra a FEB na campanha da Itália. Bem, claro que essas discussões são pertinentes e, até salutar, para o debate sobre a participação brasileira, contudo o ponto passivo entre os estudiosos e aficionados pelo assunto é a bravura dos soldados brasileiros no combate, isso deve ser o elemento central na exaltação da memória das futuras gerações. Uma divisão expedicionária que foi formada com soldados com claras deficiências físicas, com pouca ou nenhuma instrução, saídos de um exército que até anos antes tentou golpes de Estado que foram planejados e executados por membros de suas fileiras, um exército cujo último conflito de grandes proporções foi uma controversa guerra contra seu próprio povo, em uma cidade chamada Canudos, ainda no século XIX; e a FEB foi criada sob as ordens de um Estado ditatorial para lutar contra uma nação de regime semelhante, guardada as proporções. Essa divisão foi formada com soldados que, aparentemente, não foram bem vistos por seus Aliados, mas que no decorrer das missões mostrou-se ser de extrema bravura individual, lutando contra um inimigo experiente, vindos de outros fronts como a campanha russa, membros da temida Afrika Corps, um povo que estava lutando desde o final do século anterior. Nossos soldados foram viris frente a este inimigo, deixando de lado suas limitações logísticas e físicas demonstraram serem dignos da frase do grande escritor Euclides da Cunha, quando se referiu ao povo que o exército enfrentara na guerra de canudos – O nordestino é acima de tudo um forte, escreveu ele em sua obra-prima Os Sertões – no caso da FEB, não apenas o nordestino, mas o brasileiro se mostrou forte, enfrentando o seu oponente e todas as limitações, enfrentando o tempo, e o rígido inverno europeu, mesmo saído das regiões tropicais e nunca ter visto neve, lutou na neve, vencendo um inimigo árduo, o frio. Pode-se escrever livro questionando as operações da campanha, mas deveríamos escrever dez vezes mais, sobre a coragem dos febianos para deixar de legado para as próximas gerações.
Fechando o ciclo de exemplos que podemos elencar na busca pelo reconhecimento dos nossos brasileiros que lutaram em solo estrangeiro, podemos citar os 17 de Abetaia que foram cercados e mortos no ataque em 12 de dezembro de 1944 no Monte Castelo, seus corpos só foram recuperados após o ataque de 21 de fevereiro de 1945, e devido o frio extremo, todos estavam bem conservados, muitos ainda com o dedo travado no gatilho de seus fuzis, enquanto outros estavam com granadas na mão e sem o pino de segurança, morreram todos em formação semi-circular, cercados, mas face a face com o inimigo, encarando-os até a morte. Homens bravos! Brasileiros Bravos!
Escrito por Francisco Miranda - Proibido reprodução ou publicação sem autorização do autor
Os Ingles em Recife – Na Segunda Guerra Mundial
Em setembro de 1939, o Recife se engalanava todo para sediar o III Congresso Eucarístico Nacional, que seria realizado no ainda não inaugurado Parque 13 de Maio. Naquele local, levantavam-se, apressadamente, amplas arquibancadas e todo um extenso edifício, especialmente destinados aos atos do Congresso, e que seriam, ao seu término, demolidos, ficando o Parque com sua finalidade específica, que era a de uma área de lazer para o povo.
Aqui chegavam peregrinos de todo o mundo. O Almanzora, um dos navios da Mala Real Inglesa, e o Neptunia, de bandeira italiana, entre muitos outros navios, chegavam cheios de brasileiros de todos os rincões, que à falta de hotéis em número suficiente para recebê-los, eram hospedados em casas de famílias ou em instituições religiosas.
A guerra estava à porta, e, de fato, foi durante a própria abertura do Congresso Eucarístico, no Parque Treze de Maio, que a notícia da invasão da Polônia foi, pelos alto-falantes ali colocados, comunicada aos pernambucanos. Os ingleses residentes em Recife, mais do que os brasileiros, se preocupavam com o conflito iniciado na Europa. Muitos deles, espontaneamente, se apresentavam como voluntários e partiam para sua terra natal, de modo que, aos poucos, a colônia inglesa em Recife, e no Brasil em geral, foi se reduzindo.
O Diário de Pernambuco de 22 de dezembro de 1940 informava que, no Rio de Janeiro, havia sido muito movimentada a partida do Oriunssen, levando 50 voluntários ingleses que, de uma maneira pitoresca, embarcaram cantando a conhecida marchinha Mamãe eu quero, com uma grande quantidade de curiosos assistindo à partida do navio.
