Archive
O “Fritz” Cansado de Guerra!
Os nazistas são sabidamente arrogantes e presunçosos! Hitler conseguiu acrescentar-lhe mais uma outra característica: um fanatismo doentio!
Por isso não nos surpreendiam os prisioneiros que nos chegavam cobertos de condecorações, batendo os calcanhares e saudando-nos com o seu “famoso”: HEIL HITLER!
Entretanto, a fome, a bala, e, sobretudo, a baioneta não fazem graça para alguém rir! E os homens de Hitler, que ficavam calmamente atrás de suas metralhadoras, guardados por fortes abrigos, esperando sorridentes a aproximação dos nossos soldados para ceifá-los, começava a sentir o peso da derrota. E lá veem os prisioneiros alemães, mãos cruzadas na nuca, submissos, humildes, “inocentes”!
Certo dia, porém, assistíamos o tenente Renato Gonçalves proceder a interrogação de uma leva de prisioneiros. O oficial de informações do Batalhão manda sair um deles já interrogado e entrar outro. A porta se abre bruscamente e entra um alemão de meia idade, risonho e satisfeito, gritando alô! Alô volvendo-se ora para um ora para outro de nós.
Dissemos ao nosso soldado intérprete que chamasse a atenção do prisioneiro para que se portasse convenientemente. Que ele se achava num Posto de Comando brasileiro, local ao qual ele devia muito respeito e consideração.
O prisioneiro, toma uma atitude respeitosa e pede para intérprete que nos diga que começou a guerra na Polônia; foi para a África, onde arrostou todo aquele vai e vem de Rommel; viveu nos desertos; retirou-se para Itália, e vem de léo e léo, sempre para trás, para trás, sofrendo derrotas e mais derrotas, a munição escasseando cada vez mais; por último, vem comendo o que consegue no local! E lá se vão cinco anos! E os senhores sabem o que foram cinco anos de guerra? Pergunta o Alemão. Sem notícia da família havia mais de uma ano, assombrado por desilusões, desenganados, sofrimentos!
Bem podíamos avaliar! Essa guerra termina hoje pra mim! Não vos estou desrespeitando, mas, me sinto muito e muito alegre, concluiu o “Fritz” impando de vera satisfação.
Fonte: Crônicas de Guerra – Coronel Olívio de Gondim Uzêda
- Margarida Hirschaman espiã que fazia as transmições em português incitando os pracinhas da FEB a se renderem.
- Tenente General Otto Fretter Pico com o General Falconieri
- Região de Montese. Essa foto pertence ao acervo Alemão
- Patrulha da FEB na região entre Montese e Fanano antes do ataque final
- O General von Gablenz comandante da 232ª Divisão de Infantaria Alemã, nos Apeninos.
- Ninho de Matralhadora na Região dos Apeninos. Esse ninho esteve protegendo a linhas alemães dos ataques brasileiros.
Cenas que Merecem Registro. Brasileiros, Acima de Tudo!
Nada mais justo quando se tem acesso a determinadas situações e informações que merecem registro para a posteridade. Particularmente creio que seja o papel de cada elemento que se importa com a história de nosso país, conduzir para as próximas gerações impressões, marcas e informações que devem ser guardadas para sempre.
Portanto cumprindo minha obrigação, divulgo o evento que, pessoalmente não participei, mas que tive acesso ao registro. Refiro-me ao agraciamento em 2010, concedido pela Associação Nacional dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira – Regional Pernambuco ao Presidente do Conselho Nacional de Oficiais R/2 do Brasil, Tenente Sérgio Monteiro que, além da importante função que exerce, é um exímio e apurado historiador, autor do Livro O Resgate do Tenente Apollo e curador de maravilhoso acervo histórico mantido nas dependências do CPOR do Rio de Janeiro.
A honraria foi entregue pelo Veterano Rigoberto de Souza. O 3º Sargento Rigoberto membro do 11º Regimento de Infantaria, participou das principais batalhas no Teatro de Operações na Itália, das quais destacamos Monte Castello e Montese, sendo detentor das Medalhas Sangue do Brasil, Cruz de Combate, Medalha Mascarenhas de Morais e Medalha de Campanha.
Nada mais justo que a Medalha Aspirante Mega tenha sido entregue a um historiador desse quilate, como é o caso de Sérgio Monteiro, das mãos de um puro representante nordestino do soldado brasileiro, que viveu e combateu ardentemente pelo seu país. Isso configura um quadro importante, pois nos conduz para uma perspectiva otimista do nosso futuro como nação. Homens dignos de gerações diferentes, mas brasileiros que defendem os mesmo valores, em tempo de paz ou não!
Se cada brasileiro entender o significado de sua própria história, inclusive a recente, sem ideologias ultrapassadas, poderemos olhar dignamente para frente, para o futuro! E saber o valor daqueles que lutaram ontem pelo mundo que conhecemos hoje, bom ou ruim ele é possível graças ao sangue e a vida de muitos.

Tenente Monteiro recebe a Medalha Aspirante Mega das mãos do 3º Sargento Rigoberto Souza do 11º Regimento de Infantaria
Cabo Honório: A Morte de um Bravo Pernambucano
Segue abaixo texto de uma publicação muito interessante: As Fornalhas de Março – História das Eleições do Recife – Volume 1 – Ronildo Maia Leite. Ed. Bagaço.
Fazendo referência a um pernambucano morto na Itália, durante operações da Força Expedicionária Brasileira. O artigo é bem interessante, e permite fazer a analise de como as famílias pernambucanas estavam sob a pressão da guerra que lançava seus filhos nas batalhas da Itália.
________
No dia em que a Folha é obrigada a anunciar o manifesto do lançamento da candidatura do brigadeiro Eduardo Gomes, ela própria excita o patriotismo do recifense, informando que, entre 15 mil, 404 morreram e 96 estavam desaparecidos.
Tomba como um herói Itália, quando procurava defender a vida dos companheiros, um pernambucano. Essa notícia ocupa todo o alto da quarta página do Jornal do Commercio e novamente levou o povo às ruas. O cabo Honório é do Pelotão de Minas e, naquela tarde, 5 de janeiro, saíra em missão de reconhecimento da área. Pressente o perigo e avança sozinho. O petardo explode sob seus pés, estraçalhando-lhe as carnes.
Proprietário de uma fábrica de calçados e cordões, Honorário Correia de Oliveira é uma homem baixo e corpulento, ombros largos e rijos. Engole em seco e enxuga as lágrimas na ponta da camisa quando recebe a carta do padre Urbano Rach. Dizia:
“Cheguei a tempo de lhe ministrar a absolvição, os santos óleos e a indulgência plenária. O nosso bravo cabo Honório descansa em paz e o Nosso Senhor lhe dê a Glória Eterna”
A notícia do Jornal do Commercio, sacode a cidade. Dezenas de pessoas organizam-se em passeata à casa 1578 da Avenida Caxangá para, mais uma vez, inteirar-se do ocorrido. Em novembro, uma semana depois do Cabo Honório ter chegado à Itália, correu o boato de sua morte. Na segunda-feira, estudantes do Colégio Americano Batista dirigiram-se à casa do comerciante. São os colegas de Honório, punhos cerrados marchando na avenida.
O barulho dos sapatos no calçamento da avenida parece com os das botas nas paradas militares: a guerra de lá, a guerra de cá, a guerra de lá, a guerra de cá…Honório (pai) recebe o repórter do Jornal do Commercio e exibe o amargo triunfo nos olhos úmidos, a última carta do filho morto. Dizia: Meu querido velhinho: em breve, a paz será restabelecida na terra e poderemos voltar ao seio das nossas famílias, portadores da vitória e da liberdade…
Naquele dia, caravanas populares caminham em direção à casa do sapateiro Honório Correia de Oliveira, pai do cabo Honório.
LEITE, Ronildo Maia. AS FORNALHAS DE MARÇO, Edições Bagaço, Recife, 2002, p. 169-170)
PS. Indicação do Sr. Francisco Bonato Pereira
_____
Histórico do Cabo Honorário
Id. 1G – 298025 – Classe 1923 – 11º Regimento de Infantaria.
Embarcou para a Itália em 20 de Setembro de 1944, era natural da cidade do Cabo de Santo Agostinho. Filho de Honório Corrêa de Oliveira e Antônia Aguiar de Oliveira, tendo como pessoa responsável o seu pai, residente à Avenida Caxangá nº 1578 – Recife. Faleceu em ação no dia 5 de Janeiro de 1945, em Bombiana – Itália, e foi sepultado no Cemitério Militar Brasileiro de Pistóia, na quadra A, fileira nº 8, sepultura nº 86. Foi agraciado com as Medalhas de Campanha e Cruz de Combate de 2ª Classe. No decreto que lhe concedeu esta última condecoração lê-se: “Por uma ação de feito excepcional na Campanha da Itália”.
________
Infelizmente há apenas um monumento em Pernambuco que lembra os patrícios caídos em combate na Itália. Encontra-se no Parque 13 de Maio e está em total abandono. Não há qualquer referência do que se trata e seu significado, ou seja, não informa a essa geração, ou as futuras, que jovens pernambucanos morreram defendendo seu país, ou pelos menos, os interesses dele.
- Festa na Inauguração do Momumento que Homenageava os Mortos Pernambucanos na Segunda Guerra
- O Monumento hoje se encontra abandonado, sem qualquer identificação que lembre seu propósito
Memorial Day – NO BRASIL JÁ!
Hoje nos Estados Unidos comemora-se o Memorial Day, é um feriado onde se referencia a memória daqueles que morreram por seu país. Essa é uma cultura que, infelizmente, não temos e, muito provavelmente, nunca teremos. Nosso país, diferentemente dos Estados Unidos, não se envolve em guerras. Contudo, como aconteceu lá nas terras de Tio Sam, aqui pátrios também perderam a vida em solo estrangeiro, lutando pelo seu país. Pelo menos os que morreram achavam que estavam morrendo por isso.
Não me venham com falácias sobre a participação pífia do Brasil na Segunda Guerra ou, até mesmo, sobre os conchavos políticos de Vargas, isso não vale, pois quem derramou seu sangue pelo seu país no ataque a Montese, em abril de 1945, e foi morto lutando à frente de seu pelotão, foi o Aspirante e Herói brasileiro Francisco Mega, ele morreu lutando pelo seu Brasil, diferentemente dos inúmeros políticos corruptos da atualidade, ele deu o que tinha de mais valioso, sua vida. E o que o Brasil lhe deu em troca? Esquecimento! Se o Sargento Max Wolf pudesse ver o futuro, será que ele teria se arriscado tanto? Será que ele abdicaria do convívio de sua filha Hilda, se soubesse que o mesmo país que o enviou, também o esqueceria? E que os jovens brasileiros de gerações posteriores acolheriam como heróis jogadores de futebol com milhões de dólares em suas contas e nenhum amor pelo Brasil, e não saberia quem foi Max Wolf? Ou qualquer outro brasileiro que lutou e morreu na Segunda Guerra? Ora, meu povo brasileiro, de tantos ídolos e alegres músicas, como podes esquecer, ignorar, menosprezar e até xingar homens corajosos que deixaram sua juventude para lutar por uma causa, que bem ou mal, era a Tua Causa? Como jovens podem amar o que é estrangeiro, idolatrar grandes personalidades de outras nações, enquanto há um desconhecimento geral de quase 500 corpos brasileiros sepultados no Rio de Janeiro. Onde? No Rio de Janeiro! Quantos cariocas sabem que existem no Aterro do Flamengo esses heróis sepultados? E Pernambuco? Apenas 12 mortos na Itália! Apenas? Quantos monumentos há para lembrar? Nenhum! Ou melhor, UM! Onde? Parque 13 de Maio, centro do Recife! Isso mesmo! Mas como alguém pode saber? Não há qualquer placa, apenas um velho monumento inominado, sem indicação, sem uma plaquinha que seja. Esse é nosso país. Esse é nosso Estado. E a Paraíba? E Minas Gerais? E São Paulo? Quantas mães, mulheres, filhos e filhas choraram seus entes queridos, levados pela guerra e esquecidos pelo tempo?
Ficamos na esperança de que nosso país mude, como a mesma expectativa quando tantos compatriotas se juntaram em outra geração para gritar por Diretas Já, para que também possa, essa geração, gritar por mais reconhecimento histórico, não apenas pelos esquerdistas, comunistas e guerrilheiros que morreram por esse ideal, mas para todos os Filhos da Terra Tupiniquim que já derramaram seu sangue, independente se usavam farda ou não. Sigam o exemplo de West Point, Academia Militar Americana, onde há uma placa com o nome de todos os oficiais formados que lutaram e morreram na Guerra Civil Americana, pois eram todos irmãos, independente se Confederados ou da União, eram todos americanos e mereciam serem homenageados. Portanto, nesse ponto, temos muito que aprender com os capitalistas, mas honrados norte-americanos.

Essa foto é de soldado que morreu no Dia D, e um velho veterano francês da Primeira Guerra que se compadece com a perda de um jovem.
- Essa foto é de soldado que morreu no Dia D, e um velho veterano da Primeira Guerra que se compadece com a perda de um jovem.
10 de Abril – Dia da Engenharia Militar do Exército Brasileiro
Com muito orgulho publicamos o artigo enviado pelo Engenheiro Militar, Administrador, Pesquisador da História da FEB e Tenente-Coronel do Exército André Monteiro. Pessoa amiga, cujo valor e a simplicidade só perdem para sua dedicação e serviço a memória da Força Expedicionária Brasileira.
__________________
10 de Abril – Dia da Engenharia Militar do Exército Brasileiro
Permitam-me nesse 10 de abril, dia da Arma de Engenharia do Exército Brasileiro, referenciar os valorosos pracinhas herdeiros de Villagran Cabrita.
O Comandante da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária, Marechal Mascarenhas de Moraes, concedeu o seguinte elogio à Engenharia da FEB, publicado no Boletim do dia 4 de fevereiro de 1945:
“A Engenharia da FEB não descansa. São múltiplas suas missões. A construção ou reparação de estradas, muita vez sob o fogo inimigo, que tem cobrado o tributo do generoso sangue brasileiro no soldado da Arma de Engenharia; na organização de zonas minadas, precedendo as posições da Infantaria, portanto sob eficaz alcance das armas inimigas; na limpeza dos eixos de progressão de carros de assalto; na construção de instalações para a tropa ou na organização dos meios de defesa das Armas e do Comando, a Engenharia Brasileira se tem distinguido como essencialmente combatente.
E no seu trabalho diuturno, silencioso e produtivo, sem o menor temor às reações do adversário, por isso que sabe ser indispensável ao desempenho das missões das outras armas, tem uma grande e única preocupação: fazê-lo rápido e perfeito.
Sabe a Engenharia que a rapidez e perfeição se completam, como inseparáveis, para o bom êxito das missões de combate. Sabe a Engenharia que esse bom êxito, que a tem acompanhado desde o início de sua atuação neste Continente e que a acompanhará até o fim, é o resultado da vontade de ser eficiente no conjunto da FEB. É o resultado da feliz atuação de seus comandantes.
Sabe, finalmente, que a vontade, só a vontade, servida por um material moderno e bem manejado, é o elemento essencial à consecução da Vitória do Brasil sobre os usurpadores da Liberdade, cujos clarões alvissareiros já se anunciam ao Mundo, para apontar-lhe o reto caminho da Paz dignificante, da Paz igualitária, da Paz tão ansiosamente aguardada. Soldados da magnífica Engenharia do Brasil, que bem trilhais os belos exemplos de vosso valoroso Patrono – o Gen. Villagran Cabrita! Continuai a produzir como o tendes feito até hoje e a vossa Pátria vos recompensará, com os agradecimentos pela vossa ação!”