Os ingleses estabelecidos em Recife e já sem idade para prestar o serviço militar, se movimentaram para, de alguma forma, colaborar no esforço de guerra, angariando fundos a serem enviados para a Inglaterra, principalmente a Cruz Vermelha Britânica. No mês de dezembro de 1940, por exemplo, teve lugar, no Country Club do Recife, um leilão de prendas e venda de objetos, o presidente do Clube, o Sr. L. M. Hallet, agradecia as palavras pronunciadas pelo Sr. Anibal Fernandes, diretor do Diário de Pernambuco, e que tinha, ele mesmo, a convite da Cruz Vermelha, aberto o leilão.
A Campanha do Fole, foi o esforço dos ingleses em manter aceso, com o fole, o fogo do patriotismo e, assim, poder coletar recursos para o reaparelhamento da sua Real Força Aérea, a RAF. As pessoas que aderiam àquela campanha contribuíam com uma determinada quantia por cada avião alemão derrubado e recebiam em troca, uma fitinha (de cores diferentes de acordo com a quantia doada), afixada com muito orgulho, à lapela.
Havia, no consulado britânico no Recife, durante os anos da guerra, uma lista negra das pessoas físicas e jurídicas, brasileiras ou de outras nacionalidades, que eram simpáticas aos alemães e com as quais os ingleses nada queriam. A esse respeito conta-se uma interessante história, acontecida aqui no Recife. Um conhecido industrial, dono de uma grande laminação, era ardoroso germanófilo, enaltecendo, em toda parte, abertamente, o regime nazista. Certa vez, um modesto empresário, que desejava alguns favores seus, fora procurá-lo, não tendo, oportunidade de expor suas pretensões uma vez que o industrial, talvez para não atendê-lo, passara o tempo todo a fala sobre a guerra, os rumos que iam se tornando favoráveis à Alemanha, as vitórias de Hitler, etc. O empresário saíra como entrara, de mãos abanando, e, também, convicto de que, para conseguir alguma coisa, teria que ler bastante sobre a guerra, e principalmente deveria se mostrar simpático aos alemães. Nesse sentido, passou a manusear jornais, livros e mapas, e, uma semana depois, voltou para conversar com o industrial, certo de que, agora, o diálogo seria frutífero. Acontece que nesse meio tempo o industrial havia sofrido uma forte pressão do Consulado Britânico, que o ameaçaram, taxativamente, de excluí-lo das transações comerciais com o mundo inglês. E, quando o nosso empresário iniciou sua conversa, conduzindo o assunto para a Guerra e procurando deixar bem clara a sua incipiente e crescente simpatia pelo nazismo, foi desarmado pelo laminador industrial, que o interrompeu de pronto e lhe disse , alto, bem alto, para que todos ouvissem: – Meu amigo, aqui é lugar de trabalho e nesta casa não se fala em Guerra
Fonte: Esses Ingleses… (Rostand Paraíso) Edições Bargaço
Prisioneiros de Guerra – Os Alemães de Pernambuco
Após a declaração de guerra com as potências do Eixo, o Brasil foi obrigado a alinha a política de campo de concentração adotado pelos Aliados, portanto em várias cidades do país e em alguns presídios foram transformados em área de exclusão social dos alemães, italianos e japoneses, passando a serem observados de perto pelo poder público. Nesses locais eram proibidos se comunicarem ou lerem livros em seu idioma materno. No Estado de Pernambuco houve uma situação peculiar, tendo em vista que a Companhia de Tecidos Paulista, tecelagem da família Lundgren que, expandindo suas organizações, deu origem às Casa Pernambucanas, tinha em seu quadro vários funcionários de origem alemã e, muitos deles, declaradamente nazistas. Esses funcionários, trazidos, geralmente para ocuparem cargos especializados e de direção da fábrica, foram objeto de investigação policial, que identificaram a necessidade de intervir diretamente na fábrica em 1942 com um processo de sindicância sob o comando da 7ª Região Militar. Portanto, ficou decidido manter “severa vigilância” por parte da Delegacia de Ordem Política e Social sobre todos os “estrangeiros do eixo” da cidade do Paulista no Estado de Pernambuco. Inclusive os próprios Lundgren foram vistos como sendo suspeitos de serem da Quinta-Coluna; os industriais Alberto Lundgren e Frederico Lundgren, de origem sueca, e identificados como de origem alemã foram hostilizados, mas eles possuíam grande prestígio junto as autoridades estaduais, municipais e policias no Estado.