A Engenharia do exército Brasileiro sempre conservou seu espírito pioneiro, indômito e desbravador que revelou-se nos brilhantes feitos do 9º Batalhão de Engenharia de Combate na 2ª Guerra Mundial, quando teve a oportunidade de ter sido a 1ª tropa brasileira a ser engajada contra o inimigo. A primeira tropa brasileira a cumprir missão de combate em território italiano foi a 1ª Companhia do 9º Batalhão de Engenharia, comandada pelo Capitão Floriano Möller. Essa companhia, desde o dia 6 de setembro de 1944, vinha operando, ativa e eficientemente, numa das pontes do Rio Arno, às ordens do IV Corpo de Exército.
A Engenharia da Força Expedicionária Brasileira foi incansável na tarefa de deixar abertas ao tráfego as estradas vitais para o desenvolvimento das operações, além de lançar pontes e limpar campos de minas traiçoeiros, dentre outras inúmeras missões.
A Engenharia satisfez plenamente a tudo que lhe foi exigido, indo além de suas possibilidades normais. Imbuídos de grande espírito patriótico, os engenheiros deixavam transparecer seu amor ao Brasil em todos seus atos, como por exemplo o de dar nomes às pontes que construíram: 7 de setembro, Entre Rios, Carioca, Lages, Lagoa Vermelha, Itajubá, Aquidauana, Cachoeira, Curitiba e outros.
André Gustavo de Pinho Monteiro – Tenente-Coronel de Engenharia
Especial: Tomada de Montese – A Batalha Mais Difícil do Exército Brasileiro!
Montese: missão difícil, missão cumprida!*
Nos meandros da finalização da Segunda Guerra Mundial, ainda restavam alguns sacrifícios a serem enfrentados pelos componentes da nossa gloriosa Força Expedicionária Brasileira. Dessa forma desencadeou-se o ataque a Montese entre os dias 14 e 15 de abril de 1945.
O município de Montese ocupa uma vasta área de colinas que faz fronteira com as Províncias de Modena e Bolonha. Possuí numerosos rios, uma rica vegetação, bosques e castanhais antigos que rodeiam os povoados medievais. Era considerada uma região de difícil acesso devido às fortificações alemãs construídas ao longo da Linha Gótica. As tropas alemãs encontravam-se na posse da região de Montese, em posição dominante sobre uma extensa área de colinas, tendo como fronteiras as Províncias de Modena e Bolonha.
Para o cumprimento da missão foi designada a 2ª Companhia do 1º Batalhão do 11º Regimento de Infantaria, sendo planejadas para uma execução eficaz duas fases, quais sejam:
1ª Fase: Missão secundária- Teria início as 09:00 h com o ataque de dois pelotões a dois postos avançados do inimigo. Conforme previsto no planejamento os dois pelotões atacaram os objetivos, com forte reação do inimigo. O 1º Pelotão foi detido pelo forte fogo inimigo, conseguindo conquistar o objetivo algumas horas depois. O 2ª Pelotão foi detido em um campo minado sento castigado pela concentração do fogo de artilharia . Neste ataque, seu comandante foi atingido mortalmente na cabeça. Devido a estes contratempos o objetivo definido para o 2º Pelotão não foi atingido
2ª Fase : Ataque Principal a cidade – Com início às 12:00, também com dois pelotões. Às 11:45, o comandante confirmou a operação, considerado como hora “H” para o ataque principal.
Na hora definida o 1º Pelotão atacou o cume, após vencido 1/3 do percurso, foi atingido por intenso fogo de artilharia (barragem), que acabou cortando o fio do telefone em vários pontos, dificultando o contato entre as equipes. Somados a isto alguns soldados foram atingidos.
Por se tratar de um momento de finalização da guerra houve um subestimação do inimigo por parte, principalmente do exercito norte-americano, pois tanto as tropas de montanha, quanto as tropas blindadas sofreram grande números de baixas, sejam elas por morte ou feridos, com um pequena progressão. Segundo relatos como o do Marechal Floriano de Lima Brayner, chefe do Estado Maior da FEB na Itália, foi uma das maiores concentrações de fogos realizados pelo exercito do III Reich, foram fogos de artilharia, morteiros de infantaria e demais artifícios disponíveis, eram os prelúdios finais de uma guerra sangrenta, porem, os alemães jamais se entregariam sem demonstrar seu preparo e experiência em combate.
O 11 RI, através de suas subunidades dispersas no terreno, com a astucia dos majores comandantes dos três Batalhões, com a valentia dos comandantes de pelotões e destemor de cada componente daquelas pequenas frações aferrados no terreno, fizeram com que mais uma vez o inexperiente soldado brasileiro se destacasse. Mesmo nas piores condições possíveis, a cobra fumava com todo seu vigor, pois foi no calor da batalha que o pracinha brasileiro mostrou sua capacidade de combater.
Destacaram-se comandando seus pelotões Tenente Iporan, que a frente conclamava seus comandados que o seguissem e o Tenente Rauen, que pela sua bravura acabou mortalmente ferido em combate. Não sendo diferentes as atitudes dos sargentos comandantes de Grupo de Combate, dos cabos comandantes de esquadra e dos nobres e valorosos soldados.
Como ainda citado pelo Marechal Floriano de Lima Brayner[1]: “Montese e realmente uma pagina brilhante da Infantaria Brasileira. Reforca a tese que sempre defendi, da capacidade de liderança dos nossos tenentes, auxiliados por bons sargentos. Os soldados olham para eles como par um espelho, durante a ação”.
Os principais combates foram realizados nos dais 14 e 15 de abril, onde houveram grande numero de baixas do exercito norte-americano e brasileiro, porem para haver a consolidação efetiva da região as atividades se prolongaram por mais de cinco dias. A partir daí foi aberto um eixo onde o Esquadrão de Reconhecimento deslocava-se entre Montese-Ranocchio-Bertochi.
Estava consolidado mais um ponto estratégico nos campos de batalha da Itália no cerco contra o Nazifascismo. Mais uma vez saltava aos olhos das tropas aliadas o valor do pracinha brasileiro. A audácia, valentia, destemor, são algumas das características inerentes a verdadeiros heróis, brasileiros que representaram a sociedade brasileira de forma inconteste e que por uma diversidade de interesses e fatores permanecem em campos obscuros da historicidade brasileira.
* Artigo enviado pelo Historiador Alessandro Santos
Bibliografia
O Exército na História do Brasil (vol. III, República). Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora.
Böhmler Rudolf , Monte Cassino – Editora Flamboyant, 1966
Marechal Mascarenhas de Morais, Memórias (Volume 1)- Bibliex,1984
RODRIGUES, Agostinho José, Terceiro Batalhão – O Lapa Azul, Rio de Janeiro, BIBLIEX, 1985.
BRAYNER, Floriano de Lima. A verdade sobre a FEB – memórias de um chefe de Estado- Maior na Itália. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.
[1] BRAYNER, Floriano de Lima. A verdade sobre a FEB – memórias de um chefe de Estado- Maior na Itália. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968. P. 404
- Patrulha Brasileira em Montese
Especial Monte Castelo – 67 anos: 3º ataque ao Monte Castelo
Monte Castelo – 67 anos
3º ataque ao Monte Castelo
Com a determinação de conquistar o conjunto Belvedere – Torracia antes da chegada do inverno europeu, o comandante do IV Corpo – General William Crintemberg, ordenou à Divisão de Infantaria Expedicionária (DIE) que tomasse posse de Monte Castelo, uma vez que o Monte Belvedere já estava nas mãos dos aliados.
A ordem era a seguinte: “Dentro de sua ação, capturar a crista que corre de Monte Belvedere para nordeste, inclusive o Monte Castelo, a fim de impedir que o inimigo tenha vistas sobre a Rota 64 (Pistóia – Porreta Terme – Bolonha)” .
O grupamento de ataque ficou constituído da seguinte forma:
Comandante: General Zenóbio da Costa
Tropa – um batalhão por Regimento de Infantaria da Divisão de Infantaria Divisionária:
- I / 1º R.I. – Major Uzeda sobre Monte Castelo
- III / 11º R.I. – Major Cândido cobrindo o flanco
- III / 6º R.I. – Major Sylvino
Ficou como reserva divisionária o II / 6º R.I.
Apoio de 4 grupos de artilharia.
A missão geral era:
- apoderar-se de Morro Castello, com esforço na direção C. Viteline – cota 887
- ocupar e manter a linha: cabeceira leste do Rio Liberaccio, vertente norte do Morro do Castello, região de Carrulo, de maneira a impedir que o inimigo transpusesse este , como também o Rio Marano e, que progrida para cota 930
- cobrir-se entre Le Roncole e a região de Gaggio Montano, e levar esta cobertura à crista 1053-1036
- unir-se a Task Force 45 na região de Torracia
Foi informado que a força aérea não daria apoio, haveria preparação de artilharia durante 40 minutos, e a 2ª seção deu como provável a existência de um batalhão inimigo defendendo a posição, podendo ser reforçado em curto prazo, com mais dois batalhões.
Os reconhecimentos para o ataque foram iniciados no dia 27 de novembro d 1944, e deslocamento dos batalhões ocorreram em condições desfavoráveis, em consequência de grandes chuvas e lamaçais que dificultavam o avanço da tropa, e como fator complicador os batalhões do 1º R.I. E 11º R.I. Iam ter seu batismo de fogo, enquanto as tropas do 6º R.I., estavam exaustas pela longa campanha que vinha sofrendo.
O General Mascarenhas de Morais tinha como ideia de manobra, o seguinte esquema:
- Manter fortemente as regiões de Africo, Torre de Nerone, Boscaccio e Monte Cavalloro
- Apoderar-se no ataque do dia 29 de Novembro de 1944 do Monte Castelo e estabelecer cobertura na região de Falfare para em seguida, em combinação com a Task Force 45, repelir o inimigo das cotas 1027 e 1053.
Na noite do dia 28 para 29 de Novembro, enquanto se organizava o ataque, a tropa brasileira foi informada da expulsão dos americanos do monte Belvedere, ficando o flanco esquerdo completamente descoberto, e o bom senso sugeria um adiamento das operações, o que não foi feito, talvez por orgulho nacional, em virtude do comando estrangeiro.
O início das operações estava marcado para começar às 7 horas da manhã do dia 29. No dia 28 de novembro, por volta das 19 horas o I / 1º R.I. Saiu de Gaggio Montano, e seus últimos integrantes atingiram a base da partida às 6 horas da manhã do dia 29 de Novembro, e o batalhão teria ainda uma hora para iniciar a operação. Do ponto de partida para o objetivo, a distância era de aproximadamente 500 metros e teriam que subir 300 metros.
A artilharia atacou pesadamente, antes do avanço da tropa, que começou às 7 horas da manhã pelo I / 1º R.I., que progrediu até o meio dia. Às 8 da manhã partiu o III / 11º R.I. Que após conquistar a cota 760 a oeste de Falfare foi detido à frente de Abetaia.
Os alemães fortalecidos e melhor instalados, reagiram violentamente, desarticulando o escalão de ataque, que logo depois foi apanhado pelo flanco, e de frente por fogos de metralhadoras instaladas em Mazzancana, Fornace, Cota 887 e Abetaia.
Na segunda parte do ataque o I / 1º R.I., foi obrigado a retornar à base e o III / 11º R.I. Recuou um pouco sob pressão da artilharia inimiga e, com a chegada da noite e a intensificação dos ataques do inimigo, houve uma ordem para o retorno imediato para a posição inicial, não tendo sido empregados o III / 6º R.I., nem a reserva divisionária.
Pela 3ª vez o Monte Castelo resistiu, deixando cerca de 200 baixas, sendo que apenas uma granada matou 9 de nossos pracinhas. A verdade é que a Divisão de Infantaria Expedicionária não atingiu seu primeiro objetivo ofensivo sob direção exclusivamente brasileira.
Concluímos que o 3º ataque não teve sucesso, pelo seguinte:
- falta de preparação para o ataque
- determinação alemã em manter a elevação a todo custo
- meios deficientes para concluir o objetivo
- ausência do apoio da força aérea
- condições climáticas completamente desfavoráveis
- ataque frontal ao inimigo
- parte da tropa era inexperiente em combates(III / 11º R.I.)
- terreno bastante íngreme e muito enlameado.
Após o ataque frustrado, jaziam sobre o terreno do Monte Castelo inúmeros corpos dos pracinhas, que simbolizavam a bravura do soldado brasileiro.

"Em uniforme de inverno, no mês de Dezembro de 1944, patrulha da FEB se prepara para incursão às linhas alemãs"
- “Em uniforme de inverno, no mês de Dezembro de 1944, patrulha da FEB se prepara para incursão às linhas alemãs”
- Na maca, o Batalhão de Saúde transporta um pracinha ferido num dos assaltos ao Monte Castelo
A Conquista do Monte Castelo – 67 anos depois
Artigo enviado pelo Pesquisador Rigoberto Souza Júnior – Secretário da ANVFEB-PE.
_______________
O Monte Castelo é até hoje, aclamado como o maior feito da Força Expedicionária Brasileira no Teatro de Operações da Itália. Acredito que isto se deve ao fato de ter havido quatro ataques, até a sua conquista definitiva.
Esta elevação, a mais alta da crista dos Apeninos, já havia se tornado uma fortaleza inexpugnável, que causava arrepios em nossos combatentes e nas tropas aliadas, pois ingleses, sul-africanos, poloneses e americanos, já haviam tentado conquistá-lo sem êxito.
Além dos soldados mortos em ação, houveram muitos problemas com o socorro dos feridos, ou mesmo com o recolhimento dos corpos, pois os alemães, uma tropa impiedosa, tinham por hábito ligar os cadáveres a armadilhas, como as temidas body-traps conectadas às plaquetas de identificação(dog-tag), ou então deixavam na mão do morto uma granada já sem o pino de segurança, que qualquer movimento que fosse feito, explodiam causando mais danos aos nossos pracinhas.
Gostaria de reproduzir alguns depoimentos de italianos, que viveram aqueles momentos de horror durante a 2ª guerra mundial:
Giuseppe Cechelli – Gaggio Montano – Bolonha – Itália
“Lembro- me que nesta época havia falta de tudo, principalmente comida, e os brasileiros nos davam “scatole”(caixas de ração) que continham biscoitos, chocolate, carne enlatada, e às vezes minha mãe fazia polenta, que todos apreciavam muito, vivíamos como uma grande família. Também me recordo dos negros americanos da 92ª DI, que fugiram e vieram se esconder na parte de cima da minha casa, e posteriormente chegaram os americanos brancos para procurá-los, e ao interrogar o meu pai, ele não balbuciou nenhuma palavra, mas fez um gesto com a mão apontando para cima, indicando que os mesmos estavam no sótão.
Com relação ao Monte Castelo, não posso me esquecer principalmente do ataque de 21 de Fevereiro de 1945, quando eu e minha família podíamos ver tudo de nossa casa, pois nunca a abandonamos, e era possível ver o fogo cerrado também sobre Rochindos, mas o que mais nos aterrorizava não era o fogo da artilharia, mas os tiros das metralhadoras, que partiam de todos os lados, enquanto nos abrigávamos em um abrigo no porão.”
Francesco Arnoaldo Berti – Guanella Gaggio Montano – Bolonha – Itália
A Família Berti está ligada à história da cidade, pois além de ser proprietária de grande extensão de terras, mas porque a casa onde mora faz parte do antigo burgo que formou a cidade. Guanella é formada por um conjunto de casa no sopé do Monte Castelo.
“ Em 1944 eu tinha 18 anos e faziz parte da Brigada Giustizia e Libertà, e os primeiros aliados que encontramos foram os americanos e cerca de 20 a 30 dias depois chegaram os brasileiros e ficaram onde hoje é o nosso jardim, pois o front estava praticamente parado, e onde hoje está o Monumento Liberazione, era a “terra de ninguém.
Os brasileiros começaram avançar e não deram conta que o front estava parado, nós também não sabíamos, pois só depois soubemos que algumas divisões foram desviadas para atender ao desembarque na Normandia e aqui faltavam soldados. As primeiras tentativas para a tonmada de Monte Castelo foram feitas com muitas perdas da parte brasileira, nossos campos ficaram recobertos de cadáveres, pois foram ataques mal preparados, e somente em Fevereiro de 1945 o Monte Castelo foi tomado pelos brasileiros.