Com a entrada em definitivo do Brasil na guerra, em agosto, foram realizadas uma severa repressão aos alemães em Paulista. Através da Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS) passou instruções quanto ao comportamento que deveriam seguir, todos os funcionários e seus familiares. Entre as restrições estavam a de não poderem residir em outra cidade, exceto Paulista e não poderem se ausentar da cidade sem licença da Secretaria de Segurança Pública, exceto para viagens a Recife para compras e tratamento médico. Não poderiam fazer reuniões e de permanecerem próximos ao litoral e não poderiam realizar excursões a cavalo e deveriam entregar a DOPS todas as máquinas fotográficas para serem fechadas em uma caixa e lacradas.
Em 22 de novembro de 1942, nos arredores da cidade do Paulista, foi criado o Campo de Concentração Chã de Estevão, recebendo alemães que foram trazidos do Presídio Especial do Recife e depois passou a comportar vários funcionários de origem germânica da Cia de Tecidos Paulista. O campo vigorou até 30 de agosto de 1945, controlado pelo sargento Oscar Casado de Albuquerque, acompanhado de dois soldados e uma investigador encarregado de serviço.
Ficaram internados 23 dos 47 funcionários alemães da Companhia. Todos eles chegaram ao Brasil entre os anos de 20 e 30. A maioria eram solteiros, e os casados, normalmente com esposa alemã, tinham filhos nascidos no Brasil.
A Igrejinha dos Ingleses – Recife
Numa época em que a Avenida Conde da Boa Vista ainda não estava sequer planejada e era apenas a Rua Formosa (essa rua começava na Rua da Aurora e ia até as imediações da Rua da Soledade, dali em diante sendo conhecida como Caminho Novo da Boa Vista; passaria depois a ser chamada como Rua Conde da Boa Vista e, depois ainda, de Avenida Conde da Boa Vista), havia, bem no local onde hoje se encontra o edifício Duarte Coelho e o Cine São Luiz, na esquina com a Rua da Aurora, olhando para o Capibaribe, em um terreno quase todo cercado de grades, uma igreja anglicana, a Holy Trinity Church, a que o povo, por conta de suas simples e pequenas instalações, que contrastavam com as igrejas católicas do Recife, chamava de igrejinha dos ingleses. Fundada em 1838, essa igreja, pela necessidade de se alargar a rua que daria lugar à nova e arrojada avenida, seria derrubada na década de 40 do século passado, passando, logo em seguida, a funcionar na Rua da Matinha (atual Rua Carneiro Vilela), em uma área vizinha ao Country Club. E, naquele seu novo endereço, embora já fosse mais tão pequena, continuaria a ser conhecida, ainda por muito tempo, pelo carinhoso diminutivo de igrejinha dos ingleses.
Vale registrar que, antes da construção do templo anglicano da Rua da Aurora, as práticas protestantes eram celebradas no prédio de nº 47, na Rua do Hospício, sob a capelania do padre G. Tuckins, que foi o primeiro ministro da igreja anglicana em Pernambuco. Pode decisão de comerciantes ingleses é que ficara acertado a construção de uma nova igreja, em edifício próprio na Rua da Aurora, solenemente instalada pelo ministro protestante padre Charles Adye Austin, que foi o seu primeiro capelão. A rua onde ele, durante algum tempo, morou, receberia, depois em sua homenagem, o nome de Rua Padre Inglês. O administrador do templo, desde 1838 até dezembro de 1905, quando faleceu aos 90 anos, foi, sem qualquer interrupção, Mr. Rubens Jane.
Recife na Segunda Guerra Mundial – Quarta Frota Naval
Com a declaração de guerra contra Itália e Alemanha, e os reforços crescentes da Quarta Frota, Recife ganhou status militar especial, uma vez que a cidade pacata de anos anteriores à guerra se transformou em uma fortaleza, com intenso tráfego do pessoal do Exército Brasileiro, Esquadrão de Aviões de Fleet Air Wing 16, centenas de aviões americanos de desembarque, em um fluxo constante no campo do Ibura (atualmente Aeroporto Internacional dos Guararapes), muitos dos aviões Aliados, inclusive os B17 e B-29, inicialmente como escala de algumas horas antes de fazer a longa viagem para a costa Africana. Sem falar os navios de guerra americanos e brasileiros, além de homens do Exército Brasileiro da 7ª Região Militar e da 2ª Zona Aérea.
Este grande investimento na área do porto de Recife incluía quartéis, depósitos de armamento, instrução e centros de treinamento para as várias guarnições, que serviu sob a Quarta Frota. Em contrapartida, medidas foram tomadas pelo governo brasileiro para colocar o enorme complexo do Estado-Maior do Quartel-General da Quarta Frota e seus anexos, em instalações adequadas e confortáveis, para que o pessoal efetivo pudesse fazer o seu trabalho em condições satisfatórias. Um grande edifício no centro da cidade, uma milha de distância apenas, a partir do porto, foi então escolhido para essa função.
Onze andares do edifício, recentemente construído ficaram a disposição, onde os navios podiam ser vistos atracados no cais. E foi formalmente ocupado em dezembro de 1942 com algumas alas ainda inacabadas. Para a acomodação das equipes numerosas, várias modificações estruturais foram realizadas com o intuito de transformar o mesmo em um prédio mais funcional.
Os andares foram inicialmente construídos para fins comerciais, e depois modificados, tendo as paredes sido removidas para um espaço mais amplo. Alertas estavam em mesas e escrivaninhas assim como telefones, arquivos e registros e uma placa grande, com o Mapa do Atlântico Sul, onde os navios de carga em progressão e comboios eram continuamente acompanhados, bem como todo o comércio marítimo de forma independente.
Durante os dois anos, em que a sala de mapas foi usada durante a guerra, rotas de navios inimigos e aliados foram construídas e acompanhadas. Rotas chamadas de “porco” ou “banha de porco” e progressões de outras rotas foram designados para cobrir toda a costa brasileira, todos identificados com todos os tipos de seqüências de cores. Grupos de Trabalho da Força-Tarefa 23 e da Força-Tarefa 27 eram responsáveis pelo monitoramento dos comboios da região, com o objetivo de evitar ataques de U-Boats ou respondê-los, caso acontecesse. Eles também contavam com apoio aéreo e patrulhas de varredura. Estas funções especializadas foram realizadas por quase uma centena de pessoas qualificadas ao longo dos anos da guerra.
Assim, a permanência da sede da Quarta Frota, em Recife, acrescido da frota da Marinha Brasileira, além dos contingentes de Esquadrões da Marinha dos EUA, e de Unidades da Força Aérea Brasileira e Destacamentos do Exército, todos esses fatores transformaram o Recife em um reduto militar de primeira grandeza, cujo porto abarrotado com todo tipo de navios, ainda teria para sua defesa, o velho couraçado brasileiro São Paulo que, pela idade, não poderia navegar no mar aberto e entrar em combate com submarinos de guerra devido grande quantidade de carvão que saia de sua caldeira, alvo facilmente identificado pelos submarinos. Mas, o oxidado e ofuscado de 19.300 toneladas, remanescente ainda dos tempos da Grande Guerra, ainda era respeitável, e serviu como uma fortaleza flutuante no cais do Recife, protegendo o litoral pernambucano por todo o período da Segunda Guerra Mundial já que seu arsenal era uma forte dissuasão contra qualquer tentativa de intrusos no porto, como os que aconteceram em Aruba, onde depósitos de petróleo foram atacados. Sua irmã, Minas Gerais, também realizava a guarda em Salvador. Além dessas medidas para proteger o porto, 04 caça-minas, YMS 44, 45, 60 e 76 continuamente varria o acesso externo do canal de onde um torpedo anti líquido foi implantado.
Enfim, Recife passou por uma transformação inimaginável nos tempos da Guerra, transformação essa que ainda podem ser percebidas até hoje.
Todas essas foram retiradas do site www.sixtant.net incluindo as fotos – As informações foram traduzidas e postadas. O site possui um acervo completo sobre a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial.
Recife e suas Propagandas em julho de 1939
Voltando as atividades…
Um dos meus períodos prediletos no estudo da história é o século XX, mais especificamente a primeira metade, e por isso, estou realizando uma pesquisas sobre a sociedade pernabucana nesse período. Aproveitando, percebe em alguns jornais que pesquisei e a idéias que se tinha de propaganda em um tempo que conhecemos como “tempo da inocência” , para citar aqui, separei as fotos de alguns casos interessantes de propaganda que foram publicadas no jornal do Commercio em 01 de julho de 1939.
- Igreja Evangélica Pernambucana – Fazendo sua propaganda
Agora eu pergunto: Vocês acham que as coisas mudaram?
Abraços!
Recife Era Assim…
Recife era assim…
José Armando nasceu em Recife em 1889…
Nasceu a república….
O Brasil não possui mais escravidão…Nem é mais uma nação imperial.