A brigada partigiana tinha a função de administração da cidade, e aquele momento não era de combate, e me recordo que da casa Di Franchi se via o Monte castelo, e se dava para escutar um bombardeamento de grande intensidade sobre o morro, e aquilo era um crescente ensurdecedor. Não se tinha ideia de onde vinham os tiros, talvez de cinco canhões, fazendo um barulho enorme, e logo em seguida nuvens negras surgiam, este tomento durou cerca de três horas, até que enfim os brasileiros conquistaram o Monte Castelo.”
Fabio Gualandi – Gaggio Montano – Bolonha – Itália
“ Os americanos chegaram em Gaggio Montano no dia 13 de Outubro de 1944, uma sexta-feira, e na metade do mês seguinte chegaram os brasileiros, que procuravam um lugar para erguer seu acampamento, ocupando as casas maiores, e rapidamente faziam amizade com as senhoritas.
Na cozinha do acampamento se fazia um pouco de tudo: mingau feito de leite em pó; churrasco feito de carne de boi ou porco; arroz com feijão preto, omelete feito com ovo em pó, mas o que eles mais apreciavam era um pão crocante, que era fabricado na Toscana, regado a muito café que era colocado em um recipiente grande. Os brasileiros levavam para a casa comida que alimentava uma centena de pessoas(uma companhia), os oficiais comiam numa mesa separada. Havia frutas, principalmente laranjas, e quando eles terminavam a população invadia o acampamento, e durante este tempo estes refugiados não passaram fome.
Na época da guerra aqui era um pavor, vi mortos pelas estradas, os corpos ficavam ali até que viessem recolhê-los. A miséria era grande, a fome então… os brasileiros formavam um exército diferente, gostavam de estar em família, e chamavam as senhoras mais velhas de mamma”. Lembro-me das patrulhas à noite, e algumas eram divertidas, e alguns fumavam desavisadamente, acendiam fogueiras, e hoje penso como fomos nos expomos ao fogo inimigo.
Pensei em seguir com os brasileiros, mas o meu pai não deixou, e nunca mais encontrei ninguém desta companhia. Temos um grande respeito e carinho pelos brasileiros, principalmente eu e minha família, pelos dias difíceis que passamos na guerra e a maneira que não passamos fome com a ajuda humanitária deste Exército.”
Este relato mostra que apesar das dificuldades enfrentadas por nossos Pracinhas, eles não perderam seus valores adquiridos em uma educação pautada no respeito ao próximo, característico do homem simples brasileiro.
Fontes: “E foi assim que a Cobra Fumou” – Elza Cansanção – 1987
“ Nas trilhas da 2ª Guerra Mundial – Carmen Lúcia Rigoni – 2001
Citações de Combate da Força Expedicionária Brasileira – Parte II
Soldado João Martins da Silva, do I Regimento de Infantaria – IG – 224.132. Estado do Rio de Janeiro.
Em 23-2-1945:
Eis outro episódio que, na sua simplicidade, reflete as belas virtudes do soldado brasileiro.
Durante o bombardeio do seu posto em BELAVISTA, foi atingido por três estilhaços de granada o soldado MARTINS. Assim ferido, deixou-se ficar no mesmo lugar sem uma queixa sequer. E ali permaneceu cerca de oito horas. Sabedor do fato pelos companheiros do soldado ferido, o Comandante do Pelotão determinou sua evacuação. No posto de socorro, interrogado pelo médico, porque resolvera calar sobre seu estado de saúde, respondeu-lhe simplesmente que, ciente de que os alemães iram lançar contra-ataques, decidira não se afastar do posto para ajudar a repeli-los uma vez que o Pelotão se encontrava desfalcado e ainda se sentia forte. Possuía, realmente, o soldado MARTINS, a tempera do verdadeiro combatente. O seu exemplo, pela sua grandeza e pelo estoicismo envaidece a tropa brasileira.
__________________________
Soldado ROMEU SIQUEIRA MACEDO, do I Regimento de Infantaria – 1G – 266.733. Estado do Rio de Janeiro.
Em 23-2-45
O seu Pelotão atacara e se apossara de LA SERRA, e agora se esforçava para manter o terreno conquistado, eliminando as resistências alemãs que ainda perduravam o cumprimento integral da missão. No curso da ação já se havia distinguido o Soldado Romeu. Agora, como esclarecedor de uma patrulha, devia reconhecer uma posição inimiga que se revelara poucos momentos antes. Avizinhando-se dessa posição, ele ouve rumores partidos do interior do abrigo. À porta do citado abrigo, surge-lhe inesperadamente, um adversário: o soldado Romeu logo tomara a iniciativa e o faz prisioneiro, e a resistência foi reduzida.
O desassombro, a decisão inflexível e rápida, a vontade forte do Soldado Romeu, são belos exemplos que tenho o prazer de apontar à tropa brasileira.
_______________________
Soldado ISINO NEUMAN, do I Regimento de Infantaria – 2G – I26.883. Estado de Santa Catarina.
Em 23-2-45
Pertencia ao Grupo de Comando da 6ª CIA. Esta subunidade se empenhava com raro vigor, na conquista da linha LA SERRA COTA 958.
Partira ela, ao ataque, na noite de 23 e, para cumprir a missão, necessitava que funcionassem sem interrupção seus variados meios de transmissão. O sargento e o soldado de transmissão haviam baixado ao hospital. Entretanto a presença do soldado ISINO era uma garantia para que as transmissões não falhassem: tomou sob a sua responsabilidade exclusiva a integridade das ligações de rádio S.C.R 300 com o batalhão, S.C.R. 536 com os pelotões, e telefônicas com 6 pelotões de fuzileiros e petrechos. Toda vez que os bombardeios lançavam a procura de ponto de ruptura dessas linhas e imediatamente fazia as reparações indispensáveis. O desejo ardente de servir à causa de seu país superava toda a dificuldade e guiava as ações no ataque.
A iniciativa, o ânimo forte brasileiro, o destemor, a noção perfeita do cumprimento do dever, a capacidade profissional, do soldado ISINO são exemplos de realce, que deve apontar a todos os quantos combatem neste setor da FEB.
A Morte de Frei Orlando
Vamos publicar duas visões sobre uma das baixas mais sentidas pela tropa brasileira na Itália, infelizmente o Frei Orlando caiu ferido por um trágico acidente que tirou a vida de dos mais queridos integrantes da FEB.
Essas visões são foram extraídas das seguintes publicações: De São João del-Rei ao Vale do Pó, / Frei Orlando, os dois de Gentil Palhares
As duas visões são complementares e bastante interessante, narrando um triste acontecimento.
_____________________
Frei Orlando, Capelão do Batalhão, estivera pela manhã do dia 20 de fevereiro de 1945, no desempenho de seus deveres funcionais, em visita as posição da 4ª Cia., na região entre Falfare e Columbura. A zona da 4ª e a 6ª Companhias, esta indo de Falfare a Bombiana, eram as que estavam sendo mais castigadas pelos alemães. Por isso, Frei Orlando, no observatório do Batalhão, em Monte Dell’Oro, manifestou ao Major Ramagem, seu Comandante, a intenção de visitar também a 6ª Cia. Quis, então, atingir as posições dessa Companhia pelo caminho mais curto, que ia do observatório a casa M di Bombiana e desta a Bombiana. Mas o Major Ramagem não concordou com esse itinerário, pois, na ocasião, estava todo ele sendo pesadamente batido pelos alemães. Sugeriu ao Capelão que do observatório ganhasse a contra-encosta de Monte Dell’Oro e fosse até o PC do Batalhão em Docce, de onde poderia chegar às posições da 6ª por um caminho menos exposto.
Frei Orlando encaminhou-se para Docce pelo itinerário lembrado pelo Major e achava-se à margem do caminho que ligava o PC do Batalhão ao ponto cotado 789, a 300 metros de Bombiana, quando por ele sua eu num “jeep”, para esta última região. O Capelão, inteirado da direção da viatura, nela tomou lugar. No “jeep” já se encontravam o Cabo Gilberto Torres Ruas, motorista, um praça do II Batalhão e um militar italiano, posto à disposição do Regimento, para os serviços de transporte em montanha.
Frei Orlando, em caminho, depois de dizer o que fizera pela manhã e o que pretendia fazer, falava de uma irradiação feita pelos holandeses livres para a parte ocupada de seu país. A uma observação qualquer chegou a soltar uma das suas costumeiras gargalhadas. O “jeep” marchava lentamente pelo caminho conduzindo ao ponto cotado 789, quando, de repente, estaca, imobilizado por uma pedra. Prendia esta o eixo dianteiro. Os passageiros conseguem retirar a viatura, que é posta alguns metros além da pedra fatídica. Tomo a manivela do “jeep” e me esforço para removê-la. O italiano, no intuito de ajudar-me, recurva-se junto à pedra e também tenda retira-la a violentas coronhadas de sua carabina. Esta dispara. Frei Orlando, que se achava parado a uns três metros, é atingido pelo projétil, solta um grito e leva a mão ao peito, dá alguns passos à frente, tirando, ao mesmo tempo, com a mão direita, do bolso do casaco, o seu terço e balbuciando, às pressas, uma Ave-Maria. Corro para ele e o faço deitar-se à margem do caminho. A oração, apenas começada, é abafada pelo ofegar da agonia. Tudo isso, desde o fatal disparo, dura uns dez segundos.
Retorno rapidamente a Docce, em busca de socorro médico e trago o Capitão João Batista Pereira Bicudo, facultativo do Batalhão. Este pôde apenas verificar achar-se morto o Capelão, desde o momento, talvez, em que acabara de ser deitado à margem do caminho. O italiano abraçado ao corpo do Capelão, chorava e se lamentava. Um pastor das redondezas contemplava esta cena. O médico descobre-se, persigna-se e reza pela alma de Frei Orlando, no que é seguido pelo Capitão e pelo Cabo.
Eram, aproximadamente, 14:00 horas do dia 20 de janeiro de 1945…
obra: De São João del-Rei ao Vale do Pó
__________________
No dia 21 de fevereiro, às 5h30 da manhã, foi dada a partida para a conquista definitiva do Monte Castelo. As notícias que chegavam era da impetuosidade dos nossos companheiros galgando resolutamente as posições a serem atingidas, inclusive o topo do Monte Castelo. Mas, por outro lado, afirmavam haver muitas perdas e muitos feridos. Frei Orlando, sabendo de tudo isso, ficou em profunda emoção e a todos externou que seu lugar era na frente, cuidando de seus soldados. Ele então reuniu seu equipamento, apanhou o estojo de hóstias e saiu morro acima, galgando a estrada. Houve tentativas de demovê-lo, mas foi em vão. Frei Orlando era teimoso demais quando se tratava de levar o conforto espiritual aonde quer que fosse. Pôs-se a galgar os caminhos tortuosos de Monte Castelo sob o bombardeio cerrado da artilharia de morteiros e armas automáticas inimigas; avançando com cuidado, quando já estava nas imediações da 6ª Companhia, itinerário recomendado pelo seu comandante de Batalhão. Major Ramagem, a mais ou menos 300 metros de Bombiana, passa por ele um jipe que lhe deu carona, pois o destino de todos era o mesmo. Seus ocupantes eram os seguintes: capitão Francisco Ruas, cabo Gilberto, o motorista, e um sargento italiano (guia alpinista à disposição das tropas brasileiras). O jipe seguia normalmente quando a estrada piorou e o eixo dianteiro ficou preso por uma pedra. Vários recursos foram utilizados, inclusive com ferro da manivela. Infelizmente, o sargento italiano, com o intuito de ajudar, martela violentamente com a proteção metálica da carabina, que dispara e fere mortalmente o Frei Orlando, este triste fato foi largamente comentado por todo o front como uma das maiores perdas de nossa FEB. O lastimável fato aconteceu justamente quando Monte Castelo estava praticamente dominado. A lutar é renhida, o escalão bordeja, ataca, toma pé nos últimos 277 metros de altura. Súbito, um foguete luminoso corta os ares, sendo assinalado pelos postos de observação três estrelas verdes, que no código de sinais objetivo conquistado.
obra: Frei Orlando
- Veteranos da ANVFEB-PE, Visitam o local do acidente que tirou a vida do Frei Olrlando
- Frei Orlando é patrono do Serviço Religioso do Exército
- Cartas enviadas do front pelo Frei
- Placa lembra o local do acidente na Itália
A FEB – Lendas e a Verdade Histórica – Parte II
A FEB e o Governo de Vargas
Criamos alguns tópicos para explicar os diversos itens que suscitam dúvidas e inverdades sobre a FEB
De quem foi a ideia de enviar tropas para o exterior?
Quando houve o alinhamento das posições brasileiras com os americanos a partir da Encontro de Chaceleres em janeiro de 1942, no Rio de Janeiro e o consequente rompimento das relações diplomáticas com as nações do Eixo, o país se preparou para a retaliação dos alemães. Isso fica evidenciado com a atuação dos embaixadores Ugo Sola, da Itália e Kurt Prüffer, da Alemanha, esse diplomatas realizaram encontros, reuniões para deliberar contra as aspirações americanas e o alinhamento brasileiro, inclusive com ameaças veladas, afirmando que o rompimento das relações diplomatas acarretaria consequências beligerantes entre as nações; o Embaixador Itaro Ishii também agia enviando cartas diretamente ao Ministro da Guerra, General Dutra. Nada adiantou, o Brasil em 28 de janeiro rompe as relações com o Japão, pelo ataque a Pearl Harbor, e com Alemanha e Itália, pela declaração de guerra contra os EUA.
Esse episódio inicial da posição brasileira abriu uma consequência e um fato, primeiramente o torpedeamento de navios brasileiros na costa do nosso país por submarinos alemães. E isso é um fato irrefutável, mas que não cabe nesse momento uma argumentação sobre assunto nesse artigo; a segunda é a fragilidade das defesas brasileiras, principalmente no nordeste, que não ofereceria qualquer tipo de resistência a uma possível incursão inimiga. Sabedora das deficiências brasileiras, um dos acordos realizado pelos Estados Unidos e o governo brasileiro era a criação de uma Comissão Mista de Defesa Brasil-Estados Unidos (Join Brazil/Unided State Defense Commission), essa comissão iria estabelecer as bases para cooperação militar, envio de material bélico e ajuda econômica com o objetivo de defesa do continente, a partir do território brasileiro. Contudo na reunião de 27 de agosto de 1942, na presença do General Leitão de Carvalho, chefe da delegação brasileira, foi informado pelo Major General J. Geresché Ord, que a estratégia dos Aliados e as operações que ocorriam nos diversos teatro de operações seguiriam um postura ofensiva, isso implicaria em mudança de postura em relação as expectativas brasileiras, principalmente para aquisição de material bélico na defesa do litoral brasileiro e o reaparelhamento das Forças Armadas. Ord confirmou a indicação americana de limitar a contribuição a quadros de instrução para o material técnico e o mínimo de homens necessários para esse fim.
Com a mudança de estratégia americana houveram divergências entre os dois governos, e o Brasil insistiu no envio do material para proteção do litoral. Uma das formas de manter as negociações abertas para o suporte econômica-militar americano, foi quando o Brasil manifestou interesse na formação de um contingente a ser enviado para um Teatro de Operações. A partir desses entendimentos ficou estabelecido a continuidade do apoio logístico e a criação de uma Força Expedicionária constituída de um Corpo de Exército formado por 03 Divisões de Infantaria e elementos de Corpo, com as seguintes características:
1. Organizada e estrutura igual à adotada nos Estados Unidos;
2. Organização de uma Força Aérea Expedicionária de cooperação;
3. Os Corpo Expedicionário e a FaE ficariam subordinadas ao Alto Comando Americano;
4. Utilização das instalações e dos serviços do Exército americano no Teatro de Operações;
5. O material da Força Expedicionária seria de origem norte-americana;
6. 50% do material seria entregue no Brasil, para instrução;
7. Técnicos norte-americanos seriam enviados para o Brasil, quando requisitados;
8. Oficiais do Corpo Expedicionário e determinados números de oficiais das Escolas de Centros de Instruções do Exército brasileiro, iriam estagiar no Exército americano;
9. O pagamento da tropa, fora do continente, seria em dólares;
10. A Força Expedicionária brasileira ficaria sob a jurisdição da Justiça Militar Brasileira.
No final das contas, o Presidente Getúlio Vargas sabia exatamente dos riscos que corria no envio de uma tropa para uma guerra que se arrastava há mais de cinco anos, mas ele viu uma oportunidade política e econômica. Na verdade o Governo não queria enviar tropas ao exterior, mas também não queria se indispor com seus Aliados, principalmente os Estados Unidos, tendo em vista a grande quantidade de equipamentos militares que chegavam ao Brasil e os Acordos econômicos que estavam sendo traçados. Ele queria formar uma Força Expedicionária, mas “para inglês ver…”, na verdade para “americano ver”.
O Ponto Mais Avançado das Linhas Brasileiras no Carnaval de 45.
É sábado, véspera de carnaval, e a voz do Major Henrique Oest chega do outro lado do telefone de campanha.
– Venha. A coisa está divertida. Esperamos você para almoçar.
A chuva rala que caiu durante toda a noite e transformou o cominho branco de ontem numa estrada de lama fofa é agora um aguaceiro pelado. Lembro-me das trovoadas no Nordeste, mas o pracinha de São Borja, que guia um jipe, me diz que as chuvas no Rio Grande não são como estas aqui na Itália.
– Lá é uma chuva limpa, a gente vê as coisas através dela. Aqui tudo fica escuro, como se estivesse caindo do céu água suja.
O Posto de Comando do Major Oest está exatamente a 17 quilômetros do nosso QG Avançado. É a posição brasileira mais próxima das linhas inimigas – um nariz pontudo que se intromete pelas linhas alemãs. “Um nariz cheirando as barbas nazistas”, como me explica, apontando no mapa, o tenente Turvo.
Neve e gelo são inconveniências que dentro em pouco deixarão de exisitir. As pequenas cascatas que descem dos Apeninos , e que o duro inverno havia cristalizado, começam a se dissolver e algumas já caem livres, de uma água extremamente clara, como linfas. O comaço do fim do inverno, com suas chuvas diárias que prenunciam a chegada da primavera, cobre agora tudo de uma lama grossa e escura que é o terro (e o martírio) das viaturas, que nela se atolam. Neve, agora, somente nas cristas mais elevadas das montanhas.
– Mas o inverno ainda não acabou. De uma hora para outra pode acontecer uma nevasca repentina. Acontece sempre.
Quem me diz isto é o paisano que, no meio da estrada, o jipe ia atropelando, a fumaceira artificial tirou-nos toda a visibilidade; e de minuto em minuto, como um contochão, repete-se a melopeia da guerra: os tiros da Artilharia brasileira, que rebentam próximos, e a resposta dos alemães, que respondem de suas posições já nos cumes. Os obuses dos artilheiros da FEB passam assoviando sobre nossas cabeças, e talvez não seja bem um assovio – é mais um gemido doloroso, como um grito de alguém se torcendo de dor. Conto mentalmente os segundos, e a granada explode 100 ou 200 metros além, em meio aos pequenos agrupamentos de casas de camponeses, cercadas de seus cones de feno, agora quase todas duramente atingidas pelos projéteis, nossos e deles. Pela décima ou vigésima vez ouço a advertência do PM (Polícia Militar), uma voz de paulista do interior que me chega do outro lado da barreira de fumaça:
– Os tedescos estão craqueando o caminho. Acho bom o senhor ainda depressa
Craquear é um verbo novo por aqui na frente brasileira significa algo de perigoso e incômodo: quer dizer que os alemães (ou “tedescos”, como preferem dizer os pracinhas, que já vão engrolando o seu italiano) estão castigando o caminho com obuses de canhão e granadas de morteiros, visando qualquer viatura ou comboio de abastecimento que passe por ali; ou, então, a ponte improvisada que, sobre o estreito riacho, liga as linhas avançadas à retaguarda. Mais adiante, outro PM nos previne que nosso jipe está muito próximo dos grandes caminhões que seguem à frente: “É bom manter distância. Ajuntamento pode chamar a atenção dos tedescos.” Paramos por alguns minutos, enquanto as pesadas viaturas se adiantam lá na frente. Uma granada explodiu na grama já livre da neve, bem lá na frente do pequeno e estreito vale. Um partigiano se aproxima do jipe e nos pede cigarro. É um rapaz corado e forte, metido numa roupa azul, com eu fuzil-metralhadora dependo de uma correia que ele traz no ombro direito. Pergunta para onde vamos. Responde e ele, sem pedir licença, pula para o banco de trás do jipe. Irá conosco.
Quando corremos 13 quilômetros e agora temos que deixar a estrada principal. O jipe sobre a encosta elameada aos solavancos, derrapando na lama, ameaçando atolar-se nela. O partigiano nos deis uns 500 metros antes do nosso destino, e já passa das 10 da manhã quando chegamos ao PC do Major Oest.
Ele agora traz um bigode que cai em pontas e parece ter engordado alguns quilos – ou então é o pesado uniforme (ou as várias camadas dele) que o faz assim, mais largo e mais troncudo. Leva-me por um braço para a pequena sala do andar térreo, na casa contadina, onde está reunida a sua oficialidade. E é nesta sala que escrevo agora, nesta véspera de carnaval. As paredes estão cobertas de mapas, pin-up girls e páginas de revista O Cruzeiro com história do Amigo da Onça. Há também um grande mapa da Europa, com a frente oriental toda riscada de linhas vermelhas e azuis. As setas brancas indicam avanços soviéticos: Zhukov vem por aqui, Cherniakovsky por ali.
– Você ficará por aqui alguns dias. E não adianta reclamar. Já mandei seu jipe de volta.
Não adianta reclamar: a partir de agora sou um homem isolado do mundo, preso neste PC avançadíssimo, e só sairei na próxima quarta-feira.
– Trouxe cama-rola?
– Não.
– Não há de ser nada. A gente arranja umas mantas.
Fica então acertado o seguinte programa a seu respeito: trabalharei aqui no “coração da frente”, que é o nome que deram a esta sala fumacenta e abafada, me explicam . Farei as refeições no PC da 6ª Companhia, que o cozinheiro de lá é melhor. À noite me acomodarão num dos quartos onde a Companhia tem sua sede e partilharei, ali, o reduzido espaço onde já estão aboletados o Segundo-Tenente Médico Hélio Reis Leal, de São Paulo, dois padioleiros, dois sargentos, o paisano, Massino e sua filha Inez, uma moça risonha que não deve ter mais de 16 anos.
O Major Oest me leva até a janela do lado, um reduzido buraco aberto na compacta parede de pedra:
– Olhe já para baixo e veja o que eles fizeram ontem. Mas não fique muito tempo com o rosto exposto. Podem acertá-lo.
Diviso, lá em baixo, um número sem conta de crateras abertas no chão, como feridas negras, de mau aspecto.
– Nosso carnaval começou cedo. Os tedescos começaram a atirar no fim da tarde. Morteiros e metralhadoras. A parede lá de baixo está toda pipocada. Mas em compensação não demos colher de chá. Mandamos confete que não acabava mais.
Depois o major me leva até o Capitão Joaquim da Rosa Cruz:
– Tome conta do Correspondente e o conduza até os foxholes lá em cima.
E virou-se para mim:
– Se tiver sorte poderá ver os alemães em cima das cristas.
Estamos os dois, eu e o capitão, a chapinhar sobre a lama.
– A guerra faz da gente um animal anfíbio – me diz ele. Me diz também que é de Porto Alegre, onde deixou esposa e filhos. Respondo que o carnaval do ano passado eu estava em Porto Alegre.
O Capitão responde:
– Eu também. Dançando no Clube Comercial.
Agora sou eu que digo:
– Eu também.
– Pois veja só que é a vida. Agora, neste carnaval de 45, estávamos novamente juntos. Será que estaremos no de 46?
Quem sabe? Se tal acontecer, certamente passaremos horas a comentar o instante de agora, falando deste carnaval de lama, granadas que explodem, das saudades que nos atormentam. O capitão murmura qualquer coisa que não escuto direito. Ele repete:
– Vamos fazer uma pausa para tomar folêgo, pois temos que subir até lá em cima, bem no cocuruto, onde estão os pracinhas. Vai ser uma dureza.
Respondo que guerra é guerra. Ele concorda:
– É
A última etapa é feroz: o caminho é quase vertical, de forma que para vencê-lo temos que nos segurar forte nas duas grossas cordas esticadas que, num arremedo de corrimão, descem lá do ponto mais alto. E sob nossas boras e lama tem a consistência de manteiga. Mas vamos lá.
O capitão ajeita o capacete de aço e pergunta:
– Pronto?
Depois me entrega uma das cordas, segura a outra, e lá vamos nós. A chuva continua a despencar, mas o field Jacket americano, de uma espessura blindada, e mais o esforço da subida não me deixam sentir frio. Nossas botas se enterram na lama além do tornozelo, às vezes derrapamos – e meu coração treme quando a encosta me parecer faltar aos pés. Lá embaixo, sei, é o abismo, encoberto pela fumaça.
Mas chegamos, finalmente. O capitão me explica:
– Somos aqui como uma espécie de península. Os alemães estão à nossa direita, em cima daquele morro que parece o perfil de uma mulher – está vendo? Estão também à nossa esquerda, naquela colina ali. De suas privilegiadas posições eles podem facilmente nos visar com seus morteiros e metralhadoras, mas a verdade é que nossa capacidade de fogo é maior. Não deixamos sem resposta um só tiro deles.
Aponta para um caminho estreito, do outro lado da terra de ninguém:
– Aquela estrada é vital para eles. Todas as noites eles têm que passar por ali suas viaturas, com víveres e munições. É aí que nós entramos.
Um sargento aparece, barba de dias (ou de meses), pergunta:
– É o Capitão?
– Sou eu, sim. Estou aqui com o Correspondente.
Vencemos os últimos metros e aqui estamos nas posições deste que é sem dúvida o mais ingrato setor de toda a frente brasileira, defendido pelo 6º Regimento de Infantaria. O Sargento Zózimo de Almeida, de Jacareí, São Paulo, entretém um diálogo com o capitão.
– Voltaram? – pergunta o capitão.
– Voltaram. Mas nós carregamos em cima deles.
– E a torre?
– Hoje de manhã foi alvejada com metralhadoras. Mas nós respondemos logo.
– Alguém ferido?
– De gravidade, nenhum. E dois foxholes afundaram na lama, ontem à noite. Mas já estamos cavando outros.
– À nossa retaguarda se enfileiram uma dezena de trincheiras individuais – os foxholes – e lá em cima, no ponto mais elevado do morro, há uma outra fila irregular. São simples buracos cavados no chão e que abrigam o pracinha e sua metralhadora. Há revezamento de tanta em tantas horas – os homens lá e cima trocam de posição com os homens de baixo, numa permuta que se repete durante o dia e à noite.
Lá nos foxholes mais altos – limite extremo de nossas posições em todo o setor apenino – encontramos, barba crescida, cabelos emaranhados e sobrando no capacete, pés metidos na lama, os soldados brasileiros que no momento mais próximos se encontram na linha de frente alemã. São pracinhas que neste fim de inverno vêm realizando um trabalho penoso de toda a frente defendida pela FEB. Muitos deles não tomam um banho de verdade há mais de um mês – e o sonho de todos, o imediato, é a possibilidade de passar um ou dois dias, ou mesmo apenas algumas horas, no QG Avançado do General Mascarenhas, em Porreta-Terme, situado noutro fundo de vale, a uns 30 quilômetros daqui.
Agora vamos fala da “casa dos pombos”
– Ela não é nossa nem deles – me explica o capitão. – Ou melhor, é nossa e é deles.
Ergo um pouco a cabeça, apenas uns cinco centímetros além do foxhole, e vejo-a lá embaixo, plantada no centro de vale, com o seu andar de cima deformado pelso obuses – nossos e deles. Pombos alvos como a neve passeiam tranquilos pelos escombros, beliscam aqui e ali, vão e voltam revoltados.
– Aquela é uma casa como que à margem da guerra. Quando os tedescos querem melhorar a bóia, organizam patrulhas noturnas com o objetivo de apanhar alguns perus e galinhas que lá se encontram, às dúzias. Nós, então, contra-atacamos. Já aconteceu até que duas patrulhas, uma nossa e outra dele, encontraram-se no meio do caminho, a apenas alguns metros da casa, que continua habitada: um casal de velhos e duas mulheres, talvez viúvas. Nessa noite não se resolveu coisa nenhuma.
– O sargento Zózimo interrompe para informar que não há mais galinhas nem perus, e que os alemães agora estão caçando os pombos:
– Eles em cima dos pombos e nós em cima deles.
Voltamos pelo mesmo caminho – e a descida se torna ainda mais perigosa, como escorregar sem defesa por um tobogã. De volta, enquanto tiro penosamente as bota enlameadas, no terreiro do PC, lembro-me mais uma vez que hoje é sábado, véspera de carnaval. “Uma ano atrás eu estava em Porto Alegre e à noite dancei no Clube Comercial”, penso. E parece que escuto a voz do Capitão Rosa dizer: “Eu também”.
Fonte: Joel Silveira/Thassilo Mitke – A Luta dos Pracinhas – A FEB 50 anos depois – Uma visão diferente.
Como o inimigo semeia a morte!
Artigo enviado pelo Pesquisador Rigoberto Souza Júnior sobre o comportamento dos alemães durante a campanha da Itália. Agradecemos mais uma vez a inestimável colaboração.
__________
Crônica de Ruben Braga, correspondente do “Diário Carioca” – Fevereiro de 1945
Pode acontecer, por exemplo, o seguinte: você se esconde atrás de um arbusto e, naturalmente apoiará sua mão em um galho. Há um fio de arame ligado a este galho. Este arame aciona uma ignição, tipo zz-42, que é um tipo de espoleta alemã tão popular que já existe um “jeep” nosso com este nome. O resultado é uma detonação de 3 cargas explosivas que estão escondidas de baixo de monte de pedras ali, pertinho do arbusto, e em vista disso, você sai deste mundo para outro – provavelmente melhor – pois não acredito que seja muito pior.
Coisas semelhantes podem acontecer se, descendo um morro, você tropeça em um fio qualquer ou, abre uma porta inadvertidamente ou, se abaixa para apanhar um capacete nazista que pensa em levar como “ricordo” para o brasil e pendurar na parede da sala de visitas. Os homens do Pelotão de Minas de nossa Infantaria, ou das seções de nossa Engenharia já conhecem estas coisas, e sabem que não basta plantar minas para o inimigo nem colher as que o inimigo planta. É preciso prever a necessidade de você mesmo ter de retirar as minas que lançou. É para isso que se faz a “amarração” dos campos minados, isto é: marca-se direitinho o lugar em que a mina está enterrada: a 3 metros naquele pau de cerca da direção precisa daquele tronco de oliveira. As outras minas são dispostas em relação àquela, formando figuras geométricas, pois assim fica mais fácil de localizar as minas enterradas, quando, no lugar de temer um ataque inimigo os nossos homens é que tarão de avançar.
E, agora uma coisa importante: os mineiros alemães não estão fazendo isso. Nossos homens já tem colhido uma safra abundante de minas alemãs e italianas, desde as grandes “telerminen” que destroem tanques de guerra, até as pequenas “schulterminen”, que arrancam o pé de quem a pisa. E essas minas alemãs estão semeadas sem nenhuma ordem ou simetria, o que se deduz daí com muita probabilidade é que o alemão não pretende voltar pelas estradas por onde se retirou.