Armando passou sua infância na Rua Imperial casa 75, e só depois do ensino médio entendeu a relação do nome de sua rua com o regime que definiu o Brasil durante grande parte do século XIX. As coisas são assim mesmo, o ensino público no país é igual aos bondes que transitavam pela cidade no início do século XX, lento e sem pressa. Por falar nisso, Recife era recortada por Bondes de tração animal, que tinham destinos diversos; dos quais a baia do Pina e Olinda dos quatro cantos….
Gostava de ouvir o apito dos navios quando era moleque, corria para ver a Ponte Giratória se mover e os grandes vapores entrarem no porto do Recife, e foi em uma dessas pontes, que já rapazote, pulava nos dias de maré alta para tomar banho no Rio Beberibe, se jogando da ponte Maurício de Nassau. Ficar olhando para Os Portais do Recife, estruturas imponentes que eram o cartão de visita da cidade. Não entendeu quando em 1917 foi demolido, sendo justificada a população que isso era exigência do trânsito! Ele não entendia de onde era o tal trânsito.
No final das contas ele andava por toda cidade, como todo jovem; viu vários carnavais e cada marchinha da Rua da Concórdia. Viu sua cidade se transformar e perder a luz provincial de outrora. Em 1966 lutou contra a construção do que ele chamou de destruição da memória de Pernambuco: a construção da Av. Dantas Barreto. Em nome do avanço urbanístico o senhor prefeito Augusto Lucena conseguiu destruir em 1973 a Igreja dos Martírios construída em 1775. Com e igreja sucumbiu centenas de casas e dezenas de ruas. Mutilou a cidade para abrir espaço para uma rua que liga coisa nenhum a lugar algum.
Armando morreu sem ver a barbárie destruição das lembranças de sua velha Recife…As imagens da bela cidade foi levada com suas memórias e nunca mais habitará nos olhos das próximas gerações.
…Recife Não é Mais Assim!
Santa Cruz Futebol Clube nasce alvinegro
Em 1914, o futebol no Recife não era mais privilégio do Sport, Náutico e ingleses. Ele havia se alastrado começando a se popularizar e raro era o dia em que nos jornais não saíam notinhas comunicando a fundação de mais clube. Era o paulistano, Internacional, Centro Sportivo de Peres, Coligação Sportiva Recifense, Agros, Canxagá, Flamengo, Olinda, Botafogo, João de Barros (depois mudou para América), Velox, Americano e tantos outros. Chegou-se até a se fundar uma Liga, a recifense que teve poucos dias de vida. Jogava-se na campina do Derby (atualmente o campo da Polícia Militar no Quartel General), no jardim 13 de maio (atual Parque 13 de maio), no British Club, no Colégio São Vicente de Paula, em Olinda, e Areias. Jogava-se onde tivesse terreno baldio e até nas ruas se jogava.
Os jornais mais lidos da época, como o Pequeno, Diário de Pernambuco, a Província, e Recife, que antes davam mais ênfase às regatas e turfe, mudaram totalmente sua linha em relação ao futebol, cujo as notícias eram consumidas ferozmente pelo povo.
Eles não saiam mais espremidas numa coluna, como antes, mas em duas, três e até quatro! À falta de fotografias, encimavam o noticiário com gravuras, mostrando os jogadores disputando a posse de bola à frente de uma barra.
E foi no meio dessa empolgação pelo novo esporte que nasceu a 3 de fevereiro de 1914 o Santa Cruz Futebol Clube, idealizado por um grupo de garotos que, à noite, costumava a reunir-se na calçada da igreja Santa Cruz, do que resultou o nome da agremiação. A reunião foi na rua da mangueira (hoje Leão Coroado), casa número 2, bairro da Boa Vista.
No ano seguinte, quando o Santa Cruz filiou-se à Liga Sportiva Pernambucana, teve que alterar suas cores preta e branca de origem, isto porque o Flamengo (de Pernambuco), que também era alvinegro, não quis abrir mão daquilo que considerava um direito alienável. O Santa Cruz firmou-se também na mesma posição. Luiz Barbalho, fundador do clube disse que o impasse foi resolvido por meio de um sorteio. O que perdesse, mudava de cores. O Santa Cruz perdeu e transformou-se em tricolor até hoje.
Foi ainda de Luiz Uchôa Barbalho, segundo ele, a idéia de acrescentar o vermelho, pois queria que a bandeira do clube ficasse com as cores semelhantes às da Alemanha por quem torcia na Primeira Guerra Mundial, e que por isso mesmo ficou sendo chamado de germanófilo.
Ilo Just, primeiro goleiro do Santa Cruz, tem outra versão sobre a alteração das cores. Está dito por ele no Fascículo 2, Conheça o Santa Cruz, 55 anos de glórias:
Quando houve a criação da Liga, surgiu o problema do Flamengo, que tinha as mesmas cores nossa: preto e branco. Os dois não podiam ficar e o Flamengo permaneceu alvinegro. Ainda estávamos em dúvida com respeito às cores, quando passou por aqui o Flamengo, do Rio de Janeiro, que ia excursionar a Belém do Pará. Sua camisa era vermelho, preto e branco. Resolvemos nosso problema, acrescentamos o vermelho às nossas cores.
De fato, a passagem do clube carioca pelo Recife, naquela época, aconteceu. Viaja no paquete Rio de Janeiro, com destino ao Pará, aonde vai a convite da Liga paranaense jogar diversos matchs de foot-ball, por ocasião das festas do Tricentenário de Belém, o poderoso team do Flamengo do Ri, registrava o Diário de Pernambuco do dia 19.02.1915.
Tem razão ainda Ilo Just, quando afirma que as cores do time da Gávea, ao transitar por Recife, naquele ano, eram vermelho, preto e branco. Há inúmeras publicações sobre o futebol carioca que atestam esse fato, a mais recente delas, Campeonato Carioca – 96 anos de história, de Roberto Assaf e Clóvis Martins, está dito no histórico sobre o campeonato de 1916:
Na briga pelo tri, o Flamengo foi de fato uma das vedetes da temporada. Mas, temendo que a imagem do clube fosse definitivamente por água abaixo, sua diretoria, mudou, em fim, o uniforme. A camisa “cobra-coral”, semelhante à bandeira da Alemanha, principal protagonista da Primeira Guerra Mundial, foi substituída pela de listras vermelhas e preta.
Sobre a inclusão do vermelho às suas cores preto e branco, o Santa Cruz deu conhecimento à Liga no dia 16 de março de 1916, conforme consta no livro de atas da entidade. E dessa data em diante, o tricolor ficou sendo chamado também – a exemplo do que aconteceu com o Flamengo carioca em 1914/1915 – de cobra-coral.
**********************************************************
Um fato singular e inesquecível marcou o primeiro ano de vida do Santa Cruz. Todo mundo queria participar da primeira partida do clube, que tinha acertado um jogo com o Rio Negro, uma agremiação também nova e composta por sua maioria de garotos. Havia uma grande expectativa não somente por parte dos seus defensores, mas também por parte dos seus primeiros torcedores. O local do encontro foi o campo do Derby, o mesmo onde havia se realizado o primeiro jogo de futebol do Recife o Rio Negro e esforçou muito, porém não conseguiu se livrar de humilhante goleada de 7X0, imposta pelos meninos da Boa Vista (como eram conhecidos os jogadores do Santa Cruz), a grande figura do encontro foi o jogador Carlos Machado, que arrasou com a defesa adversária, fazendo 5 gols dos 7 assinalados. No final do jogo a euforia tomou conta de todos pelo grande triunfo.
A fragorosa derrota tornou-se, porém, um pesadelo para a turma do Rio Negro, que resolveu pedir revanche impondo as seguintes condições: o jogo seria no seu próprio campo, na Rua do Sebo, hoje Barão de São Borja, e o Santa Cruz não escalaria Carlos Machado, como era natural o pessoal do Santa Cruz estranhou a segunda condição, mas mesmo assim aceitou o desafio. Sem Carlos Machado, a reabilitação era quase certa, raciocinavam os jogadores do Rio Negro. O Santa Cruz respeitou fielmente o acordo feito e chegou a campo na hora certa. Discretamente, os diretores do Rio Negro conferiram se Carlos Machado, o homem que havia feito tantos gols na outra partida, estava entre os onze da Boa Vista. Não. Não estava.
Acabando o jogo, nova vitória do Santa Cruz e por uma placar muito mais elástico: 9X0. Carlindo Cruz, que havia substituído Carlos Machado, ganhou o Jose quase sozinho. Fez 6 dos 9 gols assinalados.
História do Futebol Pernambucano, Givanildo Alves – Ed. Bagaço – 1998 – 2ª edição



















































