Certamente o nosso comando sempre prevê a hipótese de um ataque ou um golpe de mão do adversário, mas de um modo geral o nazista sabe que não voltará.. Lenta ou apressadamente, do sul para o norte, do ocidente para o oriente, o alemão recua – e sabe que não voltará. Chegará um dia, talvez próximo, em que ele não terá mais para onde ir a não ser para o inferno.
Sim, este soldado alemão desta guerra está condenado – mas o fascismo pode voltar, e estamos chegando ao momento de decidir este problema: fazer com que o nazista não volte – com este nome, ou com qualquer outro nome, na Alemanha ou fora dela. Ele pode brotar outra vez do chão – na Europa ou na Ásia, ou também na América. E que ninguém se iluda: acabar com as injustiças nacionais e sociais que são o caldo da cultura do fascismo e das guerras, será uma grande luta do povo, e uma luta mais dura ainda. Mas, creio que vale a pena lutá-la, pela mesma razão que vale apena lutar esta guerra de hoje.
Tenho um filho. É ainda um menino – tem muitos caminhos a andar no mundo, e não pretendo que ele sempre ande por estradas de rosas, como um pequeno vagabundo no Reino da Felicidade, mas eu pretendo que ele nunca precise andar pelos caminhos que os Pracinhas Brasileiros estão trilhando hoje.
A terra não foi feita para plantar minas: mas essa terra dos homens, em que se plantando dar-se-á nela tudo. Essas lavouras do futuro que meu filho e vosso filho vão colher amanhã – nós é que semearemos agora.
Fonte: “Scatoletas da Itália” – a BBC e as Forças Brasileiras – 1944-1945
P.S.: Scatoletas era como os italianos chamavam as caixas de ração que os soldados recebiam diariamente.
A Reintegração Social dos Ex-Combatentes da FEB – Parte III
BRASIL: CONDUZIDO AO CONFLITO ARMADO
A abordagem sobre o direcionamento político, que aconteceu no cenário brasileiro, se torna importante para que possamos ter um entendimento de como foi demorada a tomada de decisão de apoiar, militarmente, os países aliados. Também, auxilia na compreensão de como teve que se organizar às pressas e de forma desordenada esse efetivo, que comporia a Força Expedicionária. Esse contingente foi mobilizado sem organização, fruto, principalmente, da inexperiência em guerras, situação que permaneceu presente na mobilização, participação e desmobilização da FEB, direcionando para a problemática social que se apresentou ao findar da participação brasileira no episódio da Segunda Guerra Mundial.
Com a Revolução de 1930, Getúlio Vargas é levado à presidência da República, conforme análise de Ricardo Seitenfus:[1]: “Em outubro de 1930, um movimento armado conduz o gaúcho Getúlio Dornelles Vargas à presidência da república. A Primeira República conhece seu ocaso e tem início a Era de Vargas”. Após passar pelo governo provisório (1930-1934) e pelo governo constitucional (1934-1937), apoiado por militares e pela população, Getúlio Vargas derrubou a constituição e declarou o Estado Novo (1937-1945). Com o advento do Estado Novo, em novembro de 1937, “Vargas passou a governar com poderes ditatoriais, iniciando oito anos de domínio incontrastável.”[2]
Iniciava-se um período de ditadura na História do Brasil. Alegando a existência de um plano comunista para a tomada do poder (Plano Cohen) Getúlio fechou o Congresso Nacional e impôs ao país uma nova Constituição, que ficaria conhecida mais tarde como “Polaca”, por ter se inspirado na Constituição da Polônia, de tendência fascista. O governo de Getúlio Vargas contava com grande apreço popular e tinha como meta principal enquadrar o Brasil em uma era de desenvolvimento. Procurando uma autonomia em bens industriais, não desejava que o país continuasse tão dependente das economias internacionais.
O país contava com uma economia muito dependente. O que vem dar mostras dessa fragilidade econômica foi à crise de 1929, na qual foi grandemente reduzida à compra do café brasileiro, produto que servia como base da economia nacional, fazendo com que as preocupações de uma industrialização tomassem lugar de destaque, como explica Ricardo Seitenfus:[3]:
A crise econômica mundial de 1929 mostrou bem que o Brasil não mais poderia continuar a depender inteiramente do estrangeiro para o suprimento de bens industriais. A importância da siderúrgica para o Brasil e para sua política externa é imensa: Getúlio Vargas a considerou o “problema básico” da economia brasileira. Enquanto não resolvido, o Brasil não reconheceria “a opulência econômica”. A partir de outubro de 1930, a implantação de um complexo siderúrgico tornou-se um dos elementos chave do programa getulista, condicionando a atitude brasileira em relação à Alemanha e aos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial (p. 04)
A política comercial brasileira partiu para a tentativa de diminuir as barreiras que o protecionismo internacional impunha, procurando uma aproximação com as nações que dominavam os mercados pelo mundo. O Estado Novo foi marcado pela expansão industrial e pelo crescimento das exportações nacionais: “O país apresentava uma estrutura agrária, com o café respondendo por 70% das exportações e 60% dos seus quase 40 milhões de habitantes vivendo em áreas rurais.”[4]
Desde o final de 1935 o governo havia reforçado sua propaganda anticomunista, amedrontando a classe média e de certa forma preparando a mesma para prestar seu apoio. O Golpe de Getúlio Vargas teve sua articulação com apoio dos militares, contando também com o apoio maciço da sociedade. Dessa forma, conseguiu uma centralização política que, desde então, se desencadeava. Vargas impôs a censura aos meios de comunicação, reprimiu a atividade política, perseguiu e prendeu inimigos ligados a ela, adotando medidas econômicas nacionalizantes e deu continuidade a sua política trabalhista com a criação da CLT[5], em 1943.
Desde a sua ascensão ao poder, a política getulista sempre seguiu a esteira das políticas totalitárias e ditatoriais. Fato esse que, com a proximidade do evento da Segunda Guerra Mundial, a sociedade e até mesmo o meio militar ficava duvidoso de qual seria sua decisão, a quem prestar apoio, como analisado por Roney Cytrynowicz[6]:
Como terceiro e “outro” fator aparece a guerra que já em 1939 “produzia seus efeitos no Brasil, pois, como se não bastasse a ditadura do Estado Novo, havia o temor de que Getúlio Vargas optasse por alinhar o país ao lado da Alemanha nazista.
Embora identificado com os regimes totalitários europeus, o Estado Novo getulista conservava-se neutro em relação ao conflito que eclodira em 1939, neutro quanto aos Estados liberais e ao nazi-fascismo europeu. As riquezas minerais, como, por exemplo, o minério de ferro em grande quantidade, era estrategicamente ambicionado pelos dois lados, pois essas matérias-primas seriam utilizadas para a fabricação de arsenais de guerra, tecnologia que, nesse período, estava em pleno desenvolvimento.
Apesar das pressões norte-americanas, o governo continuava indeciso. E essa indecisão era reflexo das tendências contraditórias dos homens do governo: enquanto Filinto Müller, chefe da polícia do Rio de Janeiro, e Francisco Campos, Ministro da Educação, eram favoráveis às potências fascistas do eixo Berlim – Roma – Tóquio, Osvaldo Aranha, ministro das Relações Exteriores, colocava-se contra. Entre as duas tendências oscilavam os generais Góis Monteiro e Dutra.
Todavia, muito preocupavam aos Estados Unidos as ligações comerciais que o Brasil mantinha com a Alemanha e, principalmente, a postura tomada por Vargas diante da ideologia dos países do Eixo. Em 1940, Vargas citou em um discurso as qualidades do Eixo. Isso fez com que todos acreditassem na possibilidade do Brasil, em breve, se unir a eles, até porque o Estado Novo era um governo que se identificava com os regimes totalitários europeus. Mas apesar do fato do presidente ser um simpatizante do regime alemão, “economicamente, nas circunstâncias, o Brasil não podia viver sem os Estados Unidos. A Alemanha não era bastante grande para substituí-lo em nossos negócios.”[7]
Segundo Roberto Gambini[8]:
Deve ficar bem claro que essa possibilidade de um duplo sistema comercial foi usada, mas não criada pelo Brasil. À medida que se concretizava as medidas que definiam a aliança entre Brasil e Alemanha, os Estados Unidos concentravam seus esforços para subverter o comércio entre os dois países, visando impedir que a Alemanha prosseguisse em sua marcha armamentista.
Sendo assim, o governo determinou através do DIP[9], que qualquer meio de comunicação permanecesse neutro ao relatar notícias da guerra que acontecia na Europa, uma vez que a censura era rigorosamente exercida em todas as ocasiões. A inclinação a favor das potências aliadas deu-se a partir do sucesso das negociações de empréstimos entre o Brasil e o Eximbank, em 1941. Já na II Conferência de Consulta dos Chanceleres no Rio de Janeiro, em meados de janeiro de 1942, a aliança política entre Brasil e Estados Unidos foi efetivada. Tornou-se inevitável naquela ocasião o rompimento das relações diplomáticas com o Eixo. Em março do mesmo ano, o comprometimento do Brasil se aprofundou, com a assinatura de um acordo que permitia aos Estados Unidos a utilização das costas nordestinas como bases aeronavais.
A participação direta do Brasil no conflito mundial aconteceu após repetidos ataques aos navios brasileiros por parte da força submarina alemã. Cerca de dezoito navios foram perdidos nesses ataques, realizados até em águas brasileiras. Além das perdas materiais, foi grande o número de brasileiros mortos, conforme analisado pelo Marechal Floriano de Lima Brayner[10]:
Foram grandes as nossas perdas, em embarcações e vidas preciosas. E deste modo registrou-se a inevitável exaltação do amor próprio nacional, e mais de se acentuou a nossa aproximação aos Aliados Ocidentais. Em 22 de agosto de 1942, o Brasil rompia relações com os países do Eixo Berlim-Roma em seguida ao cruel afundamento do Afonso Pena, por um submarino, nas costas da Bahia, e do Aníbal Benévolo, Baependi, Araraquara, Itagiba e Arara, entre 15 e 16 de agosto de 1942, a 8 milhas da costa de Sergipe, fazendo 653 vítimas.
Até o momento que ocorreu o fato acima citado, a política getulista tinha um alinhamento com as ideologias ditadas pelos países do eixo, em especial com a Alemanha, como abordado anteriormente. Quando ocorre esse episódio, o sentimento de simpatia transforma-se em sentimento de justiça como explicado por Italo Conti[11]:
Realmente era admirável a forma da política alemã e Getúlio Vargas fez um discurso muito ambíguo, dizendo que forças novas estavam surgindo no mundo, realmente dava a entender que estava com pensamento a apoiar as ideologias alemãs, as quais estavam sendo vitoriosas. Mas no instante que virou a opinião pública do Brasil, inclusive a simpatia do exército brasileiro que tinha pelo exército alemão, virou em 24 horas.
Evidentemente, isso provocou reações espontâneas que resultaram em manifestações populares, exigindo a entrada do Brasil na guerra. Em 21 de agosto de 1942, finalmente, Osvaldo Aranha, ministro das Relações Exteriores, declarou oficialmente guerra contra a Itália e a Alemanha. O país acaba participando do episódio da Segunda Guerra Mundial, não porque estava na eminência de ser atacado ou ocupado, mas sim, porque as articulações políticas e econômicas acabaram conduzindo ao desfecho desse processo.
A participação inicial do Brasil ficou limitada ao fornecimento de matérias-primas estratégicas e ao auxílio no policiamento do Atlântico Sul. Somente em 1944 foi enviado à Itália um contingente de soldados, que compuseram a Força Expedicionária Brasileira (FEB), que foi criada um ano antes, sob o comando do General Mascarenhas de Morais, a qual passará a ser analisada em item específico.
A sociedade brasileira tinha em todos os seus segmentos, sejam eles políticos, instituições de segurança, comércio, indústria, produção rural, uma ligação muito forte com os imigrantes alemães e italianos, dificultando de forma expressiva a tomada de decisão contrária aos países do eixo, em especial a Alemanha. Essa atitude, depois de tomada, acabaria afetando até mesmo a forma como seria tratado o povo germânico aqui residente, o que acabou acontecendo de fato.
Ainda, conforme abordagem dos autores Roberto Ganbini, Leôncio Basbaum, Renato Eickhoff, Roney Cytrynowicz, Ricardo Seitenfus e Paulo Brandi, nos possibilita uma visão de como foi articulado dentro do Estado Novo uma situação que pudesse beneficiar a economia brasileira até os últimos momentos, em que uma decisão havia de ser tomada: tomar partido e apoiar os países do Eixo, seguindo as políticas totalitárias, ou apoiar os países aliados e lutar contra essas ideologias. Dentro do exposto acima, fica possível uma análise de como acaba se desencadeando o processo que leva o país aos campos de batalha da Europa, desde suas dificuldades, devida à relação construída com os imigrantes germânicos, ideologia política alinhada com os regimes ditatoriais e, ainda, interesses econômicos.
BIBLIOGRAFIA
BASBAUM, Leôncio. História sincera da República: de 1930 a 1960. São Paulo: Alfa-Omega, 1976.
BRAYNER, Floriano de Lima. A verdade sobre a FEB: memórias de um chefe do estado-maior na campanha da Itália. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.
CYTRYNOWICZ, Roney. Guerra sem guerra: a mobilização e o cotidiano em São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Edusp, 2000.
EICKHOFF, Renato. A Força Expedicionária Brasileira e os seus veteranos. 2005. 42 f. Trabalho de conclusão de curso (Licenciatura Plena) – Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Tuiuti do Paraná, Curitiba, 2005.
GAMBINI, Roberto. O duplo jogo de Getúlio Vargas. São Paulo: Ed. Símbolo, 1977.
RIBEIRO, P. da S. As batalhas da memória: uma história da memória dos ex-combatentes brasileiros. Niterói, 1999. Dissertação (Mestrado em História): Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Universidade Federal Fluminense.
SALUM, A. O. Zé Carioca vai à Guerra. São Paulo, 1996. Dissertação (Mestrado em História) Pontifícia Universidade Católica.
SEITENFUS, Ricardo. O Brasil vai à guerra: o processo de envolvimento brasileiro na Segunda Guerra Mundial. 3.ed. Barueri, SP: Mamole, 2003.
BRANDI, Paulo. Vargas: da vida para a história. Rio de Janeiro: Zahar, 1983.
[1] SEITENFUS, Ricardo. O Brasil vai à guerra: o processo de envolvimento brasileiro na Segunda Guerra Mundial. 3.ed. Barueri, SP: Mamole, 2003. p.01
[2] BRANDI, Paulo. Vargas: da vida para a história. Rio de Janeiro: Zahar, 1983. p. 03.
[3] Idem. p.4
[4] EICKHOFF, Renato. A Força Expedicionária Brasileira e os seus veteranos. 2005. 42 f. Trabalho de conclusão de curso (Licenciatura Plena) – Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Tuiuti do Paraná, Curitiba, 2005. p.5
[5] Consolidação das Leis do Trabalho. Criada pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943. A consolidação das leis trabalhistas era uma necessidade do governo Vargas, populista e dependente da aclamação popular. Nesse período foi criado o Ministério do Trabalho, e a maioria das leis trabalhistas nasceram após 1930, quando triunfou a revolução que levou Vargas ao poder. O sindicalismo crescia sob as asas do governo e foram feitas muitas leis para regulamentar o trabalho.
[6] CYTRYNOWICZ, Roney. Guerra sem guerra: a mobilização e o cotidiano em São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Edusp, 2000. p.292
[7] BASBAUM, Leôncio. História sincera da República: de 1930 a 1960. São Paulo: Alfa-Omega, 1976. p. 122.
[8] GAMBINI, Roberto. O duplo jogo de Getúlio Vargas. São Paulo: Ed. Símbolo, 1977. p. 165
[9] O Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), criado em dezembro de 1939, foi o principal responsável pela legitimação de Vargas e do Estado Novo perante a opinião pública. Com maior amplitude de ação que o Departamento Nacional de Propaganda, o DIP, dirigido por Lourival Fontes, tornou-se porta-voz autorizado do regime e o órgão coercitivo máximo da liberdade de pensamento e expressão até 1945.
[10] BRAYNER, Floriano de Lima. A verdade sobre a FEB: memórias de um chefe do estado-maior na campanha da Itália. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968. p. 19
[11] Ítalo Conti. Ex-combatente da Força Expedicionária Brasileira. Entrevista realizada no dia 12 de novembro de 2009, na cidade de Curitiba – PR. Natural da cidade de Mallet – PR, de origem italiana, participou como voluntário. Após a declaração de guerra do Brasil contra as nações do eixo, todos os oficiais receberam do ministro um telegrama, solicitando que compusessem o efetivo da FEB, o qual ele fez prontamente. Fez parte do efetivo do 1o Grupo de Artilharia em apoio ao 11o RI. Tinha a função de oficial de ligação, era capitão naquela oportunidade, tendo como seu superior o coronel Valdemar Levi Cardoso, comandante do 1o Grupo de Artilharia. Após passar para a Reserva, desempenhou funções como chefe de segurança do Estado do Paraná e foi também, por algumas vezes, eleito Deputado Estadual. Configura uma das grandes personagens do Estado do Paraná. Conta atualmente com 94 anos.
A Reintegração Social dos Ex-Combatentes da FEB – 46/88 – Parte II
Dando continuidade a publicação da excelente pesquisa sobre a reintegração social dos Ex-Combatentes, realizada magistralmente pelo Mestre Alessandro Santos, segue a segunda etapa. Para quem não acompanhou a primeira parte, clique no link abaixo:
A Reintegração Social dos Ex-Combatentes da FEB – 46/88 – Parte I
_______________________________
CONTINUACAO
No momento em que se oficializou o retorno do efetivo da Força Expedicionária, a mesma já nem existia mais. Havia sido diluída através de decreto baixado quando ainda na Europa. Com atitudes como essa, tomadas de forma muito prematura naquele momento, uma das consequências foi a abertura de caminhos que poderiam conduzir a uma problemática social, situação essa que ainda era invisível e acabaria afetando uma grande parcela da população brasileira. Devido à forma como iniciou o processo de desmobilizar a FEB, ficariam as dúvidas acerca da representatividade que teriam, perante a sociedade, os ex-combatentes e, da mesma forma, como esses passariam a ser vistos pelo meio social. Tais atitudes dificultavam ainda mais uma ligação sólida entre ambas as partes, aumentando a possibilidade de ocorrerem fatos como a discriminação e isolamento.
Todo esse novo cenário, que teve início com a desmobilização, ainda em solo italiano. Configurou-se como algo que se posicionava contra o que idealizavam os vitoriosos combatentes. Estes tinham o anseio de não somente reencontrar suas famílias, mas restabelecer contato com seu povo. Esperavam uma recepção calorosa, o que de fato aconteceu, mas não esperavam que fosse tudo tão rápido. Queriam uma continuidade do reconhecimento e viver com dignidade, pois precisaram partir para o cenário da guerra, na Europa, arriscar suas próprias vidas em combate, e agora contavam com o reconhecimento público.
Contrariando as orientações realizadas pelos norte-americanos, foi efetivada uma desmobilização rápida, sem preocupações básicas, como por exemplo, ter uma legislação específica que oportunizasse uma preparação para um restabelecimento em meio à sociedade, capacitando estes novos cidadãos a, novamente, sintonizarem-se com o seu meio social. As orientações dos norte-americanos eram a de se manter a FEB como tropa de ocupação ou, pelo menos, como alavanca pra a modernização do exército brasileiro.
Como consequência dessas decisões, tomadas de forma precipitada e sem cautela, os ex-combatentes ficaram sem uma estrutura para se readaptar. A brutalidade de uma guerra possivelmente pode acabar interferindo no sistema nervoso do ser humano, principalmente em sua dimensão psicológica. O desamparo que vai acabar ocorrendo, principalmente por parte das autoridades político-militares, traz problemas de efeito “cascata”. Inicia afetando os ex-combatentes; posteriormente, familiares e amigos, que convivem de forma direta com os mesmos; e, por final, traz prejuízos incalculáveis para a sociedade e, finalmente, até mesmo para a memória historiográfica.
Após a desmobilização, algumas medidas começam a ser adotadas na tentativa de minimizar as dificuldades sociais, pelas quais estavam passando os ex-componentes da FEB. No ano de 1946 é editada a primeira lei de amparo, a qual procura atender, primeiramente, aqueles que ficaram mutilados nos campos de batalha. Ainda, na década de 1940, outras leis foram criadas, seguindo pelas décadas subsequentes. Porém, a legislação será um assunto abordado à parte, especificamente em um capítulo dessa pesquisa.
Com essa legislação a situação dos ex-combatentes começa a ser minimizada, embora tardiamente, inicia-se um processo demorado para reparar os prejuízos causados aos ex-militares e seus familiares. Existiram alguns entraves, o que fez a aplicação dessa leis sofrerem de lentidão. O principal motivo que levava as leis demorarem em ser votadas e aprovadas era a constante solicitação daqueles militares que, em nada tinham a ver com o episódio da Segunda Guerra Mundial, em querer receber os mesmos benefícios.
Com a dificuldade encontrada pelos ex-febianos para se restabelecer dentro da sociedade, de se reintegrar ao meio social, ao longo das décadas inicia-se um processo de aproximação com as Forças Armadas, de forma especial com o exército, fato que se explica por ser desse o maior efetivo de componentes. Essa proximidade, ocorrida entre ambos os lados, fazia com que houvesse uma fusão de idéias, “onde era referir-se aos pracinhas e ao Exército como se fossem uma coisa só.” [1]
Alguns esclarecimentos se fazem necessários. Essa dissertação, em seu título, privilegia o termo FEB, referindo-se a todos aqueles que participaram de forma efetiva do Teatro de Operações na Itália, de uma forma generalizada, como sendo parte da Força Expedicionária Brasileira, por assim termos essa compreensão. Porém, o efetivo em seu número maciço era da Força Expedicionária, tendo ainda o Grupo de Aviação de Caça da Força Aérea Brasileira e do Corpo de Enfermeiras. Esses dois últimos possuíam um número de componente bastante reduzido, fato que não diminui de importância sua participação, pois vivenciaram o mesmo momento e processo histórico, partilharam das mesmas dificuldades e tensões. Todos os grupos citados reúnem-se nas mesmas associações, sem usar de distinções de unidades e subunidades a que fizeram parte. Para referir-me aos grupos citados acima utilizarei os termos, ex – combatentes, ex – febianos, ex – expedicionários e veteranos. Para referir-me ao conjunto de componentes utilizarei Força Expedicionária, Força Expedicionária Brasileira e FEB.
No primeiro capítulo abordarei a criação da Força Expedicionária Brasileira, procurando relatar sobre a seleção e os apadrinhamentos, isto é, as atitudes tomadas para que determinado militar, mesmo sendo convocado, conseguisse criar mecanismos para não participar do efetivo que partiria para a Itália. Farei uma análise de como foi a partida da FEB e a chegada, após singrar o mar até a Europa. As tropas brasileiras conduziram materiais de baixa qualidade, ocorrendo, dessa forma, um reaparelhamento procedido pelos norte-americanos, ou seja, uma “americanização” da Força Expedicionária. Faremos uma abordagem sobre as grandes dificuldades enfrentadas para que houvesse uma adaptação ao novo cenário que se apresentava as superações ocorridas devido à determinação dos soldados brasileiros. Abordaremos, ainda, sobre alguns tipos de facilidades proporcionadas no Teatro de Operações, fato que, em algumas obras são negadas, principalmente naquelas de cunho militar e que foram pesquisas realizadas por oficiais do alto-escalão. Em outras análises referentes à historicidade da FEB, existem pesquisas que não aprofundam muito o assunto.
Esse aspecto não será tratado de forma depreciativa, com o intuito de denegrir ou desvalorizar a participação do efetivo expedicionário, ao contrário, tem por objetivo destacar alguns pontos sensíveis do campo de batalha que, por falta de esclarecimento oportuno na época, fez com que a sociedade, em alguns momentos, tivesse uma visão distorcida levando a comentários infundados. Ainda, analisarei como foi o retorno, momento tão esperado por todos que participaram, de forma efetiva, nos campos de batalha e como se desencadeou a receptividade organizada no país.
No segundo capítulo será abordado, de forma específica, a reintegração social dos ex-combatentes. Procuraremos analisar a problemática social gerada com a desmobilização que foi executada de maneira rápida e sem um planejamento mínimo. Os ex-integrantes da Força Expedicionária sofreram uma forte decepção ao se deparar com a realidade que, de uma hora pra outra, lhes foi imposta, nascendo um sentimento de abandono por parte do Estado e por parte da sociedade. Essa última agiu dessa forma principalmente por não ter sido preparada pelas autoridades para acolher seus heróis de guerra.
Uma luta pior do que aquela enfrentada nos dias e noites gélidos dos Apeninos, na Itália, estava por vir. Iniciaram-se as novas lutas, verdadeiras batalhas, agora em solo pátrio, para que se recebesse, no mínimo, o reconhecimento. Passaram a ser discriminados dentro da sociedade, que isolava e rotulava aqueles que estiveram em frente de combate, afirmando que haviam se tornado perturbados mentais. Mesmo aqueles que conseguiram voltar para seus lares, suas famílias e amigos, enfrentaram grandes dificuldades em se readaptar sem um tratamento psicológico adequado. Esses aspectos citados acima serão trabalhados de forma detalhada em subtítulos, tentando trazer a luz a realidade vivenciada pelos ex-combatentes.
No terceiro capítulo, será abordado, de forma específica, a busca constante que durou décadas, pelos amparos, por leis que assegurassem o mínimo de dignidade aos ex-combatentes e seus familiares. Amparos esses que foram tardiamente aplicados, agravando a precária condição social que grande número de ex-febianos, que ainda estavam vivos, vivenciavam. As legislações criadas, muitas vezes demoravam décadas para chegar e atender aqueles que se encontravam deslocados, morando em regiões afastadas dos grandes centros. Esse aspecto será abordado de forma mais profunda.
Muitos desses ex-componentes da FEB já haviam ido a óbito ou viviam em situação de pedintes, numa condição lamentável à margem da sociedade, verdadeiros mendigos, vivendo de restos, de sobras, quando as leis foram sancionadas. Será, ainda, realizada uma análise sobre entidades e instituições que foram criadas pelo Estado para dar amparo e levantar fundos para os ex-combatentes e sua famílias, os quais passavam por uma dificuldade extrema e careciam de toda ajuda possível. Além das entidades, os próprios estados, municípios, aos quais pertenciam os ex-integrantes da Força Expedicionária, procuravam dentro de suas possibilidades, oferecer benefícios que pudessem minimizar suas precárias condições sociais. Os aspectos sobre as entidades serão abordados, de forma mais detalhada, em subtítulo exclusivo, que procurará esclarecer em que pontos contribuíram para minimizar o problema social gerado e se foi de forma positiva ou negativa.
As fontes orais utilizadas nessa pesquisa, com ex-integrantes da Força Expedicionária Brasileira, serão trabalhadas no sentido de trazer informações inéditas, que auxiliem na compreensão das dificuldades enfrentadas no momento da reintegração social. Essas entrevistas não ficaram limitadas somente a esse aspecto, mas ilustrarão outros momentos, como a organização do efetivo expedicionário, participação efetiva nos campos de batalha, as adversidades enfrentadas e superações, trazendo um aspecto inédito, como as facilidades proporcionadas pela guerra, mesmo não sendo esse o tema central da pesquisa. Essas informações trarão grande enriquecimento em detalhes, a fim de contribuir para uma melhor compreensão desse momento da história militar brasileira, qual seja a participação no episódio da Segunda Grande Guerra Mundial, agregando informações inéditas coletadas junto aos ex-combatentes.
Visando facilitar a compreensão e a leitura dessa pesquisa, por parte daqueles que possuem pouco contato com denominações militares, algumas delas usadas nesse trabalho, farei um breve resumo da composição da Força Expedicionária Brasileira. A apresentação dessa forma organizacional tem a finalidade de passar a idéia de como foi distribuído esse efetivo. A FEB, seguindo as novas doutrinas norte – americanas e se adequando a ela, teve participação efetiva com uma divisão de exército, foi composta de vários tipos de unidades, que cumpriam finalidades específicas, auxiliando umas as outras no cumprimento de missões no campo de batalha. As unidades mais citadas são os Regimentos de Infantaria, pelo fato de que essa estrutura foi a que melhor se adaptava ao terreno em que haveria a participação brasileira, como explicado por Francisco César Alves Ferraz[2]:
A estrutura da FEB era “ternária”, ou seja, cada unidade dividia-se em três menores, que se dividiam em outras três menores e, assim, sucessivamente, até chegarmos aos Grupos de Combate. Esta é a unidade básica, formada por 13 homens, sendo 11 soldados, um cabo e um sargento, que o comanda. Um pelotão é composto por três Grupos de Combate, que soma 41 homens, comandados por um tenente e tendo como auxiliar direto um segundo sargento, a praça mais antiga, ocupando a função de adjunto. Três Pelotões de fuzileiros e mais um Pelotão de Petrechos Leves (morteiros e metralhadoras leves) compõem uma Companhia (193 homens), comandada por um capitão. Três Companhias de fuzileiros e mais uma Companhia de Petrechos Pesados (com 166 homens, possui dotação de metralhadoras e morteiros pesados, de maior calibre) formam um Batalhão (871 homens), comandado por um major. Três Batalhões constituem um Regimento de Infantaria (R. I.), que possui 3.256 homens e é comandado por um coronel. Dessa forma, os três Regimentos que compuseram a FEB formaram a Infantaria de sua Divisão. Mesmo que cada unidade abrigasse soldados de todos os Estados brasileiros, era maior a concentração de soldados de sua sede. Assim, o 1º R. I., com sede no Rio de Janeiro, concentrou mais expedicionários cariocas e fluminenses. O 6º R. I., com sede em Caçapava, São Paulo, reuniu mais paulistas. O 11º R. I., com sede em São João Del Rei, Minas Gerais, teve a maior concentração de mineiros. A composição da Artilharia era de quatro Grupos de Obuses, três dos quais com 12 canhões de 105mm e um, com 12 canhões de 155mm. Um Grupo de Obuses era dividido em três baterias, de quatro canhões. A Artilharia tinha como auxiliar, o Esquadrão de Ligação e Observação, que usava aviões pequenos e frágeis para monitorar, por via aérea, os alvos a serem atingidos pela Artilharia. O Batalhão de Engenharia, o Batalhão de Saúde, o Esquadrão de Reconhecimento (possuía 13 carros blindados (sobre rodas) e 5 carros de meia-lagarta, tendo como comandante um capitão, eram unidades e subunidades que completavam o quadro operacional. Outras companhias como de Transmissões, de Manutenção, de Intendência e de Polícia, além daquela destinada ao Quartel General da Divisão, faziam parte. Pequenas unidades e quadros completavam a FEB, como os capelães militares, os componentes do Pelotão de Sepultamento, os padioleiros, a Justiça Militar, a Banda de Música e a agência do Banco do Brasil.
BIBLIOGRAFIA
BONALUME NETO, Ricardo. A nossa Segunda Guerra: os brasileiros em combate, 1942-1945. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1995.
CABRAL, F. Um batalhão no Monte Castelo. São Paulo, 1982. Tese (Doutorado em História), Universidade de São Paulo
FERRAZ, Francisco César Alves. A guerra que não acabou: a reintegração social dos veteranos da Força Expedicionária Brasileira (1945-2000). Tese de doutorado. São Paulo, 2003.
FERRAZ, F. C. A. O Brasil na guerra: um estudo de memória escolar. Comunicação apresentada no IV Encontro Perspectiva do Ensino de História. Ouro Preto. Universidade Federal de Ouro Preto, 24 de abril de 2001. Anais da ANPOC.
LINS, M de L. F. A Força Expedicionária Brasileira: uma tentativa de interpretação. São Paulo, 1972. Dissertação (Mestrado em História) Universidade de São Paulo (publicada em 1975 pela Editora Unidas de São Paulo).
MASCARENHAS DE MORAES, João Batista. A FEB pelo seu Comandante. São Paulo: Instituto Progresso Editorial, 1947.
NASS, Sirlei de Fátima. Legião Paranaense do Expedicionário: indagações sobre a reintegração social dos febianos paranaenses (1943-1951). Dissertação – UFPR, 2005.
OLIVEIRA, D. História e memória entre ex-combatentes: o caso da Força Expedicionária Brasileira (1943-2000).
RIBEIRO, P. da S. As batalhas da memória: uma história da memória dos ex-combatentes brasileiros. Niterói, 1999. Dissertação (Mestrado em História): Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Universidade Federal Fluminense.
SALUM, A. O. Zé Carioca vai à Guerra. São Paulo, 1996. Dissertação (Mestrado em História) Pontifícia Universidade Católica.
[1] FERRAZ, F. C. A. A guerra que não acabou… op. cit. p. 09.
[2] FERRAZ, Francisco César Aves. A Guerra que não acabou… op. cit. 10-11; BONALUME NETO, Ricardo. A nossa Segunda Guerra: os brasileiros em combate, 1942-1945. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1995, p. 134-135; e MASCARENHAS DE MORAES, João Batista. A FEB pelo seu Comandante. São Paulo: Instituto Progresso Editorial, 1947, p. 263-264.
Medalha Aspirante Mega – Agradecimentos
Com muito orgulho, recebemos comenda da Associação de Ex-Combatentes da Força Expedicionária Brasileira, Regional Pernambuco, com a Medalha Aspirante Mega. Nesse momento, claro eu sinto-me honrado, mas também com maior responsabilidade para continuar a propagar o valor histórico da presença brasileira nos campos da Itália, em memória aos que lá ficaram e em reconhecimento pelos que voltaram.
A vida de um historiador é movida pela paixão, e se torna mais peculiar quando seu objeto de estudo é acessível e tem vontade de se expressar. É o caso dos nossos pracinhas que ainda estão aqui. Pois qual o historiador medievalista não gostaria de entrevistar um cavaleiro medieval? Ou qual o historiador da Guerra de Paraguai não gostaria de ouvir a história oral de um soldado dos Batalhões Voluntários da Pátria? Esse é uma dos muitos fatos que me orgulham e me fazem exercer a Estudo Histórico não por profissão, mas por paixão, aliás, por Paixão.
Não poderia deixar de citar o valor Histórico que essa Medalha Aspirante Mega representa, tendo o seu dignitário Francisco Mega – o qual tive a honra de conhecer membros de sua família nesse mesmo blog – que faz cessão do seu nome a Medalha ter sido um homem resoluto e exemplo de liderança, dando sua própria vida, de forma consciente, e exercendo suas funções de inspirador de liderados, vindo a tombar pelo que acreditava.
Agradeço aos veteranos que fazem parte da Mesa Diretoria da Associação por me indicarem e outorgarem essa enorme honraria, também agradeço a Rigoberto Júnior pelo apreço e indicações e empréstimos bibliográficos; ao Tenente R1 Messias pelas considerações sempre oportunas nas conversas sobre a FEB e a vida na caserna; ao Valdner sempre agradável e de bom trato.
Para encerrar, ficamos na esperança pela recuperação do Major Archias, presidente da Associação, que se encontra internado, mas graças a Deus em situação estável. Estaremos orando pela sua recuperação e na tomada das atividades da Associação. Finalizo agradecendo a todos que acompanha esse humilde BLOG, que é despretensioso, mas tem um objetivo claro: ser um inspirador da História em um período tão critico para a humanidade, e trazer à luz os fatos heroicos de jovens brasileiros; de 25.334 jovens brasileiros, dos quais quase 500 permaneceram em Pistóia após a guerra, mas muitos outros perderam as vidas posteriormente, abandonados à própria sorte.
A TODOS MEUS SINCEROS AGRADECIMENTOS
CHICO MIRANDA
- Eu e meu Amigo e Mestre Alessandro Santos
- Recebendo a Medalha do Veterano Gastão
- Chico Miranda
- Chico Miranda e Esposa Micheline Miranda
- História do Aspirante Mega
O Primeiro Dia – Relato de Joel Silveira – Correspondente de Guerra
Escrevo esta minha primeira reportagem após 22 horas a bordo do transporte que nos desembarcará dentro de 16 dias em Nápoles. A mim e a cerca de seis mil soldados brasileiros que comigo seguem para a guerra. É um mundo estranho e misterioso que possivelmente levará muito tempo para ser revelado. Ando pelos porões do imenso navio, perco-me em seus corredores que parecem não ter fim, e cada porta de ferro se abre para uma nova surpresa. Os navios e os alto-falantes que se multiplicam por todos os compartimentos são guias orais e explícitos do que se deve e não se deve fazer. Estamos em guerra, somos uma multidão que segue para a guerra, e muita coisa não se deve fazer: não se deve, por exemplo, atirar qualquer coisa ao mar. Sou apenas um recruta, bisonho e desprevenido como todo recruta, um pobre e indefeso civil em poucas semanas transformado num soldado da ativa, e me emaranho e me confundo num mundo que nunca foi meu. Os pracinhas, no convés nu ou nos corredores lá embaixo, olham sem compreender para o meu distintivo (um C graúdo pregado na farda de oficial), não sabem se devem ou não me prestar continência. Respondo, encabulado, à saudação de alguns poucos, mas o Tenente Justino Vieira, companheiro de camarote (durmo no beliche de cima, ele no do meio e no de baixo o Tenente Plínio Pitaluga), já me garantiram que tenho credenciais de oficial. Sou agora um “capitão”; dentro de mais duas semanas serei “capitano”. A verdade, porém, é que cometo gafes que matariam de vergonha qualquer oficial de verdade. Já falei com um “major” que era Coronel e ontem misturei a calça de um uniforme com a túnica de outro. Mas esta gente que viaja comigo simpática e compreensiva, e só posso ficar comovido com a maneira gentil, quase paternal, às vezes divertida, com que soldados veteranos e oficiais tratam esse recruta que uma remota “linha de tiro” não consegue militarizar.
O Tenente Antônio Caldeira Vitral, oficial de ligação, me leva até o gabinete de comando, num dos compartimentos superiores, e me enche de dados sobre o que sou agora. Vejo-me de repente transformado num série de números. Sou agora o CG (a partir de Roma, esse CG – Correspondente de Guerra – se transformará em “War Correspondent”), instalado no camarote coletivo número 107, beliche 146. Em caso de perigo já sei o que tenho que fazer: não perder a calma, ajeitar o salva-vidas e, se houver tempo, corre para o lifeboat 9, a bombordo. Seriam meus companheiros no barco salva-vidas o Capitão Ítalo, Capitão Mário, o Capitão Darcy, o Tenente Justino, o Tenente Puenta, o Tenente Waldy e os funcionários do Banco do Brasil Berenguer e Messeder, todos companheiros deste apinhado 107, onde bato estas linhas estirado no colchão duro, a máquina portátil equilibrada de qualquer maneira nas coxas. Também não devo esquecer, todas as sete da manhã, de aproveitar ao máximo possível os variados pratos da primeira refeição do dia, já que a próxima, para o grupo de oficiais da primeira mesa (entre os quais estou incluído), acontecerá somente às cinco da tarde, apenas com variadas de chocolate e caramelo comprados por preço de banana nas cantinas de bordo. Manhã cedo, portanto, mergulhei decidido no que me ofereceram: ovos, bacon, grossas fatias de presunto e queijo, muito pão, laranja, café e creme de leite, manteiga farta que contentaria perfeitamente, durante uma semana, qualquer dona-de-casa. Tudo de esplêndida qualidade – tudo americano.
Há quase dois dias que estou a bordo, mas a verdade é que continuamos atracados, e o Rio, com suas luzes brilhantes perto, o Cristo iluminado e as ilhas da Baía, continua muito vivo dentro de todos nós. Num canto do salão dos oficiais, um capitão me confessou que seria melhor o General Meigs fosse embora logo: “enquanto a gente tem a certeza de estar perto de casa, e sem poder ver ou falar com os nosso, fica sempre com vontade de telefonar.”
Saber a hora e o dia em que o transporte deve se desgrudar do armazém isolado do resto do cais por uma reforçada guarda militar, e ganhar o mar alto, é problema crucial. Um marinheiro americano me garantiu num inglês quase mímico que seria ontem de madrugada, e hoje, logo cedo, um dos garçons me segredou na cozinha que “a coisa não passa do meio-dia”. O Presidente Getúlio já nos visitou, na véspera , e num pequeno discurso deixou suas despedidas. Por coincidência eu estava no meu camarote, tentando transporta a confusa bagagem de campanha (mais de 50 quilos, divididos em dois sacos, A e o B) do passadiço do navio para o 107, correndo com um maluco navio a dentro, subindo e descendo escadas, me perdendo aqui e ali, até chegar ao meu destino – pode coincidência, dizia, acabava de chega a meu camarote quando ele, Getúlio, entrou ali com sua comitiva. Sorriu para todos, mais ou menos perfilados, disse qualquer coisa a um major, despediu-se com um aceno.
Lembro-me de que a primeira camaradagem que fiz a bordo foi com um Tenente vindo da Bahia e que, mal o Presidente deixou o camarote, me apresentou um apressado croqui que fez dele, Getúlio. Perguntou se devia ou não mostrar o desenho ao desenhado. Sugiro que fala a pergunta a um oficial mais graduado – a um oficial de verdade, e ele corre pelo corredor, um tanto aflito. Não quer perder o homem.
As horas vão passando – melhor, correndo – e já agora posso fazer a lista de amigos novos: o Tenente Nestor Lício é um deles, oficial-dentista e que também, diz, já trabalhou em jornal. Falamos de A Manhã, de Mario Rodrigues, de A Pátria, jornais onde ele trabalhou, e ele me pede que na minha primeira correspondência para os Diários Associados mande abraços para Ósorio Borba e Bezerra de Freitas, seus amigos. Estão mandados. Outro bom companheiro, além do Tenente Plínio Pitaluga, que já conhecia antes de virar “soldado”, é o Tenente Milton Rocha Alencar, a quem conto, em primeira mão, uma complicada história de troca de bagagem. Acontece que recebi da Intendência do Exército, como todo oficiais expedicionário, um saco A, um saco B e – ia esquecendo deste, o mais pesado de todos – um saco C. Mas não recebi conjuntamente uma espécie rol que acompanha a entrega da bagagem e no qual vem muito bem explicado o que deve ser arrumado nos três sacos. O resultado é que guardei cuidadosamente nos sacos B e C, que vão para o porão e que só me serão devolvidos na Itália, tudo de que necessita uma criatura normal, mesmo um recruta, para suas precisões diárias: aparelho de barbear, sabão, toalha, pasta para dentes e respectivamente escova, coisas assim. O Tenente Milton ouve atentamente a minha história, narrada num tom profundamente melancólico, e solta uma gargalhada – que de repente a história já é conhecida de todos ali no camarote – o que não deixou de ser uma solução: requisito de alguns companheiros um pouco de tudo o que falta, o que me deixa tranquilo.
Hoje pela manhã me surgiu pela frente a primeira exigência militar. O Capitão Ítalo, comandante do compartimento, nos reuniu a todos e nos avisou que iria distribuir as tarefas referente à faxina. Isto significa que cada oficial do 107, inclusive o correspondente e os funcionários do Banco do Brasil, terá o seu dia de trabalho: varrer o camarote, limpar as pias, forrar as camas, arrumar as bagagens etc. A escalação é feita conforme a idade, cabendo os mais moços as tarefas do primeiro dia. Sou o terceiro da lista, o que significa dizer que amanhã vou ter um dia cheio. O Tenente Mendonça me felicita pela sorte, pois que, segundo ele, dentro de poucos dias, com o navio andando e a turma enjoada a coisa vai ser muito pior. Como somos em 18 no camarote, nutro sólidas esperanças de não repetir até a chegada a Nápoles, o castigo que me espera amanhã.
Bem, meu nome é Joel Silveira, jornalista de 26 anos, e estou indo para a guerra. Voltarei? Lembro-me das palavras de Assis Chateubriand, meu padrão, quando dele me fui despedir, já devidamente fardado: “Seu Silveira, me faça um favor de ordem pessoal. Vá para a guerra mas não morra. Repórter não é para morrer, é para mandar notícias.”. Prometi obedecer cegamente a suas ordens, e tenho de cumprir a promessa.
Fonte: Joel Silveira e Thassilo Mitke – A Luta dos Pracinhas – A FEB 50 anos depois – Uma Visão Crítica. Editora Record, 3ª Edição – 1983.
A Reintegração Social dos Ex-Combatentes da FEB – 46/88 – Parte I
Estamos publicando, a partir de hoje, a pesquisa do Professor Mestre Alessandro do Santos Rosa. Sua Dissertação de Mestrado contempla o retorno dos pracinhas e as políticas de abandono que foram implementadas pelo país até a década de 80, portanto é um subsídio incomensurável para todos aqueles que desejam entender sobre a condição dos membros da Força Expedicionária Brasileira, depois da desmobilização promovida ainda pelo governo de Getúlio Vargas até o seu reconhecimento na Constituição Federal de 1988.
_____________________________________________________________________________________________________
INTRODUÇÃO
O objetivo principal do estudo focalizado por essa dissertação é desenvolver uma análise sobre o processo de reintegração social dos ex-combatentes da Força Expedicionária Brasileira (1943/1945), por intermédio de uma tardia legislação, que visava trazer um amparo legal. Será realizada uma abordagem geral sobre a FEB, sendo que se dará uma ênfase sobre o surgimento da legislação, na década de 40, especificamente no ano de 1946, um ano após o retorno dos expedicionários da Itália por término da Segunda Guerra Mundial (1939/1945).
Mesmo com o surgimento dessas legislações, um grande número de expedicionários obteve seu benefício somente na década de 1980. Em alguns casos, foram mais de quarenta anos de demora para que, aqueles que permaneceram vivos, fossem assistidos pelo Estado. A historiografia militar, aqui especificamente sobre a Força Expedicionária, ficou por um longo período no esquecimento da sociedade e dos próprios pesquisadores. Alguns contatos com ex-combatentes, que fizeram parte do efetivo da FEB e estiveram diretamente envolvidos no combate ou, ainda, que ficaram como reservas no depósito de pessoal, aguçaram meu interesse em procurar uma compreensão a respeito desse processo.
A academia apresenta, na atualidade, pesquisas de vulto importantíssimos para uma compreensão de como foi realizado o processo de desmobilização e sobre como foi trabalhada a reintegração social dos ex-combatentes. Porém, o objetivo é adicionar uma reflexão junto com essas pesquisas e tentar compreender as formas e razões que conduziram a criação dessas legislações, de modo específico, para aqueles que estiveram de forma direta envolvidos nos campos de batalha na década de 1940 e, em alguns casos, foram contemplar quem tinha direito somente na década de 80.
Essa pesquisa não tratara de casos nem de lugares específicos. Por intermédio de depoimentos, colhidos aleatoriamente, buscaremos uma compreensão do que ocorreu, de uma forma geral, com os homens e mulheres que compuseram o efetivo febiano. O processo pelo qual se desenvolveu a participação do Brasil, no episódio da Segunda Guerra Mundial, foi conturbado e desorganizado, deixando a sociedade distante. Os sacrifícios realizados nos campos de combate também ficaram, de certa forma, alheios ao conhecimento social, causando um esquecimento por parte da sociedade e por parte dos estudiosos.
Não seria diferente o procedimento no retorno, pois o povo brasileiro não estava interligado com seus militares combatentes. Em decorrência da forma como foi realizada a mobilização não havia uma relação de proximidade com o processo da participação na guerra, ficando os combatentes, dessa forma, ignorados, esquecidos. Como foram recebidos pela população seus ex-combatentes? Como a maioria dos ex-febianos passaram a viver seu cotidiano? Houve algum tipo de discriminação da sociedade em relação aos ex-componentes da FEB? Que tipo de amparo foi prestado pelo Estado? Esses amparos conseguiram reparar as injustiças ocorridas? Todos ex-combatentes foram beneficiados pelas leis criadas? Essa pesquisa tentara responder questões como essas e outras que possam surgir.
Outras abordagens, ainda, serão realizadas, as quais passam pelo processo de convocação e seleção, em que a questão dos apadrinhamentos será aprofundada. Incluem-se, assim, em nossas análises, investigações sobre os seguintes aspectos: a participação no confronto, bem como a participação na guerra, buscando-se dar ênfase, de uma forma inédita, sobre as facilidades oferecidas em situação de guerra; o que aconteceu aos ex-combatentes, após seu retorno ao país; qual foi a reação frente ao processo de desmobilização; como ficou marcado o momento da chegada e suas festividades por ocasião do retorno; quais as preocupações das autoridades político-militares, de uma forma geral, em relação aos expedicionários.
Na historiografia brasileira as pesquisas realizadas sobre esse grupo social, com teor mais profundo, datam de um momento recente. Alguns trabalhos realizados tiveram seu início no eixo Rio/São Paulo, na década de 1970, com a pesquisa de Maira de Lourdes Lins[1] (1972), a qual fazia parte do programa de pós-graduação. Nos anos que compõem a década de 1980 dois trabalhos, um do ex-combatente da FEB, Francisco Cabral[2] (1982) e outro do tenente-coronel, João Felipe Sampaio Barbosa[3] (1985), são apresentados, sendo que o último realiza uma abordagem específica sobre a questão social dos ex-componentes da FEB.
Outros trabalhos, não relacionados com a questão social da FEB, mas com a historiografia vem surgir na década 1990. A participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial começa, então, a ganhar espaço e destaque entre os estudos acadêmicos, com pesquisadores como Luís Felipe da Silva Neves[4] (1992), Alfredo Oscar Salum[5] (1996) e Patrícia da Silva Ribeiro[6] (1999).
É perceptível que são poucas pesquisas realizadas em torno do assunto que envolve a participação efetiva do Brasil, no episódio da guerra. Em países do continente europeu, América do Norte, alguns países da Ásia e Oceania, nunca se deixou de pesquisar o ramo da História Social, que estuda as guerras e os homens que as fazem. Do mesmo modo, nunca se deixou de pesquisar sobre os ex-combatentes, seu impacto social. Um trabalho, que tem por objetivo uma abordagem em torno da questão social e tem uma representatividade historiográfica de grande importância, é a pesquisa do historiador Francisco César Alves Ferraz[7], o qual surgiu quase 60 anos após o encerramento da participação do Brasil no contexto da Segunda Guerra Mundial. Pode ainda ser citado como destaque, o empenho do pesquisador Dennison de Oliveira,[8] o qual se dedica, no desenvolvimento dos trabalhos desenvolvidos, à ênfase a uma Nova História Militar Brasileira. Este autor coordena grupos de pesquisa, desenvolvendo projetos e artigos que visam valorizar a história militar
Um longo período se passou até que houvesse interesse, por parte dos estudiosos, em desenvolver pesquisas em torno da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, referente à criação da Força Expedicionária Brasileira. Conforme explica Francisco César Alves Ferraz[9], nas quase seis décadas que separam o fim da guerra aos dias atuais, o tema da participação na Campanha da Itália teve pequena relevância na disciplina de História e nos livros didáticos.
Esse desinteresse acabou deixando um permanente abismo entre os ex-combatentes, componentes da FEB e o meio social. Para a pesquisadora Sirlei de Fátima Nass[10], a participação da FEB na Segunda Guerra não implicou nem em perdas substanciais de vidas humanas, nem a ocupação estrangeira do território brasileiro, sendo vista à distância pela sociedade. Fato esse que foi fundamental para o rápido esquecimento por parte da sociedade. Porém, para o pesquisador Dennison de Oliveira[11], essa falta de proximidade com os efeitos violentos da guerra não justifica o silêncio e a omissão, na medida em que o mundo acadêmico brasileiro mantém-se, curiosamente, distante do enfrentamento dos problemas suscitados pela necessidade de se interpretar a história militar e as memórias a ela associadas. O que poderia ter propiciado o pouco interesse em pesquisas relacionadas a assuntos militares, segundo os pesquisadores Dennison de Oliveira[12] e Francisco César Alves Ferraz[13], foi o difícil relacionamento existente entre a universidade e o Regime Militar (1964/85), sendo que, mesmo depois de terminada a ditadura, a FEB continuou sendo desprezada na historiografia acadêmica.
Outros interesses se interligavam com essas problemáticas, pois as autoridades político-militares, temendo que pudesse haver uma mobilização política mediada pelo contingente que havia retornado dos campos de batalha da Europa, procuravam manter a sociedade distante da FEB. Ficava, dessa forma, mais enfraquecida a imagem da Força Expedicionária e de seus componentes, apagando-se, rapidamente, da memória da sociedade. Embora no período da ditadura tenha ocorrido um grande desenvolvimento nas áreas de pesquisas, graduação e pós-graduação dentro do meio acadêmico, as tensões políticas distanciavam as produções científicas. Nem mesmos os livros didáticos traziam grandes informações. Nesse material constavam algumas poucas informações sobre a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, desprezando posteriormente a FEB também.
A sociedade, por não conhecer o processo pelo qual passaram os ex-combatentes, por não saber das dificuldades enfrentadas, desde a mobilização, a passagem pelo processo da participação efetiva nos campos de batalha, encerrando por uma desmobilização desorganizada e rápida, não teria condições, também, de oferecer apoio, de reconhecer seus heróis. Como nos explica Dennison de Oliveira[14], dependendo das avaliações do desempenho da tropa brasileira na Itália, feitas por essa história, a memória da FEB assumiu dimensões simpáticas e generosas, hostis e negativas, ou mesmo heróicas ou depreciativas.
Dessa forma, se tornava fácil distorcer os feitos dos expedicionários, seguindo as divulgações e pesquisas, o critério que interessasse àquelas pessoas que detinham o poder e visavam preservar seus interesses. Essas possibilidades poderiam transformar pontos positivos em negativos sem questionamentos, pois não havia na memória social informações concretas. Como analisado por Sirlei de Fátima Nass[15], tal entendimento exerceu grande influência, para melhor ou para pior, no conjunto de questões, na diversidade de memórias, nas representações sobre a atuação dos expedicionários na guerra, bem como na busca por reconhecimento e inserção social da sua memória e história.
BIBLIOGRAFIA
BONALUME NETO, Ricardo. A nossa Segunda Guerra: os brasileiros em combate, 1942-1945. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1995.
CABRAL, F. Um batalhão no Monte Castelo. São Paulo, 1982. Tese (Doutorado em História), Universidade de São Paulo
FERRAZ, Francisco César Alves. A guerra que não acabou: a reintegração social dos veteranos da Força Expedicionária Brasileira (1945-2000). Tese de doutorado. São Paulo, 2003.
FERRAZ, F. C. A. O Brasil na guerra: um estudo de memória escolar. Comunicação apresentada no IV Encontro Perspectiva do Ensino de História. Ouro Preto. Universidade Federal de Ouro Preto, 24 de abril de 2001. Anais da ANPOC.
LINS, M de L. F. A Força Expedicionária Brasileira: uma tentativa de interpretação. São Paulo, 1972. Dissertação (Mestrado em História) Universidade de São Paulo (publicada em 1975 pela Editora Unidas de São Paulo).
MASCARENHAS DE MORAES, João Batista. A FEB pelo seu Comandante. São Paulo: Instituto Progresso Editorial, 1947.
NASS, Sirlei de Fátima. Legião Paranaense do Expedicionário: indagações sobre a reintegração social dos febianos paranaenses (1943-1951). Dissertação – UFPR, 2005.
OLIVEIRA, D. História e memória entre ex-combatentes: o caso da Força Expedicionária Brasileira (1943-2000).
RIBEIRO, P. da S. As batalhas da memória: uma história da memória dos ex-combatentes brasileiros. Niterói, 1999. Dissertação (Mestrado em História): Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Universidade Federal Fluminense.
SALUM, A. O. Zé Carioca vai à Guerra. São Paulo, 1996. Dissertação (Mestrado em História) Pontifícia Universidade Católica.
[1] LINS, M de L. F. A Força Expedicionária Brasileira: uma tentativa de interpretação. São Paulo, 1972. Dissertação (Mestrado em História) Universidade de São Paulo (publicada em 1975 pela Editora Unidas de São Paulo).
[2] CABRAL, F. Um batalhão no Monte Castelo. São Paulo, 1982. Tese (Doutorado em História), Universidade de São Paulo.
[3] Este é a única pesquisa encontrada abordando alguns tópicos sobre a questão social da FEB. BARBOSA, João Felipe Sampaio. Regresso e desmobilização da FEB: problemas e consequências. (A Defesa Nacional, Rio de Janeiro. Ano 71, n. 719, mai./jun. 1985).
[4] NEVES, L. F. da S. A Força Expedicionária Brasileira: uma perspectiva histórica. Rio de Janeiro, 1992. Dissertação (Mestrado em História), Universidade Federal do Rio de Janeiro.
[5] SALUM, A. O. Zé Carioca vai à Guerra. São Paulo, 1996. Dissertação (Mestrado em História) Pontifícia Universidade Católica.
[6] RIBEIRO, P. da S. As batalhas da memória: uma história da memória dos ex-combatentes brasileiros. Niterói, 1999. Dissertação (Mestrado em História): Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Universidade Federal Fluminense.
[7] FERRAZ, Francisco César Alves. A guerra que não acabou: a reintegração social dos veteranos da Força Expedicionária Brasileira (1945-2000). Tese de doutorado. São Paulo, 2003. p. 5
[8] O doutor Dennison de Oliveira, além de coordenar grupos de pesquisa em torno da historiografia militar brasileira é autor de várias obras podendo ser citadas aqui “Os soldados alemães de Vargas” e “Os soldados brasileiros de Hitler”, dentre outra obras.
[9] FERRAZ, F. C. A. O Brasil na guerra: um estudo de memória escolar. Comunicação apresentada no IV Encontro Perspectiva do Ensino de História. Ouro Preto. Universidade Federal de Ouro Preto, 24 de abril de 2001. Anais da ANPOC.
[10] NASS, Sirlei de Fátima. Legião Paranaense do Expedicionário: indagações sobre a reintegração social dos febianos paranaenses (1943-1951). Dissertação – UFPR, 2005. p.17.
[11] OLIVEIRA, D. História e memória entre ex-combatentes: o caso da Força Expedicionária Brasileira (1943-2000).
[12] Idem.
[13] FERRAZ, F. C. A. A Guerra que não acabou…. op. cit. . p. 10
[14] Idem.
[15] NASS, Sirlei de Fátima. Legião Paranaense do Expedicionário…. op. cit. p.18
Aspirante Mega – A Morte de um Herói Brasileiro
Segue abaixo, texto enviado pelo Pesquisador Rigoberto Souza Júnior sobre a atuação e morte de umas das figuras lendárias do Exército Brasileiro e um Heróir Brasileiro de primeira grandeza.
Passados alguns anos da Campanha da FEB na Europa, em suas considerações o Coronel Raul da Costa Mattos, se questionava da real necessidade de se levar Aspirantes para o Teatro de Operações da Itália, pois se por um lado há afoiteza e impetuosidade do jovem, falta-lhe bom senso dos homens maduros. Quando o navio aportou em Nápoles, onde a crueza da guerra se mostrava com todas as suas cores, causando impacto no mais calejado militar, nos trazia a preocupação de pelo fato de não ter ido um contato mais próximo com os soldados, pois só na teoria estávamos preparados a comandar. O Aspirante, na carreira militar, vive a fase de transição, em que diante de casos práticos, só lhe vem à mente a teoria da difícil arte de comandar, e dentro desta ordem de ideias, o que dizer a um futuro Aspirante, para que lhe sirva numa contingência igual à vivida na 2ª Guerra Mundial.
A cidade de Montese, que no consenso do IV Corpo, foi a posição mais duramente atingida e bombardeada pelos alemães desde Monte Casino, foi o palco trágico da perda de uma vida preciosa: a o Aspirante Mega, carioca do Regimento Sampaio, sendo o único Aspirante a oficial tombado em combate, egresso da Escola Militar do Realengo, de onde havia saída há apenas três meses.
O alemão se alojou numa posição, num último esforço de barrar a arrancada da 10ª Divisão de Montanha – linha de frente do IV Corpo, e que a FEB deveria cobrir, atacando aquela pequena cidade que se postava ao lado da Divisão Americana. Esta ação coube ao regimento Tiradentes, que por sua vez, era coberto ao Norte pelo Batalhão Syzeno do Regimento Sampaio, que participou daquela sanguinolenta batalha, por três longas jornadas, e devido ao pesado número de baixas, ficou conhecida pelos que lá combateram como a “cidade da torre sinistra”.
O principal Herói desta Batalha foi o Aspirante Mega, que já fizera três lances vitoriosos por entre a fuzilaria, as minas e granadas, além do inferno imposto pela pesada artilharia do Exército Alemão. O ápice da luta se deu por volta das três da tarde de 14 de Abril de 1944, quando a cidade de Montese fumegava diante da artilharia da Força Expedicionária Brasileira, enquanto nossos infantes progrediam pelas encostas, repletas de casamatas, destruindo-as uma a uma.
Impulsionados pelo vigor do Aspirante Mega, o seu Pelotão rompia os campos minados rumo à cota 778, seguido pelo Pelotão Amorim(que ainda não havia sido ferido), que os apoiava com seus fogos, por ordem do Capitão Vargas , comandante da Companhia. Em sua empreitada, o Aspirante Mega se defronta com uma casamata alemã, detém-se por alguns momentos, preparando sua bazuca e dispõe sue Pelotão para o assalto final. Neste momento um estilhaço de granada o acerta em cheio. Tomba, tenta erguer-se e tomba novamente. Seus homens vacilam diante do Chefe ferido,
e ele percebendo, antes que o assalto não se iniciasse e seus homens fossem trucidados pelos alemães, ele chama seu o Sargento Agenor, que se aproxima com os olhos marejados, encarando-o serenamente, e ordena que assuma o comando, dizendo:
E apontando para o inimigo, o Aspirante Mega lançou seus bravos para frente, pedindo apenas um soldado para acompanhá-lo em suas orações. Ele morreu contemplando, heroico o último ataque que o Pelotão fazia sob seu comando.
A Associação Nacional dos Veteranos da FEB – Regional Pernambuco, tem orgulho de ter a efígie do Aspirante Mega, estampada em uma de suas medalhas, pois citando o Estadista e General Grego Péricles, do século V A.C. E grande artífice do apogeu da Grécia Antiga, berço da Arte Militar Ocidental.
“Os que morrem por seu País o servem mais num só dia, do que os demais em todas as suas vidas”.
Este post é dedicado a todos os amigos da Associação dos Oficiais da Reserva do Recife –AORE e a todos que compõem o corpo do Centro de Preparação dos Oficiais da Reserva –Recife.

Medalha Aspirante Mega - Associação Nacional dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira - Seccional Pernambuco
- Medalha Aspirante Mega – Associação Nacional dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira – Seccional Pernambuco
Fonte: Livro “Do terço Velho ao Sampaio da FEB” – Ten Cel Nelson Rodrigues de Carvalho – Bibliex – 1953
Livro: “A presença do Brasil na 2ª guerra Mundial” – Cel Raul Mattos Simões


































































































































